Resenha (Edição nº 30)

"O Brasil antenado - a sociedade na novela", por Nara Magalhães (*)    
 

Dados do livro resenhado:
Título: O Brasil antenado
Autora: Esther Hamburger
Editora: Jorge Zahar
Número de Páginas: 196

No livro “O Brasil Antenado – a sociedade da novela”, recentemente lançado, a antropóloga Esther Hamburger mostra como a telenovela brasileira, ao longo de mais de vinte anos, passou por transformações não só na sua produção e nas interpretações, mas no lugar que ocupa no debate público. Considerando as novelas como um fenômeno “proto-interativo”, cujos capítulos são escritos e produzidos num jogo complexo de interações desiguais, antes e durante a sua exibição, a autora mostra como elas são um gênero importante para dar conta de noções e práticas de mediação eletrônica, que estão presentes na produção e recepção de significados e representações no mundo contemporâneo.

Combinando um estilo ensaístico com rigor científico, de instigante e agradável leitura, o livro é resultado de uma tese de doutorado defendida no Departamento de Antropologia da Universidade de Chicago, escrita sob orientação de Marshall Sahlins. A partir de estudos etnográficos e históricos, análise de convenções de linguagem de algumas novelas, bem como sua produção e recepção, a autora busca responder questões candentes a respeito da cultura contemporânea.

A análise dos mecanismos convencionais de produção e recepção de novelas estabelecidos na história recente do país, do modo com que captam e expressam as mudanças em curso na sociedade; as relações entre histórias privadas de personagens do melodrama, e até que ponto se tornam referência para definir tipos ideais nacionais de comportamento; as relações entre produtores, criadores, Estado e receptores da novelas; os significados que vão sendo produzidos e definidos numa relação de cumplicidade entre consumidores e produtores, são todas questões abordadas pela autora. Elas nos permitem, como leitores, refletir não só sobre o dinamismo da cultura brasileira em torno do fenômeno telenovela num contexto de sociedade globalizada, como perceber o fôlego do trabalho, que expressa esse dinamismo também na escrita e na análise realizada, longe das explicações lineares de um fenômeno tão complexo.

O livro abre com um momento que pode ser considerado de crise: o assassinato de Daniela Perez, atriz de 22 anos, protagonista de uma telenovela das 20 horas, De Corpo e Alma, que chocou o Brasil. O trágico episódio mobilizou multidões de fãs, de artistas, de jornalistas, de policiais, de juristas; gerou repercussão nacional e internacional inédita; mobilizou a indústria da televisão em suas conexões com o público, o Judiciário, o Executivo, a imprensa local e a estrangeira; e reverberou tão intensamente na sociedade brasileira, que pode ser elucidativo para a reflexão sobre a mudança do significado da telenovela no Brasil dos anos 1970 aos anos 1990. Nesse período, o gênero telenovela passou por redefinições nos domínios masculino e feminino, público e privado, da notícia e da ficção.

A notícia da morte de Daniela veio a público no mesmo dia em que o Congresso Nacional aprovou o impeachment de Collor, ocorrido após meses de denúncias, investigações e mobilizações populares contra o primeiro presidente eleito depois do fim do regime militar. Mas a morte da atriz recebeu mais atenção da mídia impressa e eletrônica do que o afastamento definitivo do presidente, que já estava fora do governo. Com isso, a representação dessa história e dessa abordagem fora do Brasil se fez como numa “versão contemporânea e high-tech da imagem antropológica clássica do ‘selvagem’, ‘primitivo’ e ‘exótico’, que agiria com critérios alheios aos da racionalidade ocidental.” (: 11).

O crime foi noticiado pela CNN, por jornais internacionais como o The New York Times e revistas como a New Yorker, e esta repercussão internacional também se tornou notícia no Brasil. Com base na história do crime, espectadores e observadores internacionais discutiram o tema das novelas no Brasil, e os constantes cruzamentos entre o real e o ficcional chegaram a ser especulados por uma ensaísta como uma característica brasileira.

