Resenha (Edição nº 27)

"Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande", por Marcio Martins dos Santos (*) 

Dados do livro resenhado:
Título da obra: Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande
Nome do autor: E. E. Evans-Pritchard
Editora: Jorge Zahar Editor, 2004.
Número de páginas: 256


Os antropólogos brasileiros têm contado, desde meados de 2003, com uma série de lançamentos e reedições que lhes facilitam o acesso a diversos “clássicos” da disciplina. São significativas, neste contexto, novas e caprichadas edições de obras como a coletânea Sociologia e Antropologia, de Marcel Mauss e A sociedade contra o estado e A arqueologia da violência, de Pierre Clastres, sem esquecermos da série Mitológicas, de Lévi-Strauss. Também são dignas de nota as primeiras publicações nacionais de textos de Franz Boas, em Antropologia Cultural e Franz Boas: a formação da antropologia americana (1883-1911).

A reedição de Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande, de E. E. Evans-Pritchard, pode ser vislumbrada como parte deste momento favorável à antropologia no mercado editorial brasileiro, sobretudo quando consideramos que este pesquisador britânico é, sem dúvida, um dos grandes responsáveis pela difusão e desenvolvimento da assim chamada antropologia social britânica. Suas contribuições para as discussões acerca da etnografia e da teoria antropológica são, ainda hoje, de fundamental importância para a disciplina, sobretudo quando retomamos o debate sobre o estrutural-funcionalismo e seus desdobramentos. Importa esclarecer, todavia, que a edição brasileira não é uma tradução do original de 1937, mas sim da versão reduzida lançada em 1976. Entretanto, é preciso assinalar que, apesar de apresentado com praticamente metade de seu tamanho original, o livro continua sendo de uma riqueza teórico-metodológica considerável, de tal maneira que o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, que revisou a tradução que ele mesmo havia feito em 1978, chega a dizer que seria “difícil imaginar onde estaria a antropologia hoje sem tais análises, sem as contribuições teóricas desta etnografia” (p. 7).

Nascido em Sussex, Inglaterra, no ano de 1902, Evans-Pritchard iniciou seus estudos em Oxford e obteve seu doutorado na London School of Economics and Political Sciences (LSE). Seu primeiro trabalho de campo se deu justamente entre os Azande, povo da África Central com o qual conviveu em diferentes períodos de 1926 a 1932. Os resultados desta pesquisa foram sua tese de doutorado e a publicação de Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande, bem como inúmeras outras obras lançadas ao longo de toda sua carreira. Posteriormente, entre 1935 e 1936 e no ano de 1938, Evans-Pritchard realizou pesquisa de campo entre os Nuer, outro povo da mesma região africana. Desta nova experiência também resultaram diversas obras, dentre as quais merece destaque especial “Os Nuer: uma descrição do modo de subsistência e das instituições políticas de um povo nilota”.

Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande e Os Nuer, certamente as obras mais conhecidas dentre aquelas que compõem a produção bibliográfica deste autor, representam propósitos e modelos analíticos distintos, apresentando, cada uma ao seu modo, problemas que se tornaram clássicos para a antropologia. Num primeiro momento, sob considerável influência de Malinowski, Evans-Pritchard está preocupado em demonstrar como os Azande possuem um sistema de crenças dotado de uma coerência interna, capaz de explicar a vida humana e fornecer solução para os infortúnios do cotidiano. Mais tarde, sua etnografia sobre os Nuer já explicita as interlocuções que estabeleceu com Meyer Fortes e Radcliffe-Brown, caracterizando-se como a descrição de uma estrutura social que contém em sua própria constituição a tensão entre grupos cuja “oposição segmentar” acaba garantindo a manutenção do sistema como um todo.

Malgrado estas diferenças que refletem diferentes momentos da trajetória intelectual do autor, há algo que chama a atenção nestas duas monografias: trata-se da qualidade e da originalidade de sua escrita etnográfica. Clifford Geertz (2002), ao escrever sobre Evans-Pritchard, afirma que a riqueza de sua obra reside, em boa medida, na clareza de sua narrativa, convincente a ponto de nos fazer acreditar que realmente “esteve lá” e é capaz de contar o que vivenciou com precisão extrema, num tom que pressupõe uma espécie de “contrato narrativo” entre o escritor e seus leitores. Tais leitores seriam identificados como interlocutores, compartilhando de concepções sociais, culturais e literárias que permitiam o estabelecimento de uma espécie de “diálogo” ao longo de toda a argumentação.

