"Hora da Eugenia: raça, gênero e nação na América Latina",
por Octavio Domont de Serpa Jr. (*)
Dados
do livro resenhado:
Título: A hora da eugenia: raça, gênero e nação na América Latina
Autora: Nancy Leys Stepan
Tradução: Paulo M. Garchet
Editora: Fiocruz
Número de páginas: 228 |
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O recurso a uma fundamentação fisicalista,
biológica, de características morais dos
sujeitos, como um expediente para colocá-las
ao abrigo das variações culturais e
peripécias da História, tem, como não
poderia deixar de ser, também uma história.
Relaciona-se com transformações culturais,
políticas, sociais e econômicas recentes -
pouco mais de duzentos anos - sucedidas no
mundo ocidental na seqüência da transição do
Antigo Regime para a sociedade
democrática-liberal-burguesa. Com a queda do
Antigo Regime, na virada do século XVIII
para o século XIX, o Ocidente testemunha a
afirmação da liberdade e da igualdade dos
cidadãos. Este sopro de universalismo
igualitário é rapidamente sucedido, no
decorrer do século XIX, pela proposição de
diferenças ancoradas na biologia, servindo
para restringir e nuançar a concepção de
cidadania. Na medida em que a questão da
diferença não estava mais dada de antemão,
que as antigas hierarquias encimadas pela
nobreza haviam desmoronado, que a sociedade
era composta por cidadãos livres, iguais e
fraternos, a questão da diferença, que não
fora, entretanto, extirpada, precisava de
uma nova formulação. Já que o novo pacto
social não contemplava adequadamente este
velho problema, a resposta vai ser procurada
no aquém do social, na própria natureza, na
biologia, na matriz corpórea de cada
indivíduo. Toda uma série de tipologias e
hierarquizações baseadas em atributos morais
articulados de forma imediata com
características físicas – e vice-versa – é
elaborada, podendo em decorrência justificar
a expansão capitalista, a estratificação
social, a hierarquização das raças, a
desigualdade entre os gêneros, a dominação
imperialista. A diferença agora se inscreve
no corpo, na ordem natural, e não mais na
ordem social. Se antes o que se herdava era
uma posição nobiliárquica, agora o que se
pode herdar é o germe da degradação e da
decadência, que inclui entre suas
possibilidades a loucura, o crime, a
devassidão, a fragilidade do corpo, a
miséria, agravadas, no decorrer das
gerações, até a extinção da linhagem.
É neste contexto mais amplo, de
fundamentação fisicalista das diferenças
humanas e de preocupação com a transmissão
hereditária do germe degenerativo, que se
inscreve o movimento eugênico, a partir da
segunda metade do século XIX. A palavra
eugenia foi introduzida no vocabulário
científico oitocentista em 1883 por Francis
Galton - cientista, geógrafo, estatístico e
viajante britânico, além de primo de Charles
Darwin – embora seus fundamentos já tivessem
sido formulados pelo mesmo Galton desde
1869, quando da publicação do seu
Hereditary Genius. Derivada do grego
eugen, “bem nascido”, a eugenia pode ser
entendida como o conjunto de “possíveis
aplicações sociais do conhecimento da
hereditariedade para obter-se uma desejada
melhor reprodução”, embora ela também tenha
sido entendida como “movimento de
aprimoramento da raça humana, vale dizer,
pela preservação da “pureza” de determinados
grupos”.
“Em termos práticos, a eugenia encorajou a
administração científica e “racional” da
composição hereditária da espécie humana.
Introduziu também novas idéias sociais e
políticas inovadoras potencialmente
explosivas – como a seleção social
deliberada contra os indivíduos supostamente
inadequados”, incluindo-se aí cirurgias
esterilizadoras involuntárias e racismo
genético”.
Embora à primeira vista, para o leitor mais
desavisado, estas definições de eugenia
possam parecer extraídas diretamente de
algum breviário nazista, este não é o caso.
Na verdade, estas proposições conheceram uma
ampla difusão no Ocidente e foram postas em
prática, com importantes diferenças
regionais e culturais em suas bases,
conseqüências e alcance, em praticamente
todas as nações democráticas da Europa e da
América, antes e durante a vigência do
regime nazista na Alemanha, tendo vivido o
seu apogeu no período entre as duas grandes
guerras.
O pesadelo nazista serviu para sepultar
definitivamente qualquer credibilidade
científica e político-social das propostas
eugênicas. Mas a história deste movimento no
Ocidente em absoluto, como vimos, ficou
restrita à experiência da Alemanha Nazista.
Já tendo sido extensivamente estudado no
mundo Anglo-Saxão por Daniel Kevles, na
França por André Pichot e Anne Carol, além
dos inúmeros artigos publicados a respeito
por Stephen Jay Gould, o movimento eugênico
é estudado em sua vertente latino-americana
por Nancy Leys Stepan, professora de
História das Ciências e da Medicina da
Universidade de Columbia, no seu livro “A
Hora da Eugenia: raça, gênero e nação na
América Latina”, de onde foram extraídas
as passagens acima citadas.
