"A Distinção",
por Alexandre Bergamo
(*)
Dados
do livro:
Título: A Distinção: crítica social do julgamento
Autor: Pierre Bourdieu
Editora: Edusp; Co-editora: Zouk
Número de Páginas: 560 pp. |
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A primeira vez em que tive contato com
A Distinção, de Pierre Bourdieu, foi no início de minha pesquisa
de mestrado, há mais de 10 anos. Naquele momento, a versão disponível e
utilizada era a original em francês, finalmente agora traduzida para o
português, o que, seguramente, irá permitir sua circulação junto a um
número maior de leitores. Havia iniciado minha pesquisa sobre moda e,
evidentemente, não poderia deixar de conhecer a “maneira” como Bourdieu
trabalhava a questão do gosto. Esse foi o meu primeiro contato com
Bourdieu e parto dele exatamente porque acredito que seja também, para
muitos jovens pesquisadores o primeiro contato com sua obra. Contudo,
esse primeiro contato, com esse direcionamento tão “objetivo” (o mais
correto seria dizer “parcial”), não permite que se perceba a riqueza
analítica que o trabalho de Bourdieu apresenta. Não se trata apenas de
uma sociologia dos gostos, como pode parecer à primeira vista. Questões
de maior profundidade, em termos de métodos e de análise, estão ali
presentes e trata-se de uma grande obra exatamente por essas questões.
A Distinção combina a
etnografia com uma refinadíssima análise estatística. Parte do
refinamento dessa análise se deve exatamente à sua combinação com a
etnografia. O lugar comum sociológico de que os agentes sociais operam
uma “construção” do mundo social ou mesmo o de que as interações
baseiam-se na percepção das diferenças sociais cede lugar à indagação a
respeito daquilo que pode ser considerado como a “gênese social dos
princípios de construção do mundo social”. É impossível encontrar essa
gênese por meio da etnografia e do corte temporal que ela opera.
Justamente aí é que a estatística se torna um instrumento da maior
importância: ela ajuda a compreender a lógica que se encontra no
princípio das distribuições que se estabelece. Da mesma forma, seria
impossível para a estatística, por si só, fornecer indícios para a
compreensão dessa gênese, uma vez que a tradição sociológica reduz o
universo social a um continuum de estratos abstratos, não
percebendo, com isso, a dependência social existente entre variáveis
consideradas “independentes”.
A análise das mudanças sociais, dentre
elas o gosto, deve, portanto, levar em conta as mais diversas
trajetórias assim como as condições possíveis em que elas ocorrem. É
isso que está no cerne da noção de habitus, tão cara a Bourdieu.
Seja a “vocação”, seja a adesão estética a um certo estilo de vida
(“isso me cai bem”, “essa profissão tem a ver comigo”), ambas têm como
pressuposto a homogeneidade das disposições associadas a uma posição e
ao seu ajuste por meio da trajetória social. A “vocação”, nesse sentido,
nada mais é do que a adesão antecipada a um destino social.
Isso não significa, em hipótese
alguma, que a mudança social deva ser lida na forma do continuum
que Bourdieu tanto critica. Significa, sim, que mudanças estruturais
acontecem, mas estão sujeitas ao imperativo do habitus, que irá
direcionar os ajustes possíveis às trajetórias sociais, uma vez que
indica as formas de percepção e de apreensão do mundo por meio das
“práticas”. O gosto pode representar, nesse caso, um instrumento de
dissimulação, uma vez que ele é o operador prático da transmutação das
coisas em sinais distintos e distintivos, das distribuições contínuas em
oposições descontínuas. Ou seja, as variações de gosto, antes de
representar uma mudança social (dos “comportamentos”), pode representar
a continuidade ou a atualização das diferenças sociais ou de suas
estratégias de diferenciação. Isso só se torna visível graças a uma
utilização da estatística direcionada para a questão das chances sociais
possíveis no interior de trajetórias objetivas e objetivadas. O que ela,
a estatística, revela, é a manutenção de uma ordem garantida por meio de
uma incessante mudança das propriedades substanciais. Mudanças essas que
nunca poderiam ser percebidas tendo como pressuposto de análise o
continuum entre estratos abstratos. Ao invés de condições
diferentes, os instrumentos de distinção eternizam a diferença de
condições. Nada é mais expressivo do significado e da importância das
trajetórias sociais para a análise do que o “sentido” expresso por elas
por meio de uma relação “temporal”: para o pequeno-burguês, as classes
inferiores são tomadas como o “passado” que deve ser deixado para trás e
a burguesia como o “futuro” a que se deve chegar.
