"Campo da
Antropologia no Brasil",
por Douglas Silva (*)
Dados
do livro resenhado:
Título da obra: O Campo da Antropologia no Brasil
Organizadores: Gustavo Lins Ribeiro & Wilson Trajano Filho
Editora: Contra Capa Livraria / Associação Brasileira de Antropologia
Número de páginas: 269 |
|
O Livro O Campo da Antropologia no Brasil é um dos
produtos do projeto “Formação acadêmica, pesquisa e mercado de
trabalho em antropologia no Brasil”, elaborado pela direção da
ABA, gestão 2002-2004. Entre os objetivos do projeto estavam:
“a) a análise das condições de formação dos antropólogos e da
pesquisa desenvolvida no âmbito dos programas de pós-graduação
em antropologia no Brasil; e b) o estudo das inserções
profissionais dos egressos da pós-graduação” (pág. 13). O grande
esforço de pesquisa levado a cabo pela direção da ABA e por uma
equipe de investigadores, foi “realizar um levantamento, o mais
extenso até hoje, das características da antropologia tal como
ela é praticada no Brasil” (pág. 7). Este material será
disponibilizado pela ABA, como indicado na “apresentação” do
livro, assinada por Gustavo Lins Ribeiro e Antonio Carlos de
Souza Lima.
Na “Introdução”
faz-se um breve histórico da pesquisa e das diretrizes que
assumiu ao longo do seu processo de realização, além de
informações fundamentais na compreensão dos termos de referência
que estruturam os capítulos do livro. O referido projeto foi
encaminhado a Wilson Trajano Filho, que conduziu a pesquisa ao
lado de Carlos Benedito Martins, especialista na investigação
sobre a pós-graduação no Brasil. De modo a dar conta dos
objetivos traçados, elegeram-se como fontes privilegiadas de
dados os relatórios anuais dos programas de mestrado e doutorado
em antropologia social, enviados a CAPES, os bancos de dados das
agências governamentais de apoio à pesquisa e dos programas, e a
busca de informações junto aos egressos dos programas, através
de questionário aplicado. O recorte temporal dos dados da
pesquisa abrangeu de 1996 a 2001, para o caso dos relatórios da
CAPES, isto é, a partir do ano de implantação de uma nova
metodologia de avaliação por aquela instituição, e de 1992 a
2001, para o levantamento junto aos egressos dos programas,
cobrindo uma década. Portanto, foram considerados 10 programas
de mestrado (UFF, UFPA, UFPE, UFPR, UFRGS, UFRJ, UFSC, UnB,
UNICAMP e USP) e 6 de doutorado (UFPE, UFRGS, UFRJ, UFSC, UnB e
USP). Ficaram de fora o programa de mestrado profissionalizante
da UCGO e os doutorados da UFF e UNICAMP, pois foram
constituídos após o recorte temporal estabelecido; e programas
mistos como os de Sociologia e Antropologia do IFCS/UFRJ e de
Ciências Sociais, da PUC-SP, UERJ e UNICAMP, pois não era
possível selecionar, nos relatórios enviados a CAPES desses
programas, as informações requisitadas na pesquisa. É importante
destacar que este recorte abrange um período de significativas
mudanças nas políticas de pós-graduação, particularmente no que
diz respeito ao financiamento da pesquisa, à redução do Tempo
Médio de Titulação (TMT) e ao expressivo aumento no número de
egressos, mestres e doutores, entre outros aspectos.
O núcleo do livro
consiste em 9 capítulos de análise dos dados oriundos da
pesquisa, para o que foram selecionados antropólogos atuantes no
Brasil com expressivo reconhecimento acadêmico, seguido de “um
olhar de fora”, isto é, um comentário do antropólogo português
João de Pina Cabral. Os temas dos capítulos foram sugeridos pela
equipe de direção da pesquisa: “presidiu a escolha um princípio
de unidade formal que garantisse uma visão totalizante do campo,
suas questões e sua dinâmica, e um questionamento antropológico
fundado na complementaridade entre uma abordagem quantitativa a
um enfoque qualitativo” (pág. 20). Para cada autor(a) foi dada
uma lista de termos de referência, informações organizadas em
tabelas, relatórios e listas de publicações, e um elenco de
questões consideradas pertinentes à análise, à luz do estado das
artes de cada um dos temas escolhidos. Esta forma de proceder,
fundamental para se lançar um olhar analítico sobre uma vasta
gama de dados, permitiu que se tivesse, ao mesmo tempo, uma
idéia ampliada do campo da antropologia no Brasil e enfoques em
questões e debates específicos, embora sempre relacionados à
totalidade.
