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Resenha (Edição nº 32)
"Floresta
de Símbolos. Aspectos do Ritual Ndembu",
por
Christine de Alencar Chaves
(*)
Dados
do livro resenhado:
Título: Floresta de Símbolos. Aspectos do
Ritual Ndembu
Autor: Victor Turner
Editora: EdUFF
Páginas: 488 |
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Quase quarenta anos se passaram desde a
primeira edição em inglês de Floresta de
Símbolos – Aspectos do Ritual Ndembu, em
1967. Por iniciativa da EdUFF, o público
leitor brasileiro finalmente tem acesso em
português ao livro de Victor Turner, de cuja
extensa e influente obra dispúnhamos apenas
da tradução de O Processo Ritual.
Floresta de Símbolos é uma coletânea de
escritos ancorados na experiência de campo
do autor entre os Ndembu, habitantes da
Zâmbia, país do interior da África, vizinho
de Angola e Moçambique.
O livro traz vários artigos seminais, que
proporcionam, simultaneamente, um painel
analítico sobre a sociedade Ndembu e,
sobretudo, um influente modelo
interpretativo sobre o simbolismo e a
dinâmica ritual. O caráter nitidamente
etnográfico da coletânea confere especial
relevo à iniciativa editorial da tradução,
normalmente pouco afeita a este tipo de
trabalho.
Junto com The Drums of Affliction, de
1968, Floresta dos Símbolos
representa a elaboração extensiva das idéias
de Turner a respeito da importância dos
ritos nos processos de conflito e mudança
social, assim como no caráter essencialmente
dinâmico dos símbolos por eles ativados. Na
contramão do estruturalismo, então em plena
hegemonia, Victor Turner interessa-se pelo
simbolismo enquanto “fator de ação social”
para homens e mulheres em interação. Em
frase freqüentemente citada, alguns anos
mais tarde, ele esclarece a preferência
analítica pelo simbolismo em operação, no
chão comum dos acontecimentos, em
contraposição à sua sistematização em
modelos abstratos: “´On earth the broken
arcs, in heaven the perfect round´. But
symbols operate among the ´broken arcs´ and
help to substitute the ´perfect round´.”
(1975: 146).
Ao optar por uma abordagem centrada na ação
social, Turner enfatiza a importância do
contexto de situação como fator determinante
do simbolismo ritual. Nas suas análises, os
interesses, propósitos e vontades que
constituem as motivações dos indivíduos e
orientam suas atitudes são constituintes
fundamentais do próprio simbolismo: “ordem
vem de propósitos, não de conhecimento”. A
força das interpretações de Victor Turner a
respeito dos rituais Ndembu encontra-se, em
primeiro lugar, no destaque analítico
conferido às exegeses feitas pelos agentes,
conjugadas com elaborados quadros
sociológicos dos contextos de interação,
produzidos pelo antropólogo.
Tomado este plano de análise, os rituais
emergem como lócus fundamentais de
expressão e resolução de tensões sociais,
geradas não só pelo choque entre indivíduos
e grupos, mas também e principalmente pelas
contradições dos próprios princípios
estruturais que ordenam a sociedade. Como
escreve Turner na introdução de Floresta
de Símbolos: os princípios de
organização das aldeias “são
situacionalmente incompatíveis, eles geram
conflitos de lealdade” (2005: 32). No caso
específico da sociedade Ndembu, Turner
destaca as contradições postas pelos
princípios da matrilinearidade e do
casamento virilocal, que fazem com que as
mulheres, de quem depende a continuidade
social, habitem a aldeia de seus maridos.
Normas ambíguas e conflitantes, oposição de
grupos, competição por prestígio, dinamismo
social como resultado de luta política, em
todos esses temas é possível identificar a
influência de Max Gluckman, mestre de Turner.
Essa inspiração encontra-se principalmente
em sua tese de doutorado, Schism and
Continuity in an African Society: A Study of
Ndembu Village Life, publicada em 1957,
em que Adam Kuper (1978) reconhece um dos
trabalhos mais representativos da Escola de
Manchester, da qual Gluckman e o próprio
Turner foram expoentes. Foi também neste
livro que Victor Turner empregou pela
primeira vez o importante conceito de “drama
social”, numa elaboração inspirada em Van
Gennep que teria grande ascendência em
trabalhos de antropólogos brasileiros, a
exemplo de Roberto Da Matta – autor do
prefácio desta edição.
