"A Fluidez da Forma: arte, alteridade e agência em uma sociedade
ameríndia (kaxinawa)",
por Izabel Missagia de Mattos
(*)
“Todo entendimento de uma
outra cultura
é um experimento com a nossa própria”
(WAGNER, 1981: 12).
“Os poderes fluidos e a fertilidade dos agentes ‘sobre-humanos’
devem ser controlados e fixados para produzir seres humanos”.
(LAGROU, 2007:30)
Dados
do livro:
Título: A fluidez da forma: arte, alteridade e
agência em uma sociedade ameríndia(kaxinawa)
Autora: Els Lagrou
Editora Topbooks
Número de Páginas: 566 |
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O belo livro de Els Lagrou navega sobre o mundo da arte Kaxinawa,
brindando o leitor com uma gama de materiais e reflexões originais que
transcendem, seguramente, a realidade local.
Ao longo de sua trajetória como
pesquisadora de temáticas relacionadas à antropologia da arte, das
imagens, dos objetos, das emoções, do xamanismo e das filosofias sociais
ameríndias, abordadas com maestria por meio da observação e análise da
experiência dos Kaxinawa, Lagrou – atualmente professora do Programa de
Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA), IFCS/UFRJ - também é
autora de diversos artigos publicados em revistas e livros no Brasil e
no exterior.
Leitura imprescindível para os
antropólogos que trabalham e refletem sobre a arte e seus elementos
materiais e imateriais, a obra demonstra o rendimento cognitivo da
forma, tanto para os Kaxinawá como para a antropologia da arte e
etnologia, na medida em que as imagens materializadas podem ser
encaradas como objetivações de relações. Com efeito, ao longo dos cinco
capítulos a autora se dedica à revisão das teorias antropológicas sobre
a arte e aos estudos etnológicos Kaxinawá por meio de uma etnografia
detida das imagens presentes nos objetos e no cotidiano indígena.
Pintura corporal, grafismo e a
estética da vida cotidiana - ilustrados com fotografias e desenhos da
própria autora - constituem elementos que se interconectam para uma
análise que dá sentido à forma e a identidade pessoal Kaxinawá.- povo de
língua Pano cuja população é estimada em torno de sete mil indivíduos
localizados em região de fronteira entre Brasil e Peru.
Discorrer sobre esse cuidadoso estudo,
resultado de pesquisas realizadas há pelo menos duas décadas, requer que
se exponha um conjunto das principais idéias nele desenvolvidas, ainda
que “o que vemos”, para parafrasear a escritora francesa Anais Nin
(1903-1977), não sejam apenas “as coisas como elas são” uma vez que
aparecerão aqui filtradas por “como nós somos”.
Que força humana ou sobre-humana teria
o poder de tornar fluida uma forma? Esta é, de fato, uma pergunta
pertinente a se fazer aos Kaxinawa, mas não somente - é o que somos
levados a pensar ao refletir sobre as complexas questões que este
trabalho nos inspira. A profundidade da abordagem alcançada nas análises
sobre a importância dos significados da arte no universo Kaxinawa acabam
por nos remeter, de fato, para comparações e possibilidades de
identidades e transformações em uma perspectiva bastante mais
abrangente.
Desenvolvido enquanto pesquisa de
doutoramento tanto na universidade escocesa de Saint Andrews quanto na
Universidade de São Paulo, o texto dialoga frequentemente com autores
como Joanna Overing e Cecilia McCallum, em uma perspectiva
fenomenológica que apresenta os Kaxinawá entre seus “corpos pensantes” e
imagens flutuantes, nos quais a identidade se relaciona à mimese e
alteridade. Com efeito, segundo McCallum - autora de pesquisas sobre
gênero e organização social Kaxinawa a partir de uma etnografia
realizada na mesma localidade pesquisada por Lagrou -, observa-se, entre
os Kaxinawa - como “o pensamento se encontra encorporado” e que “o
conhecimento não apenas mora no corpo, mas se concretiza por meio dele”.
Sendo assim, “as almas independentes desse corpo só podem surgir quando
o corpo está em repouso ou enfraquecido (McCallum, 1996)”.
Ora, é exatamente nesse interjogo
entre almas e corpo que a análise das formas dos objetos e imagens
Kaxinawa se assenta, na medida em que se fixam ou se transformam,
fluidas, representando extremo poder e perigo.
O primeiro capítulo, originalmente
publicado como artigo em 2003, insere-se em uma discussão mais
específica no âmbito da antropologia da arte[1].
O debate teórico com A. Gell (1998) sobre o poder da arte e da imagem de
agir sobre o mundo é contextualizado ao longo de todo o estudo, uma vez
que, segundo a autora, a fluidez da forma perceptível, para os Kaxinawa,
constitui a base de sua agência e de seu poder – noção que, por sua vez,
se articula à própria concepção de forma da pessoa, enquanto corpos
pensantes. Nos dizeres da própria autora: “trata-se de pensar, por um
lado, as relações corpos-pessoas e, por outro, aquelas entre
corpo-pessoa e mundo” (LAGROU, 2006).
Uma vez encarados, animicamente, os
objetos como pessoas, a proposta da autora se assenta na seguinte
relação: assim como as pessoas são inseparáveis de seus corpos e
pinturas - como já demonstravam Viveiros de Castro, Da Matta e A. Seeger
(1979), em uma proposta com altíssimo rendimento para a etnologia
sulamericana -, trata-se agora de demonstrar para os ameríndios como os
demais objetos (artefatos) também estariam relacionados ao universo
indígena e à pessoa.
