"Cenas
da vida pós-moderna - intelectuais, arte e videocultura na Argentina",
por Isabel Travancas (*)
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Dados do livro resenhado:
Título da obra: Cenas da vida pós-moderna -
intelectuais, arte e videocultura na Argentina
Nome da autora: Beatriz Sarlo
Editora: UFRJ
Número de páginas: 196
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Beatriz Sarlo
nasceu em Buenos Aires e é professora de literatura argentina na
Universidade de Buenos Aires, tendo já trabalhado sobre literatura
popular, história da imprensa, cinema, cultura de massas e o papel dos
intelectuais. Já publicou vários livros em seu país. No Brasil, além
deste recém lançado, a Edusp editou "Paisagens imaginárias".
Ela é uma
intelectual de destaque na Argentina que transita em várias áreas da
cultura, trabalhando na vertente dos chamados "estudos culturais", na
mesma sintonia do mexicano Néstor Canclini e do norte-americano George
Yudice. Antenada com o presente e com a pós-modernidade, Sarlo em
Cenas da vida pós-moderna: intelectuais, arte e videocultura na
Argentina apresenta uma série de textos que discutem a transformação
da cidade, os shoppings centers, o lugar do mercado, a juventude atual,
os videogames, além da arte e do papel dos intelectuais neste começo de
século XXI na América Latina.
Mas por que este
livro num site de antropologia, uma vez que a autora não é antropóloga,
nem discute os temas numa perspectiva antropológica? Quais os diálogos
possíveis? Antes de mais nada, Sarlo propõe um debate sobre o papel da
cultura de massa e de consumo nos países latino-americanos mergulhados
na lógica da globalização e funcionando sob forte influência das leis do
mercado. Sua perspectiva de oposição ao neoliberalismo é fruto de uma
análise extremamente complexa e atual. Ela não tem medo de dizer o que
pensa e tem uma profunda sensibilidade para o "modus vivendi"
urbano e pós moderno.
Seu livro é uma
coletânea de artigos, divididos em cinco capítulos intitulados: "Abundância
e pobreza", "O sonho acordado", "Culturas populares,
velhas e novas", "O lugar da arte" e "Intelectuais".
Em cada um deles trata de assuntos distintos sempre a partir da
experiência argentina. Entretanto, suas reflexões servem para um mapa
geográfico bem mais amplo.
No primeiro
capítulo, discute a atual padronização das cidades sem "centro",
distintas dos modelos clássicos europeus, onde o coração da cidade era o
espaço geográfico e simbólico mais importante, local onde se encontravam
os monumentos, a vida comercial, os cinemas, os restaurantes, além de
luzes, cores e ruídos. Hoje isso mudou com a transferência para o
shopping center deste papel de aglutinador de pessoas e serviços dentro
de um ambiente artificial e impregnado pela "estética do mercado".
E para a autora, os shoppings se definem como espaços
desterrritorializados, espaços de não pertencimento. Todos os shopping
centers se parecem e são lugares sem orientação e onde o tempo é
suspenso. Não se distingue dia e noite e geralmente não há relógios à
mostra. Diferentemente do flâneur que se perdia pelas ruas e galerias de
Paris, como chama a atenção Walter Benjamin, o freqüentador dos
shoppings atuais encontra nele uma vertente da cidade que não vê lá
fora: limpa, segura, com serviços e acesso a qualquer hora. Mas para
Sarlo este não deve ser pensado como o espaço público, ao contrário, ele
representa "o espelho de uma crise do espaço público" (p.22).
Ainda neste capítulo, a intelectual reflete sobre a juventude e os
videogames. Sempre lançando um olhar crítico e muitas vezes impiedoso,
Sarlo afirma que "a juventude não é uma idade e sim uma estética da
vida cotidiana" (p. 36). E os videogames são um espaço
predominantemente jovem e masculino. Faz uma descrição sensível das
casas de videogames e das relações que se estabelecem no isolamento
daquele espaço, um misto de discoteca e bar. Os olhares estão voltados
para a tela e dela não se desviam. As máquinas são um conjunto de
"temporalidades diversas" no qual as tecnologias de imagem e som se
misturam em ritmo frenético e onde as performances são valorizadas.
Performances que se definem como boas pela maneira como o jogador lida
com o tempo, ou melhor, dribla o tempo. E aqui se pode apontar para uma
das ausências na análise da pesquisadora. Sua reflexão é fruto de uma
observação sensível, com insights instigantes sobre este
universo. Entretanto, faz falta a voz do "outro", do "jogador" de
videogame, de seu sentimento e pensamento sobre aquela atividade e
aquele espaço. Essa ausência ofusca o brilho de suas percepções tão
ricas.
No capítulo dois
"O sonho acordado" ela ainda aborda a questão da imagem desde o
zapping, a televisão interativa, os programas "ao vivo" até a
dimensão politica presente no veículo. Sarlo não é uma adorniana, mas
sua crítica da televisão é feroz. A idéia de uma televisão de mercado
está na base de sua análise. Televisão que possui uma lógica própria na
qual a repetição (em relação ao comercial) e a velocidade constróem uma
forma de ver o mundo. A autora afirma inclusive que o zapping é
um discurso televisivo que subentende a presença do telespectador, assim
como os programas participativos e os reality shows são a maior
expressão da chamada "nova televisão". Nela também os programas ao vivo
proporcionam aos telespectadores, não a idéia de verossimilhança, mas de
que a vida está ali. E no dia a dia da vida moderna, as piadas, as
frases, os personagens da televisão asseguram a quem os conhece um
pertencimento. Mas Sarlo não se ilude com a idéia de que a partilha de
aparelhos de televisão implica no estabelecimento de novos laços entre
os indivíduos. Para ela, esta imagem da família não tem veracidade, pois
se sabe do enfraquecimento das relações familiares na atualidade. E isso
não é por acaso, porque, a seu ver, a televisão precisa de uma sociedade
com laços fracos para que ocorra a mimese entre televisão e público.
