"Gênero em Discursos da
Mídia",
por Silvia Garcia Nogueira
(*)
Dados
do livro resenhado:
Título: “Gênero em Discursos da Mídia”
Autor: Suzana Bornéo Funk e Nara Widholzer (orgs.)
Editora: Editora Mulheres/Edunisc
Número de páginas: 334 |
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Tornar visíveis as relações de gênero
na mídia, possibilitando o vislumbre de novos discursos, é o objetivo
compartilhado nos trabalhos da coletânea “Gênero em Discursos da Mídia”,
conforme Suzana Funk e Nara Widholzer esclarecem já na apresentação.
Esta é resultado de um esforço de reunião de análises, de variados
campos de saber disciplinar, que tratam de “questões de gênero e de
representação (ou representatividade) em discursos da mídia” (p.12). As
organizadoras lembram também que é fruto da atuação de ambas na linha de
pesquisa Texto, Discurso e Relações Sociais, do Programa de
Pós-Graduação em Letras da Universidade Católica de Pelotas, na qual
atuam ou atuaram também outros autores da obra.
O livro é composto por quatro partes,
seguindo um critério relativamente tradicional no campo da comunicação
quanto à divisão e ao agrupamento dos artigos: Publicidade (quatro
textos), Revistas (quatro), Cinema e TV (três) e Internet (dois). São
treze autoras e um autor, com trajetórias acadêmicas ligadas às áreas de
Letras/Lingüística, Educação, Humanidades, Ciências Sociais (Antropologia,
Sociologia e Ciência Política), História e Comunicação (Jornalismo e Multimeios).
Apesar da diversidade de abordagens e
objetos de análises, a maioria dos artigos apóia-se em teorias e autores
relacionados à Análise Crítica do Discurso (ACD), assim como em M.
Foucault, compartilhando perspectivas comuns. Isso significa que o ponto
de partida para as investigações sobre gênero na mídia é o entendimento
de que o mundo é desigual e assimétrico quanto às relações de poder
entre os distintos agentes sociais. Neste trabalho, essa idéia remete às
construções discursivas do gênero feminino nas diferentes mídias, no uso
dos meios de comunicação pelos movimentos feministas ou nas relações
estabelecidas entre mulheres através deles.
Seguindo uma orientação peculiar aos
estudos de gênero, todos os autores deixam claro seu lugar de fala,
cabendo para o(a) leitor(a) a pergunta: é possível tratar do assunto de
modo que não seja a partir de um posicionamento crítico? Ou ainda, em
caso positivo, com que finalidade, uma vez que a leitura do conjunto das
análises realizadas revela que a desigualdade e a assimetria de poder
entre os gêneros nas mídias estão intrínsecas aos próprios objetos de
pesquisa?
As motivações para a escrita dos
textos são diferenciadas: constituem parte de trabalho acadêmico
realizado, como dissertação de mestrado, experiência em sala de aula,
artigo publicado em outros lugares ou pesquisas em andamento. O reflexo
disso é que os textos variam quanto à densidade das análises e às
ênfases em dados empíricos ou discussões de natureza mais teórica.
A primeira parte da coletânea é
dedicada à Publicidade. O artigo de abertura (“A Publicidade como
pedagogia cultural e tecnologia de gênero: abordagem
lingüístico-discursiva”), de Nara Widholzer, discute o modo como, ao
longo do tempo, a publicidade opera como uma “tecnologia de gênero” –
para usar um termo da autora -, adicionando às mercadorias que se
pretende vender (idéia relacionada à publicidade) o valor agregado
produzido por estereótipos sociais em relação ao que as mulheres são ou
devem ser (propaganda). Para isso, toma como objetos de investigação
alguns anúncios publicados em revistas direcionadas ao público feminino
(particularmente Reader’s Digest) do período da Segunda Guerra
Mundial até nossos dias (revista Claudia), que são analisados em
detalhes, revelando a produção de uma pedagogia sobre como “ser mulher”,
dentro de padrões culturais hegemônicos. Posicionando-se claramente
diante do assunto, a autora sugere a integração de uma “alfabetização midiática aos currículos escolares” como meio para a desnaturalização de
“representações sociais que se apresentam como fatos” (p. 49).
