"O drama racial das crianças
brasileiras – socialização entre pares e preconceito",
por Patrícia Farias
(*)
Dados
do livro resenhado:
Título: O drama racial das crianças brasileiras –
socialização entre pares e preconceito
Autora: Rita de Cássia Fazzi
Editora: Autêntica
Número de Páginas: 228 |
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Compreender as formas de percepção do
racismo e do preconceito racial, assim como seu modo de operação, entre
crianças de sete a nove anos de idade, é o propósito central da análise
empreendida por Rita de Cássia no livro O drama racial das crianças
brasileiras – socialização entre pares e preconceito. Originalmente
sua tese de doutoramento em Sociologia no Iuperj, a pesquisa se revela
desde o início como um desafio: como adentrar no universo infantil,
apreender seus códigos e sua lógica, e traduzi-los na textura e no fluir
da lógica acadêmica? Mais: como escapar da armadilha da simples (porém
infelizmente necessária ainda) denúncia do “drama” e desenvolver uma
estrutura argumentativa e interpretativa que permita o aprofundamento do
conhecimento do fenômeno abordado? Em outras palavras, como transitar do
discurso “militante” para o discurso analítico-científico?
Para enfrentar este duplo desafio, a
autora, professora do departamento de Ciências Sociais da PUC/MG, em
primeiro lugar optou por elaborar sua pesquisa a partir de trabalho de
campo em duas escolas públicas, uma, mais freqüentada por alunos de
camadas médias, e outra, composta majoritariamente por estudantes das
camadas populares. No entanto, ao contrário de outras pesquisas que
tentam rastrear o preconceito e o racismo na infância, não se tratou
aqui de estudar o material apresentado em livros didáticos e seu impacto
no universo infantil, nem a interação entre estudantes e professores e
outras agentes educativos. O espaço escolar, afirma Rita de Cássia logo
no início de seu trabalho, serviu antes como lócus de observação do
cotidiano infantil, das relações que se estabelecem entre as crianças, e
de como o preconceito racial permeia e se apresenta nestas relações.
A idéia, então, foi colocar a criança
no centro da análise, como sujeito ativo de interpretações e adaptações
do fluxo discursivo, cultural, brasileiro acerca do racismo e da
discriminação. Neste sentido, a autora empreende um esforço em entender
as categorias usadas por estes entrevistados mirins nos seus próprios
termos, e não a partir de deduções apriorísticas advindas do repertório
adulto.
Fácil falar, mais difícil fazer. Porém
Rita de Cássia é bem sucedida na tarefa, auxiliada em boa medida pela
metodologia escolhida; assim, além de entrevistas em profundidade, a
socióloga busca respostas das crianças através da imersão no universo
lúdico: por via da utilização de jogos indutores do tema, como a
apresentação de bonecos e fotos de pessoas de cores diferentes, com a
sugestão de que os entrevistados construíssem histórias com eles, ou,
outras vezes, indicassem profissões possíveis a cada um dos bonecos; da
reprodução de situações do cotidiano a partir das quais as crianças se
colocassem; e também de observação participante no dia-a-dia da escola,
especialmente no recreio e em horários extra-aula. Conversas com grupos
também foram bastante importantes para a construção da pesquisa, sendo
marginalmente também realizadas entrevistas com professoras ou
funcionários das escolas.
Cada categoria surgida nas conversas
ou nas brincadeiras infantis era preenchida de significado a partir da
elaboração das crianças sobre o assunto; neste sentido, a autora buscou
a interpretação “nativa” dos fatos, histórias e termos verbais, numa
linha muito próxima do comportamento de um antropólogo no campo – em que
pese a intervenção da pesquisadora, neste caso, ser bem mais incisiva
que a tradicionalmente associada ao etnógrafo.
Aliás, cabe dizer aqui que esta
aproximação teórica e metodológica entre os campos da Sociologia e da
Antropologia tem uma história intensa e extensa, em se tratando do
estudo das relações raciais. Desde os trabalhos de Oracy Nogueira e
Florestan Fernandes, nos anos 50, só para citar alguns exemplos, o
esforço em compreender o objeto para além das fronteiras disciplinares
tem rendido belos resultados. Mesmo mais recentemente, em que se observa
maior delimitação de campos de atuação e de perspectivas teóricas entre
Sociologia e Antropologia, é possível dizer que ambas têm mantido um
diálogo profícuo através de pesquisas em que dados quantitativos sobre
as desigualdades entre brancos, pretos e pardos são complementados com
estudos de caso específicos, que auxiliam no entendimento das práticas e
das representações sobre tais identidades de cor e as relações entre
elas. Nesta direção, Rita de Cássia Fazzi está bastante bem acompanhada.
