"A oposição ao Estado
Novo no exílio brasileiro 1956-1974",
por Igor José de Renó Machado
(*)
Dados
do livro resenhado:
Título: A oposição ao Estado Novo no exílio
brasileiro 1956-1974
Autor: Douglas Mansur da Silva
Editora: ICS. Imprensa de Ciências Sociais. Coleção
Estudos e Investigações 42.
Número de páginas: 162 |
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A oposição ao Estado Novo no exílio
brasileiro 1956-1974 de Douglas Mansur da Silva é um desdobramento
de sua dissertação de mestrado, defendida em 2000. O livro conta com o
acréscimo de dois capítulos fundamentais e por isso apresenta-se bem
mais completo que a dissertação. Mas antes de apresentar e discutir as
principais qualidades do livro, vale uma nota.
Como o livro reconstrói, em alguns
momentos de forma melancólica, a história de um grupo de exilados no
Brasil e de sua militância anti-salazarista, vale uma pequena divagação
sobre a sua produção (e da dissertação), que foi realizada no âmbito do
programa de pesquisas Identidades: Reconfigurações de Cultura e
Política – Estudos de caso sobre movimentos de pessoas, signos e
capitais (PR0NEX/CNPq) sediado no CEMI (Centro de Estudos de
Migrações Internacionais, IFCH, UNICAMP). Coloco-me aqui como uma
espécie de “irmão classificatório” de Douglas, por ter participado desse
programa de pesquisas e por termos, ambos, sido orientados por Bela
Feldman-Bianco. Tendo em vista essa “irmandade”, uma espécie de lógica
do óbvio levaria a suspeitar dessa resenha, como um panfleto de
auto-divulgação familiar.
Porém, seguindo aqui o modelo
explicativo do trabalho de Douglas, que chega a identificar num conjunto
de práticas, saberes e posicionamentos distintos um sistema ético
comum desses anti-salazaristas, visto como um esquema de
significação, poderia dizer que nosso sistema ético (meu, do
Douglas e do grupo de pesquisadores ligado ao CEMI e orientandos de Bela
Feldman-Bianco), formado na militância da pesquisa crítica,
empenhado em posicionamentos críticos, me impediria de fazer desse texto
uma propaganda do grupo. Como parte do processo coletivo de reflexão que
gerou, entre outros, este trabalho, tenho o compromisso (dado pela nossa
história, digamos, de resistência à acomodação intelectual) de
fazer aqui uma análise efetivamente pertinaz da obra de Douglas.
Pertinácia é a palavra que encobre
muitos dos sentidos que o autor procura depreender da prática militante
de um grupo de intelectuais e homens de ação portugueses, entre meados
das décadas de 1950 e 1970. A pertinácia remete a uma identidade
construída pela praxis da resistência ao regime salazarista. Se
os sentidos da prática, por um lado, remetem à um universo de
significação comum entre os militantes, a prática dos sentidos revela,
por outro, a enorme diversidade interna que esse grupo numeroso de
intelectuais vivenciou. Esta é exatamente a maior qualidade do livro de
Douglas, revelar cuidadosamente, através de uma etnohistória densa, como
o grupo é marcado por cisões, rupturas, disputas e tentativas sucessivas
de “unificação”.
Essa verificação da diversidade dos
posicionamentos levou o autor a reconstruir fases sucessivas de um
movimento de resistência, onde determinadas questões marcaram a produção
do universo de sentido: primeiro a imaginação da nação portuguesa e do
espaço colonial, seguido das concepções de possibilidade de
transformação social, as distintas posições sobre o modo de atuação da
resistência no exílio e por fim, a afirmação, dentro do movimento, de
distintas “identidades políticas” (pp.147).
O fio condutor da análise desse núcleo
de resistência é o jornal Portugal Democrático. O jornal reuniu
inúmeros intelectuais e homens de ação portugueses, em torno da sua
produção, impressão e circulação que especialmente desde a década de 50
vinham se radicando no Brasil em busca de uma alternativa política à
repressão portuguesa. Nas palavras de Douglas, “encontrava-se a idéia de
que estavam a realizar, no exterior, a “cultura portuguesa” que não fora
possível realizar em seu país.” (pp. 84/85). O jornal, publicado entre
1956 e 1975, foi uma espécie de aglutinador do sentimento
anti-salazarista entre os exilados no Brasil. Foi em torno dele que se
construíram redes de esquerda, como as chama Douglas, que
sustentaram a utopia da resistência e derrubada do regime. Publicado a
partir de São Paulo, era distribuído por vários países que concentravam
também exilados do regime, fazendo circular informação e, acima de tudo,
estreitando laços e planos de ação.
