Resenha (Edição nº 26)

"Pierre Fatumbi Verger: um homem livre", por Iara C. P. Rolim (*) 

Dados do livro resenhado:
Nome do Autor: Jean-Pierre Le Bouler
Título da Obra : Pierre Fatumbi Verger: um homem livre
Editora: Fundação Pierre Verger
Número de Páginas: 660


O livro é uma das recém lançadas biografias do fotógrafo e antropólogo[1] francês Pierre Verger, que chegou ao Brasil em 1946 para passar algumas semanas e acabou permanecendo por quase 50 anos instalado em Salvador (Bahia).

Verger tornou-se conhecido dentro e fora do país principalmente por suas pesquisas e fotografias ligadas à reflexão sobre a presença africana no Brasil. Este tema foi abordado pelo pesquisador nas mais variadas dimensões, mas é nítida a sua ênfase na questão da religião e nas recíprocas influências neste campo entre a África e o Brasil. Este é o Verger que conhecemos, que estamos familiarizados e que a biografia recupera em boa parte do livro, mas ela também traz muitas informações interessantes sobre a fase anterior ao Brasil, de um Verger que pouco sabemos.

Lançada pela Fundação que leva o seu nome, instalada em Salvador justamente na casa onde Verger morava até o seu falecimento em 1996, ao que parece, tornou-se por esta situação, a biografia de caráter oficial do fotógrafo.

O autor, Jean-Pierre Le Bouler, sociólogo, pesquisador e “conservador” da Biblioteca Nacional da França, é também o responsável pelo livro de correspondências entre Verger e seu amigo de longa data, o antropólogo Alfred Métraux[2] . A idéia da presente biografia, segundo o autor, nasceu no período de elaboração do livro de correspondências, entre 1990 e 1993, quando este entrou em contato com o livro 50 Anos de Fotografias, no qual o próprio Verger reconta sua história de vida em uma espécie de autobiografia[3] . Apesar da base do livro de Le Bouler ser o de Verger, a biografia avança imensamente em vários aspectos onde ficamos curiosos e sem informações mais detalhadas ao ler o que o fotógrafo elaborou sobre si mesmo.

Pierre Fatumbi Verger: um homem livre
foi lançado em 2002, ano das comemorações do centenário de nascimento de Verger. Didaticamente construído, os 93 anos do fotógrafo são dispostos em ordem cronológica no decorrer de 74 capítulos e o livro traz uma pesquisa exaustiva sobre sua vida onde esta é detalhada no texto com precisão milimétrica de detalhes. Se por um lado, Le Bouler faz um excelente trabalho na coleta de dados e alarga assim o campo de visão sobre Verger complementando informações e trazendo novos fatos, por outro, muitas vezes o faz de maneira cansativa para o leitor.

Sem as análises próprias das ciências sociais que procuram desvendar os vínculos entre a obra, o autor e os processos sociais, culturais e históricos que os cercam, o livro está mais próximo do gênero informativo e reconta a trajetória de Verger pontuando-a através de datas e fatos.

O livro, ainda que com estas características muitas vezes próprias da forma de concepção do que é uma biografia, mesmo para os não especialistas na área de fotografia ou antropologia, já seria interessante porque mostra as escolhas que Verger fez e os caminhos que percorreu em sua vida. Uu seja, é uma história atraente e curiosa. Mas o exame detido do livro, levando em consideração o modo como as ciências sociais abordam o tema “biografia” pode nos levar a análises sociologicamente pertinentes para desvendarmos as tramas complexas que envolvem a relação entre autor, obra e experiência social.

Dentro deste quadro, esta biografia oferece várias possibilidades de pesquisa que nos levam tanto para a direção das relações estabelecidas por Verger e que são pertinentes, por exemplo, para a história da antropologia ou da fotografia quanto para o entendimento de uma rede de relações de certo contexto datado e ainda para a compreensão das escolhas e ações de Verger como atreladas à sua época e não de forma a denotar uma trajetória exclusivamente individual e única.

