"Morenidade e mestiçagem: uma interpretação sobre as relações raciais
nas praias cariocas",
por Raquel Mombelli e Karine Pereira Goss
(*)
Dados
do livro resenhado:
Autora: Patrícia Silveira de Farias
Título: Pegando uma cor na praia: relações raciais e
classificação de cor na cidade do Rio de Janeiro
Editora: Secretaria Municipal das Culturas-RJ
Número de Páginas: 230 |
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Há praias e praias. Porém, cada um
atribui um significado ao ato de ir à praia. No Rio de Janeiro tal ato
adquire um significado especial, pois parece haver um consenso em torno
das representações da praia entre seus freqüentadores: a praia é um
espaço democrático, racialmente democrático. A praia é o espaço da
mistura de cores, do convívio e da integração das pessoas, no qual a
mestiçagem aparece enquanto valor máximo e, até mesmo, como “prova
irrefutável da intimidade de um individuo com o espírito que ela
representa” (p. 25). A classificação da cor das pessoas nesse locus
desempenha um papel central na representação da praia carioca. Esta é a
principal idéia de Patrícia Silveira de Farias no livro “Pegando uma cor
na praia: relações raciais e classificação de cor na cidade do Rio de
Janeiro”.
A pesquisa que originou o livro centra-se
em dois pontos distintos da cidade do Rio de Janeiro: no Posto Nove, na
praia de Ipanema e na praia Grande, em Barra de Guraratiba. O primeiro
conhecido como um lugar freqüentado por intelectuais e artistas desde a
década de 1970 e, o segundo, freqüentado predominantemente por jovens
dos subúrbios. A metodologia utilizada foi a etnografia das praias e de
seus habitués: pessoas brancas, não brancas, morenas, mestiças e gringas. Ao todo foram entrevistados 38 freqüentadores ou não das praias,
auto-classificados pelos próprios depoentes da seguinte forma: 10 negros;
17 brancos; 8 morenos/mestiços e 3 gringos.
O livro está estruturado em cinco
capítulos. O primeiro capítulo parte de uma abordagem histórica sobre os
usos e a apropriação em torno da praia. A autora registra depoimentos
atribuídos à praia e às relações raciais por volta dos anos de 1950 a
1960. O segundo capítulo centra-se no espaço da praia tal como ela se
configura nos anos de 1990. O terceiro capítulo apresenta as idéias
centrais para a discussão proposta pela autora, descreve as
classificações que incidem na praia a partir do critério da cor,
analisando as mais relevantes como: moreno, gringo, negro e forasteiro.
No quarto capítulo são analisados os modos de interação entre grupos e
indivíduos na praia, segundo esquemas classificatórios associados à cor
e à territorialidade. O quinto capítulo discute, a partir dos
depoimentos coletados, as noções de democracia e de democracia racial
como atributos da praia. Para tanto, a autora apóia-se em estudos
clássicos de Victor Turner sobre liminaridade.
II
A autora, estabelecendo uma relação entre história e antropologia,
apresenta as diferentes formas de apropriação e uso do espaço da praia
carioca e seus arredores ao longo de diferentes períodos históricos.
Desta forma, demonstra como a praia foi sendo resignificada ao longo do
tempo. No período colonial, ela foi lugar de depósito de corpos de
africanos escravizados, passou por um período de higienização no século
XIX, em que se buscou além da instituição de novas formas de relação e
cuidado com o corpo, a “limpeza” de determinados espaços da cidade. Em
outros termos, o processo de “limpeza” poderia ser traduzido pela
remoção de trabalhadores negros indesejáveis. No século XX, as
transformações ocorridas na praia e, sobretudo na Zona Sul, estão
consolidadas enquanto um espaço de sociabilidade para jovens brancos,
intelectuais e da classe média e alta que passam a utilizarem a praia
como sinal de diferenciação em relação a outros grupos sociais da cidade.
E, segundo a interpretação da autora, inicia-se também neste período, a
configuração de uma identidade da Zona Sul a partir de uma dicotomia com
a Zona Norte do Rio de Janeiro.
