Resenha (Edição nº 41)

"A Distinção", por Alexandre Bergamo (*)    

Dados do livro:
Título: A Distinção: crítica social do julgamento
Autor: Pierre Bourdieu
Editora: Edusp; Co-editora: Zouk
Número de Páginas: 560 pp.

A primeira vez em que tive contato com A Distinção, de Pierre Bourdieu, foi no início de minha pesquisa de mestrado, há mais de 10 anos. Naquele momento, a versão disponível e utilizada era a original em francês, finalmente agora traduzida para o português, o que, seguramente, irá permitir sua circulação junto a um número maior de leitores. Havia iniciado minha pesquisa sobre moda e, evidentemente, não poderia deixar de conhecer a “maneira” como Bourdieu trabalhava a questão do gosto. Esse foi o meu primeiro contato com Bourdieu e parto dele exatamente porque acredito que seja também, para muitos jovens pesquisadores o primeiro contato com sua obra. Contudo, esse primeiro contato, com esse direcionamento tão “objetivo” (o mais correto seria dizer “parcial”), não permite que se perceba a riqueza analítica que o trabalho de Bourdieu apresenta. Não se trata apenas de uma sociologia dos gostos, como pode parecer à primeira vista. Questões de maior profundidade, em termos de métodos e de análise, estão ali presentes e trata-se de uma grande obra exatamente por essas questões.

A Distinção combina a etnografia com uma refinadíssima análise estatística. Parte do refinamento dessa análise se deve exatamente à sua combinação com a etnografia. O lugar comum sociológico de que os agentes sociais operam uma “construção” do mundo social ou mesmo o de que as interações baseiam-se na percepção das diferenças sociais cede lugar à indagação a respeito daquilo que pode ser considerado como a “gênese social dos princípios de construção do mundo social”. É impossível encontrar essa gênese por meio da etnografia e do corte temporal que ela opera. Justamente aí é que a estatística se torna um instrumento da maior importância: ela ajuda a compreender a lógica que se encontra no princípio das distribuições que se estabelece. Da mesma forma, seria impossível para a estatística, por si só, fornecer indícios para a compreensão dessa gênese, uma vez que a tradição sociológica reduz o universo social a um continuum de estratos abstratos, não percebendo, com isso, a dependência social existente entre variáveis consideradas “independentes”.

A análise das mudanças sociais, dentre elas o gosto, deve, portanto, levar em conta as mais diversas trajetórias assim como as condições possíveis em que elas ocorrem. É isso que está no cerne da noção de habitus, tão cara a Bourdieu. Seja a “vocação”, seja a adesão estética a um certo estilo de vida (“isso me cai bem”, “essa profissão tem a ver comigo”), ambas têm como pressuposto a homogeneidade das disposições associadas a uma posição e ao seu ajuste por meio da trajetória social. A “vocação”, nesse sentido, nada mais é do que a adesão antecipada a um destino social.

Isso não significa, em hipótese alguma, que a mudança social deva ser lida na forma do continuum que Bourdieu tanto critica. Significa, sim, que mudanças estruturais acontecem, mas estão sujeitas ao imperativo do habitus, que irá direcionar os ajustes possíveis às trajetórias sociais, uma vez que indica as formas de percepção e de apreensão do mundo por meio das “práticas”. O gosto pode representar, nesse caso, um instrumento de dissimulação, uma vez que ele é o operador prático da transmutação das coisas em sinais distintos e distintivos, das distribuições contínuas em oposições descontínuas. Ou seja, as variações de gosto, antes de representar uma mudança social (dos “comportamentos”), pode representar a continuidade ou a atualização das diferenças sociais ou de suas estratégias de diferenciação. Isso só se torna visível graças a uma utilização da estatística direcionada para a questão das chances sociais possíveis no interior de trajetórias objetivas e objetivadas. O que ela, a estatística, revela, é a manutenção de uma ordem garantida por meio de uma incessante mudança das propriedades substanciais. Mudanças essas que nunca poderiam ser percebidas tendo como pressuposto de análise o continuum entre estratos abstratos. Ao invés de condições diferentes, os instrumentos de distinção eternizam a diferença de condições. Nada é mais expressivo do significado e da importância das trajetórias sociais para a análise do que o “sentido” expresso por elas por meio de uma relação “temporal”: para o pequeno-burguês, as classes inferiores são tomadas como o “passado” que deve ser deixado para trás e a burguesia como o “futuro” a que se deve chegar.