Enquanto isso, aqui o tema foi discutido por jornalistas de renome, psicólogos, juízes, e até o ministro da justiça e o presidente da República foram pressionados a garantir a lisura das investigações e possíveis modificações na legislação criminal, de modo que o assassino fosse de fato punido. Também a diluição entre os domínios da ficção e da realidade foi o tema preferido de muitos cadernos especiais de jornais, e o Jornal do Brasil chegou a tratar em seu editorial a difusão da violência feita pelas novelas.

Abordando essas polêmicas em torno da morte da atriz, a pesquisadora considera que elas reforçaram a noção de que as novelas estimulam comportamentos, positivos ou negativos, individuais ou coletivos.

Se no início dos anos 1990, a novela ocupou o noticiário e estimulou o debate sobre as relações entre fato e ficção, entre televisão e realidade, representação e experiência, teoria e prática, este também foi um tempo de intensas mobilizações políticas. A partir das entrelinhas do texto, podemos construir uma reflexão sobre a invisibilidade dessa participação popular na vida política do país, e considerar que, dependendo do recorte escolhido para entender as transformações sociais do período, poderemos fazer uma ou outra análise do Brasil e da relação de suas novelas com nossa vida pública.

No livro, seguem-se debates teóricos importantes, que resgatam pesquisas já realizadas e clareiam a perspectiva adotada. O debate sobre os estudos de recepção, por exemplo, considera que eles mudaram a ênfase na pesquisa da cultura de massa. Ao deslocar-se do âmbito da produção para o da recepção, estes estudos procuraram demonstrar a diversidade de interpretações de um mesmo texto. Esses referenciais se construíram histórica e conceitualmente “na linhagem da Escola de Frankfurt, ou em trabalhos empíricos sobre situações contemporâneas, que seguem a linha dos estudos culturais inspirados na pesquisa gramsciana da Escola de Birmingham na Inglaterra” (:16).

A abordagem multidisciplinar, as relações entre os estudos de recepção e pesquisas sobre cultura são apontadas para ressaltar algumas confluências: a contribuição da antropologia nesses estudos se faz no sentido de situar a prática de “ver televisão” como uma das várias atividades que constituem a vida cotidiana dos telespectadores, e demonstrar que os sentidos que estes atribuem às obras televisivas variam, em contextos específicos.

Assim, os estudos de recepção trouxeram mudanças teóricas positivas ao campo da discussão sobre o significado, situando-o num processo não predeterminado, e sim levando em conta a variação de interpretações de textos iguais. No entanto, a diversidade de significados está situada no pólo da recepção. As mensagens continuam sendo consideradas como ideologias dominantes predeterminadas, ainda que recebendo possíveis interpretações divergentes. Até mesmo entre alguns pesquisadores ligados a uma visão pluralista, há uma continuidade na consideração de valores veiculados nos meios de comunicação como definidos por consenso social. A ênfase na recepção não resolveu ainda, na literatura especializada, a ausência de problematização na produção de significados.

O livro aponta especificidades da indústria televisiva brasileira. A novela é considerada um repertório compartilhado entre os segmentos variados de público nos anos 1970 e 1980, fase de consolidação dessa indústria, sob domínio da Rede Globo (que suplantou as TVs Tupi e Excelsior). A Rede Globo, ao combinar uma administração profissionalizada e um suporte político ao governo, cresceu como beneficiária das inovações tecnológicas, e muito ligada ao regime, conseguindo o quase monopólio na audiência, uma característica que em outros países só foi conseguida por emissoras públicas, com sistema estatal de comunicação. Nesse período, “o governo investiu em infra-estrutura, controlou a programação através da censura, da propaganda e de ‘políticas culturais’ e, apesar da interferência estatal, a televisão brasileira manteve sua natureza comercial privada” (:35).

