Resenha (Edição nº 38)

"A experiência urbana dos povos do Uaupés e os sentidos sócio-cosmológicos das relações interétnicas", por Izabel Missagia de Mattos (*)    

Dados do livro resenhado:
Título: De volta ao Lago de Leite: gênero e transformação no Alto do Rio Negro
Autora: Cristiane Lasmar
Editora: Unesp?ISA
Número de Páginas: 299
 

Merecedor de Menção Honrosa no Concurso Brasileiro de Obras Científicas e Teses Universitárias promovido pela Anpocs em 2006, o livro de Cristiane Lasmar aborda, sob um viés de gênero, as transformações experimentadas pelos povos do Alto Rio Negro em sua passagem para a vida urbana São Gabriel da Cachoeira, cidade amazonense de população proeminentemente indígena.

As questões que orientaram a investigação coincidem com problemáticas sociais contemporâneas prementes e de grande complexidade, como a violência sexual enquanto experiência que emerge das relações interétnicas, analisada sob criterioso crivo teórico acerca dos universos sócio-cosmológicos que lhe dão sentido. Ao longo da história das transformações indígenas, a investigação busca, em última instância, os motivos profundos e constantes que levam os povos do Uaupés - cerca de dezessete grupos étnicos, pertencentes às famílias lingüísticas aruak e maku, que compunham uma população de 9.300 indivíduos reunidos sob um sistema de troca que os torna culturalmente homogêneos - a uma permanente e aparente relação de sujeição à dominação dos “brancos”.

A obra é organizada primorosamente em termos metodológicos, desde sua apresentação em divisões cadenciadas e articuladas entre si, ainda que, devido ao cuidado e a profundidade que caracterizam suas interpretações e conclusões parciais, cada uma de suas unidades possa ser lida separadamente com bastante proveito. Fruto de tese de doutorado defendida no Museu Nacional da UFRJ em 2002, o livro proporciona uma leitura absorvente, sendo todos os capítulos igualmente importantes, o que o torna homogeneamente fascinante pela riqueza de informações etnográficas e etnológicas sobre o campo pesquisado.

Trata-se de estudo integrado ao grupo de pesquisa do Núcleo de Transformações Indígenas (NUTI), organizado no Museu Nacional, voltado sobretudo para questões sobre a filosofia acerca das concepções endógenas das relações entre “índios” e “brancos”. Difere-se, desta maneira, das abordagens processual e histórica que busca contextualizar as mesmas relações em um sistema trans-cultural mais englobante. Ainda que um histórico das relações seja informado ao leitor na parte introdutória do livro - enfatizando os diferentes tipos de “jugo” vividos pelos povos do Uaupés, inicialmente por parte dos colonos e missionários, passando pelos regatões e militares -, a autora não chega a considerar as concepções dos diversos autores sobre o contato, bem como as transformações também ocorridas no “mundo dos brancos” ao longo do mesmo processo de “mistura”.

Os atributos que distinguem a categoria genérica “brancos”, em oposição aos “índios”, segundo a cosmologia dos povos do Uaupés, residiram primordialmente nos pontos de vista sobre a vida social. Enquanto os primeiros, habitantes de cidades, não valorizariam o parentesco e seriam “egoístas”, os últimos, vivendo em comunidades ribeirinhas, cuidam dos parentes e fazem festas (: 215).

O titulo do livro é inspirado na mitologia dos povos do Uaupés, segundo a qual sua origem comum seria derivada da viagem de uma cobra-canoa rio acima, a partir do Lago de Leite, situado a Leste, rumo ao Oeste, ao longo da qual os diferentes grupos se fixaram em seus territórios.

Inicialmente interessada no discurso das mulheres indígenas sobre a situação de violência sexual praticada pelos “brancos”, a autora deparou-se com uma realidade na qual também encontros sexuais consentidos, namoro e casamento pareciam tomar parte do mesmo fenômeno. Passou a preocupar-se, assim, em evitar “cair nos clichês da vitimização”, investigando as sutilezas da capacidade de agência (agency) das mulheres. Para isso, a autora mergulha nos estudos realizados sobre o sistema de parentesco, que revelam em todos os grupos da região a regra virilocal e a conseqüente ênfase valorativa no grupo agnático.

