"Provetas e clones: uma antropologia das novas tecnologias
reprodutivas",
por Carmen Susana Tornquist
(*)
Dados
do livro:
Título: Provetas e clones: uma antropologia das
novas tecnologias reprodutivas
Autora: Naara Luna
Editoral: Fiocruz
Número de Páginas: 300 |
|
O livro de Naara Luna foi lançado em
2007, pela Editora da Fiocruz, e faz parte da coleção Antropologia e
Saúde, ao lado de outras referências fundamentais no campo da chamada
saúde reprodutiva e dos processos de medicalização dos corpos femininos.
Esta coleção expressa o desejo da Editora de estimular, a longo prazo,
o crescente, porém, difícil diálogo entre ciências sociais e
antropologia e ciências da saúde e saúde coletiva (grifos meus).
Creio ser importante tomar em consideração este aspecto, ainda que seja
difícil saber como o livro será lido e interpretado pelos profissionais
da saúde, que vem compondo este novo campo de saber-poder biomédico, tão
prestigioso quanto heterogêneo, como nos mostra a autora.
Embora dialogue todo o tempo com a
literatura de cunho feminista e dos estudos de gênero, a autora
estabelece uma interlocução prioritária com a antropologia, campo
disciplinar no qual Naara especializou-se, não sem antes ter feito
teologia, e é é fruto de um significativo percurso de pesquisa e de
formação desta jovem antropóloga reconhecida como uma das pesquisadoras
do campo de estudos feministas e/ou de gênero que tem se dedicado a
refletir sobre o complexo e fascinante tema das assim chamadas novas
tecnologias da reprodução (NTR) ou da reprodução assistida. Campo este
no qual muitas/os antropólogas/os e outras/os cientistas sociais vem
refletindo há anos chamando atenção para um dos pontos cruciais que é o
da imensa medicalização da saúde das mulheres e da reiteração da
maternidade como um destino biológico. O objetivo da autora é
“fazer uma análise antropológica das novas tecnologias reprodutivas e da
clonagem humana” a partir das representações de profissionais de saúde
de quatro serviços públicos no sudeste do Brasil, voltados a promover a
reprodução humana através de procedimentos que “substituem a relação
sexual”, e das usuárias destes serviços, durante os anos de 2002 e 2003.
No campo da antropologia, esta temática tem viabilizado um revigoramento
significativo das teorias clássicas de parentesco, tão seminais para a
constituição da disciplina. Daí a propriedade do subtítulo da tese:
teorias da concepção, pessoa e parentesco nas novas tecnologias da
reprodução, a meu ver, mais adequado do que o escolhido para o livro.
Aliás, um dos pontos altos do livro é justamente a recuperação (para nós,
antropólogos/as) ou a apresentação(para os profissionais de saúde e
leitores em geral) de autores clássicos que se debruçaram sobre as
intrincadas, complexas e fascinantes teorias da concepção e do
parentesco partilhadas por outras sociedades.
A descrição dos autores que tratam das
teorias da concepção parece muito adequada ao objetivo da coleção. Neste
sentido, cabe destacar a importância do sub-capítulo Teorias da
concepção (cap.4), que me parece ser, junto com os dois últimos
capítulos, o mais importante no sentido da explanação do olhar
antropológico a pesquisadores de outras áreas. Ele traduz a complexidade
das questões que estão envolvidas nas NTR, tanto no âmbito do parentesco
propriamente dito, quanto nos desdobramentos deste para relativização
das teorias ocidentais acerca dos vínculos entre sexualidade e
reprodução, das formas de pensar a “fisiologia” feminina/masculina, e da
própria noção de construção da pessoa.
