No livro “O Brasil
Antenado – a sociedade da novela”, recentemente lançado, a
antropóloga Esther Hamburger mostra como a telenovela
brasileira, ao longo de mais de vinte anos, passou por
transformações não só na sua produção e nas interpretações, mas
no lugar que ocupa no debate público. Considerando as novelas
como um fenômeno “proto-interativo”, cujos capítulos são
escritos e produzidos num jogo complexo de interações desiguais,
antes e durante a sua exibição, a autora mostra como elas são um
gênero importante para dar conta de noções e práticas de
mediação eletrônica, que estão presentes na produção e recepção
de significados e representações no mundo contemporâneo.
Combinando um estilo
ensaístico com rigor científico, de instigante e agradável
leitura, o livro é resultado de uma tese de doutorado defendida
no Departamento de Antropologia da Universidade de Chicago,
escrita sob orientação de Marshall Sahlins. A partir de estudos
etnográficos e históricos, análise de convenções de linguagem de
algumas novelas, bem como sua produção e recepção, a autora
busca responder questões candentes a respeito da cultura
contemporânea.
A análise dos
mecanismos convencionais de produção e recepção de novelas
estabelecidos na história recente do país, do modo com que
captam e expressam as mudanças em curso na sociedade; as
relações entre histórias privadas de personagens do melodrama, e
até que ponto se tornam referência para definir tipos ideais
nacionais de comportamento; as relações entre produtores,
criadores, Estado e receptores da novelas; os significados que
vão sendo produzidos e definidos numa relação de cumplicidade
entre consumidores e produtores, são todas questões abordadas
pela autora. Elas nos permitem, como leitores, refletir não só
sobre o dinamismo da cultura brasileira em torno do fenômeno
telenovela num contexto de sociedade globalizada, como perceber
o fôlego do trabalho, que expressa esse dinamismo também na
escrita e na análise realizada, longe das explicações lineares
de um fenômeno tão complexo.
O livro abre com um
momento que pode ser considerado de crise: o assassinato de
Daniela Perez, atriz de 22 anos, protagonista de uma telenovela
das 20 horas, De Corpo e Alma, que chocou o Brasil. O
trágico episódio mobilizou multidões de fãs, de artistas, de
jornalistas, de policiais, de juristas; gerou repercussão
nacional e internacional inédita; mobilizou a indústria da
televisão em suas conexões com o público, o Judiciário, o
Executivo, a imprensa local e a estrangeira; e reverberou tão
intensamente na sociedade brasileira, que pode ser elucidativo
para a reflexão sobre a mudança do significado da telenovela no
Brasil dos anos 1970 aos anos 1990. Nesse período, o gênero
telenovela passou por redefinições nos domínios masculino e
feminino, público e privado, da notícia e da ficção.
A notícia da morte
de Daniela veio a público no mesmo dia em que o Congresso
Nacional aprovou o impeachment de Collor, ocorrido após meses de
denúncias, investigações e mobilizações populares contra o
primeiro presidente eleito depois do fim do regime militar. Mas
a morte da atriz recebeu mais atenção da mídia impressa e
eletrônica do que o afastamento definitivo do presidente, que já
estava fora do governo. Com isso, a representação dessa história
e dessa abordagem fora do Brasil se fez como numa “versão
contemporânea e high-tech da imagem antropológica clássica do
‘selvagem’, ‘primitivo’ e ‘exótico’, que agiria com critérios
alheios aos da racionalidade ocidental.” (: 11).
O crime foi
noticiado pela CNN, por jornais internacionais como o The New
York Times e revistas como a New Yorker, e esta
repercussão internacional também se tornou notícia no Brasil.
Com base na história do crime, espectadores e observadores
internacionais discutiram o tema das novelas no Brasil, e os
constantes cruzamentos entre o real e o ficcional chegaram a ser
especulados por uma ensaísta como uma característica brasileira.