Assim neste contexto uma crítica mais profunda da televisão é banida ou
acusada de, entre outras coisas, ultrapassada. Entretanto, ela ressalta
que só há um jeito de aprender a ver televisão: vendo-a. E não se pode
negar que esse aprendizado é barato, antielitista e nivelador, enfatiza
ela.
É no terceiro
capítulo "Culturas populares, velhas e novas" que Beatriz Sarlo
assume um discurso mais político no qual aponta saídas para a manutenção
e acesso às manifestações culturais populares, onde a economia não tenha
um papel predominante. Sarlo neste artigo dialoga com autores como
Nestor Canclini, Stuart Hall e Jesus Martin-Barbero ao falar em
"hibridização", "mestiçagem" e "reciclagem" como termos-chave para
analisar as culturas urbanas. Para a pesquisadora as chamadas culturas
populares sejam elas camponesas, operárias ou indígenas já não existem
mais. E sabe-se o que se perdeu, mas não o que se ganhou com a hegemonia
dos meios audiovisuais. Vivemos em sociedade onde a escola se debilitou
e a cultura letrada já não hierarquiza as culturas. Há uma
homogeneização cultural e o único empecilho é a desigualdade econômica.
Somos consumidores universais, mas alguns são só "consumidores
imaginários" diz a autora. Para reverter este quadro é necessário que a
escola possa utilizar com eficácia as habilidades que seus alunos
adquiriram em outros espaços, seja através da velocidade dos videogames
ou dos conteúdos oferecidos pela mídia. A pesquisadora não aposta na
busca de uma "pureza" hipotética das culturas populares, que na verdade,
a seu ver, elas nunca tiveram. O que está em jogo é em que condições se
dá a mescla cultural. Por isso, se quisermos criar condições para a
livre manifestação dos diferentes níveis culturais de uma sociedade,
Sarlo sugere uma "receita": "garantia de um acesso democrático aos
armazéns onde estão guardadas as ferramentas; forte escolaridade e
amplas possibilidades de opção de diferentes ofertas audiovisuais que
concorram com a repetida oferta dos meios capitalistas".
A arte e os
valores do mercado são o tema do Quarto capítulo, onde a pesquisadora
debate as idéias de Pierre Bourdieu e de sua sociologia da arte.
Sociologia que colocou por terra a idéia de "desinteresse e
sacerdócio estético". O campo da arte não é sagrado, nem o é o
artista. Este é um "espaço profano de conflito" (p.143). Os
artistas quando falam de arte, também falam de competição, assim como
quando estão preocupados com a forma, não estão desligados do mercado.
Os debates estéticos passaram a ser vistos como lutas por legitimação. E
neste sentido, trabalha-se como se o mercado fosse o espaço ideal do
pluralismo, quando na verdade ele não é neutro.
Beatriz Sarlo
parte da idéia de que "são os intelectuais uma categoria cuja própria
existência é hoje um problema" para fechar seu livro com o capítulo
"Intelectuais". Ela apresenta um retrato da trajetória deste
personagem que fundou seu poder no saber e que acreditou que estava na
vanguarda da sociedade usando autores como Gramsci, Bourdieu e Foucault.
Neste início de século XXI tudo mudou e o papel dos intelectuais também.
Poucos reivindicam suas intervenções atualmente. Não é à toa que a
pesquisadora argentina pergunta: "precisamos mesmo dos intelectuais?"
(p. 171).
Os intelectuais
"profetas" ou "eletrônicos" não estão aptos para enfrentar o presente.
Com seus saberes específicos, seja o dos especialistas fixos em um só
ponto ou o dos midiáticos que não conhecem além do que a mídia produz,
não estão preocupados em defender a idéia de uma cultura humanística
como necessidade. Uma das saídas possíveis é a luta pela permanência do
pensamento crítico. E para Sarlo esse é um "bom combate".
Para Ítalo
Moriconi, que assina o prefácio da edição brasileira, a obra de
intelectual argentina é a "prova concreta de que existe vida
inteligente no planeta da pós esquerda latino-americana". Para o
escritor e professor de literatura, seus trabalhos possuem uma
perspectiva crítica, entendida por ele como a possibilidade de construir
um olhar exterior aos processos em curso. Processos sociais e culturais
impregnados da lógica do mercado e da mídia.
A grande
contribuição deste livro de Beatriz Sarlo é, a meu ver, analisar uma
diversidade de temas profundamente atuais, dialogando com distintas
áreas do conhecimento como sociologia, literatura, ciência política e
antropologia para produzir uma reflexão que pode ser entendida como uma
"crítica da cultura". Sua crítica é fruto de seu olhar apurado e
sensível para as sociedades complexas latino-americanas. Ela parte das
particularidades da cultura argentina mas que não se restringe a esta.
Ao contrário, seu objetivo não é buscar especificidades, mas indicar os
pontos de contato e as semelhanças que unem as sociedades situadas do
lado de baixo do Equador. E que muitas vezes não parecem estar ao lado,
mas de costas umas para as outras sem, infelizmente, estabelecer um
fluxo contínuo de troca de experiências e reflexões.
(*)
Isabel Travancas
é
mestre em Antropologia Social pelo MN-UFRJ, doutora em Literatura
Comparada pela UERJ e pós doutora em Antropologia Social pela MN-UFRJ.