"A
embalagem do sistema - a publicidade no capitalismo brasileiro",
por Ilana Strozenberg (*)
Dados do livro resenhado:
Título da obra: A embalagem do sistema- a
publicidade no capitalismo brasileiro
Autora: Maria Arminda do Nascimento Arruda
Editora: Edusc
Número de Páginas: 238
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A reedição -
quase 20 anos após a sua primeira publicação, em 1985, e cerca de 27
depois da realização do trabalho - da Dissertação de Mestrado defendida
por Maria Arminda Arruda junto ao Departamento de Ciências Sociais da
Universidade de São Paulo, em 1979, permite aos interessados na análise
do papel da publicidade no contexto da sociedade contemporânea ter
acesso a um dos textos inaugurais desse campo de reflexão no âmbito das
ciências sociais.
De fato, até
meados da década de 80, a publicidade, como os fatos ligadas ao consumo,
de modo geral, eram tratados, por um universo acadêmico fortemente
marcado pela predominância do pensamento marxista, cujo modelo
explicativo está centrado na esfera da produção, como objetos menores ou
secundários, pouco merecedores, em si mesmos, de análise crítica
substantiva e fundamentada em pesquisa. Nesse quadro, A embalagem do
sistema, a publicidade no capitalismo brasileiro, tanto pela
abrangência da pesquisa realizada como pelo esforço de fundamentar cada
passo de sua argumentação teórica nas informações coletadas e oferecidas
ao leitor através de inúmeros quadros, tabelas e gráficos, pode ser
considerado um marco de uma nova atitude intelectual diante do tema. Eis
porque esse resultado de “reflexões estreantes” - na expressão da
própria Maria Arminda – não apenas teve uma repercussão significativa na
época de sua publicação, inspirando debates e novas pesquisas, como
sobreviveu ao seu tempo, permanecendo na bibliografia dos currículos das
faculdades de comunicação e sendo, agora, reeditado a pedidos.
Não há como não
concordar com a autora, no entanto, quando reconhece, no prefácio à
atual edição, que se trata de uma obra eminentemente datada e
contextualizada, cujo “significado talvez resida no espelhamento das
discussões realizadas nas Ciências Sociais da Universidade de São Paulo,
no transcurso do decênio de 1970, num momento de dramáticas tensões
disseminadas na sociedade brasileira” (p.18). É fundamental, portanto,
para compreender a relevância e alcance analítico do livro, explicitar
esse contexto. Do ponto de vista das discussões teóricas, estas estavam
firmemente ancoradas no modelo analítico de tradição marxista em
diálogo, no campo dos estudos de comunicação, com os autores da Escola
de Frankfurt, principalmente Adorno e Horkheimer e seu conceito de
indústria cultural, que orientava o grupo de pesquisadores liderados por
Gabriel Cohn na USP. No que se refere ao momento político e social, a
concomitância de um regime autoritário, que usava da violência como
prática corrente de repressão das liberdades, e a emergência e expansão
do sistema da indústria cultural no país - evidenciados pela importância
crescente dos veículos de comunicação e pela profissionalização das
empresas de propaganda – justificava que a questão das articulações
entre o Estado autoritário e modernizador e as manifestações da cultura
de massa se impusesse como objeto prioritário de reflexão. É, portanto,
como uma entrada estratégica para a análise das peculiaridades da
inserção da sociedade brasileira no sistema capitalista em sua fase
monopolista, que Maria Arminda do Nascimento Arruda vai focar sua
análise da publicidade. Assim, se, por um lado, seu trabalho inova ao
reconhecer a relevância da publicidade como objeto de reflexão
acadêmica, o trabalho permanece totalmente inserido numa orientação
analítica que “privilegia os processos de produção sobre os de
recepção”, “afirma o primado da idéia de indústria sobre o de
comunicação” (p. 27), e considera o valor de troca - gerado na produção
- e não o valor de uso – do âmbito das representações e dos significados
culturais - como determinante nas relações sociais de mercado. Coerente
com uma concepção do sistema social como constituído a partir das
determinações da esfera econômica - das relações de produção - sobre a
esfera político-ideológica - da cultura -, a autora define seu objeto de
estudo como um produto da indústria cultural a serviço da reprodução
capitalista.
A partir da
hipótese central de que a publicidade constitui um componente
fundamental do processo de acumulação capitalista na sua fase
monopolista e a convicção de que a análise do modo como suas empresas se
configuram no Brasil pode levar à compreensão da dinâmica tardia do
capitalismo no país, a argumentação do livro está dividida em três
capítulos.
