"O
valor das intenções: dádiva, emoção e identidade",
por Lucas Kastrup F. Rehen
(*)
Dados
do livro resenhado:
Título: “O valor das intenções: dádiva, emoção e
identidade”
Autor: Maria Claudia Coelho
Editora: FGV
Número de Páginas: 108 |
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Considerar o estudo da dádiva como um
tema clássico e fundamental para a antropologia é o mínimo que podemos
fazer se levarmos em conta que - pelo menos desde Malinowski e Marcel
Mauss - o estudo de sistemas de prestações e contraprestações mostra-se
profícuo e capaz de revelar diversos aspectos da vida social, sendo uma
das marcas mais visíveis na história de nossa disciplina.
O livro “O valor das intenções:
dádiva, emoção e identidade” de Maria Claudia Coelho (2006), investiga a
troca de presentes entre camadas médias cariocas, com o objetivo de unir
o referencial teórico clássico da dádiva ao universo da antropologia
urbana ligada às sociedades complexas contemporâneas. O trabalho é
resultado da pesquisa desenvolvida no Departamento de Ciências Sociais
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) entre os anos de 1997
e 2003, marcadamente voltada para a fecundidade do diálogo entre a
antropologia e as ciências sociais como um todo, assim como com a
lingüística e principalmente a sociolingüística interacional, o que irá
se refletir no tratamento dado ao tema - entendendo a troca como uma
forma de comunicação, construindo imagens do doador, do receptor e
possuindo uma “gramática” própria. Dessa forma o livro também se insere
no terreno da antropologia das emoções, em especial em sua versão “contextualista”,
que entende os sentimentos como uma forma de discurso, sendo assim, os
presentes dados e recebidos seriam veículos de transmissão de afeto ao
suscitarem e expressarem emoções específicas. A tônica de sua análise é
compreender a gramática do presentear e das emoções como uma linguagem
propriamente dita, que possui suas regras, mas que ganha novos sentidos,
nuances e até mal-entendidos quando vivenciada pelos indivíduos de carne
e osso.
O material apresentado pela autora conta com entrevistas coletadas junto
a grupos de moradores da Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, com
informantes variando entre 45 e 70 anos de idade, na maioria mulheres.
Seguindo a sugestão de Marcel Mauss
que entendia a dádiva como “Fato social total” a autora aposta na
temática do estudo da troca de presentes devido à sua imbricação com as
várias dimensões da vida social. No primeiro capítulo, Coelho fornece um
mapeamento do lugar ocupado pela dádiva em trabalhos clássicos de
Malinowski, Marcel Mauss, Lévi-Strauss, Godelier e Bourdieu, mostrando
nessas contribuições, similaridades e diferenças entre cada uma das
propostas teóricas.
No capítulo 2, intitulado “‘Um
presente que é a sua cara’: dádiva e apresentação de si” a pesquisadora
faz uso de outros autores de forma mais pontual, o mesmo ocorre nos três
capítulos subseqüentes. Nesta parte, fica evidente sua vinculação com a
perspectiva interacionista de Erving Goffman, seguida por David Cheal,
na qual as pessoas operariam com estratégias de “elaboração da face”,
expressando por intermédio de suas ações, uma idéia acerca de si mesmo e
do outro. Sendo assim, as situações de gafes e desagrados ocasionadas
por presentes indesejados mostram uma espécie de desatenção ou visão
equivocada por parte do doador e o que ofenderia seria justamente o
choque entre o presente e a idéia que o receptor faz de si mesmo. Duas
situações são aqui destacadas: na primeira história, uma mulher recebeu
de uma grande amiga, para dar a seu filho, o mesmo presente que ela
havia dado para o filho desta amiga na festa do mês anterior.
Decepcionada, a entrevistada resolveu dar presentes baratos no ano
seguinte e ficou chocada ao ver que desta vez a amiga anotara o nome da
doadora no embrulho do presente, ao contrário do que havia feito no ano
anterior e que teria gerado toda esta seqüência de mal-entendidos. O
presente “devolvido”, ainda que sem intenção e fruto de uma desatenção –
já que a amiga não escrevera o nome no presente e por esse motivo
desconheceu a identidade da doadora original - seria um tipo de “recusa
da relação”, se observada sob a ótica de Mauss que entendia o presente
como um “convite à parceria”. Optando por fazer o contrário na festa do
ano seguinte, não se preocupando em dar bons presentes, a entrevistada
acabou construindo uma imagem negativa de si, surpreendida com a nova
postura da amiga, agora preocupada em anotar os nomes.
