"De perto e de longe",
por Maria Ignez Cruz Mello (*)
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Dados
do livro resenhado:
Título: De Perto e de Longe
Autores: Claude Lévi-Strauss & Didier Eribon
Editora: Cosac Naify - 2005
Número de Páginas: 266 |
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Este é o
relançamento de uma deliciosa entrevista concedida por Claude
Lévi-Strauss ao filósofo e intelectual francês Didier Eribon,
por ocasião dos oitenta anos do antropólogo, em 1988. Este
volume faz parte de uma série de publicações que a editora Cosac
Naify vem lançando sobre a obra daquele que se pode considerar
como o etnólogo que mais influenciou as pesquisas sobre as
sociedades indígenas no Brasil e um dos mais importantes
antropólogos da história. Desta série de publicações, alguns
volumes são relançamentos, como o caso deste livro em
comentário, lançado em 1990 pela editora Nova Fronteira, e como
o primeiro volume da série conhecida como Mitológicas,
cujo título é O cru e o cozido, lançado primeiramente
pela editora Brasiliense. Os dois volumes seguintes, Do mel
às cinzas, lançado em 2004, e O homem nu, com
previsão de lançamento para o final de 2005, eram títulos até
agora inéditos em português.
Ver de perto
para ver de longe é uma expressão que Lévi-Strauss
empresta de um autor dramático japonês, e que procura condensar
em uma frase o que ele crê ser a característica do trabalho do
antropólogo: a aproximação de uma determinada cultura, mantendo
um olhar aprofundado sobre seus detalhes e meandros, para então
poder projetar o conhecimento ali adquirido em um prisma amplo,
que possa entrelaçar a humanidade em um eixo tanto espacial
quanto temporal. Esta é também a idéia que está por traz do
título de sua coletânea de artigos O olhar distanciado,
publicado simultaneamente em francês e português em 1983.
Esta longa
entrevista se divide em três partes, contendo depoimentos
pessoais, casos anedóticos, reflexões sobre sua infância, sua
trajetória acadêmica, retomada de conceitos e inquietações
teóricas, principalmente em torno de sua vasta pesquisa sobre os
mitos ameríndios e sobre o estruturalismo.
A primeira parte,
intitulada “Quando Dom Quixote volta”, é a mais longa, contendo
nove capítulos dedicados às suas memórias. Toda sua trajetória,
segundo sua própria visão, parece ter sido animada por um
dom-quixotismo, não como corriqueiramente definido de defesa dos
pobres e oprimidos, mas sim no sentido de um desejo enorme de
“encontrar o passado por trás do presente” (p.138). Ao recuperar
coisas da infância, Lévi-Strauss relembra seus momentos ao lado
do pai, que era um pintor de retratos e também um grande
bricoleur. Neste período, toda a família vivia em um ambiente
artístico, intelectualmente rico, mas com sérias dificuldades
materiais, conseqüência da primeira guerra e da origem judaica.
Passa, então, a discorrer sobre suas leituras, sua aproximação
com o marxismo e a militância política, sua formação nas
faculdades de direito e de filosofia, que cursou
simultaneamente, sobre seus estágios no magistério, realizados
no mesmo período também por Simone de Beauvouir e Maurice
Merleau-Ponty. No capítulo seguinte, Lévi-Strauss refaz seu
percurso pela Universidade de São Paulo nos anos trinta,
refletindo sobre seu impulso de rebeldia anti-Durkheim, tido
como um estudioso de gabinete, e sobre seu gosto por aventuras,
que culminou nas pesquisas de campo entre os Kadiwéu, os Bororo
e os Nambikwara. Graças ao artigo que escreveu sobre os Bororo,
que chamou a atenção de Alfred Métraux e de Robert Lowie, foi
convidado em 1941 a lecionar a disciplina de Sociologia
contemporânea na América Latina na New School for Social
Research, em Nova York, centro de estudos que, no período do
fascismo e nazismo na Europa, serviu de local de acolhida para
os intelectuais europeus nos Estados Unidos. Comenta então sua
estadia nesta cidade, seu fascínio pela Biblioteca Pública de
lá, a qual freqüentava diariamente para se instruir nos mais
diversos temas sobre América Latina e sobre tudo que havia de
mais atual na área da etnologia indígena americana. Lévi-Strauss
fala de seu contato com o grupo de artistas surrealistas
composto de figuras como Max Ernst e André Breton, com quem
freqüentava restaurantes exóticos da cidade e jogava o “jogo da
verdade”, muito em moda na época. Conta ainda como presenciou a
morte de Franz Boas durante um almoço em que estavam presentes
Ruth Benedict, Ralph Linton, entre outros. E sobretudo, relembra
o início de uma intensa amizade, que durou quarenta anos, entre
ele e Jackobson, estudioso que o iluminou com os princípios da
lingüística estrutural, e que o incentivou a escrever As
estruturas elementares do parentesco, trabalho concluído em
1947.