No primeiro
capítulo, “Monopolismo e publicidade”, a autora desenvolve os seus
principais argumentos teóricos. Através de uma crítica severa dos
argumentos de P. A. Baran e Paul Sweezy, que admitem a possibilidade de
soluções para as contradições do capitalismo através de ações
reguladoras do consumo, ela afirma categoricamente que “no capitalismo,
produz-se para acumular e não para satisfazer necessidades” (p.53) e
que, portanto, a geração de um excedente sempre superior à condição de
ser absorvido, é uma irracionalidade constitutiva e insuperável. Essa
contradição se manifestaria de forma especialmente dramática nos países
de economia capitalista periférica e altamente dependentes do Estado,
como o Brasil, em que, ao contrário das economias centrais, não é
possível encontrar saídas paliativas, como a exportação de capitais
através da dominação imperialista ou o estabelecimento de normas
internas, regulamentando o conflito entre capital e trabalho. Com base
nesse pressuposto, a autora chega à idéia central, que formula nos
seguintes termos: “a publicidade, juntamente com a extensão dos
instrumentos creditícios aos consumidores, contribui para abreviar o
tempo de circulação das mercadorias, acelerar a rotação do capital e
reforçar as necessidades de consumo”. (p.73) O restante do capítulo é
dedicado a demonstrar a pertinência dessa tese através de uma narrativa
da história da publicidade demarcada em três momentos, que
corresponderiam a três etapas do desenvolvimento capitalista. Na
primeira, do capitalismo concorrencial, haveria apenas uma “publicidade
artesanal”, sem nenhuma forma de organização empresarial, cujo papel na
reprodução do sistema seria praticamente nulo. Na segunda etapa, em que
já se formam os monopólios, é quando surgiria a “publicidade agenciária”,
em que a atividade começa a se organizar em empresas - as agências
especializadas – e a publicidade começa a desempenhar uma função
crescente no processo de acumulação capitalista. A terceira etapa,
finalmente, sobre a qual a autora vai concentrar sua atenção, é o do
capitalismo monopolista, em que se configura a “publicidade empresarial”
predominante na atualidade. É nesse momento, em que a atividade atinge
seu grau máximo de sofisticação, tanto em termos da organização de seu
trabalho quanto do ponto de vista das mensagens produzidas, que a
publicidade passaria efetivamente a ser um fator crucial na lógica do
processo de produção e reprodução do capital, cujo papel é estimular o
consumo de modo a reduzir os excedentes que ameaçam o sistema - leia-se,
o sistema produtivo - de estagnação. Na perspectiva dessa análise, a
publicidade tem, declaradamente, uma função manipuladora – fazer com que
a população efetivamente se sinta compelida a consumir. Essa
manipulação, por sua vez, se daria através da fetichização das
mercadorias, produzindo uma dissociação desses bens de seu valor de
troca e situando-os exclusivamente no plano dos valores de uso.
O segundo
capítulo, “A dinâmica tardia”, é uma aplicação da perspectiva analítica
exposta até aqui ao caso brasileiro, relacionando o desenvolvimento da
atividade publicitária no Brasil com a implantação, no país, do sistema
capitalista monopolista retardatário que o caracteriza. Faz, para isso,
uma retrospectiva histórica da publicidade brasileira e de seu processo
de profissionalização muito bem fundamentada do ponto de vista das
informações. A conclusão dessa parte, bastante sombria, é de que a
publicidade no Brasil foi se tornando cada vez mais um instrumento a
serviço da acumulação capitalista até chegar à condição de “mero
apêndice da indústria e do comércio” (p.149). Por outro lado, a autora
considera que o próprio publicitário se torna vítima da ilusão que ele
mesmo produz, acreditando ser um criador quando, de fato, não passaria
de um reprodutor de padrões a serviço de fins muito distantes do
exercício da liberdade e da inspiração.
Finalmente, o
terceiro capítulo, “A hipertrofia retardatária”, traz algumas
informações que situam o mercado brasileiro no final da época de 70
mostrando a inserção do Brasil no mercado publicitário mundial, o modo
como o mercado publicitário brasileiro é compartilhado entre agências,
house agencies e veiculação direta, e descreve as importantes
mudanças ocorridas no contexto dos meios de comunicação enquanto
veículos de propaganda. Um aspecto central desse capítulo é a análise da
importância fundamental da atuação do Estado, naquele período, como
estimulador e criador das condições indispensáveis ao crescimento
econômico. Isso se daria através de vultosos investimentos do setor
público nos setores produtivos e de alianças com o capital
internacional, promovendo uma defasagem crescente entre os níveis de
desenvolvimento econômico e social. Esse processo teria favorecido o
crescimento precoce da indústria publicitária brasileira, que teria no
próprio Estado e nas empresas estatais os seus maiores clientes, bem
como dos veículos de comunicação, através dos quais circulam suas
mensagens. Conforme os dados da pesquisa, entre 1971 e 1976, as taxas de
investimento em publicidade no Brasil aumentam surpreendentemente
chegando a se aproximar daquelas existentes nos países industrializados
e, em 1978, o Brasil ocupava o sétimo lugar no mercado publicitário
mundial. Concomitantemente, se todos os veículos apresentam índices de
crescimento no período, as estatísticas mostram que os meios eletrônicos
irão predominar em relação aos impressos. Neste particular, a autora
destaca o desempenho da TV Globo que, tendo implantado a emissão em rede
nacional no final da década de 70, alcança, em 78, a posição de
“terceira televisão do mundo” (p.222).