Cumprindo a tarefa de denunciar as
farsas do regime, de despertar a simpatia da esquerda brasileira, de
levar à ONU sucessivos relatórios sobre o abuso do sistema, de congregar
forças oposicionistas muito diversas, o Portugal Democrático
aparece como um centro duro desse movimento de resistência e, ao mesmo
tempo, como palco primeiro das tensões entre os seus colaboradores. Com
a chegada ao Brasil de Humberto Delgado e Henrique Galvão, em 1959, a
questão da “ação personalista” passa a ser fulcro de dissenções. Muitos
se colocam contra as opções de ação direta desses dois grandes
opositores do regime, posicionando-se a favor de ações de mobilização
popular e não de golpes de caráter “carismáticos”.
O autor demonstra como a questão
colonial é um dos pilares de desunião em relação à resistência. Henrique
Galvão, por exemplo, era francamente contra a autonomia das colônias.
Gradualmente o movimento de resistência foi se direcionando para uma
posição radicalmente contrária à de Galvão, defendendo a libertação de
todas as colônias. Isso favoreceu um estreitamento com os movimentos de
libertação africanos e também com a esquerda brasileira, francamente
anti-colonial. Não é por menos que autores como Amílcar Cabral, herói da
resistência ao colonialismo, escreveram sistematicamente no Portugal
Democrático.
Em sua fase final, outra questão
acirrava os ânimos em torno da resistência: o papel cada vez mais
central dos comunistas, que por meio do PCP e do PCB, acabaram por dar
as linhas gerais do jornal, não sem manifestações contrárias e algumas
baixas no movimento. Esses são alguns dos eixos de tensão, tão bem
analisados por Douglas, demonstrando um cuidado etnográfico em não
reificar a resistência como um movimento coeso e unificado. Entretanto,
se o autor oferece a riqueza dessa análise cuidadosa, suas afirmações
finais sobre a construção da unidade para além das divergências podem
confundir um pouco o leitor. O livro inteiro trata da diversidade da
oposição ao regime, enquanto suas conclusões falam da unidade de um
conjunto de significados, de uma identidade “da práxis”
anti-salazarista. Esse amálgama “revolucionário” está dado para além das
diferenças e pôde ser construído apenas na presença de inimigo comum (o
Jornal se encerra um ano após a Revolução dos Cravos).
Entender a produção desse sistema
ético como resultado de uma espécie de suspensão das divergências
ideológicas e busca de unidade na ação cotidiana de minar o regime pode
não ser tão evidente. Aqui fica claro a simpatia que o autor demonstra
em relação aos agentes de sua pesquisa: é convencido de uma meta-unidade
prática, uma espécie de armistício ideológico até a morte do inimigo. No
entanto, os próprios dados levantados pelo autor demonstram que o
processo histórico de construção da resistência teve suas depurações
ideológicas que, digamos assim, não permitiam qualquer aliado
anti-salzarista. A partir de 1959, por exemplo já não era possível,
entre os militantes, exercer um ponto de vista colonialista. Assim,
vê-se que a unidade na prática foi construída também a partir de
expurgos ideológicos: o caráter cada vez mais comunista do jornal
relegava os liberais democráticos, por exemplo, cada vez mais a um papel
periférico.
Mas isso não compromete o esforço
analítico do autor. Aceite-se ou não a “práxis” como eixo de
identificações anti-salazaristas (ou seja, se lutamos juntos contra o
sistema, estamos imersos em conjuntos de significado que ultrapassam
nossas divergências), o fato é que a dura questão da “unidade”
permaneceu ao longo da produção do Jornal e da vida daqueles que nele
contribuíram. O jornal permaneceu sendo um veículo de resistência
até o fim do regime, mesmo com a presença, desde 1964, do regime
ditatorial brasileiro. Situação que ganha um capítulo específico
demonstrando como foi possível que um jornal bastante caracterizado como
comunista permanecesse na ativa durante os onze primeiros anos da
ditadura brasileira. O autor examina, brilhantemente, a convergência de
interesses entre a resistência e regime brasileiro no que tange à
questão colonial, como uma das explicações para a longevidade de um
jornal comunista num Brasil ditatorial.
O livro ilumina uma parte da história
da resistência anti-salazarista, dado que explica porque sua edição é
portuguesa. O tema é de grande interesse em Portugal, como não poderia
deixar de ser. Para o brasileiro, a história dessa resistência é também
de grande importância, pois foi construída a partir daqui e com o apoio
de inúmeros intelectuais brasileiros, que participaram ativamente desse
esforço revolucionário. Para citar apenas dois nomes, Florestan
Fernandes e Antônio Cândido participaram, em alguns momentos, das
edições do jornal. Para a antropologia brasileira o trabalho traz também
questões de fôlego, como as relações entre divergências políticas e
unidade simbólica, sobre a complexidade das noções de exílio – portanto,
uma reflexão arguta sobre o que define o pertencimento e a identidade.
Embora o livro pressuponha algum conhecimento da história recente
portuguesa, sua leitura é profundamente estimulante para qualquer leitor
interessado nas relações entre memória, política e história, numa
perspectiva antropológica.
(*)
Igor José de Renó Machado é Professor do Depto. de Ciências
Sociais da UFSCar, Pesquisador associado ao CEMI/UNICAMP e
coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da
UFSCar.