Isso faz também com que a trajetória social, ao invés de ser percebida nos próprios termos em que ocorre, seja concebida como “representação e vontade”. O uso tão trivial da expressão “precoce” só ganha pleno significado quando compreendido no interior dessas trajetórias. É a percepção antecipada de uma antiguidade social possuída, ou seja, de todos aqueles traços passíveis de serem entendidos como distintos e distintivos e que o habitus reconhece. As trajetórias sociais são, assim, impelidas na direção da coincidência entre estruturas e seqüências homólogas pelas quais se realiza a concordância entre uma pessoa socialmente classificada e as coisas ou as pessoas que lhe estão vinculadas. Isso transcende a questão do consumo e se expressa até mesmo por meio das escolhas amorosas. Como afirmou Bourdieu, “o amor é também a maneira de amar seu próprio destino em um outro e de sentir-se amado em seu próprio destino” (p. 228).

Se a questão do gosto representa o primeiro contato de alguns jovens pesquisadores com Bourdieu, a questão da educação representa outro contato possível, este geralmente empreendido por profissionais ou jovens pesquisadores da área de educação. Mas, da mesma forma que o trabalho de Bourdieu não pode ser pensado tão somente como uma sociologia do gosto, reduzir seu trabalho a uma sociologia da educação pode representar equívoco semelhante, ainda que amparado por seus trabalhos anteriores sobre a educação. Trata-se, em muitos casos, de uma apropriação “parcial” tanto da obra de Bourdieu quanto do papel e do significado do ensino frente às demais transformações sociais e aos princípios de hierarquização que operam essa transformação. No caso de A Distinção, a oposição entre aprendizagem familiar e aprendizagem escolar, tema que Bourdieu já vinha trabalhando, também deve ser entendida no interior dessa luta simbólica pelas trajetórias sociais. Se, por um lado, uma pode implicar uma inserção precoce em um mundo de pessoas, práticas e objetos cultos; por outro, o ensino racional proporciona substitutos à experiência direta. Mas, uma vez que a percepção do mundo social é um ato de conhecimento que faz intervir princípios de construção, a relação com os conteúdos transmitidos pela escola não é e nem pode ser homogênea. Nada mais estranho ao pensamento de Bourdieu do que certas adesões missionárias ao ensino que propõem uma “melhor distribuição – mais igualitária – do capital cultural”. Ou a suposição, também igualmente militante e missionária, de que a diminuição da desigualdade material pode direcionar as “práticas escolares” no sentido de uma maior igualdade de oportunidades.

Em primeiro lugar, apenas aqueles que devem o essencial de seu capital cultural à escola é que são particularmente submissos à definição escolar de legitimidade. Aqueles indivíduos cuja relação com os conteúdos escolares é mediada por uma familiaridade que se encontra na origem social e na inserção precoce tratam os mesmos de forma menos tensa e submissa. Segundo, a inflação de diplomas só representa um “crescimento das oportunidades” quando expressa por meio de uma diferença numérica (o número de diplomas) “independente”, o que Bourdieu tanto criticou, das demais transformações estruturais da sociedade. Quando visto em relação a essas mesmas oportunidades, o número crescente de diplomas nada mais representa que uma forma de dissimulação dos princípios de hierarquização sociais dos quais o próprio mercado de diplomas faz parte.

Trata-se de uma obra difícil, mas de grande originalidade pelas formulações e análises que propõe. Ela perde em demasia quando lida ou tratada de forma parcial, como se fosse apenas uma crítica bem formulada à defesa erudita do gosto ou do ensino elitizados.


(*) Alexandre Bergamo é doutor em Sociologia, área de Sociologia da Cultura, professor do Curso de Ciências Sociais da UNESP – Campus de Marília e do programa de Pós-Graduação na mesma instituição.

Atualizado em 02/04/08

 

 

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