No segundo caso, a receptora de um
brinco sentiu-se insultada pois o presente havia sido dado por uma amiga
que teria ganhado de sua sogra e estaria repassando por considerá-lo
inadequado à sua pessoa e adequado à “cara” da entrevistada, quando na
verdade, segundo esta, se tratava de um objeto de “perua”, classificação
por ela recusada. Na visão de algumas informantes e fortalecendo o
pressuposto da “elaboração da face”, um presente deve adequar o gosto do
doador e do receptor e este brinco tornou-se duplamente ofensivo, pois
já havia desagradado a amiga, que o recebeu inicialmente da sogra.
Ainda no segundo capítulo a autora
analisa algumas situações envolvendo trocas de presentes entre maridos e
mulheres, chegando a apresentar um perfil do presentear relativo aos
papéis de gênero. Do lado feminino, um bom presente não estaria ligado a
seu valor financeiro e o “valor” – em um novo uso do termo – estaria na
atenção despendida pelo marido aos gostos e demandas pessoais da esposa,
procurando satisfazê-las. Além da atenção, existiriam outros dois
fatores: tempo e trabalho, corroborando com uma idéia de dedicação à
escolha do objeto. Presentes caros como jóias ou viagens para o exterior
seriam valorizados pelas mulheres não tanto por seu alto valor material,
mas quando atendendo desejos pessoais, ratificando o caráter
singularizante de um presente. Uma das histórias mais marcantes nesta
parte do texto é de uma mulher que ficou muito ofendida com seu marido
que teria lhe dado uma imagem de santo, pintada em um pedaço de madeira
e que teria comprado no ateliê onde ele esteve hospedado em uma viagem,
negligenciando as dimensões da atenção, do tempo e do trabalho na compra
do objeto. Sentindo-se insultado, o marido passou a presenteá-la apenas
com dinheiro, o que a ofendeu ainda mais já que o dinheiro por si só
estaria desvinculado da proposta singularizante de um presente. Para
completar, essa mesma entrevistada conta com entusiasmo a alegria de uma
amiga que uma vez recebeu de Natal uma série de pequenos presentes
(lixas de unha, pilhas de walkman, etc.) que o marido havia
anotado durante um tempo considerável, observando suas necessidades
cotidianas. Junto com os presentinhos o marido também deu uma jóia que
segundo a entrevistada agradou a amiga, mas não tanto quanto os outros
presentes.
Vemos aqui que os homens operam
basicamente valorizando o lado financeiro no ato de dar, como mostram
diversos relatos masculinos, afirmando que os bons presentes que
destinaram para suas esposas foram em fases de melhor condição
financeira e isso ajuda a entender o porquê dos pequenos presentes, no
caso acima, terem vindo complementados por uma jóia. Por outro lado,
essa lógica é invertida, na medida em que os maridos recebem presentes
ligados a seu vestuário (como meias, gravatas, etc.) afirmando a
concepção feminina da atenção dada às necessidades do parceiro. Essa
forma específica de troca dramatizaria a natureza dos vínculos entre os
atores envolvidos e a relação dos papéis de gênero tradicionalmente
exercidos – homens como provedores e mulheres como responsáveis pelo lar
e por questões domésticas – embora possa haver variações.
No terceiro capítulo, “O que vale é a
intenção’: dádiva, valor e sentimento” a autora estuda a existência das
datas preestabelecidas para a troca de presentes e também a relação
entre o valor monetário e manifestação de afeto. Na primeira parte do
capítulo Coelho apresenta um resumo dos trabalhos de Cheal - que entende
a troca como uma linguagem e vê os presentes de Páscoa, Dia dos
Namorados e outros como momentos para se dar bens supérfluos de
importância simbólica, renovando laços familiares e de amizade,
obedecendo a emoções específicas – e de William Miller que fala dos
sentimentos (como a ofensa) suscitados no doador e no receptor em
momentos de oferta e na reação de quem a recebe. A autora também cita a
perspectiva de Durkheim, que ao ajudar a estabelecer o terreno da
sociologia com a idéia de “fato social”, separou conceitualmente a
sociedade como algo fora dos indivíduos. Já Mauss, seguindo a mesma
trilha teria proposto uma ligação estreita entre aspectos fisiológicos,
psicológicos e sociais onde até mesmo as emoções obedeceriam a uma
linguagem social, sem negar a veracidade de sua vivência na qual o
sentimento é manifestado aos outros, manifestando-se a si. A tensão
entre obrigatoriedade e espontaneidade, também apareceria no “Ensaio
sobre a dádiva” dizendo respeito à prática da retribuição, vivenciada
como desprendida de obrigações.
