Resenha (Edição nº 32)

"A dinâmica da cultura: ensaios de antropologia", por Léa Freitas Perez (*)    

Dados do livro resenhado:
Título: A dinâmica da cultura: ensaios de antropologia
Autora: Eunice Ribeiro Durham
Editora: Cosac Naify
Número de páginas: 478

Organizado por Omar Ribeiro Thomaz, com prefácio (imperdível) de Peter Fry e orelha de Ruth Cardoso, A dinâmica da cultura, testemunha e atesta a dinâmica da trajetória intelectual e profissional de sua autora, Eunice Durham, a “doyenne da antropologia da USP” (como diz Peter Fry).

A dinâmica da cultura é um valioso e vigoroso documento relativo a uma parcela crucial da história da antropologia brasileira, particularmente a feita na USP e em sua vertente urbana. Descortina o exercício incansável e meticuloso do métier, “quase cinqüenta anos [nos diz ela] dedicados à pesquisa e ao ensino da antropologia”. Antropologia que jamais fechou-se sobre si mesma, ao contrário, sempre posta em diálogo e em embate com outras disciplinas tais como a sociologia, a ciência política e também, para surpresa de muitos, com a biologia, “amor oculto (mas não ilícito)”, revelado através último capítulo, “Chipamzés também amam: uma reflexão sobre a importância das emoções na vida social humana”.

É do embate com o marxismo que nasce, por exemplo, o que muito provavelmente seja a mais importante contribuição da antropologia de Eunice Durham à antropologia brasileira: sua reflexão sobre o conceito de cultura – “na teoria e na prática antropológicas, e sua relação complementar e indissociável com o conceito de sociedade”, como muito apropriadamente observa”. Revisitando o conceito de cultura na tradição antropológica, resgata-o para a compreensão das sociedades complexas. “A dinâmica da cultura na sociedade moderna” e “Cultura e ideologia”, respectivamente capítulos 7 e 9, foram textos seminais para toda uma geração. Fotocópias circulavam de mão em mão e eram intensamente citados. Os quase trinta anos que se passaram não tiralham-lhes o vigor e a propriedade. Nos tempos que correm, talvez mais do que nunca, é preciso estar atento à dinâmica cultural e às reificações conceituais que grassam por aí.

É também dessa mesma proveniência o texto “A família operária: consciência e ideologia” (capítulo 8), no qual mostra que, malgré as pregações marxistas em voga no final dos anos 1960, a família era uma unidade fundamental, se não mais como unidade de produção, como unidade de consumo e ajuda mútua. Essa clássica temática antropológica também é tratada em “Família e reprodução humana” (capítulo 13).

O folêgo teórico é também evidenciado no capítulo 5, “Malinowski: uma nova visão da antropologia”, onde o funcionalismo clássico é repensado a partir da indagação a propósito da propriedade da aplicação de seus pressupostos à pesquisa em sociedades complexas, sendo resgatadas suas proposições fundamentais acerca da pesquisa antropológica, a saber: “o relativismo cultural e a inter-relação entre os diferentes aspectos da cultura e a integração entre ação e representação”.

As preocupações com os rumos que a pesquisa social estava tomando no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, particularmente o viés militante e a redução do empírico a umas poucas entrevistas, são expressos em “Movimentos sociais” (capítulo 10); “O lugar do índio” (capítulo 11); “A pesquisa antropológica com populações urbanas” (capítulo 14) e “A sociedade vista da periferia” (capítulo 15). Ainda hoje são referências incontornáveis, legítimos manuais, em se tratando de pesquisa em sociedades complexas.

O livro brinda o leitor com primorosas etnografias (Eunice Durham é uma ardorosa defensora da pesquisa empírica baseada na observação participante), fundamentais para o entendimento dos processos de mudança ocorridos no Brasil no bojo da urbanização e da industrialização, evidenciando o quão complexas e profundas são, entre nós, as imbricações entre tradição e modernidade. São elas: “A difusão do advento da promessa no Catulé” (capítulo 1); “Imigrantes italianos” (capítulo 2); “As comunidades tradicionais e a migração” (capítulo 3); “Migrantes rurais” (capítulo 4). Esses textos se inserem também no já mencionado diálogo que a autora estabelece entre a antropologia e sociologia.

O duplo lugar que Eunice Durham ocupou – de pesquisadora e de militante – no campo do ensino superior aparece representado no texto “USP 50 anos” (capítulo 12). Sobre esse texto, datado de 1984, relido em função do livro, diz surpreender-se, mas não alegremente com sua atualidade.

Um sucinto, mas certeiro apanhado sobre o conceito de comunidade, escrito sob a forma de verbete, compõe o capítulo 8 do livro.

Produto de uma escuta atenta e de um olhar arguto sobre (e em suas próprias palavras) “o modo como seres humanos empiricamente definidos incessantemente constróem coletivamente sua própria existência, atribuindo-lhe significado”, A dinâmica da cultura livro proporciona ao leitor uma incursão nas grandes questões e polêmicas que sacudiram, nos tempos da dupla ditatura (dos militares de um lado, e dos marxistas, de outro) e, em grande medida, ainda sacodem, o mundo intelectual e político brasileiro. Tradição e modernidade. Campo e cidade. Cultura e ideologia. Pesquisa acadêmica e militância política.

Dona Eunice, muito obrigada.


(*) Léa Freitas Perez é professora adjunta de Antropologia na UFMG.

 

 

 

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