Resenha (Edição nº 37)

"Inventando Carnavais. O surgimento do carnaval carioca no século XIX e outras questões carnavalescas", por Nilton Silva dos Santos (*)    

Dados do livro resenhado:
Título: Inventando Carnavais. O surgimento do carnaval carioca no século XIX e outras questões carnavalescas (2005)
Autor: Felipe Ferreira
Editora: UFRJ
Páginas: 357
 

Os estudos sobre o Carnaval como fenômeno social ganham com “Inventando Carnavais. O surgimento do carnaval carioca no século XIX e outras questões carnavalescas”, escrito por Felipe Ferreira, uma nova contribuição que chega como referência obrigatória.

Felipe Ferreira nos apresenta neste livro, originalmente tese de doutoramento em Geografia Cultural, um argumento que procura indicar em que medida no âmbito carnavalesco também se pode vislumbrar uma disputa por espaços, materiais e simbólicos, nos momentos festivos sem que esta percepção reduza a festa a mero apêndice ou momento da luta de classes.

Na primeira parte do livro Ferreira enfoca os traçados e tensões presentes no carnaval da cidade do Rio de Janeiro entre 1840 e 1930. Discutindo os embates pela definição do que deveria ser um “carnaval civilizado” o autor traz à cena os debates sobre os usos adequados das ruas, momento em vemos confrontados o entrudo “sujo e barulhento” de origem portuguesa e os bailes à fantasia bem ao gosto francês e os desfiles de carros alegóricos das Sociedades Carnavalescas (Fenianos, Tenentes, Democráticos, Estudantes de Heildelberg, entre outros).

Nesta secção somos brindados com mapas ilustrativos que nos permitem ver os trajetos percorridos por estas Sociedades e como, na definição destes roteiros, se articulam e são destacados os novos espaços socialmente valorizados, instituindo “toda uma série de hierarquias espaciais” (p. 101). Claro que esta substituição de um padrão individualista e “bagunçado” presente na brincadeira de Zé Pereira e no lançamento de jatos d’água e limões de cera, nem sempre cheirosos, persiste em diversos locais da cidade sem distinguir seus alvos – sejam eles senhores de fraque e cartola ou as senhoritas nos balcões dos sobrados.

Este embate sobre a concepção de Carnaval adequado à imagem da cidade do Rio de Janeiro, portanto, emerge num momento em que se tem, no período compreendido entre 1870 e o final de 1920, a “ascensão do projeto de modernização do Brasil”, com as conhecidas sínteses que irão redefinir a identidade nacional.

Na segunda parte do livro temos as “outras questões carnavalescas”, ou seja, uma deliciosa e bem documentada apresentação dos carnavais de Paris e Nice no século XIX. Num percurso histórico de cem anos, aproximadamente, vemos como Paris deixa de ser o centro da festa carnavalesca, na medida em que sua burguesia domestifica a festa carnavalesca, arrancando dela sua tensão e a transformando em “espetáculo que, aos poucos, vai perdendo sua razão de ser” (p. 220).

Com o ocaso de Paris, Nice passa a ocupar o centro das festividades carnavalescas em França. No capítulo 4 intitulado “O carnaval perfeito de Nice, a Bela”, Felipe Ferreira reconstitui este processo de “agenciamento de sua elite” com o intento de tornar-se centro de um turismo de lazer festivo que, aos poucos, irá substituir a imagem da cidade niçoise anteriormente vinculada a destino de descanso e recuperação de doentes.

Este esforço da elite de Nice passou inclusive pelo apagamento das influências italianas, oriundas do carnaval de Turim, que a cidade de Nice cultivou durante longo tempo. Lemos que a instauração da “comissão de Carnaval” (subordinada ao comitê de festas) “composta dos mais egrégios personagens de Nice e da colônia estrangeira” (p. 260) viabilizou a emergência de um carnaval à francesa que refletia os interesses políticos e econômicos da elite mudando, assim, o local e o caráter das atividades. Esta iniciativa que segregou espacialmente os setores populares da festa carnavalesca contribuiu, sobremaneira, para “projetar a cidade internacionalmente e marcar a vitória de uma estratégia muito bem elaborada” (p. 270).

Finalmente, na terceira parte, o autor empreende um debate sobre os referencias teóricos com os quais trabalha, em especial, aqueles oriundos da geografia, sem com isso, descuidar de problematizar as noções provenientes das outras ciências sociais, em especial, a antropologia. Ganha destaque nesta parte do livro o conceito de lugar, pois nas palavras de Ferreira, a festa não se realiza sem que se “estabeleça uma disputa constante pelo lugar da festa e é dessa disputa que surge a tensão seminal que produz o evento festivo. A festa está, desse modo, vinculada à questão do espaço/poder e à própria definição do lugar festivo” (p. 291).

“Inventando Carnavais” é leitura de qualidade que consegue articular no espaço/tempo Rio de Janeiro, Paris e Nice por intermédio da análise de suas festas carnavalescas. Com uma análise sofisticada e bem informada, além de farto material de pesquisa em arquivos, somos conduzidos ao argumento do autor que nos descortina os conflitos pela definição de lugares tanto quanto de concepções de festa. Neste sentido, os momentos vividos pelo Carnaval nestas distintas cidades apontam na direção de um processo civilizador que perpassa os eventos festivos e configuram o que cada espaço metropolitano será.


(*)  Nilton Silva dos Santos é doutor em Antropologia Cultural pelo IFCS/UFRJ e professor de Sociologia na Faculdade de Direito-Centro da Universidade Candido Mendes.


 

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