Considerando a análise de Geertz, ao longo da leitura de Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande podemos perceber como Evans-Pritchard trabalha arduamente para demonstrar de que maneira as crenças nativas, possivelmente irracionais e desprovidas de sentido para um observador europeu, na verdade possuem uma base lógica solidamente elaborada. Para atingir este objetivo, a explicitação da postura do pesquisador tem uma importância considerável. Por isso, Adam Kuper (1978) destaca o fato de que, antes de qualquer coisa, Evans-Pritchard faz questão de insistir na facilidade com que ele mesmo, um “europeu racional”, foi capaz de incorporar e utilizar tais concepções no cotidiano, durante sua vivência entre os Azande. O relato da noite em que saiu para passear e “viu” a luz característica da bruxaria passar no meio da vegetação, mesmo que carregado de ironia, é bastante significativo (p. 42).

Por outro lado, há também uma necessidade constante em ressaltar o quanto as explicações mágicas não excluem a existência de uma causalidade “física” ou “natural”. O caso do celeiro que desabou sobre os “nativos” que estavam embaixo dele se tornou um exemplo marcante deste tipo de explicação: os Azande sabem que isto ocorreu porque as térmitas roeram a estrutura que sustentava a construção, e que as pessoas estavam lá porque era o período mais quente do dia e o local em questão parecia bastante confortável para conversar e trabalhar. Na visão “ocidental”, nada haveria de comum entre os dois fatos além de sua coincidência “espaço-temporal”. Teríamos sérias dificuldades em explicar como estas duas cadeias de eventos se interceptaram, pois não vislumbramos qualquer interdependência entre elas. Pois é exatamente neste ponto que reside a importância da noção de bruxaria: onde o inglês provavelmente faria uso da categoria de “acaso”, o Zande tem outro recurso explicativo à disposição: “Se não houvesse bruxaria, as pessoas estariam sentadas debaixo do celeiro sem que este lhes caísse em cima, ou ele teria desabado num momento em que as pessoas não tivessem ali debaixo. A bruxaria explica a coincidência desses dois acontecimentos” (p. 53).

A coerência do sistema advém, em grande medida, da aceitação da possibilidade dos agentes místicos causarem infortúnio e, mais do que isto, de que existem maneiras de identificar e intervir sobre aqueles que estão causando o mal. Ou seja: a bruxaria tem causadores concretos, os bruxos, mesmo que eles não necessariamente saibam de seus poderes, uma vez que estes são conseqüência da hereditariedade, em relação a qual não se tem escolha – dependem de um elemento orgânico, com o qual simplesmente se nasce ou não se nasce. Ora, como decorrência disto, temos que, ao mesmo tempo em que explica os infortúnios, a bruxaria oferece os meios para combatê-los. As trocas de acusações e o recurso a mecanismos eficazes de vingança só reforçam a lógica do sistema. Nas palavras de Kuper, as crenças “são constantemente reforçadas pela experiência. Os oráculos confirmam isso. A magia de vingança é realizada. Morre alguém nas vizinhanças e o oráculo confirma que era um bruxo (ou bruxa)” (Kuper, 1978: 99).

As acusações de bruxaria surgem apenas quando há algum tipo de animosidade entre os sujeitos envolvidos. Dependem, portanto, de todo um conjunto de relações sociais previamente estabelecidas. Neste sentido, é importante ressaltar que as diferenças de gênero, idade e posição social são determinantes na definição de quem pode ou não acusar e/ou ser acusado. Segundo o autor, a explicação mais evidente estaria no fato simples de que a bruxaria só pode existir entre pessoas que se relacionam com alguma freqüência e proximidade. Assim, um homem qualquer, por exemplo, dificilmente poderia ser acusado por outras mulheres que não fossem uma de suas esposas, visto que não é esperado que tenha contatos com elas numa freqüência capaz de sequer possibilitar o surgimento de algum tipo de ódio ou ressentimento. Na mesma direção, as crianças, interagindo pouco com adultos fora de seu núcleo familiar, também estão normalmente livres de suspeita – além disso, elas teriam um desenvolvimento ainda incipiente da substância-bruxaria em seus organismos. Por fim, é seguindo esta linha de raciocínio que podemos entender porque os plebeus poderosos raramente são acusados por quem tem menos posses: além de uma distância concretamente verificável no cotidiano, temos aqui relações de poder envolvidas. No caso dos nobres, há ainda outro agravante: acusar um deles é supor que toda a família real é composta por bruxos, algo inconcebível no ideal expresso pelos Azande.