Enquanto isso, aqui
o tema foi discutido por jornalistas de renome, psicólogos,
juízes, e até o ministro da justiça e o presidente da República
foram pressionados a garantir a lisura das investigações e
possíveis modificações na legislação criminal, de modo que o
assassino fosse de fato punido. Também a diluição entre os
domínios da ficção e da realidade foi o tema preferido de muitos
cadernos especiais de jornais, e o Jornal do Brasil
chegou a tratar em seu editorial a difusão da violência feita
pelas novelas.
Abordando essas
polêmicas em torno da morte da atriz, a pesquisadora considera
que elas reforçaram a noção de que as novelas estimulam
comportamentos, positivos ou negativos, individuais ou
coletivos.
Se no início dos
anos 1990, a novela ocupou o noticiário e estimulou o debate
sobre as relações entre fato e ficção, entre televisão e
realidade, representação e experiência, teoria e prática, este
também foi um tempo de intensas mobilizações políticas. A partir
das entrelinhas do texto, podemos construir uma reflexão sobre a
invisibilidade dessa participação popular na vida política do
país, e considerar que, dependendo do recorte escolhido para
entender as transformações sociais do período, poderemos fazer
uma ou outra análise do Brasil e da relação de suas novelas com
nossa vida pública.
No livro, seguem-se
debates teóricos importantes, que resgatam pesquisas já
realizadas e clareiam a perspectiva adotada. O debate sobre os
estudos de recepção, por exemplo, considera que eles
mudaram a ênfase na pesquisa da cultura de massa. Ao deslocar-se
do âmbito da produção para o da recepção, estes estudos
procuraram demonstrar a diversidade de interpretações de um
mesmo texto. Esses referenciais se construíram histórica e
conceitualmente “na linhagem da Escola de Frankfurt, ou em
trabalhos empíricos sobre situações contemporâneas, que seguem a
linha dos estudos culturais inspirados na pesquisa gramsciana da
Escola de Birmingham na Inglaterra” (:16).
A abordagem
multidisciplinar, as relações entre os estudos de recepção e
pesquisas sobre cultura são apontadas para ressaltar algumas
confluências: a contribuição da antropologia nesses estudos se
faz no sentido de situar a prática de “ver televisão” como uma
das várias atividades que constituem a vida cotidiana dos
telespectadores, e demonstrar que os sentidos que estes atribuem
às obras televisivas variam, em contextos específicos.
Assim, os estudos de
recepção trouxeram mudanças teóricas positivas ao campo da
discussão sobre o significado, situando-o num processo não
predeterminado, e sim levando em conta a variação de
interpretações de textos iguais. No entanto, a diversidade de
significados está situada no pólo da recepção. As mensagens
continuam sendo consideradas como ideologias dominantes
predeterminadas, ainda que recebendo possíveis interpretações
divergentes. Até mesmo entre alguns pesquisadores ligados a uma
visão pluralista, há uma continuidade na consideração de valores
veiculados nos meios de comunicação como definidos por consenso
social. A ênfase na recepção não resolveu ainda, na literatura
especializada, a ausência de problematização na produção de
significados.
O livro aponta
especificidades da indústria televisiva brasileira. A novela é
considerada um repertório compartilhado entre os
segmentos variados de público nos anos 1970 e 1980, fase de
consolidação dessa indústria, sob domínio da Rede Globo
(que suplantou as TVs Tupi e Excelsior). A Rede
Globo, ao combinar uma administração profissionalizada e um
suporte político ao governo, cresceu como beneficiária das
inovações tecnológicas, e muito ligada ao regime, conseguindo o
quase monopólio na audiência, uma característica que em outros
países só foi conseguida por emissoras públicas, com sistema
estatal de comunicação. Nesse período, “o governo investiu em
infra-estrutura, controlou a programação através da censura, da
propaganda e de ‘políticas culturais’ e, apesar da interferência
estatal, a televisão brasileira manteve sua natureza comercial
privada” (:35).
