"História da
Antropologia",
por Maria Claudia Coelho
(*)
Dados
do livro resenhado:
Título : História da Antropologia
Autores: Thomas Hylland Eriksen e Finn Sivert
Nielsen
Editora: Vozes
Número de Páginas: 261 |
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Thomas H. Eriksen e Finn S. Nielsen,
autores de História da Antropologia, lançado no Brasil pela Editora
Vozes, são professores respectivamente na Universidade de Oslo e na
Universidade de Copenhague. Estas inserções – ao mesmo tempo próximas e
distantes do mainstream antropológico – podem nos servir como “porta de
entrada” para uma reflexão sobre a concepção da história da antropologia
que elaboram em seu livro.
No último capítulo (“Reconstruções”),
os autores procuram identificar, em meio à incerteza que apontam como
sendo a marca dos anos 90, e a despeito da falta de distância histórica
para se esboçar uma visão de conjunto, as continuidades e rupturas
presentes na história da disciplina. Em meio a este esforço,
“relativizam” o desenho que propõem, ressalvando estar ele comprometido
com o que chamam de “poder definicional”, ou seja, a imbricação entre
poder e linguagem na própria constituição do campo antropológico. Deste
modo, sua escolha por examinar as tradições antropológicas de línguas
alemã, francesa e inglesa, embora autorizada pela história da disciplina,
exige ao mesmo tempo um esforço reflexivo, uma vez que, conforme os
próprios autores apontam, se a antropologia brasileira tivesse sido
regularmente traduzida para o inglês e para o francês, toda a história
da antropologia poderia ter sido diferente.
Esta observação, presente nas últimas
páginas do livro, torna sua leitura extremamente provocadora para os
antropólogos brasileiros. Estamos todos acostumados a ler volumes de
introdução à antropologia que principiam recuperando as principais
idéias do evolucionismo (eventualmente retrocedendo um pouco em busca
das raízes filosóficas deste movimento), seguindo então por exposições
dos debates e rupturas teóricas que marcaram o surgimento das escolas
consagradas do culturalismo, do funcionalismo, do estruturalismo e do interpretativismo. O trabalho de Eriksen e Nielsen não foge à regra em
seus capítulos iniciais. Os autores, contudo, vão além, aventurando-se a
tentar identificar linhas-mestras presentes nos momentos de
“estilhaçamento” do campo, ao mesmo tempo em que buscam contemplar a
diversidade de perspectivas que convivem ao longo da história da
antropologia.
Estes dois aspectos abordados – a
ressalva em relação ao próprio trabalho contida na noção de “poder definicional” e a preocupação em oferecer uma visão do campo
simultaneamente fragmentada e coesa (com o perdão do paradoxo) – dão o
tom do livro. A história da antropologia de Eriksen e Nielsen é um
trabalho reflexivo, sendo assim exemplar do movimento atual da
disciplina; ao mesmo tempo, contudo, uma escuta atenta percebe a
presença recorrente das marcas de nascença do empreendimento
antropológico – “o que é o homem? o que é cultura? o que é sociedade?”
-, as quais, um pouco à maneira de um contrabaixo que sustenta uma
harmonia só se fazendo notar ocasionalmente, garantem que se esteja
falando mesmo da história de uma disciplina.
Não é que os autores se furtem a
comentar e explorar as relações da antropologia com outras áreas do
saber. Suas comparações entre a antropologia e a sociologia abordam
desde suas dívidas e compromissos para com os momentos históricos e suas
questões emergentes até a atual conjuntura, que faria da antropologia
hoje um “sucesso de público” às custas da sociologia. O “estado da arte”
dos debates entre uma visão biologizante do homem e a perspectiva
“culturalizante” da antropologia também merece atenção em muitos
momentos, bem como eventuais influências de modelos teóricos oriundos de
outras áreas de conhecimento. Em nenhum momento, contudo, esta atenção
para os diálogos com outras disciplinas ganha ares de “panorama”,
estando sempre rigorosamente a serviço de um comentário sobre a
elaboração da identidade disciplinar da antropologia.
O livro está estruturado em nove
capítulos. O primeiro deles dedica-se a uma “pré-história” da
antropologia, e já aí seu tom “reflexivo” faz-se notar. Voltando aos
gregos em busca da origem de questões que na modernidade fundariam a
antropologia – o problema da alteridade e o paradoxo filosófico entre
universalismo e relativismo -, os autores comentam ser esse um
procedimento-padrão de toda ciência européia: buscar nos gregos sua
ancestralidade... O capítulo traz ainda uma revisão das “heranças”
clássicas da antropologia, tais como o problema da fidedignidade da
representação do outro colocado pelas grandes navegações; as influências
iluministas e românticas; e os legados de Kant e Hegel. Ao contrário,
contudo, de apenas rastrear essas continuidades, os autores já aí
introduzem também uma pergunta que evidencia aquela preocupação com o
equilíbrio entre ruptura e continuidade comentada acima como sendo a
marca de seu trabalho: por que só tão mais tarde iremos falar em “antropologia”,
se todas as grandes questões parecem estar presentes já há tanto tempo?
