Resenha (Edição nº 36)

"A renovação do conto. Emergência de uma prática oral", por Gláucia B. R. Mello (*) 

Dados do livro resenhado:
Título: A renovação do conto. Emergência de uma prática oral
Autora: Maria de Lourdes Patrini
Editora: Cortez
Número de Páginas: 232
 

Nos Agradecimentos, Prefácio e Introdução cientificamo-nos de que o livro reproduz parcialmente o trabalho que foi originalmente apresentado pela autora como tese de Doutoramento em Antropologia Social, na École des Hautes Études, de Paris, em dezembro de 1998. Este trabalho foi primeiramente publicado pelas Edições Slatkine, em 2002, em francês, com o título: Les conteurs se racontent. Para esta edição brasileira, a autora fez novas adaptações e deu naturalmente novo título ao trabalho.

O livro trata da prática milenar de tradição oral do conto ressurgido como um fenômeno sociocultural pós-moderno, no contexto ocidental, aplicado à realidade social francesa. O interesse da pesquisadora recai marcadamente sobre o papel social da pessoa do novo contador de histórias e de sua prática, saídos do Movimento de Maio de 68. Ela explora os conceitos de reconto e parole conteuse, utilizados pelos contadores franceses e que lhe parecem bem definir a modalidade das suas práticas. Reconto e parole conteuse são aqui estudados como formas de reapropriação da tradição oral por parte do contador urbano e contemporâneo, atento ao interesse do seu novo público, no contexto social e tecnológico em que vivemos.

Através de seu estudo, a autora mostra que a prática do contador esteve quase desaparecida e ressurgiu “pós-modernamente” a partir dos anos 1960, no conjunto das grandes transformações culturais e ideológicas ocidentais, quando se verificou maior e mais efetiva a demanda de participação social. O enfoque da autora nesta obra recai, conforme argumenta Gloria Pondé (na orelha do livro), sobre o surgimento dos contadores com outras maneiras de relacionarem-se com os ouvintes, visando uma maior interação entre as partes. Assim, a narração oral é enriquecida por recursos midiáticos e a performance do contador extrapola a passividade do contar tradicional, agregando e adaptando elementos corporais, psicológicos e estéticos. Com este novo desempenho, esta prática espalhou-se por todo o mundo ocidental e chegou ao Brasil por volta dos anos 1980. Os novos contadores reapropriam, recuperam, reciclam uma técnica e estas operações lhes conferem identidade. A autora privilegia a função do narrador e a sua performance.

O livro apresenta cinco partes, assim intituladas: “A renovação do conto oral na França”; “Em cena... o novo contador de histórias”; “Oralidade e arte de contar”; “A performance” e “Performance em ressonância”, mais a conclusão; bibliografia; índice onomástico dos autores citados e dos contadores entrevistados.

Na primeira parte do livro, a autora apresenta o panorama do surgimento do reconto no contexto francês e a perspectiva do papel social do novo contador de histórias e sua prática, na dinâmica social de “tomada da palavra popular”, no contexto do Movimento de Maio de 68. Ela mostra que a “tomada da palavra” contribuiu decisivamente para a reabilitação do conto oral, com uma nova feição. Os novos contadores tinham, em maio de 68, entre vinte e vinte e cinco anos de idade, atuavam dentro das bibliotecas e valiam-se de livros escritos e outros suportes, com o objetivo de dessacralizar o templo do livro. Do seu trabalho empírico, a autora extrai os seus argumentos. Trata-se de espetáculos assistidos por ela e entrevistas realizadas com contadores e contadoras profissionais e amadores franceses, com idade entre 35 e 55 anos, alguns deles tendo participado, na adolescência ou na juventude, dos acontecimentos de Maio de 68. O resultado destas entrevistas demonstrou como o ressurgimento da prática de contar e a reaparição da oralidade foram decisivos para uma renovação do conto, o reconto, que permanece, no entanto, como um movimento minoritário e marginal.

Na segunda parte do livro, a reflexão recai sobre a pessoa do contador. Aqui, a autora explicita a longa pesquisa que realizou sobre os contadores e sua prática, destacando a inexistência de formação, de espaço de reflexão, de identidade e da definição do papel social do contador. Ela aborda também aspectos psicológicos dos contadores, como a solidão e a busca de soluções pessoais através dessa prática – um lado libertador, sentimento de plenitude, de preenchimento de uma ausência, partilha de emoções e experiências inesquecíveis. Ela destaca que o fator econômico concorre positivamente para o desenvolvimento desta prática no contexto urbano, já que, diferentemente do teatro e de outros espetáculos, ela prescinde de palco, iluminação, sonorização, um grupo de atores, etc. Os profissionais ou amadores do reconto ressentem-se, no entanto, do reconhecimento da sua profissão. A inexistência de uma formação institucional profissionalizante lhes outorga, no entanto, a liberdade e o desejo de construírem, à sua maneira, a sua própria identidade, através de sua prática criativa e particularizada.