Um aspecto que chama atenção é a
própria noção de “filhos sem sexo”, ou “reprodução sem relação sexual”,
que a autora utiliza com freqüência. Entretanto, entre os casais
inférteis/mulheres inférteis, que vivem em conjugalidade estável o
problema reside no fato de que as relações sexuais não resultam na
reprodução, já que não concebem bebês. Serem casadas, heterossexuais e
estarem em idade fértil é condição sine qua non para as mulheres
ganharem sua ficha nas longas filas de espera dos serviços analisados. A
situação destas é distinta daquela das mulheres inglesas que, nos anos
90, passaram a buscar as Novas tecnologias da reprodução para ter filhos
sem ter que vivenciar algum intercurso sexual com homens.[1]
Nos capítulos 4 e 5 são expostas e
analisadas as concepções de pessoa e parentesco, de corpo e de concepção,
que circulam entre as usuárias, os profissionais e os parentes a quem
foram confiados os segredos. E é neles, também, que a autora recorre
mais amiúde à literatura antropológica, inclusive aquela relativa à
adoção e circulação de crianças, bem como das práticas contraceptivas em
geral, temas que fazem coro às NTR e que estão presentes nas referências
das usuárias. Aí encontramos uma profusão de informações sobre as
técnicas de reprodução, as diferenças entre inseminação e fertilização
convencionais e as in vitro e destas entre si e as siglas e
expressões que compõe todo um novo jargão médico, acentua os rearranjos
permanentes nas especialidades que passam a incorporar estas técnicas,
ou aquelas que são criadas ou que migram para o campo biomédico, junto
com o crescente peso da formação acadêmica mais especializada neste novo
campo de saber-poder e as dificuldades de apreensão dos detalhes da
população leiga no assunto, entre elas, as próprias usuárias, cuja
formação no assunto se dá em paralelo ao extenuante processo de
submissão aos tratamentos.
A autora recorreu à observação e a
entrevistas com mulheres, usuárias de quatro serviços públicos de
fertilização/reprodução, três em São Paulo e um no Rio de Janeiro, no
qual foi feita a etnografia mais longa, que compõem o mapa da
peregrinação de mulheres “inférteis”, descritos de forma contextual e
sensível pela pesquisadora. Foram feitas 23 entrevistas com
profissionais de saúde (não apenas médicos, não apenas homens), com
roteiro voltado às questões técnicas e éticas, e 63 entrevistas com
usuárias (gravadas e/ou registradas em diário de campo) de camadas
médias e de classes populares, feitas no próprio serviço, o que revela a
densidade do campo realizado.
Percebe-se o seu constante cuidado em
tecer comparações entre representações das mulheres de classes populares
e de camadas médias, o que é feito não sem travar um belo diálogo com a
tradição dos estudos sócio-antropológicos sobre família e sexualidade no
Brasil. A partir deste diálogo é que a autora percebe que, também em seu
caso, as mulheres de camadas médias partilham não apenas o mesmo
ethos que os profissionais que as atendem - seus “aliados” na luta
pela reprodução, mas – e provavelmente, exatamente por isso – desfrutam
de privilégios no tratamento interpessoal, ao contrário das mulheres
pobres, que, ao revés, costumam ouvir uma série de conselhos
pedagogizantes, tendo por tema sua sexualidade, seja de uma forma
infantilizadora seja mesmo, violenta:
A médica perguntou:
Então, a relação é uma droga? Você não sente nada? Você não goza?
Depois, sugeriu que ela deveria melhorar a vida sexual antes de querer
ter um filho. Ela respondeu que sentia dor por causa da doença. Contou
sorrindo encabulada que tinha relações com o marido quase todos os dias.
A médica comentou, depois: ‘Essa mulher quer ter filho com um homem com
quem não tem uma relação boa’ (p.123;grifos meus)
Ou seja, apesar de os profissionais,
em princípio, serem aliados na cruzada em prol do desejo de um
filho biológico, estas alianças não parecem abarcar as mulheres
que advém dos meios populares. Este tipo de tratamento, recorrente na
literatura, aponta para o que a autora designa, sabiamente, de
etnocentrismo de classe. A meu ver, este etnocentrismo se sustenta,
justamente, na questão da reprodução, que é uma forma de dizer, também,
“sexualidade”, bio-poder. São realmente digas de nota as expressões e as
opiniões dos/das profissionais para referirem-se as mulheres pobres:
“Essas mulheres não tem perspectiva e não querem ir pra frente. Que
chances elas tem de fazer uma faculdade?”, “Elas não conhecem o
próprio corpo”, “Essa mulher quer ter filho com um homem com quem
ela não tem uma relação boa”; referidas no capítulo 3 (A resposta
da biomedicina e o engajamento das usuárias). Como se vê, as
acusações referem-se à sexualidade das mulheres pobres, às suas formas
próprias de dispor de seus corpos e aos significados atribuídos aos
filhos e às relações conjugais que estabelecem ao longo de suas vidas.