Isso faz também com que a trajetória
social, ao invés de ser percebida nos próprios termos em que ocorre,
seja concebida como “representação e vontade”. O uso tão trivial da
expressão “precoce” só ganha pleno significado quando compreendido no
interior dessas trajetórias. É a percepção antecipada de uma antiguidade
social possuída, ou seja, de todos aqueles traços passíveis de serem
entendidos como distintos e distintivos e que o habitus
reconhece. As trajetórias sociais são, assim, impelidas na direção da
coincidência entre estruturas e seqüências homólogas pelas quais se
realiza a concordância entre uma pessoa socialmente classificada e as
coisas ou as pessoas que lhe estão vinculadas. Isso transcende a questão
do consumo e se expressa até mesmo por meio das escolhas amorosas. Como
afirmou Bourdieu, “o amor é também a maneira de amar seu próprio
destino em um outro e de sentir-se amado em seu próprio destino” (p.
228).
Se a questão do gosto representa o
primeiro contato de alguns jovens pesquisadores com Bourdieu, a questão
da educação representa outro contato possível, este geralmente
empreendido por profissionais ou jovens pesquisadores da área de
educação. Mas, da mesma forma que o trabalho de Bourdieu não pode ser
pensado tão somente como uma sociologia do gosto, reduzir seu trabalho a
uma sociologia da educação pode representar equívoco semelhante, ainda
que amparado por seus trabalhos anteriores sobre a educação. Trata-se,
em muitos casos, de uma apropriação “parcial” tanto da obra de Bourdieu
quanto do papel e do significado do ensino frente às demais
transformações sociais e aos princípios de hierarquização que operam
essa transformação. No caso de A Distinção, a oposição entre
aprendizagem familiar e aprendizagem escolar, tema que Bourdieu já vinha
trabalhando, também deve ser entendida no interior dessa luta simbólica
pelas trajetórias sociais. Se, por um lado, uma pode implicar uma
inserção precoce em um mundo de pessoas, práticas e objetos cultos; por
outro, o ensino racional proporciona substitutos à experiência direta.
Mas, uma vez que a percepção do mundo social é um ato de conhecimento
que faz intervir princípios de construção, a relação com os conteúdos
transmitidos pela escola não é e nem pode ser homogênea. Nada mais
estranho ao pensamento de Bourdieu do que certas adesões missionárias ao
ensino que propõem uma “melhor distribuição – mais igualitária – do
capital cultural”. Ou a suposição, também igualmente militante e
missionária, de que a diminuição da desigualdade material pode
direcionar as “práticas escolares” no sentido de uma maior igualdade de
oportunidades.
Em primeiro lugar, apenas aqueles que
devem o essencial de seu capital cultural à escola é que são
particularmente submissos à definição escolar de legitimidade. Aqueles
indivíduos cuja relação com os conteúdos escolares é mediada por uma
familiaridade que se encontra na origem social e na inserção precoce
tratam os mesmos de forma menos tensa e submissa. Segundo, a inflação de
diplomas só representa um “crescimento das oportunidades” quando
expressa por meio de uma diferença numérica (o número de diplomas)
“independente”, o que Bourdieu tanto criticou, das demais transformações
estruturais da sociedade. Quando visto em relação a essas mesmas
oportunidades, o número crescente de diplomas nada mais representa que
uma forma de dissimulação dos princípios de hierarquização sociais dos
quais o próprio mercado de diplomas faz parte.
Trata-se de uma obra difícil, mas de
grande originalidade pelas formulações e análises que propõe. Ela perde
em demasia quando lida ou tratada de forma parcial, como se fosse apenas
uma crítica bem formulada à defesa erudita do gosto ou do ensino
elitizados.
(*)
Alexandre Bergamo é doutor em Sociologia, área de Sociologia da
Cultura, professor do Curso de Ciências Sociais da UNESP – Campus de
Marília e do programa de Pós-Graduação na mesma instituição.
Atualizado em
02/04/08