Evans-Pritchard insiste que a bruxaria, tal como é concebida por seus informantes, não apenas oferece uma possibilidade de explicar quaisquer infortúnios que atinjam as pessoas, como também é capaz de fornecer os mecanismos necessários para combatê-los. Ocorre, daí, que os Azande não têm as explicações de ordem mística como algo anormal e inesperado, sendo que, ao se referir à constante presença dos bruxos em seu dia-a-dia, “é a agressividade e não a estranheza sobrenatural dessas ações que os Azande sublinham quando falam delas, e é raiva e não temor o que se observa em sua resposta a elas” (p. 50).

Dentre a ampla gama de eventos cuja ocorrência em determinado momento e local é atribuída à bruxaria, o único que leva os sujeitos a buscarem vingança ou reparação é a morte. As “causas reais” não são desconsideradas, mas “a morte leva à consulta de oráculos, à realização de ritos mágicos, e à vingança” (p. 55).

A consulta aos oráculos, todavia, não ocorre apenas quando se está procurando vingança. A qualquer momento, um homem pode perguntar a um oráculo de sua confiança se há algum “embruxamento” capaz de prejudicar um empreendimento que esteja nos seus planos para o futuro. Isto vale para atividades que vão desde viagens até casamentos. O resultado destas consultas é capaz de impor comportamentos que serão seguidos e atividades que serão realizadas, mas também fornece meios para fugir de alguma coisa que não se queira fazer: para tanto, é muito comum mentir que o oráculo foi consultado e forneceu um prognóstico negativo para tal atividade. Assim, de certa forma Evans-Pritchard contribuiu para desconstruir idéias então vigentes acerca da “racionalidade” dos “nativos”: estes são suficientemente engenhosos para usar a autoridade de um mecanismo socialmente reconhecido em favor de seus interesses pessoais.
Seja como for, nos casos mais graves (doenças capazes de resultar em morte, geralmente) o oráculo de veneno é procurado com a intenção de descobrir os responsáveis pelo infortúnio. Uma série de nomes de pessoas do âmbito de relações do atingido é apresentada, até que se chegue ao acusado (ou acusados). Daí em diante, há uma série de procedimentos normatizados, variantes conforme a consideração que se tem pelo bruxo, mas a intenção final de todos eles é fazer com que tal indivíduo se retrate e pare com sua influência nefasta. Pretende-se, enfim, que tudo volte a uma situação de equilíbrio.

O sistema estaria, desta maneira, fazendo jus a sua coerência interna, tendo como uma de suas conseqüências fundamentais a constatação de que todo infortúnio supõe ação da bruxaria e, por isso mesmo, sempre deve ter um autor. Na interpretação de Evans-Pritchard, trata-se de um conjunto de crenças cuja função primordial é garantir a continuidade do funcionamento adequado da sociedade: “A crença na bruxaria é um valioso corretivo contra impulsos não caridosos, porque uma demonstração de mau humor, mesquinharia ou hostilidade pode acarretar sérias conseqüências. Como os Azande não sabem quem é ou não é bruxo, partem do princípio de que todos os seus vizinhos podem sê-lo, e assim cuidam de não os ofender à toa” (p. 81).

O “idioma místico” é, portanto, a chave que explica praticamente todos os conflitos que surgem entre os Azande, ao mesmo tempo em que apresenta os instrumentos para sua resolução. Conseqüentemente, talvez seja possível dizer que a bruxaria tem como uma de suas principais “funções” atuar como “força conservadora”, lidando com as tensões de forma a garantir a manutenção do equilíbrio na estrutura social.

Evidentemente, como sempre é necessário quando lidamos com um “clássico”, ao ler esta obra de Evans-Pritchard sempre devemos ter em mente o contexto social e intelectual da época em que ela foi produzida, a fim de compreendê-la com maior riqueza e profundidade. Assim, situando Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande num momento peculiar da história da antropologia, onde se rompia com certas concepções sobre a “cientificidade da disciplina” e a “racionalidade dos nativos”, possivelmente teremos condições de enxergar com mais clareza a vitalidade desta etnografia, ainda hoje influência fundamental para uma ampla gama de estudos, que vão desde análises antropológicas sobre religião e micro-política até trabalhos na área de “sociologia do conhecimento”.


Bibliografia sugerida

EVANS-PRITCHARD, Edward E. Os Nuer: Uma descrição do modo de subsistência e das instituições políticas de um povo nilota. São Paulo: Perspectiva, 1978b.

GEERTZ, Clifford. Obras e Vidas: o Antropólogo como autor. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2002.

KUPER, Adam. Antropólogos e Antropologia. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.


(*) Marcio Martins dos Santos é mestre em Antropologia Social pela UFRGS e antropólogo do Ministério Público Federal/ Procuradoria da República do Estado de Tocantins.

 


 

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