Dados
do livro resenhado:
Título da obra: Em busca da boa
morte - antropologia dos cuidados paliativos
Autora: Rachel Aisengart Menezes
Editora: Fiocruz/ Garamond Universitária
Número de páginas: 226 |
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Os historiadores que se têm dedicado ao estudo da morte e do
processo de morrer detectaram que a partir do final da Idade
Média uma gradativa tendência se pronunciou no Ocidente na
direção de exilar o moribundo e de conservá-lo em território
demarcado por evitação, por silêncio, por medo e por tabus. O
padrão cultural do morrer medieval, que pesquisadores como
Phillipe Áriès[1],
por exemplo, retrataram, envolvia uma pessoa que sentindo a
morte próxima, recolhia-se ao leito e convocava seus parentes,
amigos e vizinhos para a cerimônia de despedida. Convocava seus
próximos para uma cena que era pensada, então, como último
suspiro, momento inicial de um sono longo e tranqüilo, até o dia
do Grande Despertar.
Esta ritualidade não encontra mais lugar
no mundo contemporâneo. A cena de hoje, que cientistas sociais
como Norbert Elias[2]
e Anselm Strauss[3]
descrevem, passou a incluir um paciente relegado a um canto de
hospital. Ele está solitário, sedado, inconsciente, conectado a
aparelhos de um Centro de Tratamento Intensivo (CTI), à espera
de que o monitor de um deles, por uma linha reta sobre a tela,
registre falta de atividade cerebral. E isto significa que lhe
foi decretado o fim da existência.
Do ponto de vista da medicina predominante em nossos tempos,
neste canto de hospital trava-se, entretanto, uma guerra. Nela,
tubos e aparelhos são as armas. E a morte, o inimigo a combater
até o último momento. Essa guerra deve ter lugar mesmo quando
contrária às vontades expressas ou secretas do paciente e de
seus familiares. Entre médicos e morte, trava-se, pois, um
combate obrigatório. Obrigatório, ainda que esgotados os
recursos de enfrentamento. Combate sem trégua, independente de
que o paciente tenha sido classificado pelos próprios médicos
como fora de possibilidades terapêuticas (FTP), como acontece
muitas vezes.
Esta é a paisagem ampla em que se situa o estudo de Rachel
Aisengart Menezes, Em busca da boa morte – antropologia dos
cuidados paliativos. No texto, entende-se por “cuidados
paliativos” um movimento relativamente recente, principalmente
no Brasil, que pretende ser alternativo e contracultural. Um
movimento que tem como inspiração uma certa inconformidade
contra as atitudes com respeito à morte e ao processo de morrer
que estão prevalecendo na teoria e na prática médicas e, por
vias de conseqüência, nos hospitais contemporâneos.
Recusando-se explicitamente à realização de manobras de
ressuscitação de pacientes já considerados “fora de
possibilidades terapêuticas”, a proposta dos profissionais de
Cuidados Paliativos é a de, reconhecendo os limites da medicina,
oferecer assistência ao moribundo e a seus próximos até o
momento final - e, se necessário, mesmo após. Os paliativistas
objetivam, na medida do possível, propiciar a seus clientes uma
“boa morte”, tentando mitigar dores e desconfortos físicos e
psicológicos de todos os que participam dos episódios fúnebres,
incluindo aí o próprio corpo técnico.
O alvo principal, a “boa morte”, é permitir que a pessoa que
está morrendo assuma o controle do processo de morrer, sendo
ativa e participante das decisões concernentes a seu tratamento,
tanto do ponto de vista médico quanto do religioso ou
relacional. A meta é que o óbito aconteça na própria residência
do moribundo, no ambiente que é o seu e o dos seus. Todos os
papéis devem ficar bem nítidos. Os paliativistas valorizam a
comunicação sincera sobre a situação do doente, atribuem papel
central ao diálogo entre os envolvidos e colocam em primeiro
plano os desejos daquele que vai morrer. Aspiram ao “resgate” de
sua morte por parte do doente, o que só pode acontecer se ele
for suportado por amigos e parentes e por uma equipe de diversos
especialistas que o ajudam a se preparar para encarar seus
últimos momentos de frente e de modo consciente.
De acordo com os adeptos dos Cuidados Paliativos, “boa morte”
seria aquela que se alcança morrendo ao jeito de cada um, de
maneira digna. “Dignidade” constitui uma das categorias centrais
do pensamento paliativista e é uma noção fortemente embebida de
reivindicação de autonomia, de singularidade e de produtividade.
Tais noções estão, segundo a autora, vinculadas a uma imagem bem
definida de “civilização”, mais ou menos nos moldes do que é
descrito por Norbert Elias [4]: controle sobre o corpo e sobre as
funções corporais, controle sobre si. Para os paliativistas, os
instantes finais seriam como a culminância da vida, um momento
análogo ao da conclusão de uma obra.
O movimento paliativista pretende se apresentar como
questionador do modelo de morte pós-medieval. Acusa-o
principalmente no que este modelo teria de favorecedor da
hipertrofia do poder médico sobre a vida de seus pacientes. Não
obstante, a autora argutamente adverte que o que pode estar
embutido nos Cuidados Paliativos é bem o contrário disso.
Segundo seu raciocínio, além de estes se terem tornado possíveis
apenas a partir de certos progressos da medicina convencional
(no campo da analgesia, por exemplo), os paliativistas operam
com base em equipes médicas multidisciplinares, no domicílio do
paciente e envolvem também os familiares deste. No entender da
autora, diferente do que sustenta o discurso paliativista, essa
organização configuraria uma espécie de expansão e de
capilarização da racionalidade do poder médico -
incrementando-o, portanto.
A autora registra que o modelo dos Cuidados Paliativos em sua
origem na Europa e nos Estados Unidos correspondeu a um
movimento autêntico da sociedade contra o que chamou de
“encarniçamento” terapêutico. No Brasil, entretanto, o
paliativismo limita-se a ser um movimento de alguns médicos,
psicólogos e assistentes sociais. Além disso, de acordo com a
autora, os Cuidados Paliativos representariam importação de
países cujas populações vivem sob condições sócio-econômicas
muito distintas das brasileiras. E este é um ponto fundamental,
pois, muitas vezes habitando em casas apinhadas, localizadas em
favelas sem esgoto, luz ou água, não necessariamente o paciente
encontrará em seu domicílio um ambiente mais confortável que o
hospitalar. Além disso, do ponto de vista estritamente cultural,
essa importação se defronta com noções de cidadania, de direitos
e de individualidade que são bem diversas das originais. E isto
permite antever dificuldades extremas para a absorção do modelo
paliativista na cultura brasileira.
Trata-se de um texto bastante bem escrito, de leitura fluente
e agradável. Originalmente uma tese de doutorado em Saúde
Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro, em Em busca da boa morte Rachel
Menezes, também médica psiquiatra e psicanalista, demonstra
atualização e intimidade com a bibliografia das ciências sociais
concernente à questão da morte e do morrer; exibe igualmente
perspicácia na observação etnográfica e bom controle dos
instrumentos conceituais pertinentes. A leitura será sem dúvida
proveitosa para estudantes e especialistas tanto das áreas
médicas quanto das de ciências sociais.
[1] Ariès, Phillipe. O homem
diante da morte. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981.
[1] ___________. História da
morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.
[2] Elias, Norbert. A
solidão dos moribundos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
[3] Strauss, Anselm.
Research on chronic illness and its management. San
Francisco School of Nursing, University of California, 1985.
[4] Elias,
Norbert. O processo civilizador I. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 1990.