Resposta: a antropologia seria ao mesmo tempo um produto da modernidade
e uma combinação de dois gêneros: os relatos de viagem e a filosofia
social.
O segundo capítulo abre com uma
comparação entre o surgimento da antropologia e da sociologia. Enquanto
a primeira decorreria das relações imperialistas, a segunda surgiria com
a industrialização e a premência, dela decorrente, de compreensão de seu
impacto sobre as relações de classe. Em sendo assim, as duas disciplinas
teriam “pedras fundamentais” distintas: para a antropologia, a
alteridade; para a sociologia, a modernidade. Antropologia e sociologia
teriam ainda “marcas de nascença” próprias: enquanto o ponto-chave de
toda reflexão antropológica seria o princípio de uma unidade psíquica da
humanidade, o alicerce de todo o pensamento sociológico seria a noção da
sociedade como uma realidade autônoma. O capítulo prossegue com o exame
da obra de alguns ancestrais e/ou fundadores, com seções específicas
dedicadas a Lewis H. Morgan, Karl Marx, Émile Durkheim e Max Weber.
O terceiro capítulo dedica-se ao exame
das contribuições de quatro “pais fundadores”, centrais na constituição
das três grandes tradições antropológicas (norte-americana, inglesa e
francesa): Franz Boas, Bronislaw Malinowski, A. R. Radcliffe-Brown e
Marcel Mauss. A preocupação dos autores em equilibrar as
particularidades com os grandes quadros é nítida neste capítulo, em que
as posições dos quatro fundadores, ainda que apresentadas em seções
separadas, são postas em diálogo. Assim é que Eriksen e Nielsen destacam,
como uma contribuição fundamental de Boas, a indissociabilidade entre
método e moral no princípio do relativismo, distinguindo entre trabalho
de campo e observação participante para caracterizar a segunda como
legado de Malinowski. Ambos, contudo, compartilhariam da atenção para
com o detalhe e da preocupação com o ponto de vista nativo, distinguindo-se
– ainda no plano das grandes pinceladas – na atenção dada às
reconstruções históricas. Este capítulo, desenhado de modo a permitir
este deslizamento constante entre diferenças e semelhanças,
particularidades e linhas-mestras, prossegue com Radcliffe-Brown, que,
dividindo a cena antropológica inglesa com Malinowski e com este
compartilhando a desconfiança em relação à historicização dos estudos
sobre sociedades tribais, dele se afastaria pelo lugar dado ao indivíduo:
um fundamento da vida social para Malinowski, um epifenômeno para
Radcliffe-Brown. A preocupação fundamental de Radcliffe-Brown é
apresentada como sendo as formas da integração social, sua postura
teórica aproximando-se assim daquela de Marcel Mauss - o quarto “pai
fundador” -, que traria de sua herança durkheimiana uma concepção
“holística” da sociedade.
O esforço dos autores em apresentar de
forma coesa um campo que se fragmenta torna-se ainda mais claro a partir
do quarto capítulo. Recorrendo ao título de um artigo de Adam Kuper, os
autores empreendem uma análise da “rotinização do carisma” na
antropologia, procurando a partir de então mostrar de que modo a sedução
inicial do empreendimento antropológico institucionalizou-se na criação
dos principais departamentos de antropologia nos Estados Unidos, na
Inglaterra e na França. Um terceiro grande mérito desta “história da
antropologia” aparece aqui. Discutindo a formação dos principais centros
(entre eles Oxford, London School of Economics, Columbia e Chicago),
Eriksen e Nielsen entrelaçam trajetórias pessoais, processos de
institucionalização e debates teóricos, desenhando uma malha intricada
em que quem estava onde, quem estudara com quem e quem pesquisava o quê
combinam-se na construção de uma história viva dos rumos do pensamento
antropológico.
Os capítulos 5 e 6 abordam os anos 50
e 60, sendo divididos por temas: estabilidade/mudança e coesãosocial/agência
individual no capítulo 5, as teorias do significado no capítulo 6. O
ponto forte do capítulo 5 é a sugestão de que a entrada em cena da
política como um tema nobre das agendas de pesquisa é um fator que teria
impulsionado a crítica ao estrutural-funcionalismo, uma vez que, sendo a
política a “arte do possível”, seu estudo teria colocado em xeque a
concepção da vida social como coesa e estável.
Muitos grandes nomes surgem em cena no
capítulo 6, entre eles Victor Turner, Mary Douglas, Clifford Geertz e
Claude Lévi-Strauss. O entrelaçamento entre as trajetórias individuais e
a formação das grandes tradições nacionais permanece uma preocupação
marcante dos autores, como por exemplo na discussão sobre a rejeição
inglesa ao estudo do significado sem atenção para a organização social,
tal como teria sido proposto pelos norte-americanos Clifford Geertz e
David Schneider. Ao fim deste capítulo, o esboço do “estado da arte” em
1968 aponta para uma expansão numérica e para uma dispersão geográfica
da antropologia, com o desenvolvimento da disciplina em novas regiões
européias (Holanda, Itália, Espanha e Escandinávia) e com a expansão das
antropologias indígenas na América Latina. Aqui, destaca-se a
sensibilidade dos autores para a riqueza de um outro tipo de dado nesta
reconstrução da história da disciplina: o número de novos doutores, que
passa, nos Estados Unidos, de 22 em 1950 para 409 em 1974.
