"De olha na rua - A cidade de João do Rio",
por Isabel Travancas
(*)
Dados
do livro:
Título da obra: De olho na rua - A cidade de João do
Rio
Nome da autora: Julia O´Donnell
Editora: Zahar
Número de páginas: 204 |
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O jornalista é um profissional
peculiar. Muitas vezes é visto como herói, lutando pela informação a
qualquer preço, se empenhando em descobrir a verdade dos fatos,
colocando em alguns casos sua própria vida em risco. Outras vezes é
visto como vilão. E como tal não mede esforços para conseguir seus
objetivos e dar um “furo” de reportagem. Sem caráter e trafegando pelo
submundo do crime, ele não hesita em colocar sua carreira na frente de
tudo e todos. Seja representado ou pensado como herói ou vilão, o
jornalista é antes de tudo um habitante da cidade. O mundo urbano tem
suas características e particularidades que se combinam e se misturam no
jornalismo. Quando Simmel (1979) cita como características dos
indivíduos da cidade a superficialidade, o anonimato, as relações
transitórias, a sofisticação e a racionalidade, é inevitável associá-las
ao jornalista. E por isso é possível estabelecer uma relação tão íntima
entre este profissional e a cidade. A cidade, mais intensamente a
metrópole como afirma Simmel (1978), determina um novo modo de vida,
novas relações sociais e a ampliação das ocupações resultantes do
desenvolvimento técnico associado ao transporte e à comunicação. E o Rio
de Janeiro de João do Rio estava entrando em nova fase com a República,
com seu cosmopolitismo em processo em um momento em que o fenômeno
urbano trazia em seu bojo transformações no modo de vida e nas relações
sociais do século que então se iniciava.
E se o jornalista é um profissional
peculiar, João do Rio é um jornalista mais peculiar ainda. Ele é o tema
da dissertação de mestrado em Antropologia Social defendida no PPGAS do
Museu Nacional por Julia O ´Donnell, sob orientação do professor
Gilberto Velho, agora publicada pela editora Zahar. De olho na rua –
a cidade de João do Rio aborda a atividade jornalística desse
personagem carioca através de uma perspectiva rica e original. Julia
constrói uma pesquisa que junta reportagem e etnografia, demonstrando o
quanto João do Rio tinha uma sensibilidade etnográfica para cruzar os
mais diversos mundos da cidade do Rio de Janeiro do início do século XX.
João do Rio nasceu Paulo Barreto em
1881 e foi um jornalista de destaque em sua época. A literatura foi uma
espécie de conseqüência do jornalismo, do qual nunca se afastou. E
produziu uma obra vasta de mais de 2500 textos que mescla jornalismo e
literatura. Tinha uma escrita de vanguarda para a época e não é por
acaso que seus textos continuam fazendo sucesso e não envelheceram.
Permanecem saborosos retratos da “cidade maravilhosa”. João do Rio era
também um personagem do Rio da Belle Époque. Era um dândi, que chamava a
atenção e causava polêmica pelas roupas – fraques verdes – e pelas
atitudes. Nunca fez questão de esconder sua homossexualidade e sua
figura de mulato gordo não passava despercebida pelas ruas do centro da
cidade. Mas foi também um homem querido e popular como destaca a
antropóloga ao apresentar a cobertura de seu enterro realizada pelo
jornal O País de 27 de junho de 1921. É incrível pensar que a
cidade tinha cerca de um milhão de habitantes e, destes, 100 mil
participaram do cortejo fúnebre. Havia uma massa popular que se
comprimia interrompendo o trânsito. A cidade que tanto amava e sobre a
qual muito escreveu prestou uma homenagem pouco comum para jornalistas.
E certamente, se não fosse ele o morto, João do Rio estaria participando
daquela circunstância como repórter. Estaria curioso para entender o que
levou tanta gente a acompanhar o caixão de um jornalista. O que ele
teria de especial? E que indivíduos eram esses, que cidade era essa que
se transformava tão rapidamente?