O capítulo quatro
trata de seu retorno à França, sua passagem pelo Museu do Homem
e a eleição para a École des Hautes Études, onde lecionou na
cátedra de “Religiões dos povos não-civilizados”, título que
tratou de mudar para “Religiões dos povos sem escrita”. Nos
demais capítulos desta primeira parte vemos o fracasso que
Lévi-Strauss sofreu por duas vezes ao tentar ser eleito para o
Collège de France em 1949 e 1950, o que lhe motivou a escrever
Tristes trópicos, uma reflexão sobre suas pesquisas de campo
entre os índios do Brasil central, livro escrito em quatro
meses. Finalmente, em 1959, após trabalhar alguns anos para o
Conselho Internacional de Ciências Sociais, organização ligada à
UNESCO, com o auxílio de Merlau-Ponty, que intercedeu a seu
favor, Lévi-Strauss foi eleito para a cadeira de antropologia no
Collège de France, onde fundou o Laboratório de Antropologia
Social, local que continuou a freqüentar mesmo após sua
aposentadoria. No mesmo período, criou a revista L’Homme no
intuito de produzir algo que fosse o equivalente francês da
revista norte-americana American Anthropologist, ou da inglesa
Man. As perguntas seguem aqui, como ao longo de todo o livro, a
cronologia de sua vida e obra, tratando, então, do período no
Collège de France, de suas publicações, das aplicações
ilegítimas do termo “estruturalismo” e de sua relação com
importantes intelectuais, como Lacan, Barthes e Foucault, e
ainda sobre acontecimentos marcantes como os ocorridos em maio
de 1968 na França. Sobre este episódio, Lévi-Strauss acredita
que ele representou “um passo a mais rumo à degradação
universitária há muito iniciada” (p.120). Suas considerações se
baseiam em uma ética ecológica (contra a derrubada de árvores
para se construir barricadas) e de cidadania (contra a
depredação de patrimônio público) que estaria acima das
reivindicações do movimento. Ao final desta primeira parte,
Lévi-Strauss afirma que a vida de trabalho intenso que levou foi
a forma encontrada para driblar o tédio e a angústia que o
atormentam quando não trabalha, uma forma de não sentir o tempo
passar.
A segunda parte do
livro, intitulada “As leis do espírito”, é dedicada às teorias
de Lévi-Strauss, trazendo discussões sobre os estudos dos
sistemas de parentesco, a aproximação com o método estrutural de
análise da lingüística e, especialmente, a questão da proibição
do incesto. Trata do universo da regra e das estratégias em que
estão envolvidos indivíduos e sociedades, desembocando,
finalmente, na oposição natureza/cultura, garantindo para esta,
ainda hoje, seu valor metodológico. Eribon pergunta sobre a
relação de Lévi-Strauss com o pensamento de Freud, suas críticas
à psicanálise, e sua visão da etnologia como uma “psicologia”,
pois para o antropólogo, ao tomar a etnologia como um estudo das
formas de pensamento de diferentes povos, materializadas em seus
objetos e criações, estamos indo atrás de “meios suplementares
para compreender como o espírito humano funciona” (p.157).
Um dos capítulos
desta segunda parte retoma as idéias a respeito do pensamento
“primitivo” presentes em O pensamento selvagem, trazendo a
“ciência do concreto” para o centro da cena. Neste ponto, Lévi-Strauss chama a atenção para o fato de que na ciência atual
ocorre uma nova tendência que procura reintegrar à sua visão de
mundo questões relativas à ordem do sensível, que muitas vezes
fazem parte de antigas sabedorias e crendices populares. Eribon
segue então provocando Lévi-Strauss a falar sobre a polêmica
entre ele e Sartre, levantada a partir de suas críticas ao
filósofo no final de O pensamento selvagem. Lévi-Strauss procura
não polemizar mais e afirma, ao final, que a filosofia deve ter
no mundo atual um lugar creditado, desde que ela se fundamente
nos conhecimentos e descobertas científicas em curso. Neste
capítulo, os autores seguem falando sobre a relação entre
etnologia e história, tratadas como dois campos de estudo que
devem colaborar entre si. Levantam as críticas que alguns
historiadores fizeram ao antropólogo, segundo as quais ele teria
uma concepção a-histórica do funcionamento do espírito humano,
ao que Lévi-Strauss refuta, afirmando que os problemas
levantados pelo espírito humano são diversos, e dependem, entre
outras coisas, do meio geográfico, do passado histórico, da
história individual de cada um dos membros de uma sociedade.
Contudo, lembra que, em toda época e lugar, o cérebro humano é o
mesmo, e que há muito em comum entre aqueles que viveram e vivem
distantes no tempo e no espaço, caso contrário seria impossível
qualquer investigação histórica ou etnográfica.
