"Do Dom à Profissão",
por Marcus Vinícius Carvalho Garcia
(*)
Dados
do livro:
Título: Do dom à profissão. A formação de
futebolistas no Brasil e na França
Autor: Arlei Sander Damo
Editora: Aderaldo & Rothschild. Ed. Anpocs.
Número de Páginas: 360 |
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“Do dom à profissão” é baseado na tese
de doutorado em antropologia social defendida por Arlei Sander Damo em
2005 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O estudo foi premiado
em concurso de teses tanto pela Capes quanto pela Anpocs, que subsidiou
a presente publicação. Abordando uma temática cada vez mais relevante
nas ciências sociais, o autor investiga o mundo do futebol-espetáculo.
Observa, analisa e traduz o fenômeno futebol a partir de etnografia
focada nos chamados centros de formação de atletas. Essas instituições,
normalmente ligadas aos clubes profissionais, são responsáveis pela
produção de jogadores para o mercado futebolista: o mercado de “pés-de-obra”.
Foi realizada pesquisa comparativa entre o centro de formação do
Internacional, de Porto Alegre/RS, e o do Olympique, de Marselha/França.
Assim como observações junto a outras instituições, como o centro de
formação do Athletic Bilbao (País Basco/Espanha), a empresa Talento S/A,
localizada na Grande Porto Alegre/RS, e várzeas e becos onde o futebol é
praticado sem intuito profissional. Porém este estudo transcende a
circunscrição do objeto central proposto, pois apresenta reflexão
refinada sobre os bastidores do negócio futebol e os contornos
sócio-econômicos e culturais deste esporte no contexto da globalização.
A formação em série dos atletas
profissionais operada por instituições especializadas nesse elo da
cadeia produtiva do futebol-espetáculo é um fenômeno relativamente
recente na história do esporte. É este o eixo analítico do estudo e de
onde partem as linhas que orientam o desvendamento de outras dimensões
do mundo do futebol, como: a variedade de práticas futebolísticas; os
meandros da espetacularização; a mercadorização de jogadores; as
representações sobre o futebol entre jovens de classes sociais
distintas; as relações de gênero e o estatuto da masculinidade. Esse rol
de aspectos intrínsecos ao esporte gera o que o autor denominou “clubismo”,
que para ele configura uma espécie de totemismo moderno. Já que este é a
força motriz do futebol de espetáculo, dado que se trata de um fenômeno
que conforma as comunidades de pertencimento e de afetividade às
agremiações esportivas (p. 50-51).
Como exposto na introdução, Arlei Damo
“procura explicitar a trama simbólica que constitui o poder de sedução
da profissão, bem como as redes de agenciamento que se beneficiam, dada
a oferta abundante de dons/talentos e praticamente nenhuma vigilância
estatal da exploração desse mercado de trabalho e de pessoas” (p. 24).
Considerando-se, pois, que o processo de formação de futebolistas “é uma
etapa que sucede a aquisição das técnicas elementares, não raro
realizada à margem das instituições clubísticas, e antecede o exercício
da profissão propriamente dita” (p. 22). Seria então esta fase na vida
do aspirante a futebolista – se ensaiássemos uma metáfora inspirada no
“Processo Ritual” de Victor Turner -- uma espécie de liminaridade, cujo
sucesso ou fracasso depende de uma série de fatores como adaptabilidade
a situações de sobre-esforço, cobrança/ausência familiar, solidão,
abandono da escola, competição acirrada, invisibilidade, contusões e
desencantos.
Fatores estes que são todos
tangenciados por questionamentos e juízos de valor acerca das aptidões
técnicas, físicas e comportamentais suficientes para o reconhecimento
profissional de um jovem promissor. Tanto para aqueles garotos
considerados talentos natos – dotados de dom, sugerindo-se uma
capacidade diferenciada, que já vem pronta com eles, mas que precisa ser
lapidada –, como para os que se dedicam a desenvolver, via esforço e
abnegação, as competências necessárias para obter êxito. O autor é
categórico em afirmar que atualmente não surgem jogadores profissionais
fora dos centros de formação. É a passagem por estas instituições totais
que insere os jovens atletas no mundo do futebol profissional. Nos
centros atua silenciosamente uma constelação de sujeitos – técnicos,
olheiros, representantes de clubes, empresários e jornalistas – capazes
de realizar a ponte entre os jovens futebolistas sonhadores e o mundo
real da profissão.
