Resenha (Edição nº 32)

"De perto e de longe", por Maria Ignez Cruz Mello (*)    

Dados do livro resenhado:
Título: De Perto e de Longe
Autores: Claude Lévi-Strauss & Didier Eribon
Editora: Cosac Naify - 2005
Número de Páginas: 266

Este é o relançamento de uma deliciosa entrevista concedida por Claude Lévi-Strauss ao filósofo e intelectual francês Didier Eribon, por ocasião dos oitenta anos do antropólogo, em 1988. Este volume faz parte de uma série de publicações que a editora Cosac Naify vem lançando sobre a obra daquele que se pode considerar como o etnólogo que mais influenciou as pesquisas sobre as sociedades indígenas no Brasil e um dos mais importantes antropólogos da história. Desta série de publicações, alguns volumes são relançamentos, como o caso deste livro em comentário, lançado em 1990 pela editora Nova Fronteira, e como o primeiro volume da série conhecida como Mitológicas, cujo título é O cru e o cozido, lançado primeiramente pela editora Brasiliense. Os dois volumes seguintes, Do mel às cinzas, lançado em 2004, e O homem nu, com previsão de lançamento para o final de 2005, eram títulos até agora inéditos em português.

Ver de perto para ver de longe é uma expressão que Lévi-Strauss empresta de um autor dramático japonês, e que procura condensar em uma frase o que ele crê ser a característica do trabalho do antropólogo: a aproximação de uma determinada cultura, mantendo um olhar aprofundado sobre seus detalhes e meandros, para então poder projetar o conhecimento ali adquirido em um prisma amplo, que possa entrelaçar a humanidade em um eixo tanto espacial quanto temporal. Esta é também a idéia que está por traz do título de sua coletânea de artigos O olhar distanciado, publicado simultaneamente em francês e português em 1983.

Esta longa entrevista se divide em três partes, contendo depoimentos pessoais, casos anedóticos, reflexões sobre sua infância, sua trajetória acadêmica, retomada de conceitos e inquietações teóricas, principalmente em torno de sua vasta pesquisa sobre os mitos ameríndios e sobre o estruturalismo.

A primeira parte, intitulada “Quando Dom Quixote volta”, é a mais longa, contendo nove capítulos dedicados às suas memórias. Toda sua trajetória, segundo sua própria visão, parece ter sido animada por um dom-quixotismo, não como corriqueiramente definido de defesa dos pobres e oprimidos, mas sim no sentido de um desejo enorme de “encontrar o passado por trás do presente” (p.138). Ao recuperar coisas da infância, Lévi-Strauss relembra seus momentos ao lado do pai, que era um pintor de retratos e também um grande bricoleur. Neste período, toda a família vivia em um ambiente artístico, intelectualmente rico, mas com sérias dificuldades materiais, conseqüência da primeira guerra e da origem judaica. Passa, então, a discorrer sobre suas leituras, sua aproximação com o marxismo e a militância política, sua formação nas faculdades de direito e de filosofia, que cursou simultaneamente, sobre seus estágios no magistério, realizados no mesmo período também por Simone de Beauvouir e Maurice Merleau-Ponty. No capítulo seguinte, Lévi-Strauss refaz seu percurso pela Universidade de São Paulo nos anos trinta, refletindo sobre seu impulso de rebeldia anti-Durkheim, tido como um estudioso de gabinete, e sobre seu gosto por aventuras, que culminou nas pesquisas de campo entre os Kadiwéu, os Bororo e os Nambikwara. Graças ao artigo que escreveu sobre os Bororo, que chamou a atenção de Alfred Métraux e de Robert Lowie, foi convidado em 1941 a lecionar a disciplina de Sociologia contemporânea na América Latina na New School for Social Research, em Nova York, centro de estudos que, no período do fascismo e nazismo na Europa, serviu de local de acolhida para os intelectuais europeus nos Estados Unidos. Comenta então sua estadia nesta cidade, seu fascínio pela Biblioteca Pública de lá, a qual freqüentava diariamente para se instruir nos mais diversos temas sobre América Latina e sobre tudo que havia de mais atual na área da etnologia indígena americana. Lévi-Strauss fala de seu contato com o grupo de artistas surrealistas composto de figuras como Max Ernst e André Breton, com quem freqüentava restaurantes exóticos da cidade e jogava o “jogo da verdade”, muito em moda na época. Conta ainda como presenciou a morte de Franz Boas durante um almoço em que estavam presentes Ruth Benedict, Ralph Linton, entre outros. E sobretudo, relembra o início de uma intensa amizade, que durou quarenta anos, entre ele e Jackobson, estudioso que o iluminou com os princípios da lingüística estrutural, e que o incentivou a escrever As estruturas elementares do parentesco, trabalho concluído em 1947.

