Resenha (Edição nº 31)

Réplica de Fraya Frehse à resenha do seu livro "O tempo das ruas na São Paulo de fins do Império", feita pela antropóloga Sonia Duarte Travassos na edição 30 desta seção Resenha.

"Dificuldades da antropologia com a antropologia histórica", por Fraya Frehse (*)

Após anos de reflexão antropológica sobre uma variedade grande de documentos textuais e iconográficos da São Paulo oitocentista; após debater em congressos e registrar com clareza em revistas e livros especializados os fundamentos teórico-metodológicos e resultados desse empreendimento, é com desapontamento de antropóloga e não de autora que leio a resenha que Sonia Duarte Travassos escreveu sobre meu livro O tempo das ruas na São Paulo de fins do Império (São Paulo, Edusp, 2005) e publicou na edição número 30 do Informe da Comunidade Virtual de Antropologia. O texto deixa reconhecer claramente que ainda são grandes as dificuldades de certos antropólogos em relação à chamada antropologia histórica.

Embora amplamente presentes no livro, minhas preocupações metodológicas com a crítica e depuração das fontes não receberam da resenhista qualquer atenção. A “encruzilhada” que ela menciona como nó problemático do texto é antes a encruzilhada de sua leitura, cujo linearismo se antepõe à complexa diversidade do caráter indicial da documentação histórica utilizada na análise antropológica empreendida no livro.

Conforme explicitado à sobeja ao longo do livro, e particularmente na Introdução, “a discrepância entre as versões produzidas em torno do acontecimento deixa intuir concepções em conflito” que remetem a especificidades socioculturais e históricas que são as “que me interessam neste estudo” (p. 25). A partir da interlocução com o método regressivo-progressivo de Henri Lefebvre, que permite abordar situações concretas na contemporaneidade do atual e do histórico, o desencontro de versões documentais viabilizou uma interpretação antropológica sobre a percepção social, na vida de todo dia dos indivíduos na São Paulo de fins do Império, do “desenvolvimento histórico mais amplo em curso na cidade” e do advento da modernidade ali (p. 26). Uma interpretação que conjuga temporalidades que desafiam a antropologia com a diacronia que encerram.

Curiosamente, contudo, apesar de se tratar de uma resenha acadêmica publicada num veículo especializado, nela nem sequer se mencionam a proposta teórico-metodológica, a construção teórica do tema e o debate acadêmico sobre a urbanização paulistana em que o livro se insere criticamente (Introdução, Parte I e início da Parte II). Ser minimamente fiel a esses aspectos teria sido crucial para compreender que o objetivo evidentemente não foi convidar o leitor para “seguir os passos dos transeuntes pelas ruas da São Paulo que se modernizava em fins do Império” buscando nas fontes meramente elementos que permitissem “enriquecer a imagem que [a autora] constrói sobre a cidade”. Com base no reconhecimento, já bastante trabalhado pela antropologia pós-moderna, de que os textos etnográficos se inserem em gêneros literários próprios, o passeio imaginário em questão (Capítulo 2) foi essencialmente o recurso literário utilizado para apresentar os dados documentais sistematizados cuja análise e interpretação expus nos capítulos subseqüentes. Recurso literário específico, aliás, utilizado por cronistas da época para expor suas impressões de “transeuntes” (categoria nativa de grande relevância metodológica no livro) sobre as atividades sociais nas ruas.

Tais lacunas deixam intuir que a própria resenhista, sem saber, se tornou vítima da dificuldade que erroneamente atribuiu a mim. Acabou por “esquecer que os relatos de que dispõe representam apenas uma diminuta parcela, aquela que ficou documentada nos jornais e nos documentos oficiais, das versões sobre a São Paulo que experimentava os primeiros traços da chamada modernidade”. A fundamental mediação que são os documentos conduziu-me às fontes selecionadas (criticamente caracterizadas principalmente na Introdução - e os jornais trabalhados merecem, diferentemente do que alega a resenhista, destaque nas pp. 34-5); a transeuntes singulares (caracterizados de forma extensa ao final da análise, no Capítulo 4); ao passeio de trajeto aleatório – no sentido de “dependente das circunstâncias”, “contingente” (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 2001): dependente das circunstâncias criadas pela crítica das fontes.