Neste sentido, cabe lembrar que, muitas vezes em programas ditos de
“humanização do atendimento”, os profissionais buscam suavizar as formas
de tratamento, chamando pacientes pelos nomes, incluindo expressões de
reverência nas suas falas[2];
no entanto; estas não são mais do que uma dimensão superficial e
infantilizadora: seguem se baseando em representações duplamente
etnocêntricas: quanto ao gênero (são mulheres) e quanto à classe (são
pobres). O livro é cheio de falas neste sentido:
Em tom de piada os
médicos relatavam situações anedóticas, como a de uma mulher que não
engravidava, e depois se descobriu que o marido mantinha exclusivamente
relações anais com a esposa. (..) Embora o médico comentasse que as
pacientes não sabiam contar os dias do ciclo menstrual, conhecimento
importante para a ministração de medicamentos e o cálculo do dia fértil,
julgavam inútil explicar, partindo do princípio de que elas não
entenderiam (p.122)
Naara destaca o notório não-reconhecimento das mulheres pobres como
sujeitos de direitos, sujeitos de seus corpos, sexos e escolhas, como
mostra este caso flagrante de preconceito e/ou desconhecimento dos
profissionais de saúde acerca das experiências culturais e das escolhas
destas mulheres que são as principais usuárias dos serviços públicos e
maioria da população brasileira. Para além do aprendizado do controle
das emoções e do aprendizado das técnicas corporais, como coloca autora,
a formação médica não se modificou nos últimos tempos, com seu quase
congênito etnocentrismo de classe. A herança higienista também no campo
das NTR e dos serviços públicos se renova e se articula com elementos do
“admirável mundo novo”, preservando inabalável a permanência da velha
representação da maternidade, aquela, da mater dolorosa, da mãe
sacrificial, da mulher- útero-ambulante. E as entrevistas ressaltam um
tom muitas vezes heróico, comum em narrativas feitas para um
interlocutor interessado como a antropóloga e profissionais, remetendo à
freqüente imagem da mulher valente, que faz tudo para ter um filho de
seu próprio ventre. E aqui se destaca a centralidade do corpo
grávido nas representações das usuárias, mais decisivo na conformação da
maternidade do que a fertilização “fora do útero”, viabilizada pela
tecnologia.
As lutas travadas em prol do filho são
narradas de forma entre a queixosa e a heróica, e nelas são assinalados
uma série de sintomas de desconforto físico e de dor, e um não menos
conjunto de emoções extenuantes e estresse emocional, a sensação de que
o corpo foi “perfurado”, invadido, peneirado, aplainado: Nosso corpo
é uma peneira, diz uma mulher; outra reporta-se à recorrente imagem
da figueira sem frutos, arrematando: você vai virar tábua para outros
passar, tem que cortar e fazer lenha.
As condições exigidas para admissão
das mulheres na fila de espera heteronormativas, tendo como quesitos o
estado civil, a paridade e a idade. Os estados inegáveis de estresse e
sofrimento psíquico, referidos pelos profissionais e pelas usuárias,
parecem ser parte do calvário “natural”, e tem sido fortemente
criticados por várias estudiosas, e remetem, sem duvida, ao bem
conhecido vaticínio bíblico do gênesis: “por entre dores, parirás teu
filho”, alvo da rebeldia dos adeptos do Parto sem Dor na década
de 60, e aqui reiterado, em um momento anterior ao parto. Mesmo assim,
as mulheres que entregam seus corpos ao corpo médico, não deixam de se
perguntar, incessantemente, sobre os limites desta reprodução “sem
sexo”, e sobre os limites mesmo do próprio saber médico, em parte
porque grande parte dos tratamentos e demorada e infrutífera, suscitando,
talvez, os questionamentos teológicos e éticos de forma permanente.
Assim, ainda que imersas numa rotina de exames, consultas, procedimentos,
cronometragens alheias aos desejos da carne, e pedintes de um filho que
seja “seu” (parido de seu corpo), muitas resistem “pequenamente”, nas
suas crenças sobre os mistérios da vida: “Médico não é deus. É deus
que decide se você vai engravidar ou não” (p.120) Ou ainda, como diz
Marilu: Acho que só ficou quem queria ficar. Quem Deus programou para
vir mesmo. (p.120 ,grifos meus)
Através das informantes, percebe-se o
quanto a teoria monogenética se faz presente nas representações sobre a
reprodução, atribuindo um maior valor ao sêmen (noção de qualidade), ou,
como já mostraram outro estudos[3],
deslocando a chamada infertilidade da mulher para o casal, poupando o
“fator masculino” da pecha de esterilidade, ainda que de forma
heterogênea e nuançada. Daí, aliás, o primado do corpo grávido e da
necessidade do embrião desenvolver-se naquele corpo “oficial”,
garantindo a biologia da maternidade, que se dá ao mesmo tempo em que os
homens desaparecem do cenário dos serviços, logo a pós a doação do
sêmen.
Nos dois últimos capítulos, a autora
se debruça sobre a temática religiosa, que vem se impondo ao longo do
texto, através das suas próprias informantes, que fazem reflexões acerca
das causas últimas do êxito ou fracasso da fertilização.