O capítulo quatro trata de seu retorno à França, sua passagem pelo Museu do Homem e a eleição para a École des Hautes Études, onde lecionou na cátedra de “Religiões dos povos não-civilizados”, título que tratou de mudar para “Religiões dos povos sem escrita”. Nos demais capítulos desta primeira parte vemos o fracasso que Lévi-Strauss sofreu por duas vezes ao tentar ser eleito para o Collège de France em 1949 e 1950, o que lhe motivou a escrever Tristes trópicos, uma reflexão sobre suas pesquisas de campo entre os índios do Brasil central, livro escrito em quatro meses. Finalmente, em 1959, após trabalhar alguns anos para o Conselho Internacional de Ciências Sociais, organização ligada à UNESCO, com o auxílio de Merlau-Ponty, que intercedeu a seu favor, Lévi-Strauss foi eleito para a cadeira de antropologia no Collège de France, onde fundou o Laboratório de Antropologia Social, local que continuou a freqüentar mesmo após sua aposentadoria. No mesmo período, criou a revista L’Homme no intuito de produzir algo que fosse o equivalente francês da revista norte-americana American Anthropologist, ou da inglesa Man. As perguntas seguem aqui, como ao longo de todo o livro, a cronologia de sua vida e obra, tratando, então, do período no Collège de France, de suas publicações, das aplicações ilegítimas do termo “estruturalismo” e de sua relação com importantes intelectuais, como Lacan, Barthes e Foucault, e ainda sobre acontecimentos marcantes como os ocorridos em maio de 1968 na França. Sobre este episódio, Lévi-Strauss acredita que ele representou “um passo a mais rumo à degradação universitária há muito iniciada” (p.120). Suas considerações se baseiam em uma ética ecológica (contra a derrubada de árvores para se construir barricadas) e de cidadania (contra a depredação de patrimônio público) que estaria acima das reivindicações do movimento. Ao final desta primeira parte, Lévi-Strauss afirma que a vida de trabalho intenso que levou foi a forma encontrada para driblar o tédio e a angústia que o atormentam quando não trabalha, uma forma de não sentir o tempo passar.

A segunda parte do livro, intitulada “As leis do espírito”, é dedicada às teorias de Lévi-Strauss, trazendo discussões sobre os estudos dos sistemas de parentesco, a aproximação com o método estrutural de análise da lingüística e, especialmente, a questão da proibição do incesto. Trata do universo da regra e das estratégias em que estão envolvidos indivíduos e sociedades, desembocando, finalmente, na oposição natureza/cultura, garantindo para esta, ainda hoje, seu valor metodológico. Eribon pergunta sobre a relação de Lévi-Strauss com o pensamento de Freud, suas críticas à psicanálise, e sua visão da etnologia como uma “psicologia”, pois para o antropólogo, ao tomar a etnologia como um estudo das formas de pensamento de diferentes povos, materializadas em seus objetos e criações, estamos indo atrás de “meios suplementares para compreender como o espírito humano funciona” (p.157).

Um dos capítulos desta segunda parte retoma as idéias a respeito do pensamento “primitivo” presentes em O pensamento selvagem, trazendo a “ciência do concreto” para o centro da cena. Neste ponto, Lévi-Strauss chama a atenção para o fato de que na ciência atual ocorre uma nova tendência que procura reintegrar à sua visão de mundo questões relativas à ordem do sensível, que muitas vezes fazem parte de antigas sabedorias e crendices populares. Eribon segue então provocando Lévi-Strauss a falar sobre a polêmica entre ele e Sartre, levantada a partir de suas críticas ao filósofo no final de O pensamento selvagem. Lévi-Strauss procura não polemizar mais e afirma, ao final, que a filosofia deve ter no mundo atual um lugar creditado, desde que ela se fundamente nos conhecimentos e descobertas científicas em curso. Neste capítulo, os autores seguem falando sobre a relação entre etnologia e história, tratadas como dois campos de estudo que devem colaborar entre si. Levantam as críticas que alguns historiadores fizeram ao antropólogo, segundo as quais ele teria uma concepção a-histórica do funcionamento do espírito humano, ao que Lévi-Strauss refuta, afirmando que os problemas levantados pelo espírito humano são diversos, e dependem, entre outras coisas, do meio geográfico, do passado histórico, da história individual de cada um dos membros de uma sociedade. Contudo, lembra que, em toda época e lugar, o cérebro humano é o mesmo, e que há muito em comum entre aqueles que viveram e vivem distantes no tempo e no espaço, caso contrário seria impossível qualquer investigação histórica ou etnográfica.

