Resenha (Edição nº 45)

"Lontras e a construção de laços no Orkut: uma Antropologia no ciberespaço", por Patricia Coralis (*)    

Dados do livro:
Título: “Lontras e a construção de laços no Orkut: uma Antropologia no ciberespaço”
Autor: Jean Segata
Editora: Nova Era
Número de páginas: 148

A popularização da Internet e a conseqüente emergência de uma chamada “cultura do ciberespaço” são fenômenos marcantes na sociedade atual. Conjugando imagens, textos e sons em elaborados processos comunicativos, o ciberespaço capta em seu domínio a maioria das expressões culturais em toda a sua diversidade (Castells, 1999), complexifica as noções de tempo e espaço ao permitir o acesso a múltiplas informações e culturas simultaneamente e ao facultar o contato em tempo real entre os indivíduos, minorando as antigas limitações impostas pela distância. Seu caráter essencialmente coletivo, além de torná-lo um ambiente favorável à formação de grupos, requer a participação ativa dos usuários, como seus produtores e mantenedores. Voltadas para objetivos específicos, as chamadas comunidades virtuais se ampliam a cada dia, reunindo um número cada vez maior de pessoas e abordando os mais variados assuntos.

A construção coletiva e cotidiana da rede e suas inúmeras possibilidades simbólicas e tecnológicas permitem aos sujeitos constituir e praticar suas subjetividades e entendimentos por intermédio dos variados recursos tecnológicos que ela oferece. Assim, a percepção do ciberespaço enquanto ambiente social gerador de formas peculiares de relações entre as pessoas, com códigos e estruturas próprias, inevitavelmente o torna um campo fértil para o fazer etnográfico, estimulando o pesquisador a pensar em sua própria condição, ao atuar em um meio onde também ele é um “nativo”.

Problematizando a usual crítica do ciberespaço enquanto local da impessoalidade e da insegurança – onde supostamente a “eficácia” do trabalho antropológico poderia ser comprometida pela impossibilidade do encontro face-a-face – Jean Segata desenvolve uma instigante pesquisa, no sentido de relativizar tanto o discurso “apocalíptico” quanto o “apologético” a respeito da realidade da rede. Sem ceder ao determinismo que define o ciberespaço como produto final do individualismo capitalista ou como recurso “super-democratizante”, o autor propõe investigar a “pequena história cotidiana” da construção do ciberespaço e das atividades que nele se desenvolvem, considerado a relação estreita entre a vida on-line e a vida off-line. Lontras e a construção de laços no Orkut: uma antropologia no ciberespaço é fruto de uma acurada pesquisa que buscou demonstrar as características locais de uma rede de amplitude global – o Orkut, site de relacionamentos formado por perfis personalizados de usuários e comunidades virtuais – a partir da análise do processo de construção do “local” no contexto da rede “desterritorializada”. No caso, comunidades vinculadas à cidade de Lontras (SC), construídas com o principal objetivo de (re)estabelecer ligações entre habitantes.

O aspecto local da rede de dimensões globais se definiria também pelos pontos locais particulares que a constituem, atravessando lugares e conectando-se a outros para crescer e continuar existindo. Nessa visão, cada usuário do Orkut, mantendo um perfil com links que levariam a outros lugares e pessoas infinitamente, seria um ponto local da rede, ao mesmo tempo em que contribuiria para ampliá-la. As comunidades aglutinariam uma série de pontos locais – ou seja, participantes que possuem relações mais próximas – formando redes ainda mais locais, complexificadas pela dimensão off-line e unidas por um sentimento de pertença e objetivos específicos que as distinguiriam das demais.

O livro se divide em duas partes. A primeira, composta por três capítulos, refere-se à análise do Orkut enquanto espaço de sociabilidade, ligando e religando pessoas e lugares de acordo com objetivos próprios dos grupos, e ao processo de construção dos perfis pessoais e das comunidades. O perfil, que representa e identifica o usuário no Orkut, seria construído através de um processo de personalização do espaço onde, ao expor suas preferências, vídeos, imagens e outros recursos que possam identificá-lo, o usuário passa a existir enquanto pessoa no contexto da plataforma, ainda que muitas vezes não seja possível checar a veracidade das informações. No entanto, a possibilidade de vivenciar potencialmente outros papéis através da anonimidade facultada pela rede incentiva a construção de perfis fakes – literalmente, falsos, inexistentes. Essa idéia da construção “fake” é relativizada pelo autor, que mantém como um dos sujeitos principais da pesquisa P.Valdo, um usuário assumidamente “fake” – e reconhecido como tal pelos membros do grupo; no caso, alguém que age resguardado por um nome e uma foto falsas, um “personagem”. Ao concentrar em torno de si a movimentação de toda uma comunidade através da participação (provoc)ativa, P.Valdo transformou-se no principal elemento de ligação a manter a comunidade unida, passando de “simples ‘fake’” a sujeito. O segredo sobre sua “verdadeira” identidade teria incentivado o grupo a participar intensamente da comunidade, tanto no sentido de confrontá-lo e debatê-lo como de aceitá-lo. A revelação voluntária dessa identidade teria arrefecido sua participação e, conseqüentemente, a própria atividade do grupo. A atividade “fake”, assim, funcionou como uma ilustração clara da característica de construção performativa do eu no ambiente da plataforma, onde o reconhecimento como pessoa se consolida primordialmente através da participação ativa e do relacionamento com os outros, revelando nuances da personalidade que será reconhecida pelos freqüentadores do ambiente. Nesse sentido, quem não é fake no Orkut?