Vemos aqui uma profusão de diálogos e de falas nas quais as mulheres
usuárias referem-se à força divina e à participação de Deus nos assuntos
referentes à reprodução, ressaltado por Luis F. D. Duarte e na
articulação aparece também associada à figura do médico, este personagem
que, junto com outros da cena da reprodução “sem sexo”, veio a ocupar um
lugar, talvez ainda mais central do que ocupara antes, no longo processo
de medicalização da vida: “Ele toca na gente com umas mãos...”;
“Parece que é um anjo de deus”. “Parece que como mora um anjo d’Ele nele,
que ele é um médico maravilhoso” (p.120) Ou ainda outras duas
usuárias: "Abaixo de deus, só os médicos” ou “ Só deus mesmo, e os
médicos”.
Quis o destino, que costuma ser
generoso com os etnógrafos, que, por ocasião do trabalho de campo,
estivesse sendo exibida em horário nobre a novela O clone, na
qual justamente questões como clonagem e reprodução assistida estavam em
cena, compondo uma das tramas centrais da narrativa. Parentesco e
segredo de origem, dois temas constantes nas novelas brasileiras. Seria
impossível não observar a centralidade com que temas relacionados ao
parentesco são constantes das novelas brasileiras, e como se consolida
como um dos principais espaços de divulgação deste lucrativo mercado
biomédico, um dos “eixos fundamentais da do modelo econômico e político
vigente e hegemônico na contemporaneidade”.[4]
Cabe destacar a criatividade com que a autora trabalhou com esta espécie
de etnografia da audiência, não em termos clássicos, mas fazendo das
novelas da Globo fontes de reflexão e de interlocução mesma com as suas
informantes. Ou seja, de forma diluída e a partir das informantes, a
autora faz uma análise da recepção de uma das mais populares fontes de
informação acerca da reprodução assistida, qual seja, as matérias
divulgadas nas mídias, dimensão fundamental para quem trabalha com
antropologia em sociedades urbanas. E é por este caminho que Barriga
de Aluguel, novela (e expressão) bem mais antiga que o Clone,
aparece re-atualizada no momento da pesquisa, presente na memória de
todos, incluindo os profissionais. As várias discussões acerca de
inseminação convencional, fertilização em laboratório, adoção e gestação
de aluguel são reveladoras do quanto à importância de a gestação ser
visibilizada e “socializada” através da barriga grávida e, depois, dos
seios com leite, reponta como chave na representação das mulheres
entrevistadas e reitera a idéia de que as novas tecnologias, para usar
uma expressão de Lucila Scavone[5],
apesar das novidades, seguem atualizando antigos conflitos, paradoxo que
faz da leitura do livro, como diz Jane Russo na apresentação, uma
leitura obrigatória para quem pensa tudo saber.
Referências Bibliográficas
DINIZ, Carmem Simone Grilo. Entre a técnica e os direitos humanos:
limites e possibilidades da humanização da assistência ao parto e
nascimento. São Paulo, 2001. Tese (Doutorado em Medicina Preventiva)
Universidade de São Paulo.
ROTANIA, Alejandra. Novas tecnologias reprodutivas conceptivas no
contexto da tecnociência. IN: GROSSI, M., PORTO, R.; TAMANINI, M.
Novas tecnologias reprodutivas conceptivas: questões e debates.
Brasília:Letras Livres, 2003 p.12-30
SCAVONE, Lucila. Dar a vida, cuidar da vida: feminismo e ciências
sociais. São Paulo: Editora da UNESP,2004.
STRATHERN, Marilyn. Necessidade de pais, necessidade de mães. Revista
Estudos Feministas vol.3,n.2.1995, p.3030-329.
TAMANINI, Marlene.Do sexo cronometrado ao casal infértil. In: Novas
tecnologias reprodutivas conceptivas: questões e debates. Letras
Livres, Brasília, 2003.,p.123-138.
TORNQUIST, Carmen Susana. Paradoxos da Humanização: etnografia de uma
maternidade. Cadernos de saúde publica, Rio de Janeiro, Fiocruz,
supl.2, 2002.
[1] STRATHERN
(1995).
[2] DINIZ (2001).
[3] TAMANINI
(2003).
[4]
ROTANIA (2003).
[5] SCAVONE (2004).
(*)
Carmen Susana Tornquist é antropóloga, professora da UDESC/SC e
participante do Instituto de Estudos de Gênero(IEG).
Atualizado em 20/06/08