Com isso, a televisão não deixou de cumprir seu papel de integração nacional, articulando contradições da pressão governamental com as chamadas forças de mercado, ou incluindo a competência e criatividade de profissionais. O resultado disso é o produto inusitado “novela”, que não deixa de ser o mais comercial e lucrativo da indústria cultural brasileira, mas que recebe as tintas nacionais, é uma espécie de vitrine da nossa contemporaneidade, e pode ser considerado um palco de tipos ideais de homem, mulher, pai, mãe, filho, filha, e família.

O novo período, iniciado em 1990 e ainda em andamento, é de redemocratização e diversificação da estrutura da programação televisiva. Com a TV a cabo, o vídeo cassete, a tecnologia da transmissão via satélite, a disseminação das antenas parabólicas, e a internet, além do ressurgimento da competição de emissoras emergentes – como SBT, Manchete e Record - entre outras mudanças, o domínio absoluto da Globo já não é o mesmo.

Essa é uma época em que a sociedade brasileira passou por transformações importantes, como o fim do regime militar, a posse do primeiro presidente civil em 1985 e a Assembléia Constituinte em 1988, que eliminou a censura. O sistema de concessões de emissoras de televisão e rádio passou do Executivo ao Legislativo, e isso não impediu que fossem distribuídas mais de mil concessões de rádio e televisão, a maior parte delas para políticos. Continuam as controvérsias, e o poder das forças em jogo se reflete na dificuldade de legislar sobre uma política adequada em relação aos meios de comunicação audiovisual.

Todo esse novo contexto questiona a posição da novela, de constituir um repertório compartilhado: ela ainda capta e expressa noções contraditórias sobre o masculino e o feminino, o público e o privado, política e intimidade, notícia e ficção, mas a possibilidade de uma representação do nacional, e sua capacidade de aglutinar a nação brasileira já estão em cheque.

Analisando várias novelas, a autora vai desvendando sua transformação: inicialmente um seriado financiado e produzido por companhias de sabão, voltado para as mulheres, hoje um fenômeno nacional de comunicação multiclassista, e produto de exportação líder de audiência.

Elementos da cultura brasileira marcavam o gênero nas produções dos anos 1970 e 1980, e eram visíveis, por exemplo, em novelas como Irmãos Coragem ou Selva de Pedra, que conquistaram a liderança da audiência de televisão. Os conflitos principais das tramas eram entre o rural e o urbano, o rico e o pobre, a ascensão social ligada à migração do campo para cidade ou do nordeste para o sudeste. A oposição entre o Brasil “tradicional” e o Brasil “moderno”, e a liberação dos costumes aliada à modernização constituíam o foco. Essas novelas conseguiram catalisar “significados díspares e satisfizeram a agenda de uma indústria televisiva comercial emergente, do regime militar autoritário, e de autores intelectualizados, sem corresponder ao projeto isolado de nenhuma dessas forças.” (:100)

Em meados dos anos 1980, com as novelas Vale Tudo e Roque Santeiro, retomam-se as oposições entre rural e urbano, entre homem e mulher, ricos e pobres, mas em conflitos traduzidos em termos de nação. Ambas são produzidas no contexto de redemocratização do país e fazem referência à corrupção que caracteriza a ordem social e política brasileira. Faz parte das convenções apresentadas por Roque Santeiro marcar o avanço rumo a um país do futuro, mas sugerir também as conseqüências inesperadas da modernização, com ceticismo. Vale Tudo foi uma novela que despertou a atenção pública, extrapolou o domínio feminino das telenovelas e recebeu ampla cobertura jornalística. O debate sobre quem matou Odete Roitman, a poderosa vilã da novela, tomou conta do país e expressou a preocupação com a corrupção política e de classe. Com isso, de modo independente das intenções dos autores, ela “mobilizou uma experiência emotiva de falência nacional” (:116), e abriu espaço para a expressão de sentimentos contraditórios sobre os rumos da nação.