Com isso, a
televisão não deixou de cumprir seu papel de integração
nacional, articulando contradições da pressão governamental com
as chamadas forças de mercado, ou incluindo a competência e
criatividade de profissionais. O resultado disso é o produto
inusitado “novela”, que não deixa de ser o mais comercial e
lucrativo da indústria cultural brasileira, mas que recebe as
tintas nacionais, é uma espécie de vitrine da nossa
contemporaneidade, e pode ser considerado um palco de tipos
ideais de homem, mulher, pai, mãe, filho, filha, e família.
O novo período,
iniciado em 1990 e ainda em andamento, é de redemocratização e
diversificação da estrutura da programação televisiva. Com a TV
a cabo, o vídeo cassete, a tecnologia da transmissão via
satélite, a disseminação das antenas parabólicas, e a internet,
além do ressurgimento da competição de emissoras emergentes –
como SBT, Manchete e Record - entre outras
mudanças, o domínio absoluto da Globo já não é o mesmo.
Essa é uma época em
que a sociedade brasileira passou por transformações
importantes, como o fim do regime militar, a posse do primeiro
presidente civil em 1985 e a Assembléia Constituinte em 1988,
que eliminou a censura. O sistema de concessões de emissoras de
televisão e rádio passou do Executivo ao Legislativo, e isso não
impediu que fossem distribuídas mais de mil concessões de rádio
e televisão, a maior parte delas para políticos. Continuam as
controvérsias, e o poder das forças em jogo se reflete na
dificuldade de legislar sobre uma política adequada em relação
aos meios de comunicação audiovisual.
Todo esse novo
contexto questiona a posição da novela, de constituir um
repertório compartilhado: ela ainda capta e expressa noções
contraditórias sobre o masculino e o feminino, o público e o
privado, política e intimidade, notícia e ficção, mas a
possibilidade de uma representação do nacional, e sua capacidade
de aglutinar a nação brasileira já estão em cheque.
Analisando várias
novelas, a autora vai desvendando sua transformação:
inicialmente um seriado financiado e produzido por companhias de
sabão, voltado para as mulheres, hoje um fenômeno nacional de
comunicação multiclassista, e produto de exportação líder de
audiência.
Elementos da cultura
brasileira marcavam o gênero nas produções dos anos 1970 e 1980,
e eram visíveis, por exemplo, em novelas como Irmãos Coragem
ou Selva de Pedra, que conquistaram a liderança da
audiência de televisão. Os conflitos principais das tramas eram
entre o rural e o urbano, o rico e o pobre, a ascensão social
ligada à migração do campo para cidade ou do nordeste para o
sudeste. A oposição entre o Brasil “tradicional” e o Brasil
“moderno”, e a liberação dos costumes aliada à modernização
constituíam o foco. Essas novelas conseguiram catalisar “significados
díspares e satisfizeram a agenda de uma indústria televisiva
comercial emergente, do regime militar autoritário, e de autores
intelectualizados, sem corresponder ao projeto isolado de
nenhuma dessas forças.” (:100)
Em meados dos anos
1980, com as novelas Vale Tudo e Roque Santeiro,
retomam-se as oposições entre rural e urbano, entre homem e
mulher, ricos e pobres, mas em conflitos traduzidos em termos de
nação. Ambas são produzidas no contexto de redemocratização do
país e fazem referência à corrupção que caracteriza a ordem
social e política brasileira. Faz parte das convenções
apresentadas por Roque Santeiro marcar o avanço rumo a um
país do futuro, mas sugerir também as conseqüências inesperadas
da modernização, com ceticismo. Vale Tudo foi uma novela
que despertou a atenção pública, extrapolou o domínio feminino
das telenovelas e recebeu ampla cobertura jornalística. O debate
sobre quem matou Odete Roitman, a poderosa vilã da novela, tomou
conta do país e expressou a preocupação com a corrupção política
e de classe. Com isso, de modo independente das intenções dos
autores, ela “mobilizou uma experiência emotiva de falência
nacional” (:116), e abriu espaço para a expressão de
sentimentos contraditórios sobre os rumos da nação.
