"A
experiência urbana dos povos do Uaupés e os sentidos sócio-cosmológicos
das relações interétnicas",
por Izabel Missagia de Mattos
(*)
Dados
do livro resenhado:
Título: De volta ao Lago de Leite: gênero e
transformação no Alto do Rio Negro
Autora: Cristiane Lasmar
Editora: Unesp?ISA
Número de Páginas: 299 |
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Merecedor de Menção Honrosa no
Concurso Brasileiro de Obras Científicas e Teses Universitárias
promovido pela Anpocs em 2006, o livro de Cristiane Lasmar aborda, sob
um viés de gênero, as transformações experimentadas pelos povos do Alto
Rio Negro em sua passagem para a vida urbana São Gabriel da Cachoeira,
cidade amazonense de população proeminentemente indígena.
As questões que orientaram a
investigação coincidem com problemáticas sociais contemporâneas
prementes e de grande complexidade, como a violência sexual enquanto
experiência que emerge das relações interétnicas, analisada sob
criterioso crivo teórico acerca dos universos sócio-cosmológicos que lhe
dão sentido. Ao longo da história das transformações indígenas, a
investigação busca, em última instância, os motivos profundos e
constantes que levam os povos do Uaupés - cerca de dezessete grupos
étnicos, pertencentes às famílias lingüísticas aruak e maku, que
compunham uma população de 9.300 indivíduos reunidos sob um sistema de
troca que os torna culturalmente homogêneos - a uma permanente e
aparente relação de sujeição à dominação dos “brancos”.
A obra é organizada primorosamente em
termos metodológicos, desde sua apresentação em divisões cadenciadas e
articuladas entre si, ainda que, devido ao cuidado e a profundidade que
caracterizam suas interpretações e conclusões parciais, cada uma de suas
unidades possa ser lida separadamente com bastante proveito. Fruto de
tese de doutorado defendida no Museu Nacional da UFRJ em 2002, o livro
proporciona uma leitura absorvente, sendo todos os capítulos igualmente
importantes, o que o torna homogeneamente fascinante pela riqueza de
informações etnográficas e etnológicas sobre o campo pesquisado.
Trata-se de estudo integrado ao grupo
de pesquisa do Núcleo de Transformações Indígenas (NUTI), organizado no
Museu Nacional, voltado sobretudo para questões sobre a filosofia acerca
das concepções endógenas das relações entre “índios” e “brancos”. Difere-se,
desta maneira, das abordagens processual e histórica que busca
contextualizar as mesmas relações em um sistema trans-cultural mais englobante. Ainda que um histórico das relações seja informado ao leitor
na parte introdutória do livro - enfatizando os diferentes tipos de
“jugo” vividos pelos povos do Uaupés, inicialmente por parte dos colonos
e missionários, passando pelos regatões e militares -, a autora não
chega a considerar as concepções dos diversos autores sobre o contato,
bem como as transformações também ocorridas no “mundo dos brancos” ao
longo do mesmo processo de “mistura”.
Os atributos que distinguem a
categoria genérica “brancos”, em oposição aos “índios”, segundo a
cosmologia dos povos do Uaupés, residiram primordialmente nos pontos de
vista sobre a vida social. Enquanto os primeiros, habitantes de cidades,
não valorizariam o parentesco e seriam “egoístas”, os últimos, vivendo
em comunidades ribeirinhas, cuidam dos parentes e fazem festas (: 215).
O titulo do livro é inspirado na
mitologia dos povos do Uaupés, segundo a qual sua origem comum seria
derivada da viagem de uma cobra-canoa rio acima, a partir do Lago de
Leite, situado a Leste, rumo ao Oeste, ao longo da qual os diferentes
grupos se fixaram em seus territórios.
Inicialmente interessada no discurso
das mulheres indígenas sobre a situação de violência sexual praticada
pelos “brancos”, a autora deparou-se com uma realidade na qual também
encontros sexuais consentidos, namoro e casamento pareciam tomar parte
do mesmo fenômeno. Passou a preocupar-se, assim, em evitar “cair nos
clichês da vitimização”, investigando as sutilezas da capacidade de
agência (agency) das mulheres. Para isso, a autora mergulha nos
estudos realizados sobre o sistema de parentesco, que revelam em todos
os grupos da região a regra virilocal e a conseqüente ênfase valorativa
no grupo agnático.
