Resenha (Edição nº 26)

"Negritude sem etnicidade: o local e o global nas relações raciais e na produção cultural negra do Brasil", por Marilu Márcia Campelo (*)

Dados do livro resenhado:
Nome do Autor: Livio Sansone
Título da Obra: Negritude sem etnicidade: o local e o global nas relações raciais e na produção cultural negra do Brasil
Editora: Edufba/ Pallas
Número de páginas: 336

A temática sobre etnicidade é complexa, envolvendo perspectivas teóricas que devem ser levadas em conta de acordo com o contexto cultural do qual está se falando, na medida em que etnicidade reflete tendências de identificação e inclusão de um grupo étnico em uma sociedade. Na sua grande maioria, o fenômeno da etnicidade emerge em contexto de reivindicação por cidadania em sua situação de desigualdade social. Neste sentido, o livro de Livio Sansone acrescenta uma nova perspectiva aos estudos sobre etnicidade, sem cair no exclusivismo da identidade étnica como característica global, a que todas os membros de uma sociedade estão sujeitos.

Somando o resultado de 15 anos de pesquisas no Brasil e em outros países da América Latina e Europa, indaga sobre as formas específicas que as idéias de raça e etnicidade assumem nestes lugares. Compara as concepções brasileiras de raça àquelas desenvolvidas em outros países, avaliando o processo de “globalização” da identidade negra e suas adaptações à realidade cultural de cada país.

O autor chama a atenção para o cuidado que devemos ter com a idéia de globalização pois ao mesmo tempo que esta idéia produz ideologias multiculturais, também produz novas formas de racismo. A globalização pode ser um instrumento a serviço do recrudescimento das identidades a ponto de produzir novos equívocos e formas de desigualdade sutis.

Negritude sem etnicidade é um livro instigante na medida em que traz contribuições à análise das expressões culturais negras no país. Nos últimos 30 anos, o conceito de negritude tomou caminhos políticos e ideológicos no quais nem todos os homens e mulheres negras se reconhecem. Boa parte das pesquisas tentava descobrir ou desvendar o racismo à moda brasileira e a construção de uma identidade hifenizada, que impede que os brasileiros integrem de fato as múltiplas identidades existentes no país.

O caso do Brasil é singular porque demonstra com muita ênfase que a identidade étnica é um constructo social de caráter contingente, que difere de um contexto para o outro. Ou seja, há um particularismo nas relações raciais e na construção da identidade étnica, tanto no Brasil quanto na América Latina. Essa observação levou o autor a argumentar que as relações raciais e a identidade étnica no Brasil devem ser examinadas minuciosamente antes que se sugira que a polarização étnica ocorre em termos globais e de acordo com princípios similares. Negritude é um constructo que varia no espaço e no tempo. No Brasil, particularmente, é uma idéia fixada sobre múltiplas identidades raciais e étnicas e sobre um ideal de brasilidade. Dois elementos são fundamentais nesta construção: a associação do passado com a tradição, e um conjunto de características que associa natureza, poder mágico, linguagem corporal, sexualidade e sensualismo e tem como locus a África (ou melhor dizendo, uma certo imaginário sobre a África).

O livro está dividido em seis partes: uma introdução e mais cinco capítulos que podem ser lidos separadamente ou como discussões complementares. Na introdução, o autor nos brinda com suas reflexões sobre como devem ser pensadas as relações raciais no Brasil e a construção muito específica da identidade negra, como um tipo de identidade étnica. Sansone nos mostra sua mudança de foco, pois se começou investigando as relações raciais na vida cotidiana e a formação de novas culturas negras no Ocidente, para uma investigação mais ampla tenta mostrar como uma dada tradição colonial (centrada na escravidão transatlântica) preparou o terreno para as relações raciais contemporâneas. Esta tradição colonial não só preparou o terreno como as produziu.