Pela impossibilidade de explorarmos cada capítulo com maior profundidade neste espaço, faz-se necessária uma periodização da trajetória de Verger, neste caso, em três grandes fases importantes em sua vida. A primeira fase compreende o período até seus 30 anos de idade (1902-1932) onde se dão rupturas fundamentais de sua vida; a segunda, é uma etapa intermediária, repleta de muitas viagens (1932- 1946) e a terceira aborda o período “brasileiro” de Verger. (1946-1996).

O início da vida de Verger é recontado através de sua ligação com a família em Paris e, desta forma, submetido às regras de convivência social que lhe impunha sua educação. Filho caçula de um industrial belga de grande sucesso no ramo da tipografia (ateliês de impressão, edição e cartonagem de artigos destinados à publicidade), Verger foi educado nos moldes de uma família burguesa que freqüentava a alta sociedade parisiense e compartilhava dos códigos de status social de sua posição. Estudava no liceu Janson de Sailly[4] (1909-1917), morava na av. Luis Martin, passava férias em Deauville, andava em carros chiques e se relacionava com pessoas “respeitáveis”.

Quando em 1932 morre sua mãe, Marie Adèle Samuel, Verger era o único sobrevivente de sua família, que após a falência dos negócios de seu pai, lhe deixara uma “bem magra herança”. A partir de então, ele, que temia ofender seus parentes, principalmente sua mãe, ao adotar um estilo de vida diferente do que lhe fora ensinado, começa a ter coragem de assumir novas posturas e de traçar seus próprios caminhos, buscando mudar radicalmente seu modo de vida.

Além de ter perdido sua família em 1932, outro fato ocorrido em 1932 foi de fundamental importância na vida de Verger: a decisão de que só iria viver até os 40 anos (tinha 30 na época). Então se não morresse de causa natural, deveria se matar. Posto desta forma, os anos que lhe restavam deveriam ser bem aproveitados.

A perda das amarras familiares e a idéia de ruptura total através do suicídio tornaram-se elementos fundamentais para a elaboração de uma resposta criativa para a falta de adaptação ao mundo burguês, onde existiam tensões que o moveram para longe do meio em que vivia. É quando Verger começa a fotografar.
A segunda fase começa quando se dá a sua primeira tentativa de se livrar de seu passado decente e burguês. Verger embarcou aos 30 anos, no ano de 1932, para o Taiti a bordo de um navio subvencionado pelo governo francês, para fazer alguns serviços corriqueiros e, principalmente, para servir em suas diversas colônias. Inspira-se na obra de Paul Gauguin, Flaherty (filme Moana), Murnau (filme Tabu) e Marc Chadourne (livro Vasco) para essa viagem.

Um pouco antes da viagem, Verger aprende a fotografar com Pierre Boucher que estava diretamente ligado aos estúdios fotográficos e ateliês gráficos da época como o ateliê Tolmer, o estúdio Deberny & Peignot e o estúdio Zuber.

Foi juntamente com Pierre Boucher e René Zuber, que Emeric Feher, Denise Bellon, Maria Eisner e Verger, em 1934, formaram a agência de fotógrafos Alliance Photo. Depois de algum tempo, também se juntaram ao grupo, fotógrafos como Henri Cartier-Bresson, Philippe Halsman e Robert Capa, entre outros. A divulgação de fotos feita pela Alliance, como as de Capa sobre a Frente Popular e a Guerra da Espanha, começou a chamar a atenção do mundo todo. A agência, que foi a precursora da Magnum, teve um papel fundamental no nascimento de uma nova visão de mundo e Paris se tornou, nesse período, a capital internacional da fotografia.

Em oposição à ordem burguesa na qual foi criado, Verger aproxima-se de grupos “marginais”, que eram os componentes ou simpatizantes do Movimento Surrealista e alguns intelectuais do Museu de Etnografia do Trocadero, e que também tinham relação com o grupo de fotógrafos. Esses grupos envolviam entre outros, os poetas, artistas, fotógrafos, artistas gráficos, músicos e antropólogos, e Verger começa efetivamente a viver de outra maneira.

