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Resenha (Edição nº 9)
"Religiões
afro-brasileiras em Santa Catarina: as estratégias
vitoriosas", por Rita
Amaral (*)
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Dados
do livro resenhado:
Nome do autor da obra: Cristiana Tramonte
Título da obra: Com a Bandeira de Oxalá
- Trajetórias, Práticas e Concepções
das Religiões Afro-Brasileiras na Grande Florianópolis
Editora: Diálogo Cultura e Comunicação,
UNIVALI (Universidade do Vale do Itajaí) e Lunardelli
Editora
Nº de páginas: 510 |
A
cultura religiosa afro-brasileira é, sem sombra de
dúvida, resistente e vitoriosa. E isso se deve a seu
caráter flexível, plástico, malicioso
no sentido que dão ao termo os praticantes da capoeira:
o da malícia como sabedoria intuitiva. A sabedoria
de intuir a hora certa de abaixar-se para desviar do golpe,
do jogo de cintura para se manter em pé e preparado
para o jogo ou para a luta. Marcadas pela dualidade à
qual Roberto Da Matta chamou de dilema brasileiro, elas escolhem
não escolher, gingando de um pé ao outro, num
sedutor equilíbrio que lhes permite desviar-se constantemente
da adversidade sem perder o cerne de sua identidade para entrar
nos territórios sociais, inserindo-se neles através
de múltiplas negociações simbólicas
e políticas. Mudando sem mudar. Como árvores
que, ao mudarem as folhas de acordo com as estações,
não perdem ou mudam suas raízes e continuam
oferecendo os mesmos frutos. Na Bahia, em Pernambuco, no Rio
de Janeiro, no Maranhão, em São Paulo, no Rio
de Janeiro, no Rio Grande do Sul, a estratégia se repete,
sempre vitoriosa. O novo livro de Cristiana Tramonte vem nos
mostrar mais: que mesmo em condições históricas
e sociais ainda mais adversas, como as de se manter viva e
vigorosa numa capital que traz a marca da colonização
por povos protestantes e católicos, a umbanda, os candomblés,
e uma denominação local, já resultante
do processo de fusão comum à cultura brasileira,
a alma-e-angola, foram capazes de se instalar, resistir às
pressões dos preconceitos e da intolerância e
ainda por cima crescer, expandindo-se dali para os países
ao redor e destes para o mundo.
Com a Bandeira de Oxalá, tese de doutoramento em Ciências
Humanas defendida pela autora junto ao Curso de Doutorado
Interdisciplinar em Ciências Humanas, na Universidade
Federal de Santa Catarina, pode ser considerado um marco nos
estudos das religiões afro-brasileiras por pelo menos
duas razões. A primeira delas, o ineditismo de um estudo
de tão amplas proporções - Tramonte realizou
quatro anos de pesquisa de campo - sobre estas religiões
na Grande Florianópolis, no estado de Santa Catarina.
Para compreendê-los desde dentro, percorreu aproximadamente
35 terreiros, assistindo neles ampla diversidade de rituais,
desde as giras de umbanda, em que são invocadas entidades
como os pretos-velhos, caboclos, até festas (Exu, Oxóssi,
Cosme e Damião, entre outras). A segunda é exatamente
seu caráter radicalmente interdisciplinar, fazendo
uso de fontes históricas, observação
etnográfica, entrevistas, bibliografia acadêmica
e nativa, utilizando instrumental de análise da educação,
da antropologia, da sociologia e da ciência política
(Tramonte é formada em Ciências Sociais pela
USP), além da psicologia social.
O resultado é um amplo e minucioso estudo diacrônico
(a primeira parte do livro traz a história das religiões
afro-brasileiras em Santa Catarina e, a segunda, a apresentação
das mesmas na configuração atual, separadas
por um belo caderno de fotos com 32 imagens) destes cultos
na Grande Florianópolis. Sua perspectiva investigativa
parte de meados do século XIX, quando prevaleciam cultos
desorganizados, professados individualmente por benzedores
e curandeiros, passando por uma fase heróica, de resistência
à opressão e repressão, seguida de uma
fase de crescimento no período em que o Brasil inteiro,
ao buscar sua identidade cultural, infalivelmente encontrou
as marcas das religiões africanas na música,
na culinária, no amor à vida e ao mistério,
como demonstram o sucesso de Martinho da Vila, de Clara Nunes
e de vários outros artistas que celebraram os orixás
em suas obras, justamente na década de 70 do século
XX, fase de afirmação, institucionalização
e visibilidade das religiões afro-brasileiras na capital
catarinense. E chega aos dias atuais, dias de cultos burocratizados
e de federações, mas também de autocrítica
dos mesmos, investigando cuidadosamente a história
e os rituais destas religiões de origem tribal, fortemente
marcadas pelas raízes africanas trazidas ao Brasil
pelos escravos, mas que se mantêm vivas nos terreiros
brasileiros, existindo pelo menos mil deles na região
da Grande Florianópolis.
Com Tramonte ficamos conhecendo também a riqueza e
a dinâmica da relação dos cultos afro-catarinenses
com a ecologia em Florianópolis, e como ela foi se
transformando e transformando o culto devido ao intenso processo
de urbanização da cidade. Ali, no começo
do século passado, os terreiros começaram a
surgir nas áreas continentais da cidade, principalmente
no bairro Estreito e nos morros onde até hoje, segundo
a pesquisadora, têm atividade intensa.
Com a bandeira branca da sensibilidade nas mãos, Cristiana
percorre tempos e espaços durante 510 páginas
(deve-se perdoar o excesso de subtítulos no texto em
nome do didatismo da autora, especialista em métodos
de ensino e que, como tal, sabe que pequenos bocados de informação
são mais facilmente digeríveis) de modo isento,
passando desse modo inclusive pelos conflitos, tantas vezes
escamoteados nos estudos sobre religiões, mas que ela
descreve e analisa. Sob seu olhar desfilam ainda exus, orixás,
caboclos, pais-de-santo, mães-de-santo, pretos-velhos,
atabaques, pontos, giras, congás, oferendas, festas,
políticos e políticas em suas particularidades
catarinenses, e a presença destes na mídia,
na vida cotidiana dos habitantes da cidade, enfim sob todos
os aspectos bricolados que fazem das religiões afro-brasileiras
o universo religioso mais parecido com o Brasil. Esse Brasil
afro-brasileiro ao qual Santa Catarina demonstra pertencer
definitivamente, neste livro. Quem não acreditar, que
leia o delicioso episódio da batalha dos orixás
numa certa partida de futebol entre Avaí e Figueirense.
Jorge Amado adoraria.
(*)
Dados do resenhista:
Nome: Rita Amaral
Profissão: Antropóloga (pós-doutora
em Antropologia pela Universidade de São Paulo)
Instituição: Núcleo de Antropologia
Urbana da USP
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