A retrospectiva histórica feita por
Patrícia Silveira de Farias, mostrando a transformação temporal dos
diferentes usos e significados da praia, não é de modo algum idílica. No
período colonial a praia servia de cemitério para os negros e,
simbolicamente, representava a sujeira e a degradação. Esse sentido muda
com o decorrer do tempo, conforme já assinalamos, mas é interessante
apontar como as praias com maior freqüência de população negra e de
“farofeiros” ainda mantêm esse imaginário ligado à sujeira e à
degradação. Para que as praias cariocas mudassem de significado e
adquirissem uma conotação positiva relacionada à saúde e ao lazer, foi
realizado todo um processo de higienização que expulsou a população
negra e pobre do centro da cidade e que, também limpou a praia dessa
presença. A autora reconhece que o “conflito entre integração e
segregação” permeia a história do Rio de Janeiro. Ela mostra a violenta
repressão sofrida pelos moradores das favelas, que nas décadas de 1940 e
1950 resistiam em sair desses locais. Entretanto, apesar desse histórico
de violência e discriminação, a autora assume a interpretação otimista
de seus entrevistados e conclui que “tal história parece ser percebida
de uma forma evolutiva, ou seja, contendo um passado mais discriminador
e um presente mais “democrático” (p. 70)”. Só que essa “evolução
democrática” não foi alcançada de forma rápida e tranqüila.
Aliás, as reformas urbanas
implementadas posteriormente permaneceram sistematicamente atreladas à
lógica de remoção das populações pobres e indesejáveis dos espaços
valorizados da cidade. A situação drástica de expulsão vivenciada pela
chamada Pequena África, lugar majoritariamente ocupado por famílias
negras, na zona do cais, é um dos exemplos do processo relatado pela
autora.
A expulsão sistemática da população
negra para os morros, parece ser parte constituinte da formação e da
identidade da cidade carioca. A antropóloga demonstra muito bem em seu
livro, a histórica relação entre a ocupação dos morros da cidade e a cor
de seus habitantes, em sua maioria negra. Em 1948, um censo da
prefeitura afirmava que os pretos e os pardos constituíam a população
majoritária das favelas cariocas. À medida que o crescimento urbano
avança, aciona uma série de reformas urbanas historicamente voltadas à
promoção de separações não apenas por classes sociais, mas também por
cores. Ao conhecermos estes dados históricos é impossível deixar de
estabelecer uma relação imediata com a luta cotidiana atual dos
moradores dos morros do Rio de Janeiro, de enfretamento do tráfico de
drogas, da violência e, sobretudo, de acesso a políticas públicas,
historicamente ausentes para essa parcela da população. Interessante
perceber que a autora, mesmo diante desta trajetória histórica, não
acredita que esse projeto de “modernização” tenha promovido uma divisão
absoluta na cidade entre brancos e não brancos, mas um certo grau de
segregação e de interação inter-racial. No espaço da praia, o “grau de
segregação” seria mais diluído, devido a mecanismos de classificação de
cor em que um ideal de morenidade estaria sendo usado positivamente para
expressar a convivência e a interação entre brancos e não brancos. A morenidade – a cor morena – é acionada como forma de interação entre
brancos e não brancos. Em outras termos, sinônimo de mestiçagem.
III
Os adjetivos prediletos de classificação de cor utilizados pelos
sujeitos pesquisados são o bronzeado e o moreno. A essas classificações
são atrelados somente significados positivos, representando um corpo
saudável e bonito. A pele de cor bronzeada pode ser facilmente
transformada em morena. A categoria morena está relacionada, na visão da
autora, a uma interpretação positiva da mestiçagem que teria produzido o
tipo ideal brasileiro. Torna-se relevante observar que as conclusões
positivas sobre a morenidade que Farias chega por meio de sua pesquisa,
acabam corroborando o desejo que Gilberto Freyre manifestava em relação
à formação de uma metarraça brasileira:
Conceito – o de metarraça – a que
se liga o de morenidade, como resposta brasileira – acima de ideologismos sectários ou de racismos arcaicos – a branquitudes,
negritudes e amerlitudes. O uso cada dia mais generalizado, no Brasil,
da palavra moreno e a valorização cada dia maior, entre os brasileiros,
da condição ou da aparência também morena, que o diga. Nossos mais
expressivos exemplos atuais de beleza de mulher são biologicamente
morenos como a tão encantadora Sônia Braga, ou ecologicamente amorenados
ou bronzeados pelo sol do trópico, como as louras Vera Fischer e Bruna
Lombardi. Qual loura brasileira não se faz amorenar pelos sóis das Copacabanas? (apud. Hofbauer, 2006, p. 252).