Na última década do século XX, as mudanças já apontadas culminaram numa disputa entre emissoras, traduzida em termos de diferentes interpretações do Brasil, mostrando que a novela foi se tornando um espaço de problematização da nacionalidade. É desse período a novela Pantanal, exibida na Rede Manchete, que opunha ao Brasil do futuro exibido pela Globo em seus folhetins eletrônicos, um Brasil do passado, exótico, ligado à natureza exuberante. Essa novela acabou se constituindo num marco na mudança de convenções que caracterizava o projeto empresarial vitorioso até então. As novelas seguintes da Globo já não utilizam o mote nacional: em histórias como Renascer, o Rei do Gado e Terra Nostra, os temas privilegiados são a ligação com a terra, relações pais e filhos, a exaltação aos valores básicos da vida em família.

Outra novidade do período é a emergência de um papel de intervenção das novelas, que passaram a ser oferecidas ao público com algo mais do que o papel recorrente de vitrine de moda, notícia e comportamento: tentaram colocar-se como prestadoras de serviço. Explode Coração exibia cartazes com fotos de crianças desaparecidas, e mobilizou sua busca; O Clone interveio de maneira ousada no problema das drogas; Mulheres Apaixonadas incorporou o problema da violência urbana. O Rei do Gado realizou uma intervenção no âmbito da política, conferindo uma visibilidade inédita ao MST (Movimento dos Sem-Terra), abordando o problema da reforma agrária. Com isso, ganhou a primeira página de vários jornais (algo comum a outras novelas), mas conquistou também as páginas políticas e os editoriais.

Ao longo do livro, a antropóloga expõe a maneira como gestos em torno de noções como antenar, sintonizar, interagir, conectar, são importantes pistas para compreensão da inserção das novelas na cultura brasileira contemporânea. Ao final, retomando as principais linhas teóricas de debate, e citando trabalhos mundiais que analisam, entre outros fenômenos, o da celebridade e morte da princesa Diana, traça paralelos entre esse e outros momentos de crise, e a participação intensa de públicos variados (como foi o caso citado no início, da morte de Daniela Perez). Com isso, recoloca a discussão em termos novos.

Para a pesquisadora, o fascínio da novela pode ser entendido desde uma perspectiva crítica à lógica interna da mídia, pelo desejo de participação direta, de performance e interação do público, pela utopia da comunicação imediata, e também pela problematização da experiência vivida. Assim, “é a idéia de conexão imediata, que incorpora o público, rompendo até certo ponto, a relação estanque entre palco e platéia, autor e obra, exibição e recepção, sugerindo a comunicação em rede, que formas digitais permitem realizar mais plenamente.” (:167)

A antropóloga consegue demonstrar que a busca do significado pode se fazer numa complexa interação entre texto, produção e recepção, pluralidade de interpretações e contexto. É um trabalho que, pela sua densidade e pelos vários ângulos de análise abordados, traz respostas a muitos dos que se preocupam com a “influência” das telenovelas sobre a sociedade brasileira, demonstrando que esta não é unilateral, e que a complexidade de interações em torno da novela hoje não permite considerá-la apenas um produto de massa que atinge um grupo anônimo de pessoas frágeis ou sem poder na sociedade: ela é objeto de interesse de atores centrais de nossa vida pública.

Pela abrangência e profundidade do estudo, pelas problematizações que propõe sobre a análise do significado da televisão nas sociedades contemporâneas, é um livro de leitura indispensável, tanto para pesquisadores da cultura e da televisão, como para o público em geral, que ama ou odeia novela, e quer entender seu fascínio.


(*) Nara Magalhães é doutora em Antropologia pelo PPGAS da Universidade Federal de Santa Catarina e professora do Departamento de Ciências Sociais da UNIJUÍ/RS.

 

 

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