"Leituras sobre música popular. Reflexões sobre sonoridades e cultura",
por Elizabeth Travassos
(*)
Dados
do livro:
Título do livro: Leituras sobre música popular.
Reflexões sobre sonoridades e cultura.
Organizadores: Emerson Giumbelli., Julio Diniz. E
Santuza Naves.
Editora: 7Letras.
Número de páginas: 420 |
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Vinte e quatro artigos agrupados seis
a seis em quatro blocos temáticos integram a coletânea Leituras sobre
música popular. Os organizadores Santuza Naves, Emerson Giumbelli e
Júlio Diniz fazem breves apresentações dos três primeiros blocos,
intitulados, respectivamente, “Música e fronteiras do nacional”,
“Recepção e sociabilidades juvenis”, “Literatura em translação”. O
quarto, “Autenticidade e mediação”, é introduzido por José Reginaldo
Gonçalves.
Dos vinte e quatro artigos, treze têm
origem em dissertações e teses defendidas no Programa de Pós-graduação
em Sociologia e Antropologia da UFRJ, nove no Departamento de Letras da
PUC/RJ e dois no de História Social da Cultura da mesma universidade.
Juntos, compõem um painel das pesquisas recentes sobre música popular
nessas pós-graduações cariocas, um mosaico de tópicos – nação, Nordeste,
subjetividade, amor, gênero, dança, mudanças em padrões de gosto, entre
tantos outros – suscitados por gêneros, movimentos e artistas – bossa
nova, caipira, funk, gospel, metal, MPB, Tropicália, Mangue, Armorial,
Chico Buarque, Caetano Veloso, Dorival Caymmi, Farofa Carioca, Jorge
Ben, Legião Urbana, Luiz Gonzaga, O Rappa, Tom Jobim... O livro
testemunha não só a sedução que a música popular exerce sobre os
pesquisadores, no Brasil – fato antigo que já foi várias vezes
assinalado –, mas sua provável estabilização como eixo temático na
antropologia, nos estudos literários e na história.
A efervescência assinalada pelos
organizadores (p. 9) revela um salutar esvaziamento da crença segundo a
qual só poderia falar de música com propriedade quem manejasse
determinado vocabulário técnico e os sistemas convencionais de
representação gráfica dos sons (em pentagrama e/ou cifras). Por seu
etnocentrismo (e, às vezes, grafocentrismo), essa deixou de ser
considerada condição sine qua non do tratamento dos fatos
musicais, abrindo caminho para a exegese dos vocabulários ‘nativos’ (muito
potentes e reveladores), para etnografias dos mundos artísticos e para
interpretações de textos e discursos compreendidos de modo amplo,
incluindo portanto os sonoro-musicais. No âmbito das Letras, como
salienta Júlio Diniz, foi necessário também ‘descer’ dos monumentos da
alta cultura para tratar como objeto legítimo a canção popular, processo
que coincide com a “crise de visibilidade e representatividade dos
estudos literários tradicionais” (p. 213). O percurso parece semelhante
ao da autodenominada “musicologia cultural” ou “nova musicologia”, que
questiona a constituição da disciplina em torno da música escrita e do
cânone Ocidental, enquanto crescem, paralelamente, os estudos de música
popular. Todos parecem concordar, enfim, que seria empobrecedor fazer
uma partilha simples, que atribuiria aos antropólogos e historiadores o
estudo das formas e processos sociais, aos musicólogos o estudo das
formas sonoras, aos estudiosos de literatura o das letras de música. A
recusa da divisão de trabalho mais óbvia é uma conquista, porém ela
torna as tarefas mais complicadas para qualquer das áreas.
Todo este preâmbulo é para dizer que a
facilidade com que se lêem os vinte e quatro artigos não deve fazer
pensar que os temas ligados à música popular são fáceis. Ao contrário,
exigem do pesquisador frequentar bibliografias de diversas áreas de
estudo para nelas buscar instrumentos de análise adequados e descobrir
ângulos originais de aproximação. É o que fazem os autores de
Leituras sobre música popular.
A tarefa dos resenhadores também não é
das mais fáceis, pois nenhum comentário geral do livro faz jus ao
conteúdo particular de cada artigo da coletânea. Na impossibilidade de
avaliar um a um, faço a seguir algumas observações sobre aspectos que
mais me chamaram a atenção e que aparecem ora em mais de um artigo, ora
apenas em um deles. Os blocos temáticos separados pelos organizadores
foram um bom guia de leitura.
