"'A invenção da Argentina', História de uma ideia",
por Javier Lifschitz
(*)
Dados do livro:
Título do livro: A invenção da Argentina – História
de uma ideia
Autor: Nicolas Shumway
Tradução: Sergio Bath e Mario Higa
Editora: Edusp/ UNB – Coleção Ensaios Latino-Americanos
Número de Páginas: 408 |
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“A invenção da Argentina” de Nicolas
Shumway incorpora-se à longa tradição de estudos americanistas sobre a
Argentina, país que sempre exerceu atração sobre pesquisadores
americanos, seja por seus enigmas econômicos (no lapso de um século ele
passa da condição de potência agrícola mundial à situação de “economia
de risco”) ou político-culturais (os sucessivos renascimentos do
peronismo e os recorrentes golpes militares). O autor, diretor do Centro
de Estudos Latino-americanos da Universidade do Texas, realiza um estudo
histórico sobre a fundação simbólica do país durante o século XIX,
demarcando as matrizes ideológicas que participaram e participam dessa
construção que começa com um paradoxo: os conquistadores espanhóis
chamaram de Argentina ao atual território por acreditarem que achariam
grandes quantidades de prata (argentum) mineral que, aliás, era
quase inexistente nesse fragmento territorial da colônia. Entretanto, a
rica potencialidade agrícola dos Pampas somente passou a ser explorada
pelos espanhóis depois de três séculos de colonização. Com base no
conceito de “ficções-diretrizes”, aliás pouco explorado em relação aos
seus alcances teóricos e metodológicos, Shumway se propõe a reconstruir
as narrativas dos principais personagens intelectuais e políticos da
Argentina como Estado–Nação. O livro conta com dez capítulos e cada um
deles está voltado para a análise discursiva das principais figuras
políticas da história argentina. Após um capítulo introdutório, o
segundo é dedicado a Mariano Moreno, considerado pelo autor como o
“primeiro pensador importante da identidade argentina”. De pai espanhol
e mãe criolla, Moreno estudou nas principais Universidades do
Virreinato do Rio da Prata, onde adquiriu um notável conhecimento de
autores iluministas. Formado em advocacia, foi um dos únicos criollos
que participaram da junta espanhola antes dos eventos de 25 de Maio de
1810, quando Buenos Aires se declarou independente do governo da Espanha.
Ele logo participou da Primeira Junta do governo da Independência,
mas manteve posições ambíguas com relação ao processo de independência.
Corroborando a visão do próprio Moreno, o autor observa que a
Independência resultou em grande parte de acontecimentos na metrópole e
não de um movimento de autonomia das colônias (tese discutida por
autores revisionistas do século XX): o rei Carlos IV manda
prender seu filho, Fernando VII, acusado de conspiração enquanto a
população invade o palácio em seu apoio. Ante o conflito, o rei pede
apoio a Napoleão Bonaparte que aproveita a oportunidade para nomear seu
irmão novo imperador da Espanha. As autoridades da Espanha formam um
governo no exílio, o que incentiva os movimentos revolucionários nas
colônias, como o da Argentina de 1810, que deu lugar ao primeiro órgão
de governo argentino independente da Espanha, mas que permaneceu leal a
Fernando VII. Defensor da causa portenha, Moreno redige numerosas
obras polêmicas, consideradas pelo autor como ficções na construção da
identidade nacional, onde prevalecem a defesa do liberalismo econômico (que
beneficiava a Buenos Aires em detrimento do interior) e a justificativa
da violência política contra os “inimigos” da ordem.
O terceiro capítulo, denominado
“populismo, federalismo e o gauchesco”, trata de José Artigas, caudilho
uruguaio que articulou nessa região e no Litoral da Argentina um
movimento político e de ideias em defesa do federalismo e da democracia
radical resistindo às pressões de Buenos Aires. No contexto
pós-independência, enquanto San Martin chefiava as tropas contra o
exército espanhol e as forças rebeldes, os unitários portenhos (que
junto com os federais foram os dois partidos que emergiram no país)
iniciaram uma longa campanha política e militar contra os federais
representados por Artigas e outros caudilhos do litoral. Neste capitulo,
o autor apresenta um panorama sobre estes conflitos e as condições de
emergência de um discurso “populista“ e democrático que reivindicava a
inclusão política e econômica dos mestiços, africanos e indígenas e a
distribuição de terras entre os mais pobres.