Arlei Damo distingue três modelos – ou
tipos ideais -- de formação/produção de futebolistas: a produção
endógena, a exógena e a híbrida. No modelo endógeno o clube
investe na formação de jogadores para suprir as próprias demandas por
pés-de-obra. É utilizada para baratear os custos de produção, bem como
para atender às demandas de torcedores e associados desejosos de possuir
atletas vinculados a uma instituição desde tenra idade. O exemplo do
Athletic de Bilbao (País Basco/Espanha) é o mais extremo, pois o clube é
o representante da comunidade basca no certame nacional e por isso
emprega somente atletas locais, como forma de demarcação de um orgulho
étnico. Já o modelo exógeno é aquele em que a instituição é
especializada na produção de atletas para o mercado clubístico. Exemplo
desse modelo é a empresa Talento/SA, de Porto Alegre. O modelo de
produção híbrida é o praticado pela maioria dos principais clubes
brasileiros -- como o Internacional de Porto Alegre/RS --, pois tanto
formam os “prata-da-casa”, quanto negociam atletas nos mercados
nacionais e internacionais do futebol.
O nível de competitividade e de
estresse exigidos dos talentos precoces dentro dessas instituições, em
relação às reduzidas possibilidades de ascensão, faz do futebol uma das
profissões mais exigentes e excludentes – e talvez frustrantes -- da
sociedade brasileira. Isso contradiz, de certo modo, a crença do senso
comum de que o país é um celeiro de craques. Se for, trata-se de um
celeiro que não consegue absorver suficientemente a oferta de atletas,
já que os postos de atuação se resumem a poucos clubes profissionais,
sendo que a mínima parte destes oferece condições de suprir os desejos
de glória e glamour evidenciados pelos meios de comunicação de massa.
Mesmo para o caso de atletas que vão atuar no exterior, onde o mercado é
ainda mais acirrado, pois a minoria destes chega aos clubes de ponta.
Não é só a competência técnica dos jogadores brasileiros que os torna
cobiçados nos mercados futebolísticos da Europa, Ásia e, mais
recentemente, do Oriente Médio – centros cada vez mais atentos à
contratação de jovens atletas –, mas sim a expressiva oferta de
pés-de-obras associada ao baixo valor de seus contratos.
Acrescenta-se ainda o fato de que boa
parte dos aspirantes a profissionais provém das camadas populares, onde
o sonho de ascensão por meio do futebol ocupa seus anseios profissionais
de modo a preterirem a educação formal e o desenvolvimento de outras
aptidões. O que passa a ser um problema social quando o atleta não
consegue se profissionalizar. Isso porque o período de formação do
futebolista – entre os 10 e os 18 anos aproximadamente – concorre com a
fase fundamental para a formação escolar do cidadão. Nesse ponto – a
chamada reconversão de atletas em cidadãos – o autor enxerga diferenças
radicais entre as formações “à brasileira” e “à francesa”. Enquanto no
Brasil o futebol é visto como uma das poucas alternativas de elevação
social para os jovens pobres, na França ele é só mais uma entre outras
possibilidades. Ou seja, ser futebolista por lá não exerce o mesmo
fascínio como aqui.
Outra dimensão fundamental na
diferença entre as duas tradições é que vigora na França uma legislação
que obriga os clubes profissionais a oferecerem aos seus atletas
aspirantes a possibilidade de freqüentarem a educação formal,
paralelamente às atividades exclusivamente futebolísticas. Diferem
também as tecnologias aplicadas, bem como as modalidades de contrato e
ascensão na carreira conforme os resultados alcançados, o mérito e as
oscilações do mercado.
No escopo desse empreendimento
intelectual notável -- considerando-se a qualidade da pesquisa
etnográfica, sociológica e de arquivo, bem como a escrita exemplar – o
pesquisador oferece à literatura sócio-antropológica envolvente
elaboração teórica em torno da clássica problemática da dádiva. Trata-se
de perspicaz diálogo com esse paradigma muito em voga nas ciências
sociais contemporâneas, especialmente porque apresenta formulações sobre
os sentidos atribuídos à noção de dom enquanto sinônimo de talento, e
seus paralelismos com o dom enquanto sinônimo de dádiva. Busca verificar
as nuanças dessa modalidade de distinção/representação – o dom/talento
-- na formação de jovens atletas, bem como o dom/dádiva – a
reciprocidade stricto sensu -- como operador de relações e
vínculos no mundo do futebol profissional.