No capítulo sobre os
egressos dos programas de pós-graduação, Miriam Pillar Grossi
destaca a expansão da pós-graduação em antropologia no país e
particularmente do número de egressos na última década. O
aumento da oferta de cursos, mais comum no mestrado que no
doutorado, a implantação do sistema de avaliação da CAPES e a
aceleração do TMT, aliado à crescente procura por antropólogos
no mercado de trabalho, são os principais fatores atribuídos
pela autora para este aumento. É significativa a redução da
idade de conclusão do mestrado e do doutorado, mas não tão
acentuada quanto se poderia prever, pois muitos optam por
intervalos entre graduação e mestrado, e mestrado e doutorado.
Isto faz aumentar a média de idade de conclusão mais do que o
prolongamento do TMT. Entre os dados que mais chamam a atenção,
estão os que indicam que a maioria dos egressos atua em
Instituições de Ensino Superior (IES) e está em plena atividade.
Contudo, entre os mestres apresenta-se maior variação nas opções
de trabalho, como ONGs, Institutos de Pesquisa, administração
pública, empresas e organizações sindicais e políticas, onde
tendem a ganhar mais do que na academia. Quanto aos doutores, há
maior presença na academia, sobretudo em IES públicas, ao
contrário dos mestres, que ocupam nichos de trabalho em IES
privadas, decorrentes da recente e crescente expansão do ensino
superior privado no Brasil.
É a partir da
constatação da ampliação do campo de atuação profissional e de
novas inserções no mercado, que Cláudia Fonseca lança a
pergunta: formar antropólogos para quê? Além da tradicional
demanda pelo saber antropológico em IES, a autora identifica a
presença de novas perspectivas de atuação em círculos
extra-disciplinares e extra-acadêmicos. Numerosos contingentes
de profissionais têm procurado programas de pós-graduação (lato
e stricto sensu) em antropologia, a fim de agregar valor
a currículos e atividades profissionais. Por outro lado, a
disciplina e seus profissionais têm estado presentes em diversos
departamentos e cursos fora da área específica das ciências
sociais. Assim, na segunda parte do capítulo, Claudia Fonseca dá
início a um instigante exercício de investigação, ao recorrer a
depoimentos de profissionais que atuam nesses novos nichos de
mercado, a fim de identificar quais as competências aí exigidas
dos antropólogos. O dado qualitativo que emerge das entrevistas
nos faz pensar, como o faz a autora, em estratégias e cautelas
voltadas à promoção de uma formação que venha a dialogar de
maneira mais eficaz, e crítica, frente às demandas
contemporâneas. Ao lado disto, fica a impressão de que o saber
antropológico tem sido exigido, numa tendência crescente, como
instrumental direcionado à aplicação em iniciativas de
planejamento e intervenção social.
As políticas de
financiamento e o sistema de avaliação e seus efeitos na
constituição da antropologia como campo disciplinar, é assunto
tratado por Giralda Seyferth em seu capítulo. Como nas demais
áreas de conhecimento, os resultados da avaliação implantada por
agências financiadoras influenciam na forma de distribuição de
recursos e atribuição de bolsas e recursos vinculados. Neste
sentido, a autora propõe o criticismo em relação aos critérios
universalistas adotados por algumas agências. Em linhas gerais,
seu principal argumento é o de que sejam observadas algumas
peculiaridades, em conformidade com a configuração do campo da
antropologia no Brasil e do saber antropológico. Com relação ao
primeiro aspecto da questão, a autora argumenta, por exemplo,
que a antropologia no Brasil é uma área consolidada e com
projeção no exterior, o que pode ser atestado nas notas altas
recebidas nas avaliações dos programas. Por outro lado, alguns
dos critérios do qualis vêm a privilegiar a publicação em
periódicos “internacionais” (leia-se “estrangeiros”) em
detrimento de algumas publicações nacionais, assim como a
divulgação em revistas científicas sobrepõe-se à divulgação dos
resultados de pesquisa através de livros e capítulos de livros.
Isto se deve à fixação de critérios válidos para se identificar
o reconhecimento científico em outras áreas que não a
antropologia. A hierarquização com base em critérios
quantitativos também é vista como problemática, em decorrência
da especificidade do saber antropológico, que exige, em grande
parte das vezes, demorados e complexos relacionamentos sociais.
Em atendimento a essa demanda quantitativa pode-se perder não
apenas rigor científico como vir a ocorrer a banalização na
apresentação e divulgação de resultados. Ela destaca que não é
contra a avaliação, e que seus efeitos positivos podem ser
aferidos. Contudo, constata que “o sistema de avaliação, tal
como ele existe hoje, não contempla a diversidade das áreas de
conhecimento, fato que interfere principalmente nas atividades
de pesquisa...” e emenda: “não defendo a inexistência de prazos,
mas sim sua flexibilização, de modo a não prejudicar o
desenvolvimento reflexivo do trabalho acadêmico” (pág. 101).