Resultado de um
trabalho rigorosamente amarrado às premissas de um modelo teórico cujo
poder explicativo não é posto em questão em nenhum momento, mas, pelo
contrário, cuja eficácia tem como propósito demonstrar – o que seria de
se esperar, dado o contexto social e intelectual em que foi elaborado,e
a etapa ainda iniciante da vida intelectual da autora - a sua conclusão
confirma plenamente as propostas que constituem sua hipótese central: a
publicidade é um instrumento fundamental da reprodução capitalista na
sua fase monopolista cuja função é garantir a circulação do excedente da
produção. Suas mensagens têm como objetivo manipular os indivíduos
fazendo com que se tornem efetivamente consumidores. Com isso, permite
um planejamento do consumo, reduzindo a sua imponderabilidade e os
riscos que representa para a produção. Verdadeira para o sistema
capitalista de um modo geral, essa constatação o é também para o caso
brasileiro, só que com consequências ainda mais graves e perversas,
devido ao caráter tardio de nosso desenvolvimento. Seria esse, portanto,
o nexo entre a modernização econômica, o regime autoritário instalado no
Brasil dos anos 70 e a publicidade: aliada do capital e do poder
político que o promovia, a esta última caberia garantir o bem sucedido
processo de concentração de renda, exclusão social e expansão do consumo
que foram a marca do país na época.
O interesse da
leitura de A embalagem do sistema é tanto maior pelo fato de a
grande maioria dos trabalhos sobre o tema publicados desde então se
situarem numa perspectiva não apenas diversa mas também freqüentemente
oposta. Em primeiro lugar, porque não partem de grandes modelos
explicativos que pretendam uma análise abrangente, mas tratam de
universos mais específicos e delimitados. Em segundo lugar, e aqui
reside a diferença principal, porque partem de outros pressupostos
teóricos, menos próximos da sociologia marxista, com sua ênfase na
determinação do econômico, e mais próximos da abordagem antropológica,
centrada no conceito de cultura e na afirmação do primado do simbólico
nas relações sociais. É curioso observar, como menciona a autora no seu
prefácio à segunda edição, que, no mesmo ano da publicação de seu livro,
1985, era também publicado Magia e capitalismo, do antropólogo
Everardo Rocha (cujo nome consta no livro, por engano, como Everardo
Dias), que, pela novidade do tema, compartilha com o de Maria Arminda do
Nascimento Arruda, o caráter de pioneirismo nesse campo de estudos. Numa
interpretação que conjuga a perspectiva de antropólogos como Marshall
Sahlins, Mary Douglas e Roberto Da Matta, Magia e capitalismo se
situa num linha de pesquisa que hoje é reconhecida como antropologia do
consumo e que, no campo da teoria da comunicação dialoga com a teoria da
recepção e das mediações sociais. Considerando o comportamento econômico
a partir de sua inserção no universo da cultura, a antropologia do
consumo privilegia esse pólo do comportamento econômico, retirando o
foco da produção e, com isso, privilegiando o valor de uso - expressivo
do modo como bens e serviços adquirem significado através do modo como
são apropriados na experiência social - em detrimento do valor de troca
. Por outro lado, nessa perspectiva, o poder de manipulação da indústria
cultural é relativizado na medida em que se considera o receptor das
mensagens não como um ser passivo e indefeso diante do poder de
convencimento do emissor, mas, ao contrário, como um agente que irá
decodificar as mensagens que lhe são dirigidas, sendo capaz de lhes
conferir significados que podem ser coerentes, divergentes e até mesmo
contraditórios com a intenção de quem as produziu.
O re-edição do
livro de Maria Arminda do Nascimento Arruda vem nos trazer a indagação
sobre a possibilidade de se buscar uma forma de diálogo entre essas duas
vertentes de pesquisa, que se desenvolveram em linhas paralelas e
afastadas, através de uma reflexão crítica que reconheça os limites e
alcances de cada uma e possa propor caminhos de investigação que falem
do particular e do simbólico, sem perder de vista sua inserção numa
dinâmica mais abrangente. Afinal, a publicidade é, sem dúvida, um
aspecto crucial da dinâmica cultural de uma sociedade de mercado em que
a indústria cultural ocupa lugar de centralidade. Só uma perspectiva
efetivamente interdisciplinar e multifacetada poderá dar conta da
complexidade de suas articulações nas diversas dimensões da experiência
social contemporânea.
(*)
Ilana Strozenberg
é
doutora em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro e Coordenadora da CIEC - Coordenação Interdisciplinar de Estudos
Culturais - da ECO/UFRJ.