No Capítulo um, ele descreve as mudanças na terminologia e nas classificações raciais brasileiras. Tendo como base de pesquisa jovens de classes baixas de Salvador, Livio Sansone traça um retrato da posição sócio-econômica dos afro-brasileiros. Sua pesquisa identificou que a terminologia racial tem se modificado nas últimas décadas, principalmente entre jovens que tendem a usar termos raciais de maneira mais “racional” e precisa. Idade, grau de instrução e renda influenciaram neste caso. Esta racionalidade levou à simplificação da terminologia de cor e à crescente popularidade dos termos “negro” e “preto” no Brasil, ao mesmo tempo, que levou a uma maior aceitação de um termo guarda-chuva: “moreno”.

No Capítulo dois, Livio Sansone avalia os usos e abusos da África no Brasil e o processo de troca simbólica e material entre os países do Atlântico Negro. Nesta construção de idéia de África-ícone, a Bahia representou um papel central. A África que antes era referência para aspectos primitivos da cultura africana, portanto alvo de exorcismos, adquiriu um novo status na cultura popular. O mesmo se deu com o termo afro. Afro, hoje, é sinônimo de um estilo de vida que incorporou elementos da África-ícone (ou de uma cultura africana) na formação da identidade negra e da vida cotidiana. No entanto, esse novo status não é suficiente para reduzir os efeitos do racismo, o qual os jovens baianos vivenciam no seu cotidiano. Esse novo status, visto pelo autor como um toque de modernidade, leva ao consumo ostensivo (mercantilização) das expressões culturais negras. O ‘x' da questão é que o consumo ostensivo das expressões culturais negras funciona em duas direções: de um lado, ao fazer com que as expressões culturais negras pareçam sólidas, ela facilita a sua utilização política; de outro, contudo, uma cultura normatizada não poder abarcar toda e qualquer variedade das culturas negras, o que deixa margens para insatisfação com as representações públicas da cultura. Um bom exemplo é a normatização da cultura afro-baiana como símbolo da cultura negra, que não encontra respaldo em outras expressões culturais negras. Outro resultado que deve ser avaliado é o fato de que esta normatização e mercantilização das expressões culturais negras acaba por levar a uma hierarquia de valores em todo o país.

No Capítulo três é discutida mais aprofundadamente as relações entre baianidade e brasilidade. É o Brasil lido pela Bahia, ou seja, o autor enfoca o desenvolvimento de uma cultura baiana que converge os símbolos negros internacionais para uma cultura negra jovem. Há na perspectiva do autor uma contradição que deve ser analisada: há um fraco sentimento de comunidade negra entre os jovens negros baianos (ao contrário do que foi observado e defendido pelos movimentos negros das décadas de 70 e 80 que trabalhavam numa busca de um sentimento de solidariedade entre todos os negros brasileiros e o sentimento de pertença a uma comunidade), porém, há um reconhecimento por parte destes mesmos jovens de uma cultura negra forte e rica. Esta cultura só se transforma em sentimento de comunidade em momentos ritualísticos tais como Carnaval, Candomblé, Capoeira, Samba e Música em geral. Uma contradição que acaba por reproduzir o modelo criado a partir da tradição colonial, porque apesar da “valorização” da cultura negra na Bahia, homens e mulheres negras ainda sofrem forte preconceito racial. O Brasil lido pela Bahia ainda não conseguiu barrar os germes do racismo à brasileira.

No Capítulo quatro o autor faz um comparação entre jovens do Rio de Janeiro e de Salvador, e a utilização que estes jovens fazem dos símbolos globais, dando-lhes novos significados locais. Ao investigar o mundo dos bailes funk nas duas cidades, Livio Sansone retoma a discussão sobre a falta de vínculos dos jovens negros com a comunidade negra. Duas visões colocam o jovem negro frente à construção da identidade negra: tradição musical e o significado dos termos locais e globais, prevalecendo as reinterpretações locais. Novas formas de produção cultural negra mesclam identidades baseadas na etnicidade com identidades baseadas na diferença entre gerações. E elas se relacionam intimamente com outros fatores fundamentais – estilos e economia da música popular. Por exemplo, o funk no Rio e o funk em Salvador não têm o mesmo significado para os jovens que freqüentam seus bailes. Cada um reinterpreta este fenômeno assumindo características que, longe de homogeneizá-los, dá-lhes mais uma variável na construção da identidade negra.

