"Lévi-Strauss, antropologia e arte, minúsculo- incomensurável",
por
Deise Lucy Oliveira Montardo
(*)
Dados
do livro:
Título da obra: Lévi-Strauss, antropologia e arte,
minúsculo- incomensurável
Autora: Dorothea Voegeli Passeti
Editora:Educ, Edusp
Número de Páginas: 488 |
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A publicação oportuna deste livro vem
brindar o centenário do nascimento de Claude Lévi-Strauss, este grande
intelectual que atravessou o século XX, influenciando sobre maneira todo
o pensamento sobre o homem. O trabalho de Dorothea trata,
principalmente, de como a arte é presença forte na vida e na obra do
autor, percorrendo para tanto, a sua trajetória, buscando pinçar em
relatos, entrevistas e biografias, as referências que ajudam a montar o
seu pensamento sobre arte. A autora chama a atenção para o modo como
Lévi-Strauss retoma certas questões no decorrer do seu trabalho, de uma
maneira que mais parece um tempo que se renova, e não o tempo linear
como usualmente o pensamos. Ou seja, questões que estão nos seus
primeiros manuscritos são retomadas bem mais tarde, às vezes cinqüenta
anos depois, com o mesmo frescor e paixão.
Dorothea nos conta que a família de
Lévi-Strauss por parte de pai, foi composta de artistas, até pelo menos
a terceira geração anterior. Seu pai foi pintor e dava como prêmio para
o menino, quando tirava boas notas e estava por volta dos sete anos,
passeios ao Louvre e audições de óperas. O intelectual revela em
entrevistas que a arte foi para ele no ambiente em que foi criado, “o
leite da alimentação”, tendo sido iniciado, em termos musicais, em
todo o repertório do compositor Wagner. Conta que seu pai, que era fiel
aos modos de pintar dos séculos XVIII e XIX, ficava desmoralizado
quando, depois da primeira guerra, visitava os museus. Ao descrever para
o filho os quadros cubistas, provocou no menino, então com dez anos, uma
revelação: “podia-se pintar sem representar” !!! (p.24). Durante a
adolescência segue com o que chamou de uma espécie de “peregrinações e
devoções” em visitas a galerias onde acompanhava a obra de Picasso.
Apesar de toda a família ter sido, até
então, de artistas, tinha se arruinado em termos financeiros. Apenas um
tio seu havia sido bem sucedido neste campo, ao emigrar para os EUA. O
futuro antropólogo então, foi dissuadido, apesar de seu grande interesse
pela arte, a procurar outra profissão que lhe garantisse tranqüilidade
econômica. Começou cursando direito, depois filosofia e, enfim,
procurando construir a carreira de etnólogo com as vindas para o Brasil.
Bem antes de pensar em ser etnólogo, no entanto, escrevia sobre Picasso
e o cubismo.
Ainda adolescente descobriu Freud e a
psicanálise. Dorothea chama a atenção para o fato de que, mesmo antes de
descobrir a lingüística, já lhe interessou, na leitura de Freud, a
descoberta de que os comportamentos mais afetivos, as operações menos
racionais, são as mais significantes. Ressalto esta observação da autora
porque em “O Pensamento Selvagem” quando ele faz uma comparação
entre as formas de apreensão e de conhecimento na arte e na ciência, e
mesmo em “O Cru e o Cozido” quando ele faz um gradiente entre a
música, o mito e a fala verbal cotidiana, é em termos de variante do
significado em relação ao significante que o faz, sendo que, na arte,
este tem um espaço de significação maior do que na fala normal.
A autora detalha a passagem de
Lévi-Strauss para a Filosofia, seus tempos de militância política e o
início de sua vida como professor até surgir a oportunidade, abraçada
rapidamente, de viajar ao Brasil para dar aulas na recém inaugurada
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da USP, e iniciar sua
carreira de etnólogo.