As representações sociais
estereotipadas dos papéis de gênero nos anúncios publicitários também
são o tema do artigo seguinte (“A representação do Espaço doméstico e
papéis de gênero na publicidade”), de Édison Gastaldo. Para ele, o tempo
e o espaço limitados dos anúncios provocam a necessidade de utilização
de representações extremamente claras e precisas – desse modo, as
representações estereotipadas constituiriam elementos do “discurso
publicitário” (p. 59), engendrando aspectos da cultura. O autor toma por
objeto de análise um anúncio veiculado em uma revista de grande
circulação escolhido entre outros 414 (de televisão, jornais e revistas)
coletados de uma pesquisa em andamento, e, como um referencial teórico
utilizado de modo crítico, Erving Goffman e seu pioneiro estudo
Gender Advertisements, de 1979. Para Gastaldo, quanto ao exemplo,
tanto elementos gráficos quanto textuais contidos na fotografia da
família frente um televisor (mercadoria a ser vendida) durante uma Copa
do Mundo constituem uma imagem construída da família brasileira típica
em casa e o papel de cada um (filho, pai e mãe) nesse espaço doméstico/social.
Representações como essas naturalizariam, assim, relações de poder
existentes, e uma vez que fazem parte de uma “ordem natural” seriam (por
princípio) imutáveis, cumprindo uma função conservadora na cultura
contemporânea.
Ana Lídia Bisol, em “Representações de
gênero na publicidade turística”, esclarece na abertura que é professora
de línguas materna e estrangeira em graduações e que, para solucionar o
problema das dificuldades de leitura e produção textual dos alunos, tem
proposto a análise de textos publicitários de produtos turísticos. Estes
são, então, objetos do artigo, cujos pressupostos teóricos baseiam-se na ACD. Destrinchando os anúncios selecionados em relação a seus elementos
discursivos – imagens, cores, palavras e planos cuidadosamente
escolhidos pelos publicitários para produzirem o efeito desejado -, a
autora aponta para um processo de naturalização (assim como Gastaldo)
dos significados sociais, em que ideologias são perpetuadas por meio de
discursos. A análise crítica de textos proporcionaria, assim, a
revelação de “relações obscurecidas” nos discursos que circulam (p. 73).
Nos casos estudados, fica evidente nos anúncios turísticos a
representação da mulher como “pertence do sexo masculino”. Para Bisol,
não se pode mais “vender uma imagem feminina inferiorizada”, nem esse
“imaginário turístico” brasileiro, quando se almeja “a inclusão social
pelo turismo” (p. 91).
Partindo da idéia de que cada anúncio
é composto por signos que permitem a leitura dos códigos culturais
construídos, e que as narrativas expressam a identidade cultural de um
grupo, Ruth Sabat encerra o conjunto de textos sobre Publicidade com o
artigo “Imagens de gênero e produção da cultura”. Nele, procura discutir
os conceitos hegemônicos do masculino e do feminino em anúncios
relacionados à vida cotidiana, como é o caso de anúncios de um produto
como o café. Sua análise tem por base imagens e palavras combinadas nas
peças publicitárias, de modo a reafirmar a imagem da mulher ligada à
beleza, à maternidade e à esfera doméstica - contrastando com a imagem
masculina de poder e dominação sobre o feminino, de pertencimento à
esfera pública e ao mundo do trabalho. A autora chama a atenção, porém,
para o fato de que, embora não seja usual, alguns anúncios utilizam
significantes não-hegemônicos para abarcar diferentes públicos
consumidores. Nesse sentido, os signos utilizados na publicidade podem
servir para pensar, de um ponto de vista moral, códigos e valores
sociais predominantes, revelando aquilo que Widholzer chamou em seu
artigo de pedagogia cultural sobre relações de gênero.
A segunda parte da coletânea dedica-se
ao tema Revistas. “O picante sabor do proibido: narrativas pessoais e
transgressão”, de Carmen Rosa Caldas-Coulthard, é o primeiro artigo.
Dedica-se à análise de uma revista feminina (Marie Claire) que se
auto-representa como uma “revista de contrastes e contradições” (p.129).