A situação da mulher, do ponto de
vista êmico, a coloca no lugar da alteridade, uma vez que, concebida e
criada para ser concedida a outrem, abandonará fatalmente seu grupo
local. Esta situação prevista pelo sistema de parentesco proporciona à
mulher desde cedo o sentimento de ser uma “estranha”, primeiramente
entre o seu próprio grupo de origem e posteriormente no grupo que lhe
recebe. Por isso, afirma a autora que “no Uaupés, a mulher é o signo da
diferença no interior do grupo local, metaforizando a alteridade e seus
perigos”. As cantigas femininas registradas em seu trabalho etnográfico
durante as festas na comunidade atestam essa “sensação de deslocamento”
que acompanha as mulheres, devido ao “viés androgênico” do sistema.
As relações das indígenas com os “brancos“,
segundo demonstra Lasmar, possui significados abrangentes que não dizem
respeito apenas à experiência feminina nos povos do Uaupés. Infletindo
todo o sistema social, o viés de gênero constitui, outrossim, uma
importante chave para a compreensão dos mecanismos sócio-cosmológicos
que informam as transformações indígenas.
A migração dos povos dos Uaupés em
direção a São Gabriel – cidade originada a partir do forte erigido com a
celebração do tratado de Madri, em 1759, para garantir a integridade do
território português – é movida pelo seu interesse em apropriar-se da
capacidade e dos bens dos brancos. Este interesse por conhecimento, por
sua vez, encontra-se solidamente fundamentado nas teorias nativas sobre
o xamanismo enquanto sistema de conhecimento capaz de sustentar as
transformações. Neste sentido, o próprio movimento de transformação
dos indígenas, acompanhado e sustentado pela incorporação do
conhecimento dos brancos, passa a ser interpretado como permanência do
sistema tradicional. Segundo demonstra a autora, na mesma medida em que
a apropriação do conhecimento dos brancos é considerado uma via para as
transformações ocorridas no mundo vivido pelos indígenas – que incluem
aspectos sociológicos mas também suas afecções e corpos - , também o
saber xamânico é considerado, segundo a lógica tradicional, pelas
“capacidades transformativas importantes a quem o detém” (:215).
Ainda que a abordagem da autora
propicie a apreensão das permanências das estruturas cosmo-sociológicas
nos processos de transformações indígenas, o dinamismo histórico que
move o conhecimento nativo acaba por ser “descoberto” no fenômeno do xamanismo, “quente” por excelência.
A revelação da existência de uma
relação de associação semântica entre conhecimento, xamanismo e
transformação apresenta-se, por sua vez em consonância com diversos
estudos contemporâneos sobre mudança em povos amazônicos, sejam atuais
ou históricos. A observação do movimento das formas sob a ação de
fluxos de energias sociais, apresentadas no estudo destes povos, tem
propiciado a articulação teórica entre temas etnológicos “quentes” como
a guerra, o colonialismo, a etno-história, o xamanismo e a cura, sob um
mesmo conjunto semântico (Taussig, 1993; Albert, 1992; Gow, 1996; Fausto,
2001).
Devido às associações entre
transformações ocasionadas pelo xamanismo e pelo conhecimento dos
brancos, o casamento interétnico passa a ser visto tanto como elemento
estratégico da agency feminina - uma vez que as mulheres passam a
assumir um lugar de destaque no novo ambiente social - como para a
próprio modo de vida dos povos do Uaupés. Segundo a autora, apesar das
motivações para o casamento com branco serem diversas, a trajetória das
transformações ocorridas seria apenas uma: as mulheres parecem, neste
tipo de união, alentar uma nova perspectiva para sua participação no
processo de reprodução social, passando a atuar como veiculo de
continuidade de sua linha agnática e permanecendo, ao mesmo tempo, perto
de sua família natal e da parentela cognática.
Bibliografia
ALBERT, Bruce & RAMOS, Alcida, 2002.
Pacificando o Branco: cosmologias do contato no Norte-Amazônico.
São Paulo: Ed.Unesp.
FAUSTO, Carlos, 2001. Inimigos Fiéis: história, guerra e xamanismo na
Amazônia. São Paulo: EDUSP.
GOW, Peter, 1996. “River People: Shamanism ans History in Western
Amazonia”, In THOMAS, Nicholas & HUMPHREY, Caroline, orgs, 1996.
Shamanism, History, & the State. The University of Michigan Press,
pp. 90-114.
MISSAGIA DE MATTOS, Izabel, 2004. Civilização e Revolta: os Botocudos
e a catequese na Província de Minas. Bauru: Edusc-Anpocs.
TAUSSIG, Michel, 1993. Xamanismo, Colonialismo e o Homem Selvagem: um
estudo sobre o terror e a cura. Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra.
THOMAS, Nicholas & HUMPHREY, Caroline, orgs, 1996. Shamanism,
History, & the State. The University of Michigan Press.
(*)
Izabel
Missagia de Mattos é doutora em Ciências Sociais e professora
adjunta do IGPA da Universidade Católica de Goiás.