No Capítulo cinco, tendo como ponto de partida jovens negros oriundos do Suriname que vivem em Amsterdã, Livio Sansone compara a racialização dos negros e a formação de novas culturas e identidades negras. Pesquisando jovens negros de classes baixas em Amsterdã, o foco principal recai sobre o sistema de oportunidades, a estratificação racial no mercado de trabalho, o papel do Estado e a auto-imagem desses jovens. Ele analisa as diferenças e semelhanças no que diz respeito às estratégias de sobrevivência destes jovens nas duas cidades. Sua proposta é fazer um diagnóstico sobre esta situação, apontando como a criação de novas culturas negras produz reinterpretações locais e contextuais. O autor procura identificar o que é ser negro nas duas cidades, indicando diferenças e semelhanças. Em Salvador, a presença da população negra é registrada desde o século XVI, o que marcou os lugares desta população na sociedade baiana e no mercado de trabalho, tendo como critério de classificação racial uma tênue linha de cor entre negros e mulatos. Em Amsterdã, a população negra é uma das minorias chegadas à cidade na segunda metade do século XX. As relações inter-étnicas ainda estão em processo de produção. Do mesmo modo, esta população recém-chegada trouxe consigo suas tradições culturais que imprimem marcas próprias ao ser negro. Há diferenças claras entre as duas cidades no que diz respeito à distribuição, à participação no mercado de trabalho e ao papel do Estado como mantenedor de serviços básicos. Contudo, algumas semelhanças podem ser encontradas quando se observa que na construção da identidade, a cultura negra vem sendo cada vez mais estereotipada através de símbolos associados à sensibilidade e ao corpo negros. E esses são escolhidos, em sua maioria, entre símbolos globais, preferencialmente aqueles associados aos negros norte-americanos.

Livio Sansone encerra sua análise no Capítulo seis, refletindo sobre o lugar do Brasil no Atlântico Negro e a importância dos paradigmas dominantes nos estudos sobre as relações raciais brasileiras. Uma questão norteia estas conclusões: a globalização da negritude enfraquece ou fortalece os resíduos colônias? O autor não responde a esta indagação, pois sua argumentação é mais uma crítica à maneira como certos conceitos são absorvidos e/ou utilizados por pesquisadores, sem levar em conta a especificidade local. Tornar-se afro-brasileiro é um processo longo e complexo. É necessário mais do que uma ascendência africana ou experiência de discriminação para fazer com que as pessoas se tornem negras ou afro-brasileiras. A construção da identidade negra no Brasil é um processo que envolve a interação entre o global e local dentro de um processo histórico e político específico, onde esta identidade étnica é resultado de manipulação e mercantilização. Ela não é estática e sim constantemente construída e reconstruída. Pode haver negritude sem uma comunidade negra (ou seja, sem que os jovens tenham o sentimento de pertença a uma comunidade negra específica) ou uma cultura negra tradicional, até porque as culturas negras se desenvolvem em todas as etapas da modernidade. O lugar dos afro-brasileiros, suas relações com a mestiçagem e as representações das culturas negras devem ser repensadas. Livio Sansone propõe um olhar mais “carinhoso” para o sincretismo e a ambigüidade (componentes importantes na construção das identidades raciais e étnicas brasileiras), como um meio para uma melhor absorção das experiências culturais negras, de fato e não superficialmente. A saída para uma posição anti-racista é, na perspectiva do autor, o país se aceitar como uma nação mestiça, com uma cultura híbrida, que, no entanto, convive com uma imensa injustiça social e histórica. Isto porque, apesar da globalização da identidade negra, há diferenças entre a situação dos afro-brasileiros e a formação de uma cultura e uma identidade negra em outros países. Nas palavras de Livio Sansone, “os negros podem não lutar muito por todas as fatias do bolo, mas com certeza valorizam as que sentem como suas. A exibição da etnicidade negra não é a mesma para todos os momentos/fatias. A etnicidade pode ter um toque de seriedade em certas ocasiões e enfatizar a diversão e alegria em outras. Na verdade, a dimensão lúdica da etnicidade precisa ser muito mais explorada.”


(*) Marilu Márcia Campelo é professora adjunta do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Pará.


 

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