"O tempo das ruas na
São Paulo de fins do Império",
por Sonia Duarte Travassos (*)
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Dados do livro resenhado:
Título: O tempo das ruas na São Paulo de
fins do Império
Autora: Fraya Frehse
Editora: EdUSP
Número de Páginas: 266
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Versão revista e
ampliada da dissertação de mestrado em antropologia defendida na
Universidade de São Paulo por Fraya Frehse, O tempo das ruas na São
Paulo de fins do Império encanta de imediato pela beleza da edição
da EDUSP.
Partindo de
documentos vários, como notícias, crônicas, charges, cartas e editoriais
de jornais, assim como das atas da Câmara, dos relatórios dos
presidentes de província, de memórias de viagem e de fotos, a autora nos
convida a seguir os passos dos transeuntes pelas ruas da São Paulo que
se modernizava em fins do Império.
Tal passeio,
entretanto, não é senão uma doce quimera. É verdade que a autora nos
alerta: “O passeio para o qual convido o leitor é bastante peculiar: é
imaginário. Em primeiro lugar porque, se evidentemente nem eu nem o
leitor vivenciamos concretamente a São Paulo oitocentista, trata-se aqui
de nos juntarmos para que eu o conduza imaginariamente por algumas ruas
e becos, ladeiras e largos, várzeas e jardins da cidade, narrando-lhe no
caminho o que os transeuntes, também companheiros deste passeio, relatam
(...) sobre o seu cotidiano nas ruas de fim do Império. Além disso, o
passeio é imaginário porque une na sincronia de um trajeto aleatório
(...) a diacronia das atividades sociais cotidianas que, ocorrendo no
espaço urbano paulistano, alimentam e dão sentido às representações
destes pedestres”.(p.95)
Ao longo do
“caminho”, todavia, talvez extasiada com a imagem daquela que pensa ser
a São Paulo de outrora, a autora parece por vezes esquecer que os
relatos de que dispõe representam apenas uma diminuta parcela, aquela
que ficou documentada nos jornais e nos documentos oficiais, das versões
sobre a São Paulo que experimentava os primeiros traços da chamada
modernidade. Diz a autora: “Não circularemos por toda a cidade,
impossível pelas próprias dimensões da área que administrativamente
define a capital na segunda metade do século XIX. (...) Dada a extensão
da paisagem, cabe restringir o trajeto do passeio a ruas, largos das
freguesias centrais da cidade (...).” ( p. 98) Ora, ao contrário de ser
um “trajeto aleatório”, como se autora e leitores flanassem pelas ruas
paulistanas de fins do século XIX, o percurso está dado de antemão pela
documentação disponível. Não se trata da escolha de um trajeto, mas de
seguir o caminho que ficou de alguma forma registrado e que não tem nada
de aleatório, posto que a possibilidade mesma do registro é socialmente
construída.
E não apenas o
itinerário está determinado previamente, mas também para onde será
possível dirigir o olhar. São, sobretudo, as fotos de Militão Augusto de
Azevedo que irão permitir que a autora apresente a São Paulo que se
despede das “atividades sociais antigas” e abraça as “atividades sociais
modernas”, estas últimas, fruto da urbanização à qual a cidade é
submetida.(p. 97)
Buscando
enriquecer a imagem que constrói sobre a cidade, a autora, como não
podia deixar de ser, por vezes se vê numa encruzilhada diante de
diferentes versões dos mesmos fatos. Assim, por exemplo, enquanto nos
jornais abundam os relatos sobre a crescente importância da estrada que
leva da freguesia do Brás à ponte do Carmo, “uma das portas de entrada
da cidade” (p. 98), com o conseqüente aumento da circulação de
transeuntes, as fotos de Militão (p. 100 e 101) mostram uma estrada
desértica, o que talvez devesse ter feito a autora questionar mais ambas
as formas de representação do espaço público. Como ela mesma constata,
não se sabe ao certo quais as circunstâncias em foram feitas as fotos de
Militão. Até as legendas das fotos são de autoria desconhecida: “As
contidas no álbum ‘São Paulo Antigo’ são ainda mais enigmáticas, pelo
mistério que envolve a produção da coletânea e pelo fato de serem
manuscritas numa caligrafia que não é a de Militão”.(p.115)
Ou seja, em
torno da São Paulo que se modernizava e que adquiria novos costumes, os
conflitos não se limitavam ao que fazer com os dejetos fecais e
domésticos ou a onde tomar banhos e lavar as roupas. Tratava-se também
de um conflito em torno de uma representação legítima da cidade que
crescia a passos largos. Sem uma clara identificação de quem são os
envolvidos nos conflitos retratados nos jornais, fica difícil
compreendermos que lugares ocupam, sociologicamente falando, os
diferentes atores sociais que estão participando da arena pública. Por
exemplo, que tipo de jornais eram o Diario de São Paulo, o
Correio Paulistano ou a Provincia de São Paulo? É deste
último que a autora retira a queixa de maus tratos, com a qual inicia a
Introdução do livro, sofridos por uma “senhora distinctissima” ao viajar
no bonde da Companhia Carris de Ferro. Que tipo de empresa era essa?
Como ela se relacionava com o poder público?
O passeio
proposto por Fraya é tentador e muito bem construído textualmente. O
leitor desavisado voltará dele certo de ter caminhado pela São Paulo de
fins do Império. Em certo momento, a autora chega a afirmar: “Já estamos
bem próximos da colina, da qual nos aproximamos vindos do leste,
cruzando o rio Tamaduateí. É precisamente das margens do rio que vêm os
gritos que podemos ouvir agora que estamos quase em cima da ponte
do Carmo”.(p. 110, grifo meu)
De todo modo, o
livro de Fraya nos deixa ver como a tal modernidade era um campo de
tensões onde ora se enaltecia o novo, ora se reclamava dos modos
estrangeiros que invadiam a cidade. Os bondes, a iluminação a gás, as
linhas telefônicas e outras modernizações não se tornaram possível,
evidentemente, sem que a população sofresse com as transformações do
espaço público. Mas, mais do que agüentar obras, buracos e a troca do
mobiliário urbano, os habitantes tinham que aprender novas formas de
relacionamento e novas representações do tempo e do espaço. As
percepções do aqui e do agora começavam, naquele momento, a se
transformar. A velocidade maior das locomoções, a comunicação através de
fios, a possibilidade de transitar e enxergar à noite, o alargamento das
vias, tudo, enfim, favorecia a transformação das relações sociais.
Não é à toa que
parte da população passa a reclamar nos jornais das festas juninas, do
entrudo, das quitandeiras, de todas as manifestações de alguma forma
associadas ao passado, reclamando costumes “mais de accordo com a
civilisação”.(p. 140) Quer dizer, na São Paulo de fins do século XIX
convivem, ao mesmo tempo, o passado e o presente, o antigo e o moderno,
o distinto público e a população pobre. Os jornais e os jornalistas da
época são o veículo das queixas e dos dissabores da parcela mais rica da
população, daqueles que querem o progresso e a normalização do espaço
público.
Enfim, sobretudo
os capítulos finais do livro de Fraya Frehse conseguem fugir da
dicotomia antigo/moderno e mostram que o crescimento de uma cidade não
se faz senão sob o signo da tensão permanente entre sujeitos que ocupam
posições distintas na sociedade. O público e o privado, as diferentes
temporalidades sendo construídos no próprio caminhar contraditório da
dita civilização.
(*)
Sonia Duarte
Travassos é doutora em Antropologia pelo Museu Nacional-UFRJ e
professora da PUC-Rio.