Na última década do
século XX, as mudanças já apontadas culminaram numa disputa
entre emissoras, traduzida em termos de diferentes
interpretações do Brasil, mostrando que a novela foi se tornando
um espaço de problematização da nacionalidade. É desse período a
novela Pantanal, exibida na Rede Manchete, que
opunha ao Brasil do futuro exibido pela Globo em seus
folhetins eletrônicos, um Brasil do passado, exótico, ligado à
natureza exuberante. Essa novela acabou se constituindo num
marco na mudança de convenções que caracterizava o projeto
empresarial vitorioso até então. As novelas seguintes da
Globo já não utilizam o mote nacional: em histórias como
Renascer, o Rei do Gado e Terra Nostra, os
temas privilegiados são a ligação com a terra, relações pais e
filhos, a exaltação aos valores básicos da vida em família.
Outra novidade do
período é a emergência de um papel de intervenção das novelas,
que passaram a ser oferecidas ao público com algo mais do que o
papel recorrente de vitrine de moda, notícia e comportamento:
tentaram colocar-se como prestadoras de serviço. Explode
Coração exibia cartazes com fotos de crianças desaparecidas,
e mobilizou sua busca; O Clone interveio de maneira
ousada no problema das drogas; Mulheres Apaixonadas
incorporou o problema da violência urbana. O Rei do Gado
realizou uma intervenção no âmbito da política, conferindo uma
visibilidade inédita ao MST (Movimento dos Sem-Terra), abordando
o problema da reforma agrária. Com isso, ganhou a primeira
página de vários jornais (algo comum a outras novelas), mas
conquistou também as páginas políticas e os editoriais.
Ao longo do livro, a
antropóloga expõe a maneira como gestos em torno de noções como
antenar, sintonizar, interagir, conectar, são importantes pistas
para compreensão da inserção das novelas na cultura brasileira
contemporânea. Ao final, retomando as principais linhas teóricas
de debate, e citando trabalhos mundiais que analisam, entre
outros fenômenos, o da celebridade e morte da princesa Diana,
traça paralelos entre esse e outros momentos de crise, e a
participação intensa de públicos variados (como foi o caso
citado no início, da morte de Daniela Perez). Com isso, recoloca
a discussão em termos novos.
Para a pesquisadora,
o fascínio da novela pode ser entendido desde uma perspectiva
crítica à lógica interna da mídia, pelo desejo de participação
direta, de performance e interação do público, pela utopia da
comunicação imediata, e também pela problematização da
experiência vivida. Assim, “é a idéia de conexão imediata,
que incorpora o público, rompendo até certo ponto, a relação
estanque entre palco e platéia, autor e obra, exibição e
recepção, sugerindo a comunicação em rede, que formas digitais
permitem realizar mais plenamente.” (:167)
A antropóloga
consegue demonstrar que a busca do significado pode se fazer
numa complexa interação entre texto, produção e recepção,
pluralidade de interpretações e contexto. É um trabalho que,
pela sua densidade e pelos vários ângulos de análise abordados,
traz respostas a muitos dos que se preocupam com a “influência”
das telenovelas sobre a sociedade brasileira, demonstrando que
esta não é unilateral, e que a complexidade de interações em
torno da novela hoje não permite considerá-la apenas um produto
de massa que atinge um grupo anônimo de pessoas frágeis ou sem
poder na sociedade: ela é objeto de interesse de atores centrais
de nossa vida pública.
Pela abrangência e
profundidade do estudo, pelas problematizações que propõe sobre
a análise do significado da televisão nas sociedades
contemporâneas, é um livro de leitura indispensável, tanto para
pesquisadores da cultura e da televisão, como para o público em
geral, que ama ou odeia novela, e quer entender seu fascínio.