Coelho apresenta depoimentos de
algumas entrevistadas que se recusam a presentear em datas
preestabelecidas como Natal, aniversários, Dia das Mães, etc. justamente
por entenderem essas ocasiões como coercitivas. Para estas mulheres, dar
presentes é “uma coisa do coração”, como “dar carinho” e “amor” e o fato
de privilegiarem outros momentos para que os presentes sejam dados, fora
das datas socialmente reconhecidas, favorece a vivência deste ato como
algo espontâneo, resgatando a sua capacidade de transmitir afeto no
universo das trocas materiais contemporâneas. Para a autora: “este
movimento seria uma condição sine qua non para que a dádiva
cumprisse sua função de expressão espontânea de afeto” (p.59).
Dar presentes unicamente pela
existência de uma expectativa social, diluiria a sua dimensão afetiva,
justamente porque a sociedade é vista, no sendo comum, enquanto uma
realidade exterior ao indivíduo e o sentimento como proveniente da
esfera íntima. São domínios opostos que de acordo com o ethos e a
visão de mundo ocidental posicionam-se muitas vezes em pólos antagônicos
e o contraste entre eles chega a inviabilizar o entendimento do afeto
como sendo próprio da esfera social.
O valor monetário dos presentes também
apresenta ambigüidades, podendo ser reconhecido ou não como forma de
manifestar sentimentos. Muitas vezes a escolha do presente vem
acompanhado por um valor fixo preestabelecido pelo doador na época da
compra, onde dependendo do vínculo (filhos, sobrinhos,...) se gasta mais
ou menos na tradução de uma “hierarquia afetiva” (p.60), embora vivida
como despida de uma intenção racional. Sendo assim, algumas ocasiões
como amigo oculto de Natal com “faixa” de preço definido para os
presentes, mostram que as informantes podem descumprir o valor
estabelecido pela família, dependendo da pessoa a ser presenteada,
fortalecendo a idéia do presente como expressão de afeto. Diferente do
universo do mercado, esse tipo de troca permite uma margem de
“liberdade”, sendo encarada como não coercitiva.
No capítulo seguinte, “Hierarquias,
trocas materiais e emoções: o exemplo da gratidão” surge o tema do
vínculo entre patroas e empregadas, expresso na oferta de presentes. Ao
contrário dos outros tipos de trocas, o discurso das patroas é algumas
vezes descrito com um certo tom de “interesse”, como no caso de uma
entrevistada que presenteia a acompanhante de sua mãe a fim de que a
moça se dedique na tarefa profissional. Contudo, as patroas não esperam
uma reação das empregadas como se estes presentes fossem meras
obrigações e também ao contrário de outras modalidades da troca, esta
por ser assimétrica, não exige retribuição em termos materiais e sim de
serviços e sentimentos, em especial a gratidão, com o doador possuindo
status superior. A incapacidade de retribuir com presentes
demarca a hierarquia e a oferta vinda de uma empregada poderia
surpreender ou constranger, assim como causar pena, por ser tanto uma
tentativa de participar da troca - com a empregada sendo agente do
processo e rompendo com uma aceitação unilateral dos presentes e da
imposição hierárquica - quanto uma forma de fortalecer os papéis, dando
presentes de baixo valor, típicos de seu lugar “inferior”. A assimetria
também faz parte do discurso das empregadas, como no caso de uma delas
que se recusa a dar presentes para as patroas.