Conforme a autora enfatiza, existem três tipos de ideologia, que ela
qualifica de “âncoras”, das revistas de mulheres: a ideologia do consumo,
a do conselho e a da informação. O primeiro tipo seria o principal, e,
no caso analisado, narrativas sobre sexualidade – tema abordado
recorrentemente nas reportagens – seriam reduzidas a um mero objeto de
consumo e não a uma oportunidade real para a discussão sobre construções
e relações de gênero. Caldas- Coulthard detecta, assim, a presença de um
paradoxo no qual se de um lado as narrativas femininas em primeira
pessoa “dão às leitoras prazeres proibidos” pela possibilidade de um ato
aparentemente transgressor (tornar público a intimidade sexual), por
outro ocorre uma “condenação aos fatos relatados” (p. 143),
transformando tais narrativas em “estórias irreais e tristes” (p. 144).
Em “Mídia, ideologia e preconceito:
análise do discurso crítica”, Astrid Nilsson Sgarbieri faz uma análise
lingüística de representações de aspectos da mulher profissional no
campo da política. Como exemplos femininos, Roseana Sarney, Marta
Suplicy e Heloísa Helena. Defendendo que vem ocorrendo transformações
nos discursos da mídia sobre mulheres profissionais – “um avanço no
processo de referenciação utilizado pela mídia” (p. 156) -, já que a
própria sociedade vem mudando em relação ao assunto, a autora nos lembra
que a notícia é feita por pessoas pertencentes a uma rede de relações
sociais, revelando tanto as ideologias individuais quanto as do grupo ao
qual pertencem.
Fabiana de Amorim Marcello entende que
a mídia é tanto veiculadora de informações quanto “produtora de saberes,
de formas específicas de comunicar e de produzir sujeitos” (p.159),
exercendo, como já apontado em outros textos da coletânea, um caráter
pedagógico. Assim, em “Dispositivo da maternidade: a fecundidade dos
saberes na mídia contemporânea”, analisa o modo como os saberes de um
dispositivo da maternidade são veiculados na mídia, produzindo
sujeitos-mãe específicos (mãe homossexual, mãe adolescente, mãe solteira,
etc.). Para isso, recorre a matérias de duas revistas (Veja e
Caras) cujos focos são mães-famosas (Cássia Eller, Luciana Gimenez,
Vera Fischer e Xuxa). Ao longo do texto, discute a idéia de que a junção
de múltiplos saberes acerca do sujeito que enuncia permite ao
dispositivo da maternidade a continuidade e a atualização das práticas
de maternização. Portanto, dentro da lógica do conceito de dispositivo
apresentada por Foucault, tal questão não está mais ligada somente ao
modo como os indivíduos se relacionam com seus filhos, mas também à
visibilidade e enunciabilidade da relação estabelecida com o corpo, a
sexualidade, as atitudes e os modos de agir (p. 181), tecendo uma
relação “quase de dependência”entre o que é ser mulher e o que é ser mãe.
Em “Representações da beleza feminina
na imprensa: uma leitura a partir das páginas de O Cruzeiro,
Claudia e Nova (1960/1970)”, Nucia Alexandra Silva de
Oliveira mostra o modo como as revistas do título representavam a beleza
feminina – de corpos arredondados a esbeltos, combinando com
representações femininas que iam de donas de casa à “nova mulher”,
meigas ou emancipadas (p. 202). Buscando enfatizar o caráter histórico
da construção da beleza e a predominância da tendência no espaço midiático a relacioná-la como um assunto fundamental para as mulheres, a
autora lembra que não se trata somente de corpos, mas de sujeitos (femininos)
com desejos de “outras experiências e possibilidades”.
A terceira parte do livro dedica-se ao
tema Cinema e TV. Sônia Weidner Maluf, em “Corporalidade e desejo:
Tudo sobre minha mãe e o gênero na margem”, analisa o filme de Pedro
Almodóvar à luz de uma discussão sobre gênero e corporalidade, tomando
como referência uma personagem travesti (cujo nome é Agrado). O exemplo
serve como suporte para uma discussão teórica acerca de experiências transgêneros, um tema que, segundo a autora, vem renovando reflexões,
conceitos e teorias no campo de estudos feministas e de gênero (p.214).
De modo original, a autora cruza teorias produzidas por antropólogos da
área indigenista – particularmente estudos sobre o perspectivismo
ameríndio – com a análise sobre Agrado, tecendo como ponto em comum a
idéia de uma “transformabilidade sem fim” (p.218). De acordo com as cosmologias ameríndias – citando Eduardo Viveiros de Castro -, “as
roupas são corpos”. Com a inversão dos termos, em que “os corpos são
roupas”, S. Maluf discute o transformismo e o fenômeno transgênero (a
“experiência corporificada de tornar-se outro”), mostrando como se trata
de um “empreendimento anti-hierárquico” que coloca em cheque o que chama
de políticas dominantes de subjetividade.