A eficácia ritual do objeto artístico,
ou seja, aquilo que lhe confere poder, é um dos aspectos que a
antropologia da arte de A. Gell ressalta. Desta forma, “máscaras,
ídolos, banquinhos, pinturas, adornos plumários e pulseiras” podem ser
concebidos, segundo a autora, como projeção da socialidade sobre o mundo
envolvente (p.49).
Todas essas viagens sobre o universo
das imagens que atravessam corpos e poderes ganham sentido à luz da
interpretação da mesma qualidade relacional e fluida que caracteriza a
pessoalidade Kaxinawá, focada na luta pelo controle da forma, tal como
se depreende do estudo do discurso sobre doença, morte, xamanismo,
rituais, sempre atravessado pelo registro da estética.
Tendo em vista o background
fenomenológico de sua análise, um dos principais objetos de atenção da
autora seria o poder das imagens de criar e destruir as formas na vida
Kaxinawa.
Os seres não humanos Yuxibu,
definidos pela ausência de laços e raízes são responsáveis pela
constante troca de fluidos e afetos, mas constituem grande ameaça para
os Kaxinawá na medida que sua agência produz alterações nas formas nos
outros seres com os quais interagem, inclusive humanos. (p. 26).
Os Yuxin, por sua vez, não
possuem forma, mas puro desejo, a saber, o de se apossar de um corpo.
Mais do que de um corpo, eles parecem desejos de transformação, o que
representa extremo perigo por conduzir à mutilação das formas sólidas
dos corpos humanos (p. 28).
O desejo representado pelos Yuxin
constitui, no entanto, um perigo que estende a todas as socialidades,
uma vez que a coerência do universo simbólico é sempre frágil e
suscetível, devido a existência de desordens e violências nos corpos e
nas relações.
Para controlar o desejo e seu ímpeto
revolucionário e transformador em sua manifestação como Yuxin, as
técnicas Kaxinawa se esmeram: os desenhos e a cozinha são concebidas
pela autora, por exemplo, como técnicas femininas de fixação.
Com efeito, os desenhos nos corpos
delineiam e ordenam; a comensalidade, por sua vez, constitui uma
comunhão de corpos. No entanto, porque os corpos humanos continuam em
seus eternos ciclos de troca de matéria e força vital, os Kaxinawa não
logram vencer a batalha da fixação de fixidez.
Ainda que não constitua explicitamente
intenção da autora remeter algumas ressonâncias de suas interpretações
para além do universo indígena, tornou-se inevitável questionar
comparativamente outros processos identitários, a partir de algumas
categorias fundamentais para a cosmo-sociologia do povo enfocado, tais
como a fixidez e fluidez das formas, o poder do desejo e suas ameaças.
Ora, a vitória do desejo sobre a
“civilização” não parece um tema simplesmente Kaxinawa. Longe de almejar
uma leitura psicanalítica da obra em tela, torna-se irresistível não
aproximá-lo ao “mal-estar” que nos assola, por baixo da saudável e
confortável ordem social, se levarmos em conta as reflexões de S. Freud
a respeito do papel da civilização no controle das pulsões psíquicas
mais profundas e ancestrais.
Nos demais capítulos, respectivamente
intitulados: "Alteridade: a sedução do inimigo"; "Forma: os caminhos da
cobra e do Inka" e “Fabricando corpos pensantes: Nixpupima”, Lagrou
explora sua tese central por meio de uma etnografia detalhada da
cosmologia Kaxinawa, demonstrando, assim, que suas divisões ontológicas
seriam posicionais e temporais e que as diferenças não são situadas
nesse universo em termos de oposição, mas de grau. A autora seleciona
ainda mitos diversos que reforçam seu argumento de que as relações são
formadas e transformadas pelas forças (agências) da fixidez e da
fluidez, a saber, corpos, yuxin e yuxibu. Segundo a
autora, a questão da identidade e da alteridade pode ser concebida sob o
mesmo paradigma ontológico que divide o mundo em categorias relativas à
fixidez e à fluidez, já que o “inimigo” ou “estrangeiro” seria
considerado yuxin por seu desenraizamento e a ausência de uma
morada fixa.
As imagens e desenhos exercem, assim,
no universo pesquisado, o papel crucial de circunscrever o espaço e
mapear as relações. Enquanto que para os homens as viagens xamânicas
enquadram-se por meio de desenhos e molduras; para as mulheres, a tarefa
de fixar formas é realizada nos desenhos dos artefatos e dos corpos.
[1]
Trata-se do artigo “Antropologia e
Arte: uma relação de amor e ódio”, Ilha. Revista de Antropologia,
PPGAS/ UFSC, pp.93-113.
Referências bibliográficas
DA MATTA, R., SEEGER, A., VIVEIROS DE CASTRO, E. 1979 "A construção da
pessoa nas sociedades indígenas brasileiras". Boletim do Museu
Nacional.
GELL, Alfred 1988 Art and Agency: an Anthropological Theory,
Oxford, Oxford University Press.
LAGROU, Els. Rir do poder e o poder do riso nas narrativas e
performances Kaxinawa. Rev. Antropol. vol.49 no.1 São Paulo Jan./June
2006, pp. 55-90.
MCCALLUM, C. 1996. “The Body that Knows: From Cashinahua Epistemology to
a Medical Anthropology of Lowland South America”, Medical
Anthropology Quarterly, 10(3): 347-72.
WAGNER, Roy. 1981. The Invention of Culture . Chicago & London: The
University of Chicago Press.
(*)
Izabel Missagia de Mattos é Professora Adjunta do Mestrado em
Antropologia Social. UFG.
Atualizado em 23/11/09