Para Simmel, a gratidão seria a
consciência de que o presente não pode ser retribuído e de que existe
uma relação perpétua que não será esgotada por um contra-presente. Por
esse motivo toda patroa espera da empregada a sua gratidão, consolidando
os papéis, mas a ausência deste sentimento poderia provocar irritação
por supor uma discordância com os lugares da hierarquia: “estabelecendo
uma equivalência entre um objeto e um sentimento, esta troca realizada
por patroas e empregadas evidencia um aspecto essencial da natureza da
dádiva: a expressão, por meio das coisas, da relação entre pessoas”
(p.71). Quando as patroas buscam dar bens de seu próprio universo de
consumo ou coisas que supostamente comprariam para si, a ingratidão
ofende ainda mais por negar uma “imagem e semelhança” entre os
envolvidos. Ao mesmo tempo, as muitas patroas não se preocupam com o
gosto pessoal da empregada e, enquanto doadoras, podem dar até mesmo o
que não gostariam de receber, quebrando a gramática do presentear
descrita entre amigos e parentes, “(...) as trocas são realizadas muito
mais entre pessoas – no sentido de ocupantes de papéis sociais – do que
entre indivíduos – no sentido de seres dotados de singularidade” (p.73).
Os presentes “supérfluos’” dados pelas patroas podem acentuar ainda mais
a hierarquia, já que ao invés de trazer as empregadas para seu “mundo”,
acabam por negar a possibilidade delas possuírem o básico e o
“essencial”.
Lévi-Strauss, Daniel Miller, James
Carrier e Adam Kuper fornecem os pressupostos teóricos do último
capítulo, “Os presentes de Natal: o ‘amigo oculto’ e a afirmação da
família”, tratando da relação entre Natal e família, com destaque para o
papel das crianças como receptoras de dádivas por excelência.
Lévi-Strauss já havia apontado para o
caráter intergeracional, típico da troca natalina. No caso do
amigo oculto praticado no Natal de muitas famílias cariocas, as crianças
seriam deixadas de fora para que seus presentes não ficassem limitados
por esse ritual familiar. As exceções dizem respeito especialmente aos
filhos e filhas que independente da faixa etária podem estar
categorizados como “crianças” quase que para a vida toda, permanecendo
muitas vezes fora do amigo oculto ou recebendo presentes extras.
Este ritual celebraria a existência do
Natal moderno, a comunhão familiar – com preparações, jantares para os
sorteios e o rito em si – rompendo com o modelo das trocas diádicas
simultâneas e substituindo-o por uma única oferta e recebimento, onde
todos são doadores e receptores em potencial. Todavia, esta mesma
modalidade de troca varia constantemente entre uma família e outra, que
a reinventa - algumas delas excluem as crianças, outras os idosos,
alguns “amigo ocultos” são praticados apenas no âmbito da família
nuclear, os valores estipulados para os presentes também podem variar,
assim como o formato do ritual, que envolve brincadeiras, adivinhações,
etc. – e traz mais uma vez um dos pontos centrais do livro: a questão da
dádiva como “linguagem” que não é meramente “sistêmica” e sem relação
com a vida concreta, mas dá espaço para a agência dos indivíduos que se
apropriam das regras sociais, vivendo a troca de presentes como
espontânea e capaz de manifestar afeto.
Na conclusão Coelho retorna à questão
do dinheiro, desta vez para citar uma entrevistada que ao contrário de
exemplos anteriores prefere presentear os entes queridos com objetos de
baixo custo, chegando a considerar um marcador de livros de R$ 1 como
“presente maravilhoso”. Para a autora “o presente realizaria, assim, sua
plena vocação de ser ‘carinho’, um ‘ato de amor’” (p.98). Concluindo,
cita ainda dois depoimentos onde filhos e netos das entrevistadas são
mencionados por preferirem receber dinheiro ao invés de presentes. A
primeira informante não se interessa em saber o que foi comprado já que
não se sente parte do presente, já a outra faz questão de saber para ter
acesso ao objeto do qual de alguma forma faria parte. Desta maneira,
embora um mesmo ato – dar dinheiro para filhos ou netos - gere respostas
diametralmente opostas, ambas seriam “gramaticais”.
Assim como nos códigos
lingüísticos strictu sensu, estaríamos diante de uma dupla dimensão da
cultura: o “sistema” – as regras abstraídas da experiência cotidiana – e
a “fala” (para parafrasear Saussure) – as estratégias individualmente
adotadas para comunicar-se recorrendo a um código comum. (p.100)
Maria Claudia Coelho produziu uma
refinada análise sobre as trocas materiais no Rio de Janeiro e fornece
em seu livro uma valiosa contribuição ao empreendimento antropológico,
buscando entender como os homens vivem e se olham - e também como
esperam ser vistos – mediante o ato de presentear.
(*)
Lucas Kastrup F. Rehen é doutorando pelo Programa de
Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPCIS) da Universidade do Estado
do Rio de Janeiro (UERJ).