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Resenha (Edição nº 31)
"A busca da África no candomblé: tradição e poder no Brasil",
por Simone Pondé Vassallo (*)
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Dados
do livro resenhado:
Título: A busca da África no candomblé: tradição e
poder no Brasil
Autor: Stefania Capone
Editora: Pallas/Contracapa
Número de Páginas: 376 |
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A fronteira entre o
discurso nativo e o discurso científico nem sempre é facilmente
traçável. No caso do candomblé, esta constatação se torna
particularmente verdadeira. A proposta de Stefania Capone, em
A busca da África no candomblé, tradição e poder no Brasil,
é justamente a de problematizar certas alianças entre
intelectuais e o povo-de-santo, que acabam criando um modelo de
ortodoxia religiosa: o candomblé nagô. Este se torna o paradigma
de pureza, o exemplo do tradicionalismo africano em detrimento
das outras modalidades de cultos comumente chamados de
afro-brasileiros.
Tal reflexão resulta
da própria trajetória da autora, uma italiana que chegou no
Brasil em 1983 para estudar o candomblé. A partir de um primeiro
contato com o material bibliográfico coletado, algumas questões
emergiram: “por que os estudos, em sua maioria, eram centrados
apenas em uma das modalidades de culto presentes no universo
religioso afro-brasileiro? Por que os discursos – de pessoas
ligadas ao candomblé, mas também de pesquisadores que escreviam
sobre esse assunto – insistiam tanto na ‘pureza’ dos cultos?”
(p. 13).
Para tentar
responder a essas questões, a autora é levada a desconstruir a
noção de tradição, dedicando-se aos mecanismos que levam à sua
elaboração. Stefania observa que a maioria das pesquisas
etnográficas sobre candomblé concentra-se em três terreiros de
Salvador: o Engenho Velho ou Casa Branca, o Gantois e o Axé Opô
Afonjá, todos de nação nagô (ioruba), que passam a encarnar a
própria tradição africana no Brasil, tanto para os praticantes
quanto para os pesquisadores. Esta tendência é notada desde o
início dos estudos afro-brasileiros, com Nina Rodrigues,
passando por Arthur Ramos, Gilberto Freyre e Roger Bastide,
entre outros tantos. A autora observa que a maioria dos
pesquisadores que se dedicam ao candomblé acaba se engajando num
terreiro e reproduzindo em suas obras as classificações nativas
entre puros e degenerados. A oposição inicial se desdobra em
outras, como a que ocorre entre Nordeste (sobretudo a Bahia) e
Sudeste, ou ainda entre candomblé e umbanda ou macumba, em que o
segundo pólo é sempre visto como uma degeneração do primeiro,
tido como verdadeiramente autêntico e tradicional. Seduzidos
pela procura da África no Brasil, estes intelectuais não
problematizam os mecanismos de constituição destas oposições,
tomando-as como um dado natural. Mas, como ressalta Capone, “é
possível distinguir nitidamente os cultos ‘puros’ dos cultos
‘degenerados’? E autêntico em relação a quê: à África, à Bahia,
ao nagô?” (p. 21).
A ênfase do livro
recai nas relações entre tradição e poder. Nesse sentido, as
tradições não seriam uma mera reprodução mecânica do passado no
presente, pois são sempre reinterpretadas e, conseqüentemente,
transformadas, no contexto em que são veiculadas. Mais do que
isso, são discriminatórias, pois “tendem a constituir um sistema
de referências que estabelece distinções entre o que é
tradicional e o que não é. Inscrever-se numa tradição significa,
portanto, marcar uma diferença, sendo preciso interrogar as
funções políticas das tradições” (p. 29). A noção de tradição
hierarquiza os terreiros. Afirmar-se como mais africano
significa reivindicar prestígio e poder junto aos outros
praticantes. Por isso, ao selar uma aliança com certos pais e
mães-de-santo, ao compactuar com seus discursos e dar-lhes
visibilidade, os intelectuais acabam legitimando certos
terreiros em detrimento de outros, atribuindo-lhes uma
importância e um poder dos quais os outros terreiros não podem
desfrutar. A distância que deveria existir entre os observadores
e seus nativos, e que está na base do trabalho antropológico,
desaparece quando se trata dos estudos sobre as religiões
afro-brasileiras.
No entanto, o
discurso acerca da tradição, defendido pelos pesquisadores que
observam e pelo povo-de-santo observado, representa um modelo
ideal que dificilmente se mantém na prática cotidiana dos
terreiros. Através de uma abordagem contextual, Stefania Capone
procura demonstrar que existe um hiato entre o ideal de
ortodoxia e a prática ritual, pois não acredita que essas
oposições sejam realmente vividas como tais nas práticas
cotidianas desses cultos. Por trás da aparente uniformidade
destes, o que se observa é uma extrema heterogeneidade do campo
religioso: “cada terreiro possui sua própria especificidade
ritual, fruto da tradição de que faz parte, mas também da
idiossincrasia do chefe do culto (...). As diferenças entre os
cultos são, portanto, bem menos claras do que pretendem
antropólogos e adeptos das religiões afro-brasileiras” (p. 21).