Verger se aproximou, por exemplo, do grupo “Bande à Prévert” juntamente com Jacques e Pierre Prévert, Marcel Duhamel, Max Morize, Jean-Louis Barrault, Roger Blin, Maurice Baquet, entre ourtos. Eles se reuniam no La Rhumerie Martiniquaise e, depois, no Café de Flore. Verger costumava freqüentar na companhia desses grupos o Bal Nègre da rua Blomet, onde o povo das antilhas dançava biguine e bebia ponche a noite toda. Anos depois estas pessoas formam uma companhia teatral chamada Le Groupe Octobre. Eles ensaiavam na rue des Grands Augustins onde morava Jean-Louis Barrault e que depois se transformou no ateliê de Picasso. As peças teatrais eram feitas para os trabalhadores de fábricas.

Nesta etapa começa sua relação com a sobrevivência através da fotografia e faz sua primeira grande reportagem para o jornal Paris-Soir. Verger e Marc Chadourne (que já trabalhava para o jornal) partem para 180 dias de viagem pelo mundo. Começam pelos Estados Unidos (Nova York, Washington, Charleston, Nova Orleans, Arizona,Texas, Phoenix, Los Angeles, Hollywood - foram ver as filmagens de Chaplin em Tempos Modernos - e São Francisco). Depois partem para o Japão, a China, as Filipinas, Cingapura, Colombo e Djibouti, retornam à França. Cerca de 150 fotos foram utilizadas pelo jornal (mal ampliadas, segundo Verger). Depois dessa aventura, ainda pelo Paris-Soir, Verger ilustra artigos de André Savignon sobre Londres e o jornal inglês Daily Miror (que tenta contratar Verger com exclusividade, mas sem sucesso) também publica algumas de suas fotos.

Na volta desta viagem ao redor do mundo, em agosto de 1934, Verger é então convidado para ser “colaborador benévolo” do Museu do Trocadéro, como encarreg ado de seu laboratório fotográfico. Verger poderia usar o laboratório para suas fotos e quando aparecesse algum trabalho para o Museu ele o faria também.

Enquanto viveu em Paris e trabalhou no Museu do Trocadero, Verger foi testemunha de uma fase muito importante da Antropologia na França, na qual começaram as grandes viagens etnográficas. Nesta época, a África foi um grande alvo das missões francesas em busca de objetos e artefatos. Foi trabalhando no Museu que Verger acompanhou a volta e os resultados das expedições Dakar-Djibouti e à Groenlândia. Conhece então alguns dos pesquisadores do Museu como Marcel Griaule, Germaine Dieterlein, Michel Leiris, Paul-Emile Victor, André Schaefner, Jacques Faublée, Denise Paulme, Gessain Hélène Gordon, Stresser-Péan além de Alfred Métraux. Esse talvez tenha sido o primeiro contato com um trabalho etnográfico e de fotografias “etnográficas”.

Dentro do Museu, alguns personagens são importantes na trajetória de vida de Verger como Michel Leiris, Alfred Métraux e Roger Bastide.

Principalmente com Métraux, Verger estabeleceu uma forte amizade e também fizeram algumas pesquisas juntos nas décadas de 40 e 50. No início da década de 50, por exemplo, auxiliou Métraux na realização de um projeto de pesquisa da UNESCO na Bahia sobre preconceito racial, cuja questão principal era saber como no Brasil se construiu uma “convivência harmoniosa” entre brancos e negros baseada na cordialidade. No projeto participavam antropólogos como Thales de Azevedo, Charles Wagley e Marvin Harris.

A terceira fase começa quando, após uma estadia em alguns países da América do Sul como Argentina, Bolívia e Peru, Verger chega ao Brasil.

Depois de uma passagem por São Paulo e Rio de Janeiro, onde foi convidado para trabalhar como fotógrafo para a revista O Cruzeiro, Verger chegou à Bahia em 5 de agosto de 1946 e lá se estabeleceu desde então. Verger já chegou em Salvador informado sobre a forte influência africana na Bahia em conseqüência de suas conversas com Roger Bastide e por ter lido Jubiabá (na tradução para o francês) de Jorge Amado. Foi na Bahia que conheceu as cerimônias do candomblé nas casas de culto africano e que se sensibilizou pelo papel desempenhado pela religião na afirmação da identidade negro-africana no Brasil.