Talvez o exemplo mais contundente da dificuldade de estranhar histórica e antropologicamente os documentos por mim utilizados seja a concepção que a resenhista tem das fotografias de Militão. Para ela, “são, sobretudo, as fotos de Militão Augusto de Azevedo que irão permitir que a autora apresente a São Paulo que se despede das ‘atividades sociais antigas’” e “abraça as ’atividades sociais modernas’”. Ora, as fotografias mostram que a cidade não se “despede” do passado, e sim o carrega consigo, ressignificado, no presente de advento da modernidade nas ruas. Produto, tal como os jornais analisados, de recursos técnicos que se modernizam no período estudado, as fotografias de Militão podem até, ao olhar desavisado, parecer desprovidas de gente, “desérticas” – como quer a resenhista em relação a duas imagens do livro (pp. 101-2). Contextualizar, entretanto, a documentação historicamente e analisar seus elementos indiciais, explicita que o tempo de exposição demandado ao fotógrafo muito colaborou para transformar os sujeitos fotografados em “’fantasmas’, traços borrados que indicam a presença, nos cenários fotografados, de seres vivos e/ou objetos que, no momento da tomada, estavam se movimentando diante da câmera” (p. 102). Como a resenhista ignorou essa explicação, o caminho até a estrada “desértica” foi curto...

Com efeito, confrontar, como fiz no livro, o cenário físico e os agentes sociais nas ruas fotografadas, e tudo isso com as representações de outras fontes sobre essas mesmas ruas no mesmo momento histórico, torna o pesquisador mais humilde frente aos silêncios e potencialidades da documentação. É-se também levado a reconhecer a fragilidade de esquemas teóricos pré-concebidos. E isso sobretudo porque a escala de análise é a vida cotidiana. Nem teorias sobre a ruptura do passado em relação ao presente, nem aquelas sobre a continuidade (Capítulo 1) dão conta da complexidade antropológica das percepções que os indivíduos, na vida de todo dia, têm do processo histórico mais abrangente que os envolve e para o qual contribuem. Ademais, tampouco jogos de poder e os conflitos sociais daí derivados (Capítulo 3) servem como explicação única para o fato de fontes diversas abrigarem simultaneamente representações historicamente tão díspares sobre as ruas ao longo de mais de vinte anos. Na verdade, um esquema teórico contradiz o outro – uma dificuldade da qual a própria linha interpretativa adotada na resenha padece...

Penso que tais ponderações de cunho metodológico e teórico são suficientes para sugerir os desafios que a antropologia histórica traz para a antropologia. Mas elas permitem intuir mais: os desafios que o cotidiano apresenta para a disciplina. A dificuldade de compreender a dramaticidade sociocultural e histórica de questões aparentemente banais, mas constantes nas fontes e referentes, entre outros, “ao que fazer com os dejetos fecais e domésticos ou a onde tomar banhos e lavar as roupas”, é sinal categórico da inabilidade que a antropologia ainda mostra, por vezes, para abordar a cidade e a modernidade, temáticas tão caras às ditas “sociedades complexas”.

O meu livro assume o tempo das ruas na São Paulo de fins do Império como referência para mostrar que enfrentar tais problemáticas implica considerar a diversidade de protagonismos nos mesmos cenários, grande expressão da sociedade moderna em gestação na cidade do livro. Ademais, cabe aceitar a importância do fenomênico e do fragmentário no contemporâneo, na cidade e no imaginário.

O interessante é que a resenha mostra o mesmo – ainda que pela negação.
 


(*) Fraya Frehse é mestre e doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo, professora de Antropologia Urbana e de Métodos Qualitativos na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, pesquisadora do Núcleo de Antropologia Urbana da Universidade de São Paulo e autora de O Tempo das Ruas na São Paulo de Fins do Império (São Paulo, Edusp, 2005), tendo colaborado também em coletâneas dentre as quais se destacam (Des)figurações: O imaginário onírico da metrópole, organizada por José de Souza Martins (São Paulo, Hucitec, 1996); Encyclopedia of Urban Cultures: Cities and Cultures around the World, organizada por Melvin e Carol R. Ember (Danbury (Connecticut), Scholastic/Grolier; 2002); O Imaginário e o Poético nas Ciências Sociais, organizada por José de Souza Martins, Cornelia Eckert e Sylvia Caiuby Novaes (Bauru, Edusc, 2005), Espacio Público, Patrimonio e Identidad(es) en América Latina, organizada por Deni Ramirez Losada (Puebla, ICSI, no prelo). Vem publicando artigos antropológicos sobre o advento da modernidade em São Paulo, no século XIX, em revistas científicas nacionais e estrangeiras.


 

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