Adotando uma perspectiva construtivista, que
entende a ciência como uma prática social,
sujeita ao debate de valores próprios a cada
contexto social e histórico e não como um
conjunto de procedimentos empíricos, neutro
e que ambiciona a uma representação
atemporal da natureza, cuja acurácia é dada
pela maior adequação de seus enunciados à
realidade, a autora nos apresenta uma visão
policromática da noção de eugenia.
Tradicionalmente associadas à direita, ao
machismo e ao racismo, bem como ao
reducionismo hereditário de caráter
mendeliano, as propostas eugênicas se
revelam muito mais nuançadas do que isto.
Constatamos que ela já foi de esquerda e
feminista, como na Alemanha dos anos 20 e já
pregou uma raça cósmica e a miscigenação
construtiva, no período revolucionário do
México da segunda década do século passado.
Assim como foi suporte das propostas de
branqueamento da raça no Brasil do entre
guerras, tendo sido claramente racista e
xenófoba nos EUA, onde embasou políticas de
esterilização e cotas diferenciais de
imigração desde os primeiros anos do século
XX.
A idéia da ciência como um conjunto de
procedimentos de esclarecimento da realidade
que avança linear e progressivamente
obedecendo exclusivamente às regras internas
do esclarecimento empírico também sai
bastante enfraquecida da leitura deste
livro. Não obstante as contribuições de
Weissman, que diferenciou a linhagem celular
somática da linhagem germinativa – óvulos e
espermatozóides – assim como as leis de
Mendel – lei da segregação dos caracteres e
lei da disjunção independente dos caracteres
– já estarem suficientemente incorporadas à
biologia do início do século XX, sustentando
o hereditarianismo radical que marcou a
eugenia dos países anglo-saxões e do norte
europeu, os países europeus latinos,
sobretudo a França, seguem endossando a
idéia lamarckista de herança dos caracteres
adquiridos.
Esta perspectiva, melhor caracterizada como
neo-lamarckista, é também a perspectiva
adotada pelos países latino-americanos em
sua apropriação das propostas eugênicas. E
ao contrário do entendimento comum que
poderia tomar isto como sintoma de
subdesenvolvimento científico, a adoção da
perspectiva neo-lamarckista na América
Latina decorreu não só da maior influência
cultural da França – onde o (neo)lamarckismo
vigiu pelo menos até a década de 40 do
século 20, representando importante barreira
à difusão do darwinismo – na região, mas
também de uma série de fatores
sócio-políticos que encontravam nesta
perspectiva científica uma melhor
possibilidade de articulação. Entre estes
fatores a autora lista a emergência do
nacionalismo e das preocupações com a
construção de uma identidade nacional
baseada na idéia de raça no período após a
primeira guerra; a crise do
subdesenvolvimento; a pobreza como questão
social; as ideologias raciais da região, que
de algum modo se espelhavam na perspectiva
européia, tentando reagir a ela, que via os
países latino-americanos como exemplo de uma
miscigenação degenerada.
O neolamarckismo, com sua ênfase na
influência do ambiente sobre a
hereditariedade e a reprodução, permitiu que
fosse implementada na região uma eugenia
que, ainda que articulando as categorias de
raça, gênero e identidade nacional à
biologia e à natureza, despolitizando-as,
baseou-se em práticas muito menos duras,
mais próximas da puericultura, da saúde
pública e do saneamento, do que aquelas dos
países anglo-saxões, fundamentadas no
hereditarianismo mendeliano.
Baseado em extensa pesquisa de fontes
primárias, que incluem artigos de
periódicos, atas de congressos, livros de
divulgação, obras literárias, além de farto
material crítico, o livro de Nancy Leys
Stepan se concentra na análise da eugenia no
Brasil, na Argentina e no México,
articulando o seu estudo em torno das
categorias raça, gênero e identidade,
dedicando a cada categoria um capítulo do
seu livro. Outros países latino-americanos
também são abordados em menor extensão –
Cuba, Porto Rico, Uruguai e Peru – sobretudo
no capítulo dedicado ao movimento
pan-americano de eugenia.
Se hoje as propostas eugênicas, em especial
aquelas fundamentadas na doutrina
neolamarckista, nos parecem obsoletas, se
não risíveis, nem por isso a leitura de A
Hora da Eugenia deixa de ser altamente
recomendável, na medida em que vivemos em
uma época amplamente seduzida por propostas
de fundamentação fisicalista, de cunho
biologizante, das nossas experiências
subjetivas e práticas sociais. Este livro é
uma demonstração inequívoca do caráter
contingente de nossas teorias, da
incontornável dimensão valorativa de nossas
práticas científicas e das tensões
político-sociais inerentes às controvérsias
acadêmicas. A Natureza, como bem lembrou
Latour, não é a causa da resolução das
controvérsias científicas, mas antes a sua
conseqüência.
(*)
Octavio Domont de Serpa Jr. é professor-Adjunto do IPUB/UFRJ;
coordenador do Laboratório de Psicopatologia e Subjetividade (IPUB/UFRJ);
autor de Mal-Estar na Natureza. Um estudo crítico sobre o
reducionismo biológico em psiquiatria, Te Corá, 1998.