Em 1948, depois de sua iniciação na candomblé baiano, viaja para a África por intermédio de Théodore Monod, então diretor do Institut Français d’Afrique Noire (IFAN) para estudar os cultos religiosos africanos. Desta viagem resultaram suas primeiras publicações como pesquisador africanista e sua profunda integração na cultura iorubana através da religião tendo até sido rebatizado de Fatumbi (renascido pela graça de Ifá) em função de sua iniciação como babalaô (pai do segredo).

Desde sua iniciação (1952 como diz Verger ou 1953 como afirma le Bouler) até seu falecimento, Verger realizou muitas viagens para a África e França, onde fazia suas pesquisas e trabalhava para instituições, como por exemplo, a Universidade de Ifé na Nigéria (como professor convidado), Museu Nacional da Nigéria e o Centre Nacional de la Recherche Scientifique em Paris (como diretor de pesquisa).

Em 1966, seu trabalho que começou praticamente como autodidata, é reconhecido internacionalmente e a Universidade Sorbonne (França) confere-lhe o título de doutor ao defender uma tese orientada por Paul Mercier e também foi acompanhada por G. Debien e Roger Bastide. Em 1973, Verger começou a pedido do Itamaraty a organizar o Museu Afro-Brasileiro em Salvador e logo após a sua finalização a Universidade Federal da Bahia (UFBa) assume a direção deste. Em 1979, esta Universidade outorga-lhe o título de Professor Adjunto.

Durante muitos anos, Verger promoveu um intenso intercâmbio entre o Brasil e a África, trazendo (e levando) fotografias, objetos e saberes, traduzindo palavras do iorubá, incentivando viagens de intelectuais baianos à África e escrevendo seus livros sobre religião. Com isto, Verger reforçou, e de certa forma, colaborou com a legitimação de toda esta “tradição africana” no Brasil, principalmente em Salvador, participando não só dos cultos religiosos, mas também da construção de uma identidade afro-baiana baseada nesta tradição.
Aos seus 93 anos (idade com que veio a falecer em 11 de fevereiro de 1996), além das funções ligadas à Fundação Pierre Verger, sua principal atividade era a reclassificação dos seus 62 000 negativos fotográficos (número aproximado) fazendo a identificação de pessoas e lugares neles contidos.

No capítulo final do livro, chamado "Último Olhar para Pierre Fatumbi Verger", Le Bouler expõe, na derradeira chance, com a delicadeza de quem revela uma intimidade secreta, um assunto tratado por muitos como um “tabu”, a saber, a homossexualidade do fotógrafo. Esta postura está ligada ao perfil de Verger, sempre muito discreto a este respeito, mas de fato, é uma peça considerável no entendimento de sua trajetória de vida, talvez não como ponto principal, mas como importante.

Para o leitor mais interessado na vida e obra de Pierre Verger, uma proposta conveniente seria confrontar a leitura dos escritos de Le Bouler, com os do próprio Verger e ainda com outra biografia lançada pela editora Corrupio, intitulada Verger, um retrato em Preto e Branco. Estas três construções sobre sua trajetória podem se complementar de forma a embasar uma pesquisa e análise necessárias para o entendimento dos conflitos e rupturas de padrão de sua época.


[1].Verger não se define como antropólogo, mas sim como fotógrafo.
[2]. Alfred Métraux – Pierre Verger. Le pied à l’étrier. Correspondance, 12 mars 1946 – 5 avril 1963, Paris, Jean-Michel Place, 1994.
[3]. Além de 50 anos de fotografias, Salvador, Editora Corrupio, 1982, existem outros livros onde Verger conta sua vida (ou partes dela) como Retratos da Bahia 1946, Salvador, Editora Corrupio, 1980; Le messager – Photographies 1932-1962, Paris, Revue Noire, 1993, onde temos sua trajetória de forma resumida pelos editores.
[4]. Michel Leiris (por volta de 1 ano e 7 meses mais velho que Verger) e René Crevel também estudaram neste Liceu.


(*) Iara C. P. Rolim é mestre em Antropologia pela UNICAMP e doutoranda em Antropologia na USP.


 

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