"A África fantasma",
por Jérôme Souty
(*)
Dados
do livro:
Título: A África Fantasma
Autor: Michel Leiris,
Editora:Cosac Naify
Tradução: André Pinto Pacheco
Número de Páginas: 688 páginas
Apresentação: Fernanda Arêas Peixoto
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Em 1930, Michel Leiris (1901-1990) é
um jovem intelectual e escritor parisiense, um pouco dandy, que
freqüenta os meios artísticos e participa do movimento surrealista.
Introvertido e consciente de ser « um ocidental desconfortável na
própria pele », ele almeja escapar dessa condição buscando outros
horizontes. Sua amizade com o etnólogo Alfred Métraux e o escritor
Georges Bataille lhe desperta o interesse pela etnologia. Ele ainda
desconhece a África - apesar de ter viajado ao Egito alguns anos antes -
e a prática da pesquisa de campo.
Recrutado como
secrétaire-archiviste (assistente e arquivista) e encarregado das
entrevistas etnográficas, Leiris embarca na missão científica francesa
que atravessa a África de Oeste à Leste, de Dacar a Djibuti, do
Atlântico ao Mar Vermelho. Durante vinte meses, entre 1931 e 1933, entre
o trópico do câncer e o equador, a missão percorre uma boa parte do
empório colonial francês da África (AEF e AOF). O deslocamento é feito
de carro, a pé, de barco, de trem, de burro... qualquer meio de
transporte é requisitado. Nesta viagem duas estadias são prolongadas: no
país Dogon, em Mali (nesta época Sudão francês), e em Gondar, na Etiópia
(na época sob dominação italiana).
Para Leiris, o primeiro resultado
desta experiência é um texto longo - quase 700 páginas nesta edição
brasileira-, denso e inclassificável. Aparentemente é um diário de campo
que relata o cotidiano da equipe, os problemas logísticos da missão, as
próprias pesquisas de Leiris e suas relações com os informantes e
tradutores, suas anotações de intuições fugazes ou de reflexões com
propostas iniciais de análise. Mas o texto também é uma crônica íntima.
Ele registra suas impressões, suas angústias, trechos de seus sonhos,
lembranças da vida parisiense… Como observa André Pinto Pacheco,
corajoso tradutor deste documento, « a prosa de Leiris mistura o
literário e o coloquial, o impessoal e o íntimo ». A África fantasma,
que articula viagem científica e autobiografia, se insere no duplo
projeto intelectual e pessoal mantido por Leiris ao longo da sua vida: a
literatura e a antropologia. Durante anos Leiris desenvolverá o trabalho
autobiográfico iniciado com este livro (ver A idade Viril -1939,
La Règle du Jeu - 2003).
A missão Dacar-Djibuti dirigida pelo
etnólogo Marcel Griaule reuniu uma dezenas de pessoas, permanentes ou
transitórias, a maioria delas cientistas[1].
Certamente, se trata de um programa de estudos etnográficos e
lingüísticos. Mas o livro nos revela que esta missão é também uma vasta
empresa de coleta de objetos destinados a enriquecer as coleções do
Museu de etnografia do Trocadéro - transformado em Musée de L’Homme em
1937, cujas coleções são hoje acolhidas no novo Musée du quai Branly. A
missão leva a antiga imagem positivista do erudito explorador, quando
conhecer significava recensear, classificar, repatriar… Caixas e caixas
de objetos foram pouco a pouco levadas para a França. Os membros da
missão compravam todos os tipos de coisa (objetos artísticos e
religiosos, elementos da cultura material, roupas, brinquedos de criança,
etc.). Às vezes, eles requisitavam objetos fazendo uso de chantagem e
outras formas de pressão, chegando até a roubar ou saquear: furto puro e
simples de fetiches no Benim ou Mali, de estatuetas na região Dogon, de
pinturas religiosas arrancadas nas igrejas de Gondar, na Etiópia...
Leiris muitas vezes se envergonha deste comportamento: « Ainda não nos
aconteceu de comprar de um homem ou uma mulher todas as suas roupas,
deixando os nus pela estrada, mas isso certamente irá ocorrer ». Mas por
um momento ele mesmo confessa sentir certo prazer neste tipo de
sacrilégio: « o que me impele é a idéia de profanação... ».
Leiris suporta mal o que vê na
colonização e na exploração dos colonizados. A respeito dos funcionários
na colônia ele percebe « a mesma existência mesquinha [que na
metrópole], a mesma vulgaridade, a mesma monotonia e a mesma destruição
sistemática da beleza », notando que « Missionários e
comerciantes se esforçam em corromper o país ». Sua lucidez crítica
(e muitas vezes autocrítica) é devastadora: « Tenho horror a este
mundo de estetas, moralistas e suboficiais. Nem a aventura colonial, nem
o devotamento à ‘Ciência’ serão capazes de reconciliar-me com uma ou
outra dessas categorias ». Mesmo desiludido com os objetivos e
procedimentos da ‘ciência’, ele se mantém concentrado nas suas pesquisas
e investigações: as práticas de circuncisão, as sociedades de crianças
em Bamako, os segredos das máscaras e das ’’sociedades de homens’’ no
país Dogon (ver La Langue secrète des Dogons de Sanga -1937), o
fenômeno do transe de possessão pelas diversas entidades, deuses ou
gênios (dyidé, ollé horé, vodouns...), e em particular os zar,
em Gondar (ver La possession et ses aspects théâtraux chez les
Ethiopiens de Gondar -1958).
A sensação de estar em “defasagem’’ é
quase sempre presente. No Senegal, por exemplo, ele remarca: « As
pessoas se divertem muito com nossas perguntas, que lhes parecem
improváveis, de tão fúteis. Ocorre o mesmo com nossas compras, pois
todos os utensílios que possuem são rudimentares -eles sabem disso- e,
aparentemente, não são feitos para atrair os estrangeiros ».