Para romper com a
perspectiva analítica polarizada entre o tradicional e o
descaracterizado, a autora propõe a idéia de um continuum
religioso que vai do pólo considerado mais africano, o candomblé
nagô, ao que é tido como menos africano, o kardecismo. Ao invés
de fronteiras religiosas estanques, o que percebemos é uma
grande circulação de médiuns por estes diferentes cultos. Esta
multiplicidade traz à tona uma enorme variedade de formas de
culto que tornam caducas as tentativas de sistematização rígida
e de instauração de uma ortodoxia religiosa. Neste contexto, a
identidade religiosa é constantemente negociada entre os atores
sociais, e as diferenças costumam ser mais acentuadas nos
discursos do que nas práticas rituais.
O fio condutor da
análise é a figura de Exu, “o mensageiro divino, mestre da magia
e grande manipulador do destino” (p. 24), figura central no
candomblé e nas outras modalidades de cultos afro-brasileiros.
Seguir os seus passos nos permite transitar por esse continuum e
compreender alguns de seus mecanismos. Comumente identificado
com o diabo, Exu foi durante muito tempo estrategicamente
dissimulado nos cultos tidos como mais tradicionais, pois sua
presença os deslegitimaria. Mas como negar a ação do grande
responsável pela comunicação entre os deuses e os homens,
daquele que é imprescindível à realização de qualquer ritual? É
seguindo essa pista que a autora nos revela como os diferentes
terreiros negociam e adaptam os ideais de ortodoxia religiosa à
complexidade da prática ritual. Ela o faz, mais especificamente,
observando a passagem de médiuns da umbanda para o candomblé,
que caracteriza as últimas décadas, marcadas por um processo de
reafricanização em que o candomblé passou a obter mais
legitimidade que a umbanda. Ao fazerem tal passagem, os médiuns
trazem consigo as entidades (ou espíritos) que já incorporavam
na sua religião de origem: os caboclos e os exus, cuja presença
é alvo de inúmeras negociações e releituras nos terreiros mais
tradicionalistas. Nesses últimos, essas entidades tornam-se alvo
de um bricolage simbólico que faz a mediação entre o
ideal e a realidade. Segundo a autora, “as duas ‘ortodoxias’ [do
candomblé e da umbanda] constituem modelos ideais,
historicamente determinados e ligados ao processo de legitimação
dos terreiros no mercado religioso. Ambas, mais aspirações que
realidades, devem aprender a conviver com os múltiplos arranjos
que permitem a adaptação de um modelo ideal à complexidade da
prática ritual” (p. 28-29).
O trabalho de campo
foi realizado em terreiros de candomblé localizados na periferia
do Rio de Janeiro, e em particular no Ilê Ifá Monge Gibanauê, de
Alvinho de Omolu, da nação efon. A escolha desta nação se deu,
entre outros fatores, por ser considerada uma das mais
“tradicionais”, bem como pela sua grande presença no Sudeste. A
autora optou por trabalhar com histórias de vida de médiuns
possuídos por Exu e pela Pombagira, para melhor apreender o
papel central desempenhado por esses espíritos nas suas vidas.
Assim, contraria a tendência predominante nos trabalhos sobre
candomblé, que, na busca de um passado imutável, privilegiam o
culto em detrimento do indivíduo. Criticando a visão
essencialista da cultura, Stefania Capone procura evitar a
armadilha da “ilusão de uma coerência formal perfeita”,
dominante nos estudos afro-brasileiros (p. 35). Ela não pretende
apagar as contradições entre os discursos e os projetos
políticos de seus informantes, mas, ao contrário, explicitá-las,
pois é justamente quando essas diferenças vêm à tona que podemos
perceber o processo dinâmico de construção cultural. Segundo a
antropóloga, tornar-se médium consiste numa estratégia de
sobrevivência na periferia das metrópoles brasileiras, uma opção
possível dentro da economia informal. Consiste ainda numa
maneira de elaborar uma identidade positiva para si, já que
valorizada num determinado contexto sócio-cultural. Assim, os
iniciados devem ser vistos como sujeitos políticos que, através
da possessão, negociam e dão sentido ao seu lugar no mundo.
Ao enfatizar a
dimensão política da tradição, ou seja, as relações de poder que
estão por trás da sua manipulação, a análise adquire por vezes
um caráter instrumental, ou mesmo funcionalista. Tal fato, no
entanto, não diminui a densidade do trabalho e nem o enorme
interesse do livro.
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