A margem também é o lugar em que
Miriam Adelman situa as protagonistas do filme “Thelma and Louise”,
dirigido por Ridley Scott e com roteiro de Callie Khoury, e do filme
“Fogo sagrado”, das cineastas Jane e Anna Campion. Ao realizar uma
discussão a respeito da produção masculinista do mito sobre a mulher no
cinema, no artigo “Vozes, olhares e o gênero no cinema” aponta que
nesses filmes, ao contrário, as personagens principais optam por habitar
as margens, ou seja, escolhem rejeitar um modelo patriarcal de sociedade,
revelando “uma voz feminina que não se domestica” (p.238). Diante do
material analisado, Adelman ressalta que existem diversos modos de o
cinema “produzir subjetividades” e suscitar identificações. Sendo assim,
embora possa servir (e tenha servido) a perspectivas patriarcais masculinistas, a narrativa cinematográfica torna-se uma possibilidade
para o processo de construção e identificação de subjetividades
femininas na posição de sujeito.
Tomando como referência a pesquisa
“Subjetividade feminina e diferença no dispositivo pedagógico da mídia”,
realizada entre 2000 e 2002, Rosa Maria Bueno Fischer apresenta o artigo
“Mídia e educação da mulher: modos de enunciar o feminino na TV”. Como
esclarece no início do texto, alguns conceitos-chave de M. Foucault (poder,
discurso, subjetivação e (a)normalidade), H. Bhabha (diferença e cultura)
e M. R. Kehl (enunciação do feminino) são utilizados como referenciais
teóricos para uma discussão sobre mídia, educação e gênero.
Diferentemente da maioria dos textos do livro, os casos analisados (o
programa Erótica, da MTV, o seriado Mulher, da TV Globo, e
os talk shows de Marília Gabriela, no GNT e no SBT) foram
escolhidos para dar suporte à reflexão teórica. Nesta, procura mostrar
que em um jogo de enunciados de distintos campos de saber e poder - com
a utilização de estratégias de linguagem -, a televisão revela o
feminino em suas diferenças, ao mesmo tempo em que o define como um
diferente que precisa ser revelado e controlado. Termina, propondo o
exercício de construção de “modos-artistas de existência” na diferença,
com a criação de novas estratégias de “intervenção significante”.
Constituindo uma nova tendência nas
pesquisas sobre os meios de comunicação, a última parte do livro dedica-se
à Internet. Jussara Reis Prá e Telia Negrão, em “Internet, um novo
ambiente comunicativo e de empoderamento para as mulheres”, ao trazerem
dados estatísticos relacionados à inclusão digital e desigualdade social
no Brasil e na América Latina, situam a discussão sobre a comunicação
mediada por computador (CMC) relacionada às questões de gênero. As
autoras articulam e analisam as diversas possibilidades relativas a essa
nova mídia: consumo ou uso de informações em geral e de gênero, produção
de conhecimentos específicos e articulação social para a formação de
redes de mulheres. De acordo com elas, a Internet pode ser utilizada
como um mecanismo de democratização das comunicações, tornando-se um
elemento estratégico para o empoderamento das mulheres.
Finalmente, no último artigo da
coletânea (“Gêneros e identidades no ciberespaço”), Viviane M. Heberle
coloca em pauta de discussão duas posições adotadas e existentes na CMC:
a utilização do ciberespaço como maneira de desestabilizar identidades
cristalizadas (produzindo ciborgues – mistura de organismo e máquina – heteroglóssicos – em constante construção/destruição) ou como forma de
reafirmar estereótipos exagerados (contribuindo para reforçar o
preconceito e a opressão entre os diferentes grupos sociais). Examinando
orkuts, blogs e fotologs, a autora mostra os modos
pelos quais identidades e gêneros dos usuários passam por processos de desterritorialização e reterritorialização no ciberespaço. Ao final,
conclui que existe uma possibilidade de coexistência das duas posições,
embora a comunicação via Internet não se sobreponha em qualidade ou
autenticidade a outras formas de encontro.
(*)
Silvia Garcia Nogueira é professora titular do curso de Relações
Internacionais da Universidade Estadual da Paraíba e membro do
Comitê Paraibano de Educação em Direitos Humanos.
Atualizado em
20/02/08