Na África a comunicação e a
convivência com os Africanos em nível igualitário se revelam difíceis,
tanto por causa da sua condição de branco representante do poder
colonial como, às vezes, por causa do seu próprio constrangimento.
Leiris consegue se relacionar mais facilmente com as crianças, sempre
alegres. As situações calorosas ou burlescas e a magia das narrativas o
encantam. Sempre em busca das formas de evasão do cotidiano, ele
privilegia as situações poéticas e as manifestações do sentimento
religioso. No país Dogon, por exemplo, em Bandiagara, seu encontro com
este poderoso sentimento místico, que lhe atrai, ocorre de maneira
intensa. A efervescência dos transes, em particular a convivência com os
possuídos em Gondar, lhe permite essa evasão. A respeito da possessão,
ele revela que « Preferia ser possuído a estudar os possuídos;
conhecer carnalmente uma ‘zara’ a conhecer cientificamente todas suas
circunstâncias. O conhecimento abstrato, para mim, nunca deixará de ser
apenas a pior das hipóteses… ». No entanto, ele não consegue se
entregar totalmente a essa religiosidade efervescente, por muitos
motivos: a sua educação (que ele amaldiçoa), o seu estatuto de europeu e
o seu mal-estar.
Cerca de oitenta anos após esta viagem,
qual é o interesse de ler A África Fantasma?
Como verdadeiro diário de bordo de uma
missão científica, o livro traz um material importante sobre a história
da antropologia. Trata-se da etnografia das sociedades africanas, mas
também da etnografia do grupo de pesquisadores no contexto colonial.
Provavelmente pela primeira vez, um livro mostra os bastidores da
produção científica, revelando aspectos silenciados da pesquisa,
procedimentos nada gloriosos, nobres ou desinteressados... Os métodos
interrogatórios de Griaule são muitas vezes autoritários e brutais. Ele
não hesita em pedir aos Africanos para fazerem seus rituais sob
encomenda, ou simularem sacrifícios, etc. Apesar de tudo esta expedição
foi considerada um sucesso. Depois Griaule vai se tornar o leader
da etnologia africanista francesa e especialista dos Dogons (retornando
muitas vezes à Sanga e Bandiagara para pesquisar durante anos). A equipe
de Griaule tem também o mérito de propor um possível modelo alternativo
à tradicional e individual « observação participante » de tipo
anglo-saxã: um modelo da pesquisa intensiva e sistemática numa área
delimitada com muitos pesquisadores trabalhando de maneira coletiva e em
sincronia.
Fato novo na época, A África
Fantasma prioriza a subjetividade na produção do conhecimento.
Leiris defende a tese de que é pela subjetividade, levada ao seu
paroxismo, que se alcança a objetividade. As interrogações existenciais
e as introspecções de Leiris, o seu egocentrismo, as suas obsessões
eróticas e frustrações sexuais, podem parecer cansativas e até mesmo
irritar o leitor. Mas o senso de humor do autor, que se manifesta tanto
nas descrições exteriores como na sua auto-análise, imprime certa leveza
irônica ao texto. Leiris narra muitas anedotas picantes e gostosas.
Sobretudo, através da escrita e do
trabalho da língua, ele se torna capaz de enfrentar um olhar
retrospectivo, auto-crítico. Trata-se de uma forma de reflexividade que
nesta época ainda era pouco comum, a fortiori na área da
antropologia – pois a disciplina postulava o distanciamento como
condição da objetividade. Apenas a partir dos anos 1980 e 1990, com a
crítica deconstructivista e ‘pós-modernista’, que a introdução de uma
necessária reflexividade começa a ser levada em conta.
Apesar deste diário ter sido escrito
no calor dos acontecimentos, com uma ambição a priori mais
documentária que literária, (o texto não foi reescrito), o interesse
literário é evidente. Leiris se dedica e se revela na escritura,
escrevendo com muita regularidade e constância. Às vezes, o caderno de
campo lhe parece « o mais odioso dos grilhões », mas em geral é um
passatempo necessário e agradável, e pode-se dizer que escrever
representa para Leiris uma forma de catarse.
« Desde a origem, ao redigir este
diário, lutei contra um veneno: a idéia de publicação » escreve o
jovem etnólogo francês. Mas, logo depois do fim da viagem, em 1934, o
texto é publicado. A coragem e a honestidade intelectual do autor em
publicar este diário são notáveis. Deve-se lembrar que o caderno de
campo de Malinowski, por exemplo, um documento fascinante -que nunca foi
escrito para ser publicado- somente foi editado anos depois da morte do
seu autor e contra a sua vontade.
Marcel Griaule, além de não gostar da
maneira como Leiris exibe seus tormentos psicológicos, se irritou muito
com a publicação deste texto que não esconde a face obscura da expedição.
Griaule rompeu relações com Leiris. Muitos antropólogos ficaram
perplexos e incomodados com essa publicação. Prova suplementar da
liberdade de tom e do poder subversivo deste diário, o livro foi jogado
à fogueira durante a ocupação nazista.
[1] Como membros
permanentes, além de Leiris e Griaule, estão: o naturalista Larget, o
técnico e cineasta Lutten. Os outros membros são o naturalista Faivre, os
lingüistas Mouchet e Lifchitz, o etnomusicólogo Schaeffner, o pintor Roux
e enfim Oukhomsky.
(*)
Jérôme
Souty é doutor em antropologia social, EHESS, Paris e faz Pós
doutorado no Instituto de Medicina Social da UERJ.
Atualizado em 29/07/08