A formação das comunidades, tema que encerra a primeira parte do livro, seguiria parâmetros semelhantes à construção dos perfis particulares, já que as imagens e as informações que as definem precisariam ser suficientemente claras e interessantes para incentivar a filiação e a participação, transformando-as, efetivamente, de lugares a espaços (De Certeau, 2003). No entanto, o autor aponta o paradoxo que cerca a idéia de comunidade no Orkut: ao mesmo tempo em que permite a alusão à segurança e abrigo simbólicos, relacionada ao fato de “estar entre iguais”, as comunidades do Orkut também remetem à frouxidão dos laços entre as pessoas, já que, permitindo facilmente a entrada e a saída de membros, não impõem sequer a obrigação de participar, muitas vezes servindo apenas como complementos para os perfis pessoais, já que ficam expostas, compondo as informações básicas sobre os usuários. Indivíduos e grupos fazem diferentes usos das comunidades, de acordo com seus objetivos específicos.

Adotando como objeto de pesquisa um conjunto de comunidades referentes à cidade de Lontras, o autor buscou mostrar como esses espaços constituem pontos de ligação e religação com a cidade e seus habitantes, através do movimento, facultado pela plataforma, não apenas de contatar novas pessoas, mas de reencontrar e religar-se a antigos conhecidos e de experienciar simbolicamente a cidade através da participação ativa nos espaços das comunidades dedicadas a ela. Assim, a segunda parte, igualmente dividida em três capítulos, trata da descrição e análise da construção do ambiente Lontras no Orkut, formado pelo conjunto de comunidades analisado, o MSN, os perfis dos sujeitos participantes e a própria cidade. O entendimento da conjugação das modalidades de representação e contato simbólico com Lontras na rede como um ambiente evidenciou a perspectiva de considerá-las como diferentes aspectos da construção da cidade, mesclando as realidades on-line e off-line. As comunidades e os debates via MSN se tornaram extensões simbólicas da cidade de Lontras na rede – onde antigas relações se reconstituíam, problemas atuais da cidade eram discutidos e boatos intensificados, e debates e depoimentos começavam a construir uma espécie de memória da cidade, cujo cotidiano passou a ser expresso nas comunidades. Por outro lado, questões e polêmicas desenvolvidas na comunidade muitas vezes extrapolavam as fronteiras on-line e influenciavam a vivência cotidiana off-line dos membros na cidade, demonstrando a complementaridade dos dois aspectos na construção da experiência; mundos que se constituíam reciprocamente, permitindo retomar antigos contatos afastados pelo tempo e pela distância – espaço de religação.

O arrefecimento da comunidade, atribuído ao fim da participação de seu membro mais ativo e polêmico, levantou questões a respeito da legitimidade do grupo e dos laços estabelecidos naquela temporária interação. A conclusão do autor, remetendo à idéia de “vida líquida” que Bauman (2007) considera como característica da modernidade, é a de que determinados laços humanos são, propositadamente, atados e desatados de acordo com os objetivos do indivíduo ou grupo. As “comunidades virtuais” se formam, operam e se dissolvem com base em propósitos específicos, muitas vezes também fluidos e variáveis. A multiplicidade de experiências facultada pela rede permite a vivência de vários contextos e interações, muitas vezes contraditórios, e permite o desligamento entre os indivíduos com a mesma facilidade com que os conecta. Dada a crescente popularização da Internet, o trânsito entre os muitos contextos do ciberespaço e a variedade de experiências e contatos que faculta são dados cada vez mais relevantes a serem considerados na construção da subjetividade contemporânea; daí a crescente importância de trabalhos como o de Jean Segata, representando mais um passo no sentido de compreender a complexa e fascinante experiência moderna.


BAUMAN, Zygmunt. Vida líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede (A era da informação: economia, sociedade e cultura; v.1). São Paulo: Paz e Terra, 1999.
DE CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 2003.


(*) Patricia Coralis  é Doutora em Ciências Sociais pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UERJ.

Atualizado em 01/09/08

 

 

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