Tanto o “nacional” quanto a
“autenticidade” – dois pilares dos discursos sobre música no Brasil –
são postos em questão em algumas das “cenas” musicais que, ao se
multiplicarem, fragmentaram o cenário (que supúnhamos) unificado sob a
égide da prestigiada MPB. Muitas dessas cenas são tratadas no segundo
bloco temático, sobre as “sociabilidades juvenis”. A atualidade da
ideologia que preconiza a representação sônica da nação é discutida nos
artigos que se servem de estratégias comparativas: entre as viagens de
mapeamento musical da Missão de Pesquisas Folclóricas (1938) e do
antropólogo Hermano Vianna (anos 1990), entre a MPB dos anos 1960 e o
Chico Buarque do recente CD Carioca, entre o Nordeste cantado por
Luiz Gonzata e por Caetano Veloso. Roberto Marques, em “Eram os
tropicalistas nordestinos?”, destaca as imagens da distância e do
deslocamento na constituição do Nordeste como ‘outro’ da nação. Lembra o
autor, aliás, a ambiguidade da análise que, ao desvendar o funcionamento
da fábrica de imagens, não deixa de, eventualmente, reiterá-las.
“Eis-nos nós aqui também, reféns da linguagem que nos antecede e que,
através de nós, se atualiza” (p. 66).
O artigo de Anna Paula de Oliveira
aborda a proclamação do samba como patrimônio imaterial da humanidade,
pela UNESCO. O então Ministro da Cultura, Gilberto Gil, lançou a ideia
da candidatura do samba, e a controvérsia desencadada pela proposta
resolveu-se – por assim dizer – no registro do samba-de-roda do
Recôncavo Baiano (como “patrimônio nacional”), condição prévia à
proclamação como “obra-prima da humanidade”. Saíram vitoriosos os
critérios de pureza, raiz, autenticidade, conclui a autora. Não resta
dúvida que tornar formas de expressão (como música e língua) “bens”
patrimoniais é um mecanismo bastante discutível de protegê-las. Porém,
mais importante que essa constatação parece ser o posicionamento da
autora contra os discursos da pureza e autenticidade: ela encerra seu
artigo com um libelo a favor das “profanações” e “colagens”, em nome da
pluralidade. Citado por Santuza Naves na sua apresentação (que leva o
título “Mário de Andrade vive?”), faz as vezes de diapasão dessa parte
do livro. Pergunto-me se aí não residirá um impasse do modo de pensar
que opõe tradicionais e modernizadores, puros e impuros – ou, ainda,
“velhos legitimistas” e “neopopulistas de mercado” (Sarlo, 1997) –, e
que se perpetua a despeito da fúria dos sons do mundo: a diferença entre
colagens e profanações ostentadas, que fazem parte de um programa
estético e político, e outras, implícitas e inconscientes, não é levada
em consideração. (Quantas colagens ocorreram e ocorrem ainda hoje no
samba-de-roda do Recôncavo?) E os pesquisadores acabam por reafirmar
como particular e mesmo emblemático aquilo que é, de fato, corriqueiro (Velho,
1995). Além disso, ao inverterem-se os sinais, colagens e profanações
podem instituir-se como as novas formas autênticas. Não se trata de
concordar ou discordar da posição dos autores, mas de discutir se e como
ela enviesa as análises. O tema volta no artigo de Leinimar Alves Pires
que, tendo Chico Buarque como mote, defende a legitimidade das
transformações do samba e critica a posição “preservacionista” que
valoriza a fidelidade às supostas origens.
O artigo de Frederico Coelho atenta
para a explosão que pulverizou a música popular em muitas cenas (ou
talvez tornou visível o que já se desenrolava fora do alcance dos
ouvidos dos pesquisadores), mais ou menos restritas em termos de adesões,
mais ou menos integradas aos circuitos comerciais, com ou sem discos
gravados. Alta rotatividade das bandas, crítica jornalística breve ou
inexistente, a Internet como canal de contato entre músicos e públicos
caracterizam as cenas. Mas esse quadro é apreendido, curiosamente, pelos
jornais e revistas, a partir da oposição entre Zona Sul e Zona Norte do
Rio de Janeiro.
O artigo é uma transição para o
segundo bloco, todo ele fruto de etnografias em mundos artísticos, a
maioria deles ligados aos congêneres transnacionais, ainda que assumam
feições bastante particulares nos lugares em que enraizam (funk, música
eletrônica, gospel, hip hop, metal). Os artigos trazem à baila duas
questões recorrentes nos estudos de música popular, a saber, a
coagulação de estilos de vida em torno de gêneros musicais, e a
transfiguração de experiências em canções, ilustrada pelo caso dos fãs
do “Legião Urbana”.
