Resenha (Edição nº 30)

"O tempo das ruas na São Paulo de fins do Império", por Sonia Duarte Travassos (*)

Dados do livro resenhado:
Título: O tempo das ruas na São Paulo de fins do Império
Autora: Fraya Frehse
Editora: EdUSP
Número de Páginas: 266

Versão revista e ampliada da dissertação de mestrado em antropologia defendida na Universidade de São Paulo por Fraya Frehse, O tempo das ruas na São Paulo de fins do Império encanta de imediato pela beleza da edição da EDUSP.

Partindo de documentos vários, como notícias, crônicas, charges, cartas e editoriais de jornais, assim como das atas da Câmara, dos relatórios dos presidentes de província, de memórias de viagem e de fotos, a autora nos convida a seguir os passos dos transeuntes pelas ruas da São Paulo que se modernizava em fins do Império.

Tal passeio, entretanto, não é senão uma doce quimera. É verdade que a autora nos alerta: “O passeio para o qual convido o leitor é bastante peculiar: é imaginário. Em primeiro lugar porque, se evidentemente nem eu nem o leitor vivenciamos concretamente a São Paulo oitocentista, trata-se aqui de nos juntarmos para que eu o conduza imaginariamente por algumas ruas e becos, ladeiras e largos, várzeas e jardins da cidade, narrando-lhe no caminho o que os transeuntes, também companheiros deste passeio, relatam (...) sobre o seu cotidiano nas ruas de fim do Império. Além disso, o passeio é imaginário porque une na sincronia de um trajeto aleatório (...) a diacronia das atividades sociais cotidianas que, ocorrendo no espaço urbano paulistano, alimentam e dão sentido às representações destes pedestres”.(p.95)

Ao longo do “caminho”, todavia, talvez extasiada com a imagem daquela que pensa ser a São Paulo de outrora, a autora parece por vezes esquecer que os relatos de que dispõe representam apenas uma diminuta parcela, aquela que ficou documentada nos jornais e nos documentos oficiais, das versões sobre a São Paulo que experimentava os primeiros traços da chamada modernidade. Diz a autora: “Não circularemos por toda a cidade, impossível pelas próprias dimensões da área que administrativamente define a capital na segunda metade do século XIX. (...) Dada a extensão da paisagem, cabe restringir o trajeto do passeio a ruas, largos das freguesias centrais da cidade (...).” ( p. 98) Ora, ao contrário de ser um “trajeto aleatório”, como se autora e leitores flanassem pelas ruas paulistanas de fins do século XIX, o percurso está dado de antemão pela documentação disponível. Não se trata da escolha de um trajeto, mas de seguir o caminho que ficou de alguma forma registrado e que não tem nada de aleatório, posto que a possibilidade mesma do registro é socialmente construída.

E não apenas o itinerário está determinado previamente, mas também para onde será possível dirigir o olhar. São, sobretudo, as fotos de Militão Augusto de Azevedo que irão permitir que a autora apresente a São Paulo que se despede das “atividades sociais antigas” e abraça as “atividades sociais modernas”, estas últimas, fruto da urbanização à qual a cidade é submetida.(p. 97)

Buscando enriquecer a imagem que constrói sobre a cidade, a autora, como não podia deixar de ser, por vezes se vê numa encruzilhada diante de diferentes versões dos mesmos fatos. Assim, por exemplo, enquanto nos jornais abundam os relatos sobre a crescente importância da estrada que leva da freguesia do Brás à ponte do Carmo, “uma das portas de entrada da cidade” (p. 98), com o conseqüente aumento da circulação de transeuntes, as fotos de Militão (p. 100 e 101) mostram uma estrada desértica, o que talvez devesse ter feito a autora questionar mais ambas as formas de representação do espaço público. Como ela mesma constata, não se sabe ao certo quais as circunstâncias em foram feitas as fotos de Militão. Até as legendas das fotos são de autoria desconhecida: “As contidas no álbum ‘São Paulo Antigo’ são ainda mais enigmáticas, pelo mistério que envolve a produção da coletânea e pelo fato de serem manuscritas numa caligrafia que não é a de Militão”.(p.115)

Ou seja, em torno da São Paulo que se modernizava e que adquiria novos costumes, os conflitos não se limitavam ao que fazer com os dejetos fecais e domésticos ou a onde tomar banhos e lavar as roupas. Tratava-se também de um conflito em torno de uma representação legítima da cidade que crescia a passos largos. Sem uma clara identificação de quem são os envolvidos nos conflitos retratados nos jornais, fica difícil compreendermos que lugares ocupam, sociologicamente falando, os diferentes atores sociais que estão participando da arena pública. Por exemplo, que tipo de jornais eram o Diario de São Paulo, o Correio Paulistano ou a Provincia de São Paulo? É deste último que a autora retira a queixa de maus tratos, com a qual inicia a Introdução do livro, sofridos por uma “senhora distinctissima” ao viajar no bonde da Companhia Carris de Ferro. Que tipo de empresa era essa? Como ela se relacionava com o poder público?

O passeio proposto por Fraya é tentador e muito bem construído textualmente. O leitor desavisado voltará dele certo de ter caminhado pela São Paulo de fins do Império. Em certo momento, a autora chega a afirmar: “Já estamos bem próximos da colina, da qual nos aproximamos vindos do leste, cruzando o rio Tamaduateí. É precisamente das margens do rio que vêm os gritos que podemos ouvir agora que estamos quase em cima da ponte do Carmo”.(p. 110, grifo meu)

De todo modo, o livro de Fraya nos deixa ver como a tal modernidade era um campo de tensões onde ora se enaltecia o novo, ora se reclamava dos modos estrangeiros que invadiam a cidade. Os bondes, a iluminação a gás, as linhas telefônicas e outras modernizações não se tornaram possível, evidentemente, sem que a população sofresse com as transformações do espaço público. Mas, mais do que agüentar obras, buracos e a troca do mobiliário urbano, os habitantes tinham que aprender novas formas de relacionamento e novas representações do tempo e do espaço. As percepções do aqui e do agora começavam, naquele momento, a se transformar. A velocidade maior das locomoções, a comunicação através de fios, a possibilidade de transitar e enxergar à noite, o alargamento das vias, tudo, enfim, favorecia a transformação das relações sociais.

Não é à toa que parte da população passa a reclamar nos jornais das festas juninas, do entrudo, das quitandeiras, de todas as manifestações de alguma forma associadas ao passado, reclamando costumes “mais de accordo com a civilisação”.(p. 140) Quer dizer, na São Paulo de fins do século XIX convivem, ao mesmo tempo, o passado e o presente, o antigo e o moderno, o distinto público e a população pobre. Os jornais e os jornalistas da época são o veículo das queixas e dos dissabores da parcela mais rica da população, daqueles que querem o progresso e a normalização do espaço público.

Enfim, sobretudo os capítulos finais do livro de Fraya Frehse conseguem fugir da dicotomia antigo/moderno e mostram que o crescimento de uma cidade não se faz senão sob o signo da tensão permanente entre sujeitos que ocupam posições distintas na sociedade. O público e o privado, as diferentes temporalidades sendo construídos no próprio caminhar contraditório da dita civilização.
 


(*) Sonia Duarte Travassos é doutora em Antropologia pelo Museu Nacional-UFRJ e professora da PUC-Rio.


 

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