O quarto capítulo está centrado na
figura de Bernardino Rivadavia, representante de vários governos
argentinos na Europa depois da independência, presidente e líder de uma
geração política que durante a década de 1820 promoveu amplas reformas
administrativas, políticas e culturais que levaram os historiadores
liberais a denominar eesse período de “Feliz Experiência”. Durante este
período de prosperidade econômica, pacificação interna e externa e de
formação de uma oligarquia que associava os interesses latifundiários e
comerciais, se consolida, segundo o autor, a ficção diretriz de imitar a
cultura européia para fazer avançar o processo civilizatorio nativo.
Fundador de diversas instituições de ensino e de cultura, como a
Universidade de Buenos Aires, o Colégio de Ciências Morais, a escola de
Medicina, o teatro Nacional, a Sociedade Literária e outras instituições
da cultura, sua ficção foi “civilizar os pampas”.
Os capítulos cinco e seis têm como
titulo “A geração de 1837”, em alusão a um grupo literário argentino que
tinha como modelo as jovens sociedades revolucionárias que despontavam
na Europa. Reivindicando o espírito independentista de 1810, proclamavam
ser necessário produzir idéias para uma Nova Argentina mediante a
aplicação da ciência no campo social, conforme a influência de
pensadores franceses como Saint-Simon. Uma das narrativas analisadas
pelo autor é o livro “As Bases”, de Juan Bautista Alberdi, um dos
principais representantes desta geração, obra que foi fonte de
inspiração para a elaboração do Código Civil Argentino e da Constituição
de 1853. A maioria dos escritores e políticos do grupo escreveram suas
obras mais importantes no exílio, como Domingo Faustino Sarmiento que
teve forte preeminência na política Argentina do século XIX. Presidente,
embaixador e ministro em diversas oportunidades é conhecido como um dos
precursores da educação publica na Argentina e autor de livros polêmicos
contra os caudilhos e o atraso do interior, como Civilização e
Barbárie em que vangloria a civilização americana e européia (com
exceção da Espanha, vista como um país atrasado).
O capítulo sete está centrado na
figura de Rosas. Governador de Buenos Aires na década de 1830 é um
personagem muito controverso na historiografia argentina, pois
representa a antítese do caudilho que pertencente à oligarquia
latifundiária governou Buenos Aires com apoio dos pobres da cidade e os
gauchos do campo. Imbuído de “poderes extraordinários, restringiu
a liberdade de imprensa, negligenciou a educação, apoiou o clero
conservador e fortaleceu o exército, revelando o lado antipopular do
federalismo argentino baseado em uma noção aristocrática de autoridade e
privilégio”.
O capítulo oito está dedicado a
Bartolomeu Mitre, autor da versão oficial da história argentina, que
consta nos livros escolares. General, político e historiador, defendeu
os privilégios de Buenos Aires. Lutou contra Rosas e foi um dos líderes,
em aliança com o Brasil, na Guerra contra o Paraguai.
Os capítulos finais sintetizam a ideia de que a Argentina, mais do que
um termo de consenso, resultou do entrecruzamento de duas grandes
ficções-diretrizes expressas por essas figuras emblemáticas e que remete
a uma fronteira física e ideológica crucial na história argentina: a que
separa Buenos Aires do interior. No fim do século XVIII Buenos Aires
passa a ser um importante centro comercial que assume progressivamente
um ethos europeu frente ao “atraso” do interior.
Esta oposição, que se projeta no plano
político, econômico e cultural é lida pelo autor através destes
personagens da história política e literária argentina identificando, em
um notável enredo de análises literária e historiográfica, a ficção
“centralista, liberal e elitista” de Buenos Aires e a ficção
“federalista, populista e nacionalista” do “interior”. Assim, Mariano
Moreno será um dos demiurgos da ficção liberal do ‘livre comércio’ e da
defesa dos ‘homens ilustrados’ como guias da nação, ficções que por já
estarem presentes no pensamento social europeu colocam em dúvida
precisamente o elemento “nativo” atribuído às ficções. Junto a Moreno, o
autor inclui nesta ficção diretriz outros representantes do liberalismo,
como Rivadavia, com seus esforços para tornar a Argentina uma “vitrine
da cultura européia” e Sarmiento, que sintetizou a oposição entre Buenos
Aires e o interior no axioma “civilização ou barbárie”, preanunciando os
debates do início do século XIX sobre a necessidade de alterar a
constituição da estrutura étnica do país mediante a imigração européia.