O poder das canções nos conduz ao
terceiro bloco, “Música e textualidades”. Paulo Costa e Silva contrasta
canções de Tom Jobim com as dos anos 1940/50, observando especificamente
como o sujeito romântico muda paralelamente ao modo de vida e papéis
sociais femininos. Stella Caymmi examina a recepção da música de Dorival
Caymmi para revelar as condições que permitiram sua incorporação entre
os ancestrais da bossa nova. Alvaro Néder pergunta quem é o sujeito da
MPB nos anos 1960. Esse aglomerado de gêneros em que convivem protesto
político, nacionalismo, regionalismo, informações oriundas da bossa nova
e da música erudita, essa “peculiar mistura”, diz o autor, permitiu aos
“sujeitos transitar entre diferentes modelos identitários e ocupar
múltiplas posições” (p. 274), o que ajudaria a explicar seu impacto na
cultura.
No último bloco, Júlio Naves e Elizete
Ignácio, a partir do rock nacional e da música caipira, mostram outras
dimensões da autenticidade, um valor diversamente elaborado, em cada
caso, mas bem estabelecido entre músicos e seus públicos. Luzimar Paulo
Pereira quis mais do que recontar as histórias de pacto de violeiros com
o diabo, e foi ao Norte e Noroeste mineiro em busca dos Faustos nativos,
cuja perícia no instrumento foi obtida no contrato terrível. Encontrou,
na noção de fama, uma pista para entender as histórias, sempre
reproduzidas por terceiros e negadas pelos protagonistas, daqueles que
se aliam ao diabo, cedendo ao impulso anti-social da vaidade. Sua alma é
roubada, efetivamente, pela boca do povo, para a qual serão sempre
pactários de má-fama. Quem se interessa pelo tema não pode deixar de ler
o artigo. Seria interessante confrontar a análise com outros cenários
etnográficos, verificando, por exemplo, se ela é adequada ao caso dos
cantadores que, ao contrário dos discretos violeiros, se gabam de ter
cantado em desafio com o diabo. Ainda no mesmo bloco, Frederico Barros
analisa as especificidades da representação da cultura e música
nacionais pelo Movimento Armorial, a partir do comentário dos Cds e,
mais especificamente, das obras de Antônio Madureira. A representação,
conclui o autor, é sempre uma “escolha discricionária de elementos” – ou
seja, tudo aquilo que Mário de Andrade (1972, p.16) queria
desesperadamente evitar – orientada pelo desejo, nesse caso, de recuar
ao barroco ibérico enquistado no sertão.
Para encerrar a resenha, reservo uma
observação sobre o ótimo artigo de Tatiana Bacal, “Produzindo
sonoridades: a ambiguidade de uma categoria ou a destruição do nome”,
que oferece matéria para muita discussão. A autora quer apreender as
marcas de uma sensibilidade contemporânea, os novos modos de construir
objetos sonoros e de orientar-se nos mundos sônicos, que já não podem
ser confortavelmente delimitados pelas categorias ‘música’, ‘músico’,
‘compositor’, ‘artesanato musical’ etc. Talvez uma era de “autoprodução”
que força as fronteiras entre música, ruído e fala, entre compositor,
intérprete, técnico de som. Tal reorganização, se consumada, instalaria,
na melhor das hipóteses, a utópica era da “composição” (Attali, 1977).
Já não é a estratificação entre erudito e popular que falece, sob a
força do mercado. Pula dos bastidores para a cena a manipulação de sons
produzidos por instrumentos eletrônicos; as atividades artesanais da
escrita musical e da performance em instrumentos acústicos e
acústico-elétricos concorrem com outras que, há pouco, eram consideradas
“técnicas”. Nessa dança das categorias, e na reconfiguração do mercado
de produtos musicais, “música” perde a antiga autoevidência; tentando
afinar nosso discurso, falamos em “som” e “sonoridades” (tal como no
título do artigo e no subtítulo da coletânea). Enquanto não temos
certeza do alcance desses rearranjos, muito menos de seu desfecho
temporário, continuamos saciando nossa curiososidade de fãs,
autoprodutores ou velhos diletantes em obras como Leituras sobre
música popular.
Referências bibliográficas
ANDRADE, Mário de. Ensaio sobre a música brasileira. São Paulo:
Martins, 1972.
ATTALI, Jacques. Bruits.Une économie politique de la musique.
Paris: Presses Universitaires de France, 1977.
SARLO, Beatriz. Cenas da vida pós-moderna: intelectuais, arte e
vídeo-cultura na Argentina. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997.
VELHO, Otávio. Novas perspectivas: globalização. Besta-fera:
Recriação do mundo. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1995, p. 221-29.
(*)
Elizabeth Travassos é Professora Associada do Centro de Letras e
Artes – UNIRIO e Pesquisadora do CNPq.
Atualizado em 23/06/09