Os dois últimos
capítulos desta segunda parte são dedicados às Mitológicas, obra
que se debruça sobre mais de oitocentos mitos ameríndios
procedentes da América do Sul e do Norte. Eribon acaba por
levantar questões relativas ao método comparativo, quando então
Lévi-Strauss afirma que a comparação surge quando há uma série
de diferentes experiências à mão e se pretende elaborar uma
teoria. Assim sendo, para haver um movimento de conversão entre
diferentes fatos observados, é preciso que se parta de um nível
de generalização para então se pretender estabelecer e mesmo
tornar possível a comparação. Contudo, Lévi-Strauss chama a
tenção para o fato de que, ao lidar com os sistemas de
parentesco, havia na época em que escreveu As estruturas
elementares do parentesco, uma quantidade de pesquisas que se
detinham em explicações particulares, enquanto que “o estudo dos
mitos continuava às voltas com um delírio comparativista, que se
estendia ao mundo todo” (p.184). Desta forma, o tratamento dado
a estas questões não poderia ser o mesmo no caso destas duas
obras.
Na terceira parte do
livro, “As culturas, a cultura”, há uma discussão sobre o futuro
da etnologia, e são relembrados alguns textos emblemáticos como
Raça e história, de 1952, e Raça e cultura, escrito em 1972,
ambos encomendados pela UNESCO, e que tiveram aceitação muito
diversa por parte do público. Enquanto o primeiro proclamava uma
“necessária coalizão das culturas” (p.208), o segundo expunha o
fato das culturas quererem opor-se umas às outras. Para Lévi-Strauss, não há conflito entre estas duas idéias, visto que
tanto o intercâmbio quanto a resistência à assimilação entre
diferentes culturas são dados incontestáveis. Os autores
discutem, portanto, idéias sobre o racismo, sobre engajamento
político, e sobre o lugar do ser humano no mundo.
Os três últimos
capítulos do livro são dedicados, respectivamente, à literatura,
à pintura, e à música. Esta última desempenhou importante papel
na obra de Lévi-Strauss, precisamente no que concerne às
relações que o autor estabelece entre a música e a mitologia.
Este vínculo está patente desde a “Abertura” até o “ Finale” de
O cru e o cozido, tanto no que diz respeito à organização dos
capítulos quanto ao conteúdo ali apresentado. Muito
resumidamente, o argumento de Lévi-Strauss é que, por volta do
século XVII, ocorre uma cisão na civilização ocidental daquilo
que ele chama de pensamento mítico, dando lugar, de um lado, à
reflexão científica e, de outro, à expressão romanesca. Neste
mesmo período ocorre o nascimento da grande forma musical, que,
segundo ele, recupera as estruturas do pensamento mítico, e isto
porque “as estruturas míticas prefiguravam, em estado latente,
as formas musicais”(p.248). Para além destas correlações,
Lévi-Strauss revela que a música tem um papel importante em seus
estados mentais, e que ouvindo música ele pensa melhor.
Curiosamente, para ele, a música ocidental, após Stravinsky,
pode até fomentar algum interesse, mas não lhe diz nada.
Apesar do
aprofundamento em diversos pontos da vida e obra deste grande
mestre da antropologia, o texto carece, contudo, de uma
contextualização das circunstâncias em que se deu esta longa
entrevista. Será que eles conversaram por alguns poucos dias, ou
teria levado meses? Lévi-Strauss fez uma revisão do texto e
acrescentou frases, reflexão e explicações? Bem, nunca
saberemos, mas, se as observações que a professora de
antropologia da USP, Beatriz Perrone Moisés nos apresenta no
início de uma outra entrevista, desta vez concedida a ela por
Claude Lévi-Strauss, ao completar 90 anos, valerem aqui também,
então, tudo que o mestre relatou a Eribon deve ter sido
exatamente o que está no livro. Segundo Perrone Moisés “vários
entrevistadores haviam mencionado a extrema cortesia de seus
gestos e palavras, e o bom humor, que às vezes irrompe,
inesperado, no riso discreto (como quando eu lhe disse que
tínhamos a honra de considerá-lo como um ‘herói
civilizador’...). Também já tinha sido comentada a precisão das
palavras, as respostas exatas, claras, bem construídas. No mês
em que completaria 90 anos, Claude Lévi-Strauss mantinha intacta
a limpidez do raciocínio, sendo inclusive capaz de retomar
frases no mesmo ponto em que as deixara, depois de inserir
comentários, observações ou precisões”[1].
Após a leitura deste
excelente livro, editado de forma convidativa pela Cosac Naify,
aguardemos a entrevista dos 100 anos de Claude Lévi-Strauss, que
certamente haverá de ser lúcida, profunda e instigante, como
tudo que ele sempre nos ofereceu em sua longa jornada
intelectual.
[1] Entrevista que consta da
Revista de Antropologia vol.42 (1-2), disponível on-line na base
de dados
http://www.scielo.br. Há também outra entrevista
concedida por Lévi-Strauss ao completar 90 anos, desta vez ao
antropólogo do Museu Nacional, Prof. Eduardo Viveiros de Castro,
disponível na Revista Mana vol. 4 (2), na mesma base de dados scielo.