No Brasil, uma das expedições que ele
e Dina, sua primeira mulher, fizeram, foi ao Mato Grosso do Sul, na
época Mato Grosso, onde estiveram entre os Kadiwéu. Sobre as pinturas
escreveu um dos seus textos mais antigos, “Indians Cosmetics”,
que publicou na revista surrealista em Nova York e no qual fala das
rendas pretas que envolviam as mulheres e a sedução que estas
provocavam.
Depois de suas estadias no Brasil, o
pesquisador volta à Europa e é então atingido pela perseguição aos
judeus na segunda guerra. Robert Lowie e Alfred Metraux, dois dos mais
importantes estudiosos das sociedades indígenas da América do Sul, o
convidam nesta ocasião, para ir para Nova York, atuar na New School
of Social Research, através do plano de salvamento de sábios
europeus da Fundação Rockfeller. Na viagem, feitas em condições
precárias, ele teve a sorte de ter sido reconhecido por membros da
tripulação, os mesmos de viagens anteriores, que lhe garantiram dormir
em melhores condições que o restante dos passageiros. Numa das paradas
reconheceu André Breton, ao qual se apresentou e daí surgiu uma ligação
ente eles. Lévi-Strauss se encantou então, com o surrealismo,
principalmente nos aspectos relacionados à espontaneidade e à liberdade
na criação artística.
Juntando estas informações sobre seus
encantamentos com estes movimentos artísticos e com as artes de outros
povos, seu movimento de busca do outro, na procura da etnologia, o
pesquisador reflete que havia, de certa maneira, uma busca do exótico,
não do bom selvagem, pois tinha claro que os homens são homens em todos
os lugares. Mas no fundo, havia um descontentamento com a sua própria
sociedade e que ele buscava preencher com a tentativa de encontrar em
outros lugares e outras culturas aquilo que acreditava faltar na sua. Ou
buscava, pelo menos, melhor entendê-la. Lévi-Strauss funda o relativismo
radical, no qual todos os sistemas culturais se equiparam. Mas, Passeti
chama a atenção para o fato de que, na sua atitude, prevalece uma
hierarquia de valores, um certo “primitivismo”, no qual as sociedades
que estuda têm um valor positivo. E a sua admiração pela arte destes
povos tem seu papel nisto, aliada, é claro, à fraternidade que reconhece
neles.
Lévi-Strauss observa, nas suas
experiências de campo entre os índios brasileiros, que os objetos são
vivos, eles cantam, dançam, etc. Eles parecem querer falar com o
pesquisador. Esta é uma discussão que está sendo levada a sério nos dias
atuais, com os debates sobre perspectivismo ameríndio, pensamento no
qual certos animais, plantas e objetos tem agência (ver p.ex. Viveiros
de Castro 1996). Alfred Gell, antropólogo inglês deixou uma obra póstuma
“Art and Agency”, onde explora justamente esta característica dos
objetos de arte, que ocorre na Melanésia, aqui entre os povos indígenas
e em outras partes do mundo, de forma muito marcante (1998). Nos seus
escritos, Lévi-Strauss exaltava a beleza da arte indígena e, ao
enfatizar a vida dos objetos estava em diálogo mais com os surrealistas
do que com a etnologia vigente, mais preocupada com aspectos
relacionados à organização social e ao parentesco do que com as
filosofias nativas.