Embora o quadro de referência teórica
permaneça o mesmo, em Floresta de
Símbolos Turner desenvolve uma refinada
análise dos símbolos rituais como elementos
dinâmicos, motores da ação através da
mobilização simultânea de uma poderosa carga
de emoções e de valores sociais. A partir de
então, o foco no simbolismo e no ritual –
desdobrado nos estudos posteriores sobre
performance – seria permanente e
constituiria a principal marca da obra de
Victor Turner.
Em Floresta dos Símbolos é sobretudo
na interpretação dos símbolos rituais dentro
dos contextos de ação que Turner concentra o
trabalho analítico. Para tanto, ele propõe
que a estrutura e propriedade dos símbolos
podem ser deduzidas: a) da sua forma
externa; b) dos significados atribuídos
pelos agentes e c) pelos contextos
significativos traçados pelo antropólogo. Na
verdade, ao longo do livro, Turner sugere
diferentes planos de análise, como o
confronto entre as interpretações nativas
(“nível exegético”) e o comportamento ritual
concreto (o “nível operacional”), entre este
e os contextos sociais mais amplos (análise
sociológica), bem como a observação dos
significados de cada símbolo em articulação
com a constelação do ritual específico, com
sistema cultural total e com os princípios
articuladores da sociedade (“nível
situacional”). A aplicação deste complexo
arcabouço interpretativo a “estudos de caso
ampliados” confere sofisticação e vivacidade
aos textos de Floresta de Símbolos.
Em coerência com o propósito de tratar os
símbolos rituais como vetores da ação social
e, conseqüentemente, com a prioridade do
contexto de situação na interpretação,
Turner enfatizou a polissemia, a
flexibilidade e abertura semântica dos
“símbolos dominantes”. De fato, eles são
elementos chave no processo de interpretação
proposto pelo autor. Perpassando o sistema
simbólico inteiro, os “símbolos dominantes”
aparecem em vários rituais e catalisam
múltiplos significados, sendo normalmente
associados a valores sociais axiomáticos –
como é o caso da árvore mudyi, a
árvore leiteira, na sociedade matrilinear
Ndembu.
Mas além das qualidades de polissemia e
condensação de significados diversos, que
abrem passagem para a apropriação
contextual, Turner identificou a
“polarização” como outra das propriedades
relevantes dos símbolos rituais. Segundo
ele, os símbolos teriam componentes oréticos
ou afetivos num dos pólos, e, no outro,
elementos ideológicos ou normativos. Essa
combinação serviria à função social de
tornar as normas e os imperativos sociais,
de caráter obrigatório, carregados dos
estímulos emocionais que os tornariam
desejáveis.
Na conjugação das propriedades estruturais
de polissemia, condensação e polarização de
significados encontrar-se-ia a causa da
enorme valência e eficácia dos símbolos.
Porém, ao remeter o pólo orético para o
plano psico-fisiológico e nele situar a
dimensão universal da experiência humana,
Turner renunciou à busca de uma compreensão
antropológica, no sentido forte do termo, do
simbólico. Assim, ele chega a afirmar: “eu
postularia que o organismo humano e suas
experiências cruciais são fons et origo
de todas as classificações” (2005:132).
Por outro lado, Turner não chega a negar a
existência de um sistema simbólico Ndembu,
que garante constância e consistência aos
significados dos símbolos dominantes e sua
autonomia relativa com relação aos objetivos
específicos de cada ritual (2005: 63). Mas é
fato que ele não se dedicou a tornar o
sistema ritual Ndembu objeto de descrição
metódica. Na verdade, como observa Mariza
Peirano: “Victor Turner jamais se propôs a
estudar o 'sistema ritual Ndembu' como um
sistema conceitual” (1995: 62). Em última
instância, ele privilegiou a dimensão
pragmática do simbolismo ritual e, portanto,
os rituais dentro dos quadros vivos da
sociedade Ndembu, com seus conflitos e sua
dinâmica social pulsante.
É justamente na elucidação da qualidade
dinâmica dos símbolos rituais e no
desvelamento de suas múltiplas camadas
significativas, incluindo os contextos
ritual e sociológico, que Victor Turner é um
mestre sem par e Floresta de Símbolos
um construto com muitas e efetivas lições.
Bibliografia
TURNER, Victor. 1975. “Simbolic Studies”.
In. Annual Review of Anthropology,
vol. 4.
KUPER, Adam. 1978. Antropólogos e
Antropologia. Rio de Janeiro: Francisco
Alves.
PEIRANO, Mariza. A Favor da Etnografia.
Rio de Janeiro: Relume-Dumará.
(*)
Christine de Alencar Chaves é professora do
Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Paraná e
autora de A Marcha Nacional dos Sem-Terra.Um estudo sobre a
fabricação do social e de Festas da Política (ambos pela
Relume-Dumará).
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