O capítulo 7 principia com um novo
dado deste tipo: a presença de mais de dez mil membros pagantes na
Associação Americana de Antropologia em fins dos anos 90, apresentado
como evidência do enorme desenvolvimento da disciplina. O foco do
capítulo está nos anos 70. Devido à enorme difusão deste período, os
autores optam por voltar a atenção para o exame de duas correntes de
grande impacto: o marxismo e o feminismo, responsáveis pela inclusão na
agenda antropológica dos temas do gênero e do poder. Examinando as
dificuldades e contribuições de cada corrente, os autores destacam como
problema central das antropologias marxistas (assim mesmo, no plural) a
forma de conceber a relação entre o material e o ideacional. Já o
feminismo é apresentado como tendo dado duas contribuições de enorme
relevância: a noção de que o conhecimento antropológico é
necessariamente “posicionado” e a abertura de novas áreas temáticas,
entre elas a antropologia do corpo, os estudos de gênero e o estudo da
“resistência” entre grupos oprimidos. Os autores abordam ainda neste
capítulo o surgimento dos estudos sobre etnicidade, da “teoria da
prática” (e seu impacto sobre os estudos do corpo) e da sociobiologia –
movimento este em que o tema fundamental da antropologia acerca da
relação entre natureza e cultura reemerge com contundência.
Pós-modernismo e pós-colonialismo
surgem no capítulo 8, dando o tom dos anos 80, caracterizados pelos
autores como uma “época de dúvida”, em oposição ao “compromisso” que
marcara a antropologia na década anterior. É a época também da
antropologia urbana e do esmaecimento das fronteiras entre as tradições
nacionais. Ambos os movimentos radicalizam a “virada reflexiva”,
passando a encarar a própria disciplina como um “regime de conhecimento”.
Apesar desta semelhança, contudo, os autores apontam como uma distinção
fundamental entre os dois movimentos a natureza epistemológica da
motivação pós-modernista, em oposição à motivação politizada do
movimento pós-colonialista. E aqui reside uma crítica possível a esta
história tão refinada da antropologia, pois não é justamente na crítica
à epistemologia da antropologia ocidental que reside a essência política
do movimento pós-colonialista? E, por sua vez, todas as revisões
epistemológicas do pós-modernismo norte-americano – a atenção dada à
política das representações, a desconstrução da noção de “cultura”, a
concepção da etnografia como um gênero narrativo – não podem ser
pensadas como um alentado mea culpa movido por uma percepção tardia da
imbricação entre empreendimento intelectual e atitude política?
O último capítulo explicita a
preocupação com o equilíbrio entre permanências e rupturas que perpassa
todo o livro. Os autores sublinham, entre outras continuidades, o apreço
pela observação participante e o interesse pela tensão entre o universal
e o particular. Entre as rupturas, destacam a mudança na relação
antropólogo-nativo e suas implicações éticas; a perda de sentido da
oposição tradicional-moderno; e a implosão da noção de “espaço”
provocada pelas conexões transnacionais, com seu enorme impacto sobre o
conceito de “campo”, tão central na constituição original do pensamento
antropológico. Elegem ainda, para reflexão final, duas tendências
recentes: os estudos sobre globalização e a aproximação entre biologia e
cultura.
Nos estudos sobre globalização, os
autores sublinham a permanência das questões “o que é cultura” e “o que
é sociedade”; na discussão sobre biologia e cultura, destacam a retomada
da pergunta “o que é ser humano”. Questões fundadoras da antropologia em
seus primórdios, estes problemas pontuam toda essa história da
antropologia de Eriksen e Nielsen, reaparecendo aqui e acolá, algumas
vezes como pano de fundo, outras no proscênio, garantindo que
instituições, pessoas e idéias permaneçam entrelaçadas na constituição
desta visão que recorre ora ao telescópio, ora à lupa, como instrumentos
de observação.
É assim que polêmicas famosas aparecem
tratadas: o caso Sokal é usado para falar da tensão entre humanismo e
cientificismo; o caso Chagnon-Tierney e a polêmica Sahlins-Obeyesekere,
para discutir a tensão universalismo-relativismo. E é neste recurso a
episódios famosos da antropologia para discutir questões fundadoras que
cristaliza-se com toda a clareza a afirmação que Eriksen e Nielsen fazem
já mais para o final do livro, e que parece condensar todo o seu projeto:
“Devemos sempre lembrar-nos de que as trajetórias intelectuais raramente
são simples e que as fronteiras raramente são claras.”
(*)
Maria Cláudia Coelho é antropóloga e professora adjunta do
Departamento de Ciências Sociais da UERJ.