A situação da mulher, do ponto de vista êmico, a coloca no lugar da alteridade, uma vez que, concebida e criada para ser concedida a outrem, abandonará fatalmente seu grupo local. Esta situação prevista pelo sistema de parentesco proporciona à mulher desde cedo o sentimento de ser uma “estranha”, primeiramente entre o seu próprio grupo de origem e posteriormente no grupo que lhe recebe. Por isso, afirma a autora que “no Uaupés, a mulher é o signo da diferença no interior do grupo local, metaforizando a alteridade e seus perigos”. As cantigas femininas registradas em seu trabalho etnográfico durante as festas na comunidade atestam essa “sensação de deslocamento” que acompanha as mulheres, devido ao “viés androgênico” do sistema.

As relações das indígenas com os “brancos“, segundo demonstra Lasmar, possui significados abrangentes que não dizem respeito apenas à experiência feminina nos povos do Uaupés. Infletindo todo o sistema social, o viés de gênero constitui, outrossim, uma importante chave para a compreensão dos mecanismos sócio-cosmológicos que informam as transformações indígenas.

A migração dos povos dos Uaupés em direção a São Gabriel – cidade originada a partir do forte erigido com a celebração do tratado de Madri, em 1759, para garantir a integridade do território português – é movida pelo seu interesse em apropriar-se da capacidade e dos bens dos brancos. Este interesse por conhecimento, por sua vez, encontra-se solidamente fundamentado nas teorias nativas sobre o xamanismo enquanto sistema de conhecimento capaz de sustentar as transformações. Neste sentido, o próprio movimento de transformação dos indígenas, acompanhado e sustentado pela incorporação do conhecimento dos brancos, passa a ser interpretado como permanência do sistema tradicional. Segundo demonstra a autora, na mesma medida em que a apropriação do conhecimento dos brancos é considerado uma via para as transformações ocorridas no mundo vivido pelos indígenas – que incluem aspectos sociológicos mas também suas afecções e corpos - , também o saber xamânico é considerado, segundo a lógica tradicional, pelas “capacidades transformativas importantes a quem o detém” (:215).

Ainda que a abordagem da autora propicie a apreensão das permanências das estruturas cosmo-sociológicas nos processos de transformações indígenas, o dinamismo histórico que move o conhecimento nativo acaba por ser “descoberto” no fenômeno do xamanismo, “quente” por excelência.

A revelação da existência de uma relação de associação semântica entre conhecimento, xamanismo e transformação apresenta-se, por sua vez em consonância com diversos estudos contemporâneos sobre mudança em povos amazônicos, sejam atuais ou históricos. A observação do movimento das formas sob a ação de fluxos de energias sociais, apresentadas no estudo destes povos, tem propiciado a articulação teórica entre temas etnológicos “quentes” como a guerra, o colonialismo, a etno-história, o xamanismo e a cura, sob um mesmo conjunto semântico (Taussig, 1993; Albert, 1992; Gow, 1996; Fausto, 2001).

Devido às associações entre transformações ocasionadas pelo xamanismo e pelo conhecimento dos brancos, o casamento interétnico passa a ser visto tanto como elemento estratégico da agency feminina - uma vez que as mulheres passam a assumir um lugar de destaque no novo ambiente social - como para a próprio modo de vida dos povos do Uaupés. Segundo a autora, apesar das motivações para o casamento com branco serem diversas, a trajetória das transformações ocorridas seria apenas uma: as mulheres parecem, neste tipo de união, alentar uma nova perspectiva para sua participação no processo de reprodução social, passando a atuar como veiculo de continuidade de sua linha agnática e permanecendo, ao mesmo tempo, perto de sua família natal e da parentela cognática.


Bibliografia

ALBERT, Bruce & RAMOS, Alcida, 2002. Pacificando o Branco: cosmologias do contato no Norte-Amazônico. São Paulo: Ed.Unesp.
FAUSTO, Carlos, 2001. Inimigos Fiéis: história, guerra e xamanismo na Amazônia. São Paulo: EDUSP.
GOW, Peter, 1996. “River People: Shamanism ans History in Western Amazonia”, In THOMAS, Nicholas & HUMPHREY, Caroline, orgs, 1996. Shamanism, History, & the State. The University of Michigan Press, pp. 90-114.
MISSAGIA DE MATTOS, Izabel, 2004. Civilização e Revolta: os Botocudos e a catequese na Província de Minas. Bauru: Edusc-Anpocs.
TAUSSIG, Michel, 1993. Xamanismo, Colonialismo e o Homem Selvagem: um estudo sobre o terror e a cura. Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra.
THOMAS, Nicholas & HUMPHREY, Caroline, orgs, 1996. Shamanism, History, & the State. The University of Michigan Press.


(*) Izabel Missagia de Mattos é doutora em Ciências Sociais e professora adjunta do IGPA da Universidade Católica de Goiás.


 

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