A morenidade transmuta-se no signo da
brasilidade, em uma condição que pode ser adquirida “ecologicamente”
pela exposição aos raios solares, que permite a inclusão. Herança da
mestiçagem, que indica, na visão da autora, “movimento e comunicação”
(p. 205), a morenidade seria responsável pelo contato entre as
diferentes formas de classificação.
A conotação extremamente positiva da morenidade contrasta com as visões negativas de outras formas de
classificação, geralmente associada aos negros. A categoria de “farofeiros”,
por exemplo, a presença por excelência non grata na praia,
representa aquele que não tem educação, que usurpa o espaço do outro. Os
“farofeiros”, na interpretação da antropóloga, acabam “tendo uma cor
específica, facilmente acionável: a negra” (p. 142).
Para um melhor entendimento dessa
situação é oportuno recorremos às formas pelas quais a mestiçagem pode
ser interpretada. Miguel Vale de Almeida (2000) avalia que os discursos
sobre mestiçagem evidenciam uma tendência de mascaramento de relações
desiguais de poder e de dominação. O autor adverte que antes de
relacionar a miscigenação com o ideal de tolerância que a ela está
ligado, deve-se verificar que miscigenação é essa e como e com quem ela
é feita. Além disso, na América Latina um dos pontos centrais das
diferentes identidades nacionais foi “o compromisso perante o dilema da
natureza mista das populações versus as conotações brancas do
progresso e da modernidade” (op. cit. p, 191). O compromisso, ainda
segundo o autor, foi a celebração da mestiçagem. Nesse sentido, as
elites latino-americanas adaptaram as teorias racialistas desacentuando
o determinismo biológico que previa a mistura como degenerescência das
raças.
Os depoimentos presentes na pesquisa
de Farias não deixam de relacionar a brancura com a limpeza e a ordem,
enquanto que a cor negra é associada à sujeira, ao conflito e à
incivilidade. Quando seus entrevistados brancos cochicham que os
“farofeiros” são todos “pretos”; quando a autora mostra que as formas de
interação dos freqüentadores das praias da Zona Sul com os vendedores e
ambulantes (em sua maioria negros), não passa de uma relação amistosa
que jamais ultrapassa certos limites e que nunca vai se transformar em
amizade; quando os entrevistados brancos louvam a mistura da praia e, ao
mesmo tempo, constatam a pouca presença de negros; quando a abertura de
linhas de ônibus para a Zona Sul é classificada como “invasão”, podemos
questionar se as praias não são espaços democráticos somente para os
iguais.
A ligação que a autora faz ente
mistura e democracia é intrigante justamente porque implica numa suposta
condição de igualdade que não parece se concretizar. A análise da
tipologia de classificação criada pela antropóloga para as formas de
interação na praia, elucida com mais precisão esse aspecto. Na análise
de Farias, o “congraçamento”, “a manutenção da distância inter-pessoal”
e o “conflito” seriam formas de interação predominantes nas praias. No
primeiro caso, ela demonstra que o acesso das pessoas negras aos grupos
da Zona Sul cumpre determinadas etapas: elas devem sair do subúrbio,
alcançar um grau mais avançado de escolaridade, se afastar de seu grupo
de origem e contar com a figura de um apresentador que possa intermediar
a entrada do “novato” no grupo. Esse “congraçamento” se dá
individualmente e não de forma coletiva., pois as turmas de juventude
negra, por exemplo, são sempre consideradas suspeitas no ambiente da
praia. No segundo caso, utilizam-se “táticas de evitação” (p. 176) que
impedem a “mistura”, nesse caso vista como “perigosa” e não como “democrática”.
Em primeiro lugar, quando o acesso às praias da Zona Sul pelos moradores
dos subúrbios é facilitado pela colocação de novas linhas de transporte
urbano, há um movimento de “debandada” por parte de muitos
freqüentadores para outras praias a fim de evitar “o encontro
desagradável” (p. 177). Quando a fuga não é possível, uma outra
estratégia usada pelos freqüentadores da Zona Sul, é o “estratagema do
gelo” (p. 177), que consiste numa forma de ação ostensiva que demonstra
a não disponibilidade para contatos. Mais uma vez, são os negros, de
acordo com a autora, os mais visados por essa estratégia. No terceiro
caso, surge o conflito, exemplificado principalmente pelos “arrastões”.