O fascínio pela cidade. Pelos
diferentes mundos. A curiosidade pelos diversos tipos urbanos. João do
Rio vai desenvolver, através do seu “trabalho de campo”, uma verdadeira
etnografia da cidade do Rio de Janeiro, que começava a viver sob a
República, e sobre seu mais novo personagem: o homo urbanus. Este
novo elemento da vida social é definido pela autora como uma “espécie
marcada pela assimilação dos novos padrões materiais e comportamentais”
(p.17) E o jornalista encarnará esse novo tipo social assim como
procurará descrevê-lo em suas mais variadas formas e aspectos. Para isso
realizará sua etnografia, ao mesmo tempo em que continuará fazendo
reportagem. Reportagem? Etnografia? Segundo o Manual da Folha de S.
Paulo (2001:71), “a reportagem traz informações mais detalhadas sobre
notícias, interpretando os fatos; é assinada quando tem informação
exclusiva ou se destaca pelo estilo ou pela análise.” O antropólogo
norte-americano Clifford Geertz (1978) define etnografia como uma “descrição
densa”, que ele compreende como um processo de interpretação que
pretende, e espera-se consiga, dar conta das estruturas significantes
que estão por trás e dentro do menor gesto humano. Para Julia O´Donnel o
que João do Rio faz pode ser entendido como uma etnografia da cidade do
Rio de Janeiro, ainda que ele não tivesse nem a intenção nem a
preocupação de fazer pesquisa antropológica.
A pesquisadora privilegiou em seu
trabalho as crônicas do jornalista, gênero em que mais produziu. E essa
escolha parece plenamente justificada uma vez que a crônica é um gênero
limítrofe que se situa na fronteira entre a literatura e o jornalismo e
tem um pouco dos dois. Nasceu nos jornais e está diretamente vinculada
aos fatos cotidianos e à atualidade. E João do Rio produz esse texto
“mesclado” que bebe nas duas fontes. Mas ele não produziu apenas
crônicas, escreveu também peças de teatro, contos, críticas literárias e
traduções. E é na escrita que podemos perceber a sua “sensibilidade
etnográfica”. Embora que o texto jornalístico daquele começo de século
ainda estivesse impregnado de literatura, não se tivesse até então
estabelecido os padrões jornalísticos de objetividade, clareza e
concisão, nem houvesse a chamada “ditadura” do lide[1], já havia uma
preocupação de informar o leitor e o jornalista não escrevia para si mas
para um público amplo.
O texto etnográfico tem
características distintas. O antropólogo escreve em primeiro lugar para
seus pares, para a academia, e em último para o público em geral. A
antropóloga Mariza Peirano (1992, p. 134) ao comentar o trabalho de
Vincent Crapanzano sobre brancos na África do Sul, enfatiza esta relação
entre os dois processos. “Chama-se a atenção para o fato de que a
maneira como se faz etnografia/pesquisa de campo está intimamente ligada
à forma como se escreve, ou melhor, se constrói etnografias como textos.”
Crapanzano vê o texto de sua pesquisa Waiting como um romance,
principalmente por entendê-lo como plurivocal na sua essência. Este
aspecto de dar voz aos entrevistados aproxima os discursos jornalísticos
e antropológicos, na medida em que os dois estão preocupados em relatar
e descrever fatos, situações, comportamentos, modos de vida e visões de
mundo. É esta aproximação dos dois discursos que João do Rio fará com
maestria. O jornalista tinha uma enorme curiosidade pelos personagens da
cidade, suas vidas e mundos. Ele sai em busca de conhecê-los realizando
reportagens etnográficas.
Julia O ´Donnel dividiu seu livro em
três capítulos distintos. Em sua introdução a autora apresenta seu
“objeto” e suas conexões com a antropologia urbana; no segundo
capítulo,“O etnógrafo e seu campo”, ela traz o contexto histórico em que
viveu João do Rio, com o nascimento da República e as mudanças políticas
e sociais sofridas pela cidade, que implicavam em novos padrões de
sociabilidade para seus habitantes. Em vários trechos que Julia destaca
no livro, o repórter tematiza as questões que a subjetividade individual
enfrenta com o ritmo acelerado da metrópole, como descreve Simmel. Não é
à toa que ela afirma “Ser moderno era a imposição que o Rio de
Janeiro fazia ao país”. (p. 43) Era a época do “Rio civiliza-se”, da
enorme influência européia na vida urbana, desde sua arquitetura até a
moda, passando pelas letras e artes. E a cidade descrita pelo jornalista
não era apenas a da elite europeizada, mas a cidade da pobreza narrada
em terceira pessoa presente principalmente nas reportagens escritas na
sua primeira década de atividade jornalística, quando estava vinculado à
Gazeta de Notícias.