A terceira parte do livro destaca a oralidade e a arte de contar. Aqui, ela releva os valores da tradição e da memória coletiva, a importância da experiência vivida e formas de transmissão, utilizadas na ritualização desta prática. A autora recorre a suportes conceituais que distinguem: contar/narrar, ler/escutar, dizer. Ela destaca um debate interessante sobre a oralidade, considerada por vezes lei do menor esforço, ao mesmo tempo em que se constitui como expressão e forma de transmissão legítimas do conhecimento em variados meios sócio-culturais. Ela explicita sumariamente algumas etapas da evolução do conto e as formas de apropriação dos contadores, ressaltando que o contador contemporâneo busca conscientemente através de sua prática distanciar-se da tradição e agregar elementos do seu tempo, marcando assim a sua identidade de contador, ao mesmo tempo em que assim determina o surgimento de um novo público e de novas práticas culturais.

A quarta parte do livro trata da performance do contador - expressões do seu corpo físico, visando uma maior interação: a participação do público. A parole conteuse é a palavra portadora de um sentido essencial, elemento da prática do contar e envolve vários elementos performáticos e estéticos do contador: gênero (o contador /a contadora); escolha do repertório (contos tradicionais /experiência de vida); teatralidade (mais ou menos aproximação); utilização de recursos técnicos (imagens, animação, etc.); a entonação da voz; autonomia e legitimidade artística (estatuto artístico).

Na quinta e última parte do seu livro, Patrini apresenta as suas análises não-conclusivas das sessões/espetáculos de contos aos quais ela assistiu e expõe sucintamente os seus métodos de análise. A autora esclarece que entrevistou vinte e oito contadores, assistiu a oitenta espetáculos e escolheu a análise de cinco deles para esta obra. Para tal, ela diz que apoiou-se no método de análise da “entrevista compreensiva”; para a seleção dos cinco espetáculos, levou em conta a performance do contador (variedade, singularidade e originalidade do material recolhido e interpretado) e considerou as cinco operações da performance: produção, transmissão, recepção, conservação e repetição. Por fim, Patrini comenta sucintamente para cada um dos cinco casos alguns elementos de análise, assim: a cumplicidade dos ouvintes, a articulação do imaginário em mensagem, a natureza arquetipal e elementos secundários do repertório, danças e gestos como palavras, imagens e representações.

A autora conclui em aberto, se assim for possível dizer. Antes que uma comprovação, ela finalmente evoca o percurso da construção do texto do seu livro – o testemunho de diversos imaginários sócio-culturais por via dos percursos pessoais e profissionais, repertório e formas de contar, o papel social dos contadores e sua prática. O fenômeno de renovação do conto oral representa aqui uma alternativa para a arte de contar, apresentando-se como um novo modo de transmissão oral, diverso, heterogêneo, espetacular. O estudo deste fenômeno permitiu à pesquisadora afirmar que “apesar da sofisticação da tecnologia e da mídia, o homem tem necessidade de um retorno à oralidade tradicional e do convívio e proximidade que ela pode proporcionar às pessoas”. O seu estudo é de um fenômeno essencialmente urbano, cujas sessões, conforme ela verificou, continuam a ser assistidas por bibliotecários, atores, artistas em geral, professores e outros profissionais, além de eventuais interessados. A autora lembra que o novo contador e sua prática existem em paralelo com o contador tradicional, praticante e transmissor do seu saber, pelo menos em certas regiões do Brasil. Não pense o leitor que vai encontrar ali um repertório de tradições orais ou a preocupação do “recontador” em escolher elementos do folclore ou da cultura das crenças, conforme o título do livro pode sugerir. O livro não explora o que eles contam, mas, como contam. Valorizando elementos performáticos e contextuais do ator “recontador”, o livro agregará certamente o interesse de estudiosos das artes cênicas, fonológicas, semióticas e dos eventos socioculturais.


(*) Gláucia B. R. de Mello é pesquisadora doutora, antropóloga e socióloga, colabora para esta CVA como responsável pela seção de entrevistas.


 

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