Assim, o que Seyferth vem chamar a atenção é para a importância
da avaliação e do financiamento como instrumentos geradores da
dinâmica e ampliação do campo disciplinar e não para o
contrário: “daí o posicionamento cauteloso relacionado à
´naturalização` dos indicadores quantitativos” (pág. 101).
A dinâmica temática
da antropologia no Brasil é o assunto tratado a seguir, por
Paula Montero. Apesar das limitações de dados de que dispunha, a
autora buscou cruzar informações de modo a identificar quais os
principais interesses de pesquisa e “problemas que organizam o
campo da disciplina no país e como eles evoluíram ao longo dos
últimos dez anos” (pág. 117). Entre as tendências apontadas pela
antropóloga estão a crescente dispersão regional e institucional
da pesquisa e uma inversão em processo: a perda de força na
predominância de escolha de “objetos reais” sobre objetos
teoricamente construídos. Outra parte de sua análise procura
pensar as continuidades ou rupturas com a clivagem entre
“etnologia indígena e indigenismo” e “antropologia da sociedade
nacional”. Embora represente uma parcela minoritária em termos
de pesquisadores, a “etnologia indígena” mantém grupos e linhas
de pesquisa consolidados há mais de décadas no Brasil, e com
forte interlocução internacional. Já a expressão “antropologia
da sociedade nacional” talvez não seja mais suficiente para dar
conta da multiplicidade de interesses e modos de recortar
objetos. Por fim, a autora identifica, ainda, tendências como a
emergência de alguns temas, a longevidade de outros - como
“religião” e “família e relações de gênero” -, a mudança na
abordagem de alguns tópicos e, por fim, a diminuição na
freqüência de alguns assuntos. Outras variáveis são exploradas
neste capítulo que apresenta, em anexo, uma listagem, resultante
do cruzamento de linhas e grupos de pesquisa, e que nos oferece
uma visão bastante razoável dos múltiplos temas de interesse de
antropólogos atuantes no Brasil.
Os capítulos sobre
Formação e Ensino e sobre a disseminação da antropologia no
nordeste e norte lançam mão de dados de outros programas de
pós-graduação e instituições de pesquisa, para além dos PPGA, a
fim de ampliar o quadro de abordagem sobre o campo disciplinar
em nível nacional e regional. No primeiro caso, Guita Debert
traça um histórico do sistema de pós-graduação e do ensino de
antropologia no Brasil para, em seguida, observar algumas
tendências e diferenças na formação de antropólogos no país.
Entre os elementos em comum estão o modo de se estruturar a
passagem dos alunos pelos programas, como o processo seletivo e
as etapas de cursos, pesquisa, qualificação e defesa. Outros
fatores estão relacionados à presença de disciplinas que ganham
o estatuto de “obrigatórias”, como as de História e Teoria
Antropológica, ou as de Parentesco e Organização Social. Por
outro lado, algumas disciplinas ou são “tradicionais”, ou
“emergentes” - e neste caso é relevante alguma variação regional
– ou, ainda, estão “em queda livre”, por serem raramente
ministradas, apesar de serem constantes entre as optativas.
Outros dados deste capítulo referem-se à diversidade de linhas
de pesquisa e à presença ou não de formas de financiamento. A
autora encerra o texto com a sugestão de uma lista de questões a
serem discutidas entre os profissionais da área como, por
exemplo, a política de financiamento da pesquisa, a expansão do
ensino superior e seus efeitos na antropologia, a finalidade do
doutorado no exterior ou no país, o ensino na graduação e a
relação entre a pesquisa em ciências sociais e o setor público.
Já as relações entre antropologia e ciências sociais são
destacadas nos dois capítulos seguintes, de autoria de Antonio
Motta e Maria do Carmo Brandão (sobre a antropologia no
Nordeste) e Jane Felipe Beltrão (sobre “Amazônia e
Antropologia”). Nas duas regiões, sobretudo no Nordeste, a
antropologia encontra-se disseminada em diversos programas de
ciências sociais ou de sociologia. O levantamento histórico
demonstra a significativa presença da antropologia em alguns
Estados como, por exemplo, o Rio Grande do Norte e a Bahia, onde
não se estabeleceram programas de pós-graduação em antropologia.