Em 1942, ele é apresentado ao
lingüísta Roman Jakobson, quando iniciam uma amizade e trocas
intelectuais sólidas e duradouras. Lingüística, fonologia, parentesco e
trabalho de gabinete passam então a compor o fazer antropologia de
Lévi-Strauss. Em Nova York, o autor dedica-se a mostrar que a arte
indígena é arte. Percebe esta agência dos objetos, mas no texto em que
trata dela “O desdobramento da representação nas artes da Ásia e da
América”, esforça-se, ao falar da arte kadiweu, a analisá-la como uma
deformação do rosto verdadeiro através de uma disjunção que cria uma
harmonia artificial. Passeti narra suas palavras: “... representação
de um indivíduo, visto de frente, através de dois perfis; simetria muito
elaborada que pode empregar assimetrias de detalhe; transformação
ilógica de detalhes em novos elementos; representação mais intelectual
que intuitiva, predominância do esqueleto ou dos órgãos internos sobre o
corpo” (p. 155). A autora dá ênfase às elaborações que faz o antropólogo
para fugir do difusionismo nestes estudos. Através da análise estrutural
chega à noção de representação desdobrada, na qual o artista procede a
um mecanismo que lembra uma cirurgia, abrindo o objeto representado e
dispondo de todas as suas partes num plano, o que ocorre em vários
lugares do mundo. Abro um parêntese para comentar que o livro contém
imagens belíssimas e que ajudam no entendimento da obra de Lévi-Strauss.
O fascínio do pesquisador pela arte
indígena, levou-o a buscar ferramentas para entender os documentos
plásticos, revelando como caminhos, além das relações entre arte e
estrutura social, a análise dos mitos e das lendas. Passeti segue,
desbravando o tratamento que Lévi-Strauss dá a questão das máscaras,
recorrendo à psicologia e, chegando perto, aí, de alcançar o
inconsciente. A autora deixa claro para os leitores o quanto o interesse
dele pela arte abriu os caminhos do pensamento para a formulação de suas
teorias. A autora encontra como eixo em toda esta trajetória a crítica
que faz à lógica racionalista do mundo ocidental. Um dos méritos do
livro é a atenção que Dorothea dá a personalidades que foram marcantes
para Lévi-Strauss, como o pintor surrealista Max Ernst, por exemplo.
Ao narrar a volta do antropólogo
francês à Europa, Dorothea, mais uma vez, enfatiza a admiração que
desenvolveu pelas artes dos outros, que o fez, nesta volta, ver
decadência em alguns aspectos de sua arte. Deste período, a autora
destaca os reencontros e as amizades que Lévi-Strauss aprofunda, entre
elas com o psicanalista Jacques Lacan; sua passagem pelo Museu do Homem
e as respostas positivas a sua obra “Estruturas elementares do
parentesco”, publicada em 1949. Dentre as últimas, destaca as dos
escritores Simone de Beauveoir, que a leu para subsidiar “O segundo
Sexo” e Georges Bataille, que escreveu um artigo sobre o enigma do
incesto, relacionado-o com o erotismo, um dos capítulos do livro “O
Erotismo”. (p. 190)
Passeti desvela em detalhes a viagem
de Lévi-Strauss ao oriente e o seu encontro com o budismo, ao qual se
refere como religião do não saber, e que, segundo ele, “eleva-nos até o
ponto em que descobrimos a verdade sob a forma de uma exclusão mútua do
ser e do conhecer” (citação de Tristes Trópicos). A autora
pergunta então se seria possível aproximar essa noção budista do esforço
de Lévi-Strauss em criar a antropologia estrutural. Cita então o autor
para responder: “Como as crenças e as superstições se dissolvem
quando observamos as relações reais entre os homens, a moral cede à
história, as forma fluidas dão lugar às estruturas, e a criação, ao nada
(Tristes Trópicos, p. 390). Dorothea levanta a possibilidade de
localizar também no budismo a raiz de desdobramentos que aparecerão
futuramente na sua obra, como a “insistência em conciliar o sensível
e o inteligível ...” (p.216)
Dorothea detalha vários aspectos da
obra de Lévi-Strauss no que se refere à arte, dos quais destaco aqui a
sua relação com a música. Nesta parte do livro, a autora inicia contando
da clausura que considerou seus vinte anos de dedicação à escrita das
“Mitológicas”, na qual metáforas musicais têm papel fundamental. A
obra foi dedicada a Wagner e, segundo o autor, a música inspira o
próprio fio da reflexão. Neste trabalho teria realizado seu sonho de
regente pois o compôs como numa partitura, distribuindo os diversos
códigos: geográfico, econômico, sociológico e cosmológico, como vozes de
uma orquestra, considerando suas superposições como contrapontos (pp.