Os dois últimos capítulos desta segunda parte são dedicados às Mitológicas, obra que se debruça sobre mais de oitocentos mitos ameríndios procedentes da América do Sul e do Norte. Eribon acaba por levantar questões relativas ao método comparativo, quando então Lévi-Strauss afirma que a comparação surge quando há uma série de diferentes experiências à mão e se pretende elaborar uma teoria. Assim sendo, para haver um movimento de conversão entre diferentes fatos observados, é preciso que se parta de um nível de generalização para então se pretender estabelecer e mesmo tornar possível a comparação. Contudo, Lévi-Strauss chama a tenção para o fato de que, ao lidar com os sistemas de parentesco, havia na época em que escreveu As estruturas elementares do parentesco, uma quantidade de pesquisas que se detinham em explicações particulares, enquanto que “o estudo dos mitos continuava às voltas com um delírio comparativista, que se estendia ao mundo todo” (p.184). Desta forma, o tratamento dado a estas questões não poderia ser o mesmo no caso destas duas obras.

Na terceira parte do livro, “As culturas, a cultura”, há uma discussão sobre o futuro da etnologia, e são relembrados alguns textos emblemáticos como Raça e história, de 1952, e Raça e cultura, escrito em 1972, ambos encomendados pela UNESCO, e que tiveram aceitação muito diversa por parte do público. Enquanto o primeiro proclamava uma “necessária coalizão das culturas” (p.208), o segundo expunha o fato das culturas quererem opor-se umas às outras. Para Lévi-Strauss, não há conflito entre estas duas idéias, visto que tanto o intercâmbio quanto a resistência à assimilação entre diferentes culturas são dados incontestáveis. Os autores discutem, portanto, idéias sobre o racismo, sobre engajamento político, e sobre o lugar do ser humano no mundo.

Os três últimos capítulos do livro são dedicados, respectivamente, à literatura, à pintura, e à música. Esta última desempenhou importante papel na obra de Lévi-Strauss, precisamente no que concerne às relações que o autor estabelece entre a música e a mitologia. Este vínculo está patente desde a “Abertura” até o “ Finale” de O cru e o cozido, tanto no que diz respeito à organização dos capítulos quanto ao conteúdo ali apresentado. Muito resumidamente, o argumento de Lévi-Strauss é que, por volta do século XVII, ocorre uma cisão na civilização ocidental daquilo que ele chama de pensamento mítico, dando lugar, de um lado, à reflexão científica e, de outro, à expressão romanesca. Neste mesmo período ocorre o nascimento da grande forma musical, que, segundo ele, recupera as estruturas do pensamento mítico, e isto porque “as estruturas míticas prefiguravam, em estado latente, as formas musicais”(p.248). Para além destas correlações, Lévi-Strauss revela que a música tem um papel importante em seus estados mentais, e que ouvindo música ele pensa melhor. Curiosamente, para ele, a música ocidental, após Stravinsky, pode até fomentar algum interesse, mas não lhe diz nada.

Apesar do aprofundamento em diversos pontos da vida e obra deste grande mestre da antropologia, o texto carece, contudo, de uma contextualização das circunstâncias em que se deu esta longa entrevista. Será que eles conversaram por alguns poucos dias, ou teria levado meses? Lévi-Strauss fez uma revisão do texto e acrescentou frases, reflexão e explicações? Bem, nunca saberemos, mas, se as observações que a professora de antropologia da USP, Beatriz Perrone Moisés nos apresenta no início de uma outra entrevista, desta vez concedida a ela por Claude Lévi-Strauss, ao completar 90 anos, valerem aqui também, então, tudo que o mestre relatou a Eribon deve ter sido exatamente o que está no livro. Segundo Perrone Moisés “vários entrevistadores haviam mencionado a extrema cortesia de seus gestos e palavras, e o bom humor, que às vezes irrompe, inesperado, no riso discreto (como quando eu lhe disse que tínhamos a honra de considerá-lo como um ‘herói civilizador’...). Também já tinha sido comentada a precisão das palavras, as respostas exatas, claras, bem construídas. No mês em que completaria 90 anos, Claude Lévi-Strauss mantinha intacta a limpidez do raciocínio, sendo inclusive capaz de retomar frases no mesmo ponto em que as deixara, depois de inserir comentários, observações ou precisões”[1].

Após a leitura deste excelente livro, editado de forma convidativa pela Cosac Naify, aguardemos a entrevista dos 100 anos de Claude Lévi-Strauss, que certamente haverá de ser lúcida, profunda e instigante, como tudo que ele sempre nos ofereceu em sua longa jornada intelectual.


[1] Entrevista que consta da Revista de Antropologia vol.42 (1-2), disponível on-line na base de dados http://www.scielo.br. Há também outra entrevista concedida por Lévi-Strauss ao completar 90 anos, desta vez ao antropólogo do Museu Nacional, Prof. Eduardo Viveiros de Castro, disponível na Revista Mana vol. 4 (2), na mesma base de dados scielo.


(*) Maria Ignez Cruz Mello é doutora em Antropologia Social pela UFSC e professora do Departamento de Música da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).

 


 

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