O único programa específico da área na região Nordeste
encontra-se em Pernambuco. Assim, os autores levam adiante um
esforço de identificar onde se pratica a antropologia, através
das linhas de pesquisa de programas de sociologia e ciências
sociais da região, O texto assinala ainda a problemática de se
estar “sitiado” pelas ciências sociais, com efeitos em políticas
de financiamento, no registro da produtividade e na própria
dinâmica do campo disciplinar. Por fim, destaca-se a importância
das reuniões regionais de antropologia, como lugar de
visibilidade, interlocução e identificação profissional. Através
das informações sobre essas reuniões foi que os autores puderam
desvelar algumas linhas e interesses de pesquisa nas regiões
Norte e Nordeste. Jane Beltrão aborda, ainda, o fato de a
“Amazônia” ser um tema recorrente na antropologia praticada no
Brasil e na interlocução de muitos antropólogos atuantes no país
com outros, estrangeiros. Por outro lado, a presença desses
interlocutores nas universidades do Norte é esporádica, o que
atribui ao legado “colonial” no modo de se pensar a região.
Através de diversas fontes, a autora nos oferece um detalhamento
sobre o campo de trabalho do antropólogo no norte do país e
sobre a diversidade de interesses temáticos dos últimos anos,
para além dos referenciados estudos etnológicos.
No capítulo sobre “a
reprodução da antropologia no Brasil”, Ruben Oliven traça um
histórico sobre a dinâmica da constituição da antropologia no
país, observa o significativo aumento do número de alunos e
titulados nos últimos anos e identifica a tendência à endogenia
no tocante à composição do corpo docente dos PPGA. Adiante,
destaca a crescente diversificação dos temas pesquisados. Por
outro lado, o autor pondera que os currículos dos programas
“correspondem a uma visão bastante tradicional” (pág. 219) e
destaca, também, a necessidade de se ampliar a “Tabela de áreas
de conhecimento” do CNPq, de modo a aproximar-se melhor das
especificidades da antropologia que se faz no país. A maior
parte da produção antropológica é divulgada através de
periódicos científicos ou capítulos de livros e, embora haja uma
tendência no aumento do número de antropólogos atuando fora da
academia, esta ainda é a maior empregadora: “atualmente, a
reprodução da antropologia no Brasil se dá pela e para a
universidade” (pág. 226).
Por fim, Peter Fry
analisa a internacionalização da disciplina. Os primeiros dados
apontam ainda para o reforço da idéia de que os antropólogos da
“comunidade brasileira de antropólogos” preferem temas
nacionais. A seguir, ele pondera que não tem dados suficientes
para identificar o alcance da produção antropológica brasileira:
“os dados dizem mais sobre as redes sociais, conteúdo e lugar de
produção (...), pouco ou nada sobre seus efeitos” (pág. 229).
Diante do material que dispõe, o autor observa a relação
existente entre o lugar de formação e a futura sociabilidade,
demarcando afinidades intelectuais e podendo levar a laços
duradouros. Assim, pergunta-se se a redução na porcentagem de
doutorados no exterior tem sido substituída por outras formas de
interlocução com o estrangeiro como, por exemplo, a bolsa
sanduíche. Adiante, ao identificar que muitas são as viagens ao
exterior e que há um viés europeu na composição das redes de
sociabilidade, Fry destaca que são poucos os docentes
responsáveis pelas publicações e apresentações de trabalho fora
do país e comprova que há correlação entre as visitações,
contatos pessoais e publicações.
O “olhar de fora” de
João de Pina Cabral destaca uma “história de sucesso” e o “papel
cívico” da antropologia praticada no Brasil. O comprometimento
com as populações ou problemáticas estudadas aqui dão vitalidade
ao campo disciplinar, ao contrário da crise vivenciada em outros
países. Em sua opinião, aqui se encontrou “o sábio equilíbrio
entre isenção científica e relevância cívica” e aponta como
conseqüências disto a consolidação da pós-graduação, de
instituições e meios de divulgação científica. Por outro lado, o
autor contextualiza seu estranhamento com a “divisão interna”
sub-disciplinar entre “etnologia brasileira” e “antropologia da
sociedade nacional”. Nas linhas finais, contudo, identifica um
“alargamento da abrangência temática” e conclui com a afirmação
de que a antropologia brasileira encontra-se “em condições
únicas para intervir ativamente no sentido de contribuir para
essa tal quinta tradição, a qual, reivindicando-se dos frutos da
modernidade científica, não se sente identificada com qualquer
dos projetos imperiais que, historicamente, moveram o
desenvolvimento científico” (pág. 263).
Terminada a leitura,
fica a impressão de uma obra coletiva que, de certo, apoiará em
muito nos posicionamentos a serem tomados pela antropologia e
sua comunidade no Brasil.