Eles adquirem uma conotação “monstruosa” justamente porque provocam
fissuras na idéia de praia democrática. Como o ideário de democracia, de
acordo com o prefácio de Peter Fry, é a noção chave de representação da
praia, os “arrastões” são vistos por meio de um “estarrecimento
generalizado” (Fry apud. Faria, p. 18). Talvez pudéssemos inverter a
equação dos autores no seguinte sentido, de ver a praia como um lugar
não tão “democrático” – quase harmônico e paradisíaco – em que o
conflito é um dos componentes. Em outras palavras, não precisamos
classificar o conflito como uma anomalia, mas como um elemento presente
no cenário da praia e, que, certamente, influenciará na sua configuração
futura. No caso dos “arrastões” repete-se a associação do caos, da
sujeira e da violência com a população negra. Seus participantes são
reconhecidos como fazendo parte de grupos suburbanos: jovens negros,
jovens do funk. Na nossa interpretação esses tipos de “interação” não
podem ser considerados exemplares de um ambiente democrático. Muito pelo
contrário, demonstram uma série de cuidados e estratégias que agenciam a
forma como se pode dar a “mistura”.
IV
As considerações finais do livro reforçam a idéia de um projeto de
democracia racial, não somente no espaço da praia, mas também como parte
do imaginário da cultura carioca e do próprio universo cultural
brasileiro. Farias conclui afirmando que há disputas nos sentidos dados
à “mistura”. Há uma posição “mais tradicional” que celebra a “mistura”
como a morenidade. De acordo com esse significado de “mistura” as
diferenças se apagariam, a morenidade pode ser caracterizada como um
gradiente e não como um pólo ou outro. Uma outra característica da
“mistura” seria aquele movimento realizado pela classe média negra que
reivindica seu espaço em pé de igualdade com os brancos. Essa “mistura”
é qualificada como democrática por indicar uma convivência mais
igualitária com a diferença. Uma terceira postura em relação à “mistura”
pode ser classificada como anárquica. Essa postura, de acordo com a
autora, pode ser dividida em duas: uma delas assume uma versão mais
agressiva, quando “entram em cena os grupos mais jovens” (p. 210), das
galeras funk. A outra versão é regida pelo que Farias denomina de
“regra da farofa” (p. 210). Ambas versões são extremamente mal vistas
pelos freqüentadores brancos da classe média e classe média alta. Apesar
dessas diferentes acepções, mesmo para os “farofeiros” não-brancos e
para os pobres, a praia ainda opera enquanto um significado democrático.
Nas palavras da autora: “uma instância moral, maior, comum, que motiva
esses freqüentadores a disputarem ‘seu lugar ao sol’” (p. 210). Talvez o
autêntico desejo da autora de ver nas praias cariocas um momento de liminaridade, em que por algum tempo são suspensas as regras estruturantes da sociedade, tenha motivado uma análise otimista no que
se refere à ocupação desse espaço. No entanto, o mesmo olhar
antropológico poderia estar mais atento a formas menos ambíguas de
preconceito, discriminação e violência, que esvaziam de conteúdo a
democracia racial. Mas essa é uma outra perspectiva de enxergar a
realidade.
Referências bibliográficas
ALMEIDA, Miguel Vale de. Um mar da
cor da terra. Raça, cultura e política da identidade. Oeiras: Ed.
Celta, 2000.
HOFBAUER, Andreas. Uma história do branqueamento ou o negro em
questão. São Paulo: Editora UNESP, 2006.
FARIAS, Patrícia Silveira de. Pegando uma cor na praia: relações
raciais e classificação de cor na cidade do Rio de Janeiro. Rio de
Janeiro: Secretaria Municipal das Culturas, 2003.
(*)
Raquel Mombelli é mestre em Antropologia Social pela UFSC e
doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da mesma
Universidade. É Pesquisadora do Núcleo de Estudos de Identidade e
Relações Interétnicas – NUER.
Karine Pereira Goss é mestre em Sociologia Política pela UFSC e
doutoranda do Progrlama de Pós-Graduação em Socilologia Política da
mesma Universidade. É pesquisadora do Núcleo de Estudos de
Identidade e Relações Interétnicas- NUER e do Núcleo de Pesquisas em
Movimentos Sociais.
Atualizado em
20/02/08