Possuir ou não o “dom” é um tipo de
assertiva que opera como estratégia de distinção e de status
entre sujeitos não só no futebol, mas também em outros setores da vida
social, como nas artes e na política. No caso dos jovens aspirantes a
futebolistas, “o dom e as representações correlatas, que estão na origem
de todos os investimentos conforme o ponto de vista nativo, matiza o
processo de formação com um colorido social e cultural singularíssimo”
(p. 24).
A estratégia escolhida para esmiuçar e
decodificar esse colorido singular foi a exposição de narrativas
etnográficas de alguns dramas sociais. Como, por exemplo, o caso que
envolve pai e filho brasileiros que chegam à França para fechar o
contrato do garoto com um clube famoso e lá passam por dificuldades e
desentendimentos diversos, processo este acompanhado de perto e
participativamente pelo etnógrafo que, quando menos espera, se vê como
intermediador da negociação (p. 215-221).
Este e outros dramas vão se
entrelaçando, no decorrer do texto, ao diálogo travado com a teoria
antropológica, especialmente no capítulo 6, intitulado “O espectro do
dom”. Mas o autor é cauteloso, pois considera prudente “evitar a todo o
custo diluir os fatos empíricos em teorias preconcebidas” (p. 194).
Especialmente quando a problemática em tela – as teorias sobre a
reciprocidade e a sua relação com os vínculos sociais – pode levar o
pesquisador a subestimar uma teoria nativa, encobrindo-a com uma teoria
geral, acadêmica e canônica. Afirma que “se acerca do dom se faz alguma
modalidade de teoria, esta não é englobando e tampouco fundindo os
horizontes, mas antes preservando as diferenças entre o ético e o êmico”
(p.195).
No modelo interpretativo apresentado,
o dom/dádiva encontra-se tendente para o pólo ético. Ou seja, aplica-se
a teoria geral na observação do fenômeno da reciprocidade no futebol e
dali se desvenda meandros de seu funcionamento. Acerca disso,
exemplifica-se com a narrativa sobre a carreira do jogador Iranildo,
contida no documentário Futebol de João Moreira Sales. O filme
documenta, e o autor re-narra, a trajetória do jogador e de sua família
desde os tempos de dificuldades até quando este começa a ter
reconhecimento e, por isso, bons contratos e rendimentos repentinos.
A família de Iranildo veio do interior
de Pernambuco impulsionada pela fé no talento do garoto. Em alguns
poucos anos, após passar pelas categorias de base do Botafogo e por
outros clubes do Rio, o jogador desponta no Flamengo e chega a ser
convocado para a seleção brasileira. Aspecto interessante é a ingerência
do pai sobre a carreira do atleta e a forma como em torno deste orbitam
uma série de atores com interesses distintos, mas que operam no registro
da redistribuição segundo códigos muito particulares. Contudo,
obedecendo a certa lei geral quanto à obrigatoriedade do circuito
dar-receber-retribuir, apesar da aparente forma conturbada em que
Iranildo e sua família – e boa parte dos boleiros – administram e retêm
os ganhos do dom.
Arlei Damo chega a detectar,
baseando-se no “Ensaio Sobre a Dádiva”, a idéia da circulação
generalizada de coisas e homens, bem como os vínculos espirituais que
isso engendra. A ponto de corroborar com Mauss, que salienta ser a força
do dom que faz retornar a coisa ao seu lugar de origem. Isso é
exemplificado no engajamento do pai de Iranildo em voltar para a pequena
cidade de Igaraçu, pois, conforme explica, “aqui é muito importante pra
gente ... enquanto a maré estiver dando lá, a gente tá ganhando lá e
vindo pra aqui ... porque do lugar da gente não se pode fugir...” (p.
224). Conclui que “se o dom é uma predisposição, não é só futebolística.
É preciso não se esquecer de Mauss para compreender os liames que o
cercam, pois o que na origem era um atributo propriamente corporal
converte-se em capital econômico, e ambos se tramam às representações
produzidas dentro e fora do circuito futebolístico” (p. 225). Neste
ponto do estudo, é desenvolvida relevante abordagem que interage com a
fina flor do debate sobre a teoria da dádiva. Desde a famosa
interpretação de Claude Lévi-Strauss ao fenômeno, até as produções mais
recentes -- e contundentemente maussianas -- de autores como Alain
Caillé, Jacques Godbout e Camille Tarot.