Em “A etnografia urbana de João do
Rio”, segundo capítulo da pesquisa, a autora aponta as relações e
proximidades da reportagem com a etnografia. A seu ver, a estrutura
usada por João do Rio em seus textos tem muitas semelhanças com o relato
etnográfico. Suas crônicas apresentam a realidade social dentro de uma
perspectiva subjetiva. Julia afirma que a “etnografia, seja nos
estudos antropológicos stricto sensu ou na antropologia inominada de
João do Rio, é concebida não como a interpretação discursiva de uma
‘outra” realidade, mas como ‘negociação construtiva envolvendo pelo
menos dois, e muitas vezes mais, sujeitos conscientes’.” (p. 97)
Vale lembrar que João do Rio não fez faculdade e sua única ocupação era
ser repórter. E pode ser visto como um dos primeiros profissionais da
notícia no Brasil. Isso numa época em que o jornalismo era um “bico”
hobby ou uma atividade extra para advogados ou funcionários públicos.
Os personagens urbanos são o tema
principal do último capítulo do livro: “As histórias que as calçadas
contam: a práxis urbana e o fazer da cidade”. João do Rio tinha um
apurado senso de observação e suas descrições dos tipos urbanos eram
primorosas. Desde o gentleman, passando pelo snob, seu interesse
era narrar e analisar a cena social com seus personagens. E neste
contexto a moda tinha importância e destaque. É o próprio jornalista
quem diz: “Tudo no mundo é cada vez mais figurino. O figurino é a
obsessão contemporânea. Se os antigos falavam de quatro idades, sendo
que na última, na de ferro, fugiu da terra para o azul a verdade, nesta
agora o figurino impera. Estamos na era da exasperante ilusão, do
artificialismo, do papel pintado, das casas pintadas, das almas pintadas...
Deseja-se superar, ser o figurino, mostrar qualquer coisa diferente dos
mais ou igual aos melhores nem que seja por alguns segundos.“
(p.140-141)
Outro dado rico das crônicas de João
do Rio era sua atenção para os aspectos sensoriais presentes no
indivíduo do começo do século XX. Para a pesquisadora, ele chegou a
construir uma arqueologia dos sentidos. Seus textos vão chamar a atenção
para a questão do olhar, presente na figura do flanêur; para a
audição, registrando os sons das ruas e a abundância de ruídos; para os
odores bastante variados da metrópole em formação, como o do automóvel e
o do perfume; para o paladar quando narra o que se comia e bebia naquele
momento com ênfase especial para o chá, seu ritual e seus sabores
importados e, por fim, para o tato, estando este último muito associado
à moda e aos tecidos, assim como aos rituais de interação social como o
aperto de mão como regra de civilidade.
João do Rio produziu o que há de
melhor em crônica social do início século, juntando com arte e graça,
jornalismo e literatura. Julia O ´Donnel produziu uma pesquisa da melhor
qualidade, extremamente original, realizando uma aproximação entre dois
campos distintos e próximos que aguardava um trabalho como esse para
ganhar força e visibilidade.
[1]
Primeiro parágrafo da notícia que deve responder às
perguntas quem, como, quando, onde e por que.
Referências
GEERTZ, C. A interpretação das culturas. RJ: Zahar, 1978.
Manual da redação. Folha de S. Paulo. SP: PubliFolha, 2001.
PEIRANO, M. Uma antropologia no plural. Brsília: UNB, 1992.
SIMMEL, G. A metrópole e a vida mental. VELHO, O.(org.). O
fenômeno urbano. RJ: Zahar, 1979.
(*)
Isabel Travancas é jornalista, antropóloga e
professora-adjunta da Escola de Comunicação da UFRJ.
Atualizado em 01/10/08