296-300).
Em “O Cru e o Cozido”, Dorothéa
nos lembra, ele descreve a sensação corpórea provocada pela música,
tanto em termos fisiológicos, através da exploração dos ritmos
orgânicos; quanto em termos culturais, pois as escalas de sons musicais
variam de acordo com as culturas. Lévi-Strauss deposita na música o
“supremo mistério das ciências do homem” (apud Passeti 2008:
300).
Uma interrogação que se coloca quando
nos debruçamos sobre este tema se refere ao fato de que, apesar de ter
usado a música para falar dos mitos ameríndios, ele o fez sempre com a
música ocidental, não tratando em nenhum momento da música indígena. Com
a publicação de “Olhar, escutar, ler”, esta minha perplexidade foi em
parte resolvida, pois lá, Lévi-Strauss conta que fez transcrições da
música Nambiquara, que pretendia publicar e que o editor perdeu em um
táxi em Paris, o que o deixou traumatizado. Esta foi uma passagem que
escapou a Dorothea, sem prejuízo nenhum a obra, enfatizo; apenas torna
evidente que a leitura é feita por uma pesquisadora mergulhada no estudo
das artes plásticas. Como Lévi-Strauss escreveu sobre estas, a autora
teve muito material para explorar, tanto no que se refere à arte
ocidental quanto à indígena, o que fez brilhantemente. Ela nos mostra
como em Lévi-Strauss, a arte é mais que ilustração. “Ao contrário, é
possível rearticular a interpenetrabilidade dessas duas formas de
pensamento [a arte e a ciência] ao se perceber que qualquer arte é
produto intelectual. A defesa do princípio da beleza da arte indígena
implica não apenas luta contra preconceitos e juízos estéticos
colonizados e colonialistas, mas sobretudo reconhecimento de que a
emoção estética proporcionada por qualquer arte advém de sua carga
reflexiva e intelectual. É esse o significado da aliança entre sensível
e inteligível, aliança que deve preservar suas respectivas propriedades.
Só assim a ciência que dialoga com a arte saberá diferenciar a beleza
natural e uma obra-prima, bem como perceber que ela recria a própria
natureza. Só assim, enfim, ela poderá perceber que, num nível profundo,
formas do pensamento científico e artístico podem coincidir.”(p.402)
No livro, Passeti nos apresenta,
ainda, uma outra faceta do intelectual, que integra também os interesses
do início da sua vida com os desdobramentos tomados ao longo da sua
trajetória. Ela explora o discurso polêmico do autor na Unesco, em 1971,
no ano internacional de luta contra o racismo, no qual ele conclama ao
abandono do antropocentrismo, reafirmando seu amor e interesse por todas
as forma de vida, exaltando o budismo e criticando o humanismo ocidental
herdado da Antiguidade e do Renascimento (p.321).
Finalizo realçando que a obra de
Passeti nos ajuda a olhar, ver, escutar e, principalmente, admirar este
grande homem e intelectual que, com seu trabalho, contribuiu
inequivocamente para a estabilização da antropologia como disciplina
científica.
GELL, Alfred. 1998. Art and Agency:
an anthropological theory. Oxford: Clarendon.
LÉVI-STRAUSS, Claude. 1991 [1971]. O cru e o cozido. Tradução
Beatriz Perrone
-Moisés. São Paulo, Brasiliense.
----------------. 1997[1993]. Olhar, escutar, ler. Tradução
Beatriz Perrone
-Moisés. São Paulo, Brasiliense.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. 1996. “Os pronomes cosmológicos e o
perspectivismo ameríndio”. Mana, Rio de Janeiro, 2(2):115–144.
(*)
Deise Lucy
Oliveira Montardo é doutora em Antropologia Social pela USP e
professora do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do
Amazonas (UFAM), onde coordena o Programa de Pós-Graduação em
Antropologia Social.
Atualizado em
02/03/09