Réplica de Fraya Frehse à
resenha do seu livro
"O tempo das ruas na São Paulo de fins do
Império", feita pela antropóloga Sonia Duarte Travassos na
edição 30
desta seção Resenha.
"Dificuldades da
antropologia com a antropologia histórica",
por Fraya Frehse (*)
Após anos de reflexão antropológica sobre
uma variedade grande de documentos textuais
e iconográficos da São Paulo oitocentista;
após debater em congressos e registrar com
clareza em revistas e livros especializados
os fundamentos teórico-metodológicos e
resultados desse empreendimento, é com
desapontamento de antropóloga e não de
autora que leio a resenha que Sonia Duarte
Travassos escreveu sobre meu livro O
tempo das ruas na São Paulo de fins do
Império (São Paulo, Edusp, 2005) e
publicou na
edição número 30 do Informe da
Comunidade Virtual de Antropologia. O texto
deixa reconhecer claramente que ainda são
grandes as dificuldades de certos
antropólogos em relação à chamada
antropologia histórica.
Embora amplamente presentes no livro, minhas
preocupações metodológicas com a crítica e
depuração das fontes não receberam da
resenhista qualquer atenção. A
“encruzilhada” que ela menciona como nó
problemático do texto é antes a encruzilhada
de sua leitura, cujo linearismo se antepõe à
complexa diversidade do caráter indicial da
documentação histórica utilizada na análise
antropológica empreendida no livro.
Conforme explicitado à sobeja ao longo do
livro, e particularmente na Introdução, “a
discrepância entre as versões produzidas em
torno do acontecimento deixa intuir
concepções em conflito” que remetem a
especificidades socioculturais e históricas
que são as “que me interessam neste estudo”
(p. 25). A partir da interlocução com o
método regressivo-progressivo de Henri
Lefebvre, que permite abordar situações
concretas na contemporaneidade do atual e do
histórico, o desencontro de versões
documentais viabilizou uma interpretação
antropológica sobre a percepção social, na
vida de todo dia dos indivíduos na São Paulo
de fins do Império, do “desenvolvimento
histórico mais amplo em curso na cidade” e
do advento da modernidade ali (p. 26). Uma
interpretação que conjuga temporalidades que
desafiam a antropologia com a diacronia que
encerram.
Curiosamente, contudo, apesar de se tratar
de uma resenha acadêmica publicada num
veículo especializado, nela nem sequer se
mencionam a proposta teórico-metodológica, a
construção teórica do tema e o debate
acadêmico sobre a urbanização paulistana em
que o livro se insere criticamente
(Introdução, Parte I e início da Parte II).
Ser minimamente fiel a esses aspectos teria
sido crucial para compreender que o objetivo
evidentemente não foi convidar o leitor para
“seguir os passos dos transeuntes pelas ruas
da São Paulo que se modernizava em fins do
Império” buscando nas fontes meramente
elementos que permitissem “enriquecer a
imagem que [a autora] constrói sobre a
cidade”. Com base no reconhecimento, já
bastante trabalhado pela antropologia
pós-moderna, de que os textos etnográficos
se inserem em gêneros literários próprios, o
passeio imaginário em questão (Capítulo 2)
foi essencialmente o recurso literário
utilizado para apresentar os dados
documentais sistematizados cuja análise e
interpretação expus nos capítulos
subseqüentes. Recurso literário específico,
aliás, utilizado por cronistas da época para
expor suas impressões de “transeuntes”
(categoria nativa de grande relevância
metodológica no livro) sobre as atividades
sociais nas ruas.
Tais lacunas deixam intuir que a própria
resenhista, sem saber, se tornou vítima da
dificuldade que erroneamente atribuiu a mim.
Acabou por “esquecer que os relatos de que
dispõe representam apenas uma diminuta
parcela, aquela que ficou documentada nos
jornais e nos documentos oficiais, das
versões sobre a São Paulo que experimentava
os primeiros traços da chamada modernidade”.
A fundamental mediação que são os documentos
conduziu-me às fontes selecionadas
(criticamente caracterizadas principalmente
na Introdução - e os jornais trabalhados
merecem, diferentemente do que alega a
resenhista, destaque nas pp. 34-5); a
transeuntes singulares (caracterizados de
forma extensa ao final da análise, no
Capítulo 4); ao passeio de trajeto aleatório
– no sentido de “dependente das
circunstâncias”, “contingente” (Dicionário
Houaiss da Língua Portuguesa, 2001):
dependente das circunstâncias criadas pela
crítica das fontes.