Do ponto de vista que tende ao pólo
êmico da etnografia, ou seja, sensibilizando-se para o desvendamento da
lógica e das categorias internas ao mundo do futebol, o autor busca
revelar sutilezas da teoria nativa sobre o dom/talento. Parte do
pressuposto que o dom é um termo tão complexo e intangível como o amor,
o ódio ou a saudade e que, só por isso, merece ser perscrutado em um
exercício interpretativo. Defende que, apesar da possibilidade de
sinonímica entre os termos “dom” e “talento” -- ao ponto deles poderem
ser facilmente intercambiáveis --, há uma “dimensão residual e
intangível das performances excepcionais que a palavra dom parece
abarcar” (p 191). Esta nuança simbólica é apresentada colocando-se em
comparação as distintas percepções de dois profissionais especializados
na descoberta e lapidação de atletas diferenciados, o que demonstra a
polissemia do termo. Para um deles – o olheiro à moda antiga e de
domínio prático – prevalece a ambigüidade do discurso: “o jeito”, o
“algo mais”, o “aquilo que você sabe que o sujeito tem, mas não sabe o
que é”. E com isso a percepção do dom como o que não é mensurado
cognoscivelmente, mas existe, é representação e não substância. Para o
outro – o profissional mais atento às tecnologias de produção, de
domínio técnico-científico – há uma articulação discursiva que não
incorpora a noção de dom, porém acata a de talento. Para este último o
discurso segue na linha: “você consegue estabelecer no atleta uma
relação entre capacidade intelectual global dos meninos e a capacidade
para incorporar, aprender...” (p. 191).
Neste ponto da análise, pode-se
considerar que é oferecida uma contribuição inspiradora. Isso porque
Arlei Damo defende que a noção de dom, conforme articulada no mundo do
futebol, não comportaria a noção de habitus bourdieriana, uma
tentação teórico-metodológica tão disseminada como estratégia de
desnaturalização dos “mitos indígenas”, conforme salienta. “Dom é
fundamentalmente um termo que preenche um espaço que deveria ser ocupado
por outro termo que não está disponível ... um curinga, razão pela qual
permanece oculto ... um mistério” (p.199) E afirma: “o residual que a
noção de dom protege, com mais vigor do que a noção de talento, e que a
noção de habitus pretende liquidar, é essencial para meu
argumento ser preservado” (p. 191-192).
Para ilustrar esse argumento o autor
ancora-se em depoimento de Ronaldinho Gaúcho, no qual a simples
substituição do termo dom por talento não preservaria o sentido
específico. Eis o depoimento: “Eu, eu tento me divertir, passar o tempo
e fazer que as pessoas também se divirtam olhando meu jogo. Não há nada
de mais, é do instinto, um dom que Deus me deu” (p.192). Arlei Damo
assim vaticina:
“O instinto ao qual
Ronaldinho credita sua habilidade invulgar não é um mero
dom/talento, e não se trata de vestir a carapuça de habitus,
dizer que há nele uma natureza cultivada. Isto encobriria algo
fundamental, que é a autopercepção do artista. Há algo que está
nele, mas é algo mais, um dom que Deus lhe deu, uma dádiva,
portanto. Ou seja, ele se percebe não apenas como portador, mas
como receptor de um dom, uma espécie de predestinado ou
vocacionado”. (p.192)
Devido a esse aporte supracitado, o
estudo de Arlei Damo é referência já quase obrigatória. Não só para os
especialistas em futebol, mas também para os pesquisadores interessados
em desvendar especificidades sobre o dom enquanto talento e enquanto
dádiva em outros contextos sócio-culturais, como, por exemplo, nas
formas de transmissão e de aprendizagem da música e de outras artes. É
referência também porque desenvolve um conjunto de novas noções -- como
“clubismo” e “capital futebolístico” --, assim como outras ferramentas
analíticas para entender esse fenômeno de massa dos mais absorventes no
século vinte. Por outro lado, de um ponto de vista sócio-político, “Do
dom à profissão” traz provocações para o próprio campo futebolístico,
pois descortina ilusões, disseca mitos surreais e mostra uma faceta
obscura do esporte/espetáculo mais apreciado pelos brasileiros e por boa
parte do restante do globo.
(*)
Marcus Vinícius Carvalho Garcia
é Doutorando do Programa de Pós Graduação em Antropologia Social da UnB.
Atualizado em 14/04/09