A outra matriz, que irrompe contra o
centralismo de Buenos Aires, se articula a partir das narrativas de
outros líderes independentistas como Saavedra e os representantes do
“nacionalismo do século XIX”, que irão reivindicar o federalismo, a
figura dos caudilhos do interior e a cultura popular, tanto em sua
vertente conservadora e de raiz hispânica, como na vertente indígena e
anti-oligárquica. É o caso de Artigas e Hidalgo, que valorizam o
gaucho como representante de valores nacionais “autênticos”.
O livro apresenta uma reorganização,
bastante exaustiva, da literatura existente sobre o tema e constitui uma
referência importante para as pessoas interessadas tanto em estudos
sobre cultura e política na Argentina, como nas raízes ideológicas da
idéia de nacionalidade. O autor, parte da premissa que a nação não
precedeu historicamente ao Estado, já que a própria idéia de Argentina
foi construída posteriormente ao processo de independência. Portanto, a
nação é conseqüência do Estado e, particularmente, efeito simbólico de
narrativas que emergiram dentro desse domínio. Neste sentido, o estudo
se insere em uma perspectiva construcionista que entende a nação
não como um conjunto de fatos objetivos compartilhados (uma língua em
comum, tradições de origem, etc.) mas como uma construção simbólica
ancorada em “tradições inventadas” (Hobsbawn) ou imaginadas (Benedict).
Desta perspectiva, a idéia de nação é desubstancializada e a análise
recai na desconstrução destes processos simbólicos como sugere o próprio
titulo do livro: “A invenção da Argentina”.
Sem dúvida, esta visão construtivista/desconstrutivista
dos estudos históricos é um passo importante em relação ao essencialismo
presente inclusive nas abordagens revisionistas. Entretanto, deixa sem
explicar porque algumas dessas ficções tornaram-se bem sucedidas e
outras fracassaram . O que está ausente da análise são as condições de
recepção destes discursos pelos grupos sociais que permitiria explicar
porque alguns se tornaram eficazes e outros não. Gera-se assim um hiato
entre a produção e a recepção de ficções e dá lugar ao entendimento da
ficção diretriz como mera estratégia de “manipulação”.
Uma teoria que pretenda explicar a
construção da identidade nacional deveria também poder explicar os
motivos de seus fracassos, o que implica em analisar as produções de
sentido “desde baixo”, como vem fazendo a etnohistória. A
Argentina não é somente o efeito discursivo operado por figuras
emblemáticas da história, é também uma construção simbólica de
experiências de sujeitos anônimos que imprimem marcas à trajetória da
nação: as ações das mães da Praça de Maio, por exemplo, não são menos
importantes que os discursos do último Governo Militar para a
compreensão da Argentina atual.
Outra questão para o debate é a
concepção de ficção-diretriz aplicada à longa duração. Em diversos
momentos, o autor estabelece continuidades entre ficções do passado e do
presente, como entre o nacionalismo de outrora e o populismo de hoje ou
entre o discurso extremista de Moreno em 1810 e o da Ditadura militar de
1976, sem estabelecer nexos históricos que permitam compreender as
transformações de sentido atribuídas a categorias políticas tais como
liberalismo, populismo, extremismo, entre outras ao longo da história
argentina. A cultura de uma época pode transformar significados até
torná-los contrários a seu sentido original e um mesmo significante pode
ter usos antagônicos. Basta pensar nas múltiplas ressonâncias do termo
Peronismo. A nação é um todo diverso e desigual e as experiências também
são vividas de modo diferente e desigual. Entretanto, apesar disso,
continuam sendo nações. Como então se processa essa unidade?. Como essa
duas grandes ficções diretrizes analisadas pelo autor convivem nas
representações de uma mesma nação? Quais são as condições econômicas,
políticas e culturais que permitem entender esse destino? Esses são
alguns pontos que podem ser explorados a partir do trabalho de Shumway.
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Javier
Lifschitz é Professor Adjunto do Departamento de Filosofia e
Ciências Sociais - DFCS/CCH da Universidade Federal do Estado do Rio de
Janeiro - UNIRIO.
Atualizado em
08/05/09