Talvez o exemplo mais contundente da
dificuldade de estranhar histórica e
antropologicamente os documentos por mim
utilizados seja a concepção que a resenhista
tem das fotografias de Militão. Para ela,
“são, sobretudo, as fotos de Militão Augusto
de Azevedo que irão permitir que a autora
apresente a São Paulo que se despede das
‘atividades sociais antigas’” e “abraça as
’atividades sociais modernas’”. Ora, as
fotografias mostram que a cidade não se
“despede” do passado, e sim o carrega
consigo, ressignificado, no presente de
advento da modernidade nas ruas. Produto,
tal como os jornais analisados, de recursos
técnicos que se modernizam no período
estudado, as fotografias de Militão podem
até, ao olhar desavisado, parecer
desprovidas de gente, “desérticas” – como
quer a resenhista em relação a duas imagens
do livro (pp. 101-2). Contextualizar,
entretanto, a documentação historicamente e
analisar seus elementos indiciais, explicita
que o tempo de exposição demandado ao
fotógrafo muito colaborou para transformar
os sujeitos fotografados em “’fantasmas’,
traços borrados que indicam a presença, nos
cenários fotografados, de seres vivos e/ou
objetos que, no momento da tomada, estavam
se movimentando diante da câmera” (p. 102).
Como a resenhista ignorou essa explicação, o
caminho até a estrada “desértica” foi
curto...
Com efeito, confrontar, como fiz no livro, o
cenário físico e os agentes sociais nas ruas
fotografadas, e tudo isso com as
representações de outras fontes sobre essas
mesmas ruas no mesmo momento histórico,
torna o pesquisador mais humilde frente aos
silêncios e potencialidades da documentação.
É-se também levado a reconhecer a
fragilidade de esquemas teóricos
pré-concebidos. E isso sobretudo porque a
escala de análise é a vida cotidiana. Nem
teorias sobre a ruptura do passado em
relação ao presente, nem aquelas sobre a
continuidade (Capítulo 1) dão conta da
complexidade antropológica das percepções
que os indivíduos, na vida de todo dia, têm
do processo histórico mais abrangente que os
envolve e para o qual contribuem. Ademais,
tampouco jogos de poder e os conflitos
sociais daí derivados (Capítulo 3) servem
como explicação única para o fato de fontes
diversas abrigarem simultaneamente
representações historicamente tão díspares
sobre as ruas ao longo de mais de vinte
anos. Na verdade, um esquema teórico
contradiz o outro – uma dificuldade da qual
a própria linha interpretativa adotada na
resenha padece...
Penso que tais ponderações de cunho
metodológico e teórico são suficientes para
sugerir os desafios que a antropologia
histórica traz para a antropologia. Mas elas
permitem intuir mais: os desafios que o
cotidiano apresenta para a disciplina. A
dificuldade de compreender a dramaticidade
sociocultural e histórica de questões
aparentemente banais, mas constantes nas
fontes e referentes, entre outros, “ao que
fazer com os dejetos fecais e domésticos ou
a onde tomar banhos e lavar as roupas”, é
sinal categórico da inabilidade que a
antropologia ainda mostra, por vezes, para
abordar a cidade e a modernidade, temáticas
tão caras às ditas “sociedades complexas”.
O meu livro assume o tempo das ruas na São
Paulo de fins do Império como referência
para mostrar que enfrentar tais
problemáticas implica considerar a
diversidade de protagonismos nos mesmos
cenários, grande expressão da sociedade
moderna em gestação na cidade do livro.
Ademais, cabe aceitar a importância do
fenomênico e do fragmentário no
contemporâneo, na cidade e no imaginário.
O interessante é que a resenha mostra o
mesmo – ainda que pela negação.
(*)
Fraya
Frehse é mestre e doutora em Antropologia Social pela
Universidade de São Paulo, professora de Antropologia Urbana e de
Métodos Qualitativos na Escola de Sociologia e Política de São
Paulo, pesquisadora do Núcleo de Antropologia Urbana da Universidade
de São Paulo e autora de O Tempo das Ruas na São Paulo de Fins do
Império (São Paulo, Edusp, 2005), tendo colaborado também em
coletâneas dentre as quais se destacam (Des)figurações: O
imaginário onírico da metrópole, organizada por José de Souza
Martins (São Paulo, Hucitec, 1996); Encyclopedia of Urban
Cultures: Cities and Cultures around the World, organizada por
Melvin e Carol R. Ember (Danbury (Connecticut), Scholastic/Grolier;
2002); O Imaginário e o Poético nas Ciências Sociais,
organizada por José de Souza Martins, Cornelia Eckert e Sylvia
Caiuby Novaes (Bauru, Edusc, 2005), Espacio Público, Patrimonio e
Identidad(es) en América Latina, organizada por Deni Ramirez
Losada (Puebla, ICSI, no prelo). Vem publicando artigos
antropológicos sobre o advento da modernidade em São Paulo, no
século XIX, em revistas científicas nacionais e estrangeiras.