Mas resta ainda um outro desafio
enfrentado pela autora, e que parece se expressar inclusive na diferença
entre o título, mais carregado de conteúdo emocional, e o subtítulo,
mais descritivo; ou seja, é preciso ir além do discurso militante e
estabelecer condições propícias para a elaboração de um discurso
acadêmico-científico – afinal, trata-se de uma tese. Neste ponto, a
autora buscou apoio na literatura sócio-antropológica referente à área
de relações raciais, focalizando sobremaneira os estudos feitos com
crianças tanto internacional quanto nacionalmente. Os primeiros se
baseiam fortemente em exemplos norte-americanos, enquanto que o que
chama a atenção no caso das pesquisas brasileiras é sua pouca quantidade
e o foco institucional – em outras palavras, as análises sobre o papel
da escola, dos professores e do conteúdo didático e seu impacto sobre as
crianças.
Neste ponto também Fazzi não foge de
uma tradição já comum nesta área de estudos: a tendência a privilegiar a
comparação, ou ao menos a estabelecer uma referência, com os Estados
Unidos. Gilberto Freyre já indicava em Casa Grande e Senzala esta que
seria uma marca registrada das produções teóricas, tanto aqui quanto lá;
entretanto, ao longo do tempo, esta perspectiva comparativa foi sofrendo
críticas, com a tentativa de incorporar outras tradições, como foi o
caso de Alberto Guerreiro Ramos e sua instigante proposta de ouvir
intelectuais e militantes africanos e caribenhos francófonos.
Esta ampliação do leque referencial
nos anos 80 ganha o reforço teórico de um sociólogo inglês, Paul Gilroy,
que sugere pensar as relações raciais em cada Estado-nação moderno
também sob o enfoque dos diversos fluxos de idéias, movimentos e
práticas entre os territórios que compõem a diáspora africana, e que,
segundo ele, constituiriam a unidade “Atlântico negro”. Trata-se, então,
de uma aproximação entre outros autores e atores, em busca de
alternativas ao que já foi chamado de “imperialismo acadêmico” por Bourdieu e Wacquant (1998), em artigo provocador. Nele, estes autores
apontam justamente a área de relações raciais como evidência da
interação desigual entre estudiosos brasileiros e norte-americanos.
Assim, nos últimos anos, tem-se
intensificado o intercâmbio com outras referências nacionais, como a
África do Sul (cf. Rosa Ribeiro, 1995); ou a África lusófona (Fry, 2001;
e Thomaz, 2002); além disso, tem crescido também o interesse por um
maior conhecimento das formações identitárias negras em outras
realidades latino-americanas, como a dos países do Cone Sul (cf. Frigerio, 2000) ou na Colômbia (por exemplo, o trabalho de Viveros
Vigoya, 2003 sobre masculinidades negras em camadas populares).
Mas se na atenção enfática ao material
acadêmico produzido nos Estados Unidos a autora não se destaca do viés
tradicional dentro do estudo das relações raciais, o diferencial de sua
pesquisa, ou seja, seu empenho em ouvir as crianças brasileiras, rende
conclusões interessantes. A primeira delas diz respeito à existência, já
desde tenra idade – os menores estudantes entrevistados têm sete anos -,
de um pensamento pautado pela noção de “raça”, como princípio
classificador humano. Esta noção, embora ainda não cristalizada, já
motiva atitudes e comportamentos discriminatórios, e demonstra também já
ter por base a associação entre “tipo racial” e atributos morais.
Acionada a partir da diferenciação por cor, a “raça” se constitui
enquanto hierarquia que dispõe em escala grupos mais e menos valorizados
socialmente. É neste sentido que se pode entender, por exemplo, as
respostas infantis às demandas da autora para associarem comportamentos
negativos e positivos a bonecos “brancos” e “negros”: a conexão entre
boneco branco e valores positivos foi maciçamente efetivada nos grupos
entrevistados, tanto o de camadas médias quanto o das camadas populares.
Quanto às práticas discriminatórias citadas ou efetuadas pelas crianças
em relação ao grupo não-branco, a autora lista: “xingamentos ‘por causa
da cor’; não gostar da cor dos ‘negros/pretos’; fazer os pretos de
escravos; não aceitar os pretos e não considerar o preto como gente” (p.
187). Neste sentido, não apenas as crianças atuam dentro do âmbito de um
pensamento racial, mas têm consciência dele, ou seja, quando perguntadas,
demonstram saber que o grupo “negro” se encontra inferiorizado
socialmente.
É neste ponto que se revela a
relevância desta pesquisa para o campo dos estudos raciais brasileiros,
pois, além da existência de racismo e preconceito, a autora também
aponta para a especificidade da discriminação entre crianças, em
primeiro lugar, e do contexto social de sua produção. Isto significa
dizer, como Rita de Cássia o faz, que este pensamento racializado entre
as crianças, embora consistente e denso, é também permeado de
contradições e incongruências – como, aliás, acontece em outros âmbitos
também, em se tratando de crianças desta idade. Nesta direção, é um
pensamento passível de ser modificado com relativa facilidade,
demonstrando uma certa fluidez em seus desdobramentos práticos, ou seja,
apresentando-se de forma ainda assistemática, e dependendo de outras
variáveis individuais para se expressar mais incisivamente.
Outro achado de pesquisa foi que este
pensamento convive e dialoga com outro, antiracista, que considera
recrimináveis atos e comportamentos discriminatórios em relação aos
“negros/pretos”. Os argumentos aqui utilizados pelas crianças dizem
respeito tanto a máximas religiosas, particularmente católicas – “os
pretos também são filhos de Deus”, “Deus é que criou as cores diferentes,
então está certo”, etc. – como também através do “conceito mais geral de
humanidade” – “por dentro gente é tudo igual”. Estes argumentos
“relativizadores do preconceito”, como os chama a autora, têm força
suficiente para frearem manifestações racistas mais agressivas, assim
como para criarem uma espécie de etiqueta inter-racial que supõe o
racismo e a diferenciação hierárquica como temas tabu.
A pesquisadora aponta ainda que o
discurso relativizador (como o chamou) é mais acionado pelas crianças de
camadas médias – o que a leva a concluir que as crianças de camadas
populares “estão menos aparelhadas para enfrentar o preconceito racial,
apesar de terem que lidar com situações raciais estigmatizantes
cotidianamente” (p. 214).
Entretanto, esta espécie de “freio relativizador” tem seus limites, tanto no sentido de que, ao impor
silêncio sobre estes assuntos, impede aprofundamento da interação e
mesmo auxílio aos que se sentem veladamente agredidos; como pela
potência maior demonstrada pelo discurso do racismo. Como afirma a
autora, em suma, “o discurso relativizador e o preconceito racial são
componentes do processo de socialização das crianças, e ambos estão em
processo de cristalização e de estabilização durante a infância. O
discurso relativizador não tem, no entanto, força suficiente para
impedir que o comportamento preconceituoso se desenvolva. Sua eficácia é
reduzida diante não só da pressão das representações preconceituosas
existentes na sociedade brasileira mais ampla, mas também da ausência de
uma discussão sistematizada e aberta da questão racial com as crianças”
(p. 213-214).
As conclusões da autora, no entanto,
vão além da apresentação dos achados de pesquisa, para concentrarem
carga ainda em proposições lançadas a agentes educadores, ao poder
público e aos leitores em geral. Neste sentido, Rita de Cássia traz
também uma bela contribuição para o debate que se desenvolve desde anos
recentes no campo dos estudos raciais, e que diz respeito à necessidade
– para muitos, urgência – de elaboração e efetivação de políticas
focalizadas para os afrodescendentes, dada a desvantagem social a que
estão relegados em várias esferas da vida social brasileira. Como
primeiro passo, a pesquisadora frisa a importância de se abrir o debate
sobre o tema racial com as crianças dentro e fora das escolas, com o
objetivo de reforçar, de certa forma, o que culturalmente elas já
revelam desde cedo: o discurso igualitário.
Este tipo de discurso, de resto, já
havia sido identificado desde os anos 50 na literatura pertinente ao
tema – veja-se por exemplo todo o trabalho de Oracy Nogueira, como,
inclusive, lembra Rita de Cássia. O que a autora faz é retornar a ela
não para afirmá-lo enquanto farsa, ou enquanto discurso vazio, mas como
instrumento potencial de mudança. Assim, a pesquisadora insiste na
premência de que se organizem ações dentro das escolas, com o intuito de
modificar as narrativas sociais que desvalorizam “negros/pretos”. Estas
ações devem começar cedo – a partir dos três anos de idade -, e devem
também, ao mesmo tempo, incidir sobre a problematização da própria noção
de raça. Isto porque, segundo Fazzi, enveredar pelo caminho da afirmação
étnico-racial, contrapondo-o ao racismo, “pode ter como efeito o
acirramento do preconceito e não a sua superação, como a experiência
norte-americana parece mostrar.” (p. 217). Apenas através do
enfraquecimento de sua força simbólica e do esmaecimento de seu
significado, portanto, pode-se pensar na superação da desigualdade entre
pessoas de cor diferente na sociedade brasileira – eis a idéia motriz de
Rita de Cássia Fazzi.
Referências bibliográficas
BOURDIEU, Pierre; Wacquant, Loïc.
(1998) “Sur les ruses de la raison imperialiste”. In: Actes de la
Recherche en Sciences Sociales, v. 121, p. 109-118.
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FRY, Peter (org.) (2001). Moçambique – ensaios. Rio de Janeiro,
Ed. UFRJ.
NOGUEIRA, Oracy (1985). Tanto preto quanto branco: estudo de relações
raciais. São Paulo, TA Queiroz.
ROSA RIBEIRO, Fernando (1995). “Apartheid” and “democracia racial”:
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doutorado (mimeo).
THOMAZ, Omar Ribeiro (2002). Ecos do Atlântico Sul. Rio de
Janeiro, UFRJ.
VIVEROS VIGOYA, Mara (2003). Identidades masculinas, étnico-raciales
y salud sexual y reproductiva – una articulación necesaria. Angra
dos Reis, VII Congresso de Ciências Sociais e Saúde, outubro de 2003.
(*)
Patrícia Farias é doutora em Antropologia pelo IFCS-UFRJ e
professora adjunta do Departamento de Política Social da Escola de
Serviço Social da UFRJ.