Resenha (Edição nº 25)

"Escrituras da Imagem", por Suzana Barretto Ribeiro (*) 

  Dados do livro resenhado:
Título da obra: Escrituras da Imagem
Organizadora: Sylvia Caiuby Novaes [et al.]
Editora: Editora da Universidade de São Paulo/Fapesp
Número de páginas: 224

As experiências, os mitos e as ficções nas escrituras da imagem

A erudição comodamente dá conta de muitos dos ensaios presentes na coletânea de textos apresentados pelos integrantes do Grupo Laboratório de Imagem e Som em Antropologia (Lisa) da Universidade de São Paulo.

Por mais que a abrangência da proposta editorial, considerada um desafio pelos organizadores, esteja apresentada desde os primeiros parágrafos, tal clareza não facilita a tarefa de resenhar a publicação.

Sob o tema das possibilidades da imagem nas ciências sociais, artigos tratam de questões as mais diversas, do cinema documental ao de ficção, do uso da iconografia sobre o índio no Brasil ao da restrição ao uso da imagem numa comunidade muçulmana, além de quatro ensaios fotográficos com temas e formatos de apresentação distintos, seguidos de ensaios críticos apresentados também nesta mesma lógica. De fato, alinhavar questões presentes não é um compromisso simples, nem para os organizadores, nem para os leitores.

Terreno misto da teoria e da produção, lá se encontra o objeto explicado e o discurso analisador, numa articulação séria e criativa. Para explicar a relação com o objeto, cada autor constrói, reconstrói ou analisa a trajetória, numa relação construtiva estabelecida entre fronteiras da etnografia, da antropologia e da filosofia. A relação com as escritas da imagem é discutida, as contradições e as dúvidas expostas, numa relação onde a análise e a argumentação sustentam o discurso que cada linguagem introduz.

Na organização da publicação aparentemente não existe linearidade. A articulação é dada pela questão – Como é que se constrói uma escrita da imagem? Pergunta que encontra ressonância em todos os autores, mesmo considerando a diversidade dos temas tratados.

Face ao reconhecimento de que o uso da imagem é fundamental nas sociedades ocidentais e que cada vez mais se caracteriza como condição significativa para apreensão dos conceitos que permitem aos sujeitos compreender o mundo e nele agir, alguns dos artigos: O Cinema Documental como representificação, de Paulo Menezes; Jean Rouch: Um Antropólogo-cineasta, de Renato Sztutman; Índio no Brasil: Imaginário em Movimento, de Edgar Teodoro da Cunha, além dos ensaios críticos: Jean Rouch: Subvertendo Fronteiras, de Clarice Ehlers Peixoto; Fogo das Marés, de Vagner Gonçalves da Silva e Jon Jongu-ne, de Etienne Sammain, além do ensaio fotográfico de Maíra Bühler com as artesãs do Vale do Jequitinhonha, procuram especular a respeito da forma sob a qual o discurso visual se instaura, a partir dos espaços de produção da linguagem.

Nesse ponto, é preciso insistir na contribuição da obra de Jean Rouch na formação de profissionais brasileiros, seja na teoria, seja na prática. Sendo assim, não é gratuita a presença de dois artigos tratando de questões pertinentes numa única publicação. Renato Sztutman e Clarice Ehlers são sensíveis ao ponto crucial na obra do cineasta: os limites estabelecidos e a subversão das fronteiras quando se trata da relação entre ciência e arte. Mais do que presentear com uma aula sobre o fazer documentário, a análise critica dos processos de produção de um filme – daquilo que antecede, passando pelo momento da filmagem e da montagem – transcorre deixando indagações não só a respeito da questão cinematográfica, mas principalmente de temas importantes para a antropologia hoje.

Se é certo que o discurso muda de estatuto através do objeto e, conseqüentemente se identifica com questões pertinentes a nova linguagem, sentidos emergem e são construídos também num novo contexto.

Rosane Pires Batista, em seu artigo Denise Está Chamando: O Indivíduo no Mundo Contemporâneo; Andréa Barbosa ao analisar a cidade de São Paulo a partir de sete filmes paulistas dos anos de 1980 e, Rose Satiko, ao tratar da violência no cinema de Michael Hanecke convidam-nos a pensar nas transformações advindas dos processos de simulação interativa, que permitem lidar, reproduzir e manipular o real físico. Dentro dessas novas estruturas o conceito de visualidade contemporânea começa a ser redefinido.

A incidência cada vez maior das realidades tecnológicas sobre aspectos da vida social obriga-nos, cada vez mais, a refletir sobre as dimensões e o reconhecimento da técnica como importantes temas filosóficos e políticos da contemporaneidade. A influência do crescimento das cidades – um novo tempo e um novo espaço – na formação de uma personalidade própria às metrópoles, a incomunicabilidade e a violência como temas recorrentes e as estratégias criadas para lidar com as transformações onde o que está em discussão é a experiência cotidiana fragmentada.

Nos quatro ensaios fotográficos é importante ressaltar que alguns dos trabalhos são de qualidade inquestionável, mas, mesmo ponderando que no universo da criação tudo deve ser considerado, devemos, entretanto, ter claro que numa publicação a questão fundamental não é ter algo a dizer, mesmo que muitas vezes a preocupação com o “conceito”, com o instrumental e a filiação adotada não esteja claramente presente.

No ensaio A aranha vive daquilo que tece, de Maíra Bühler sobre o cotidiano das artesãs do Jequitinhonha percebe-se claramente a influência dos trabalhos de Mead e Bateson, o envolvimento da pesquisadora/fotógrafa com o assunto e o fascínio exercido pela cultura local. Com o olhar atento para registrar a essência e inventariar espaços e tradições com singeleza, permite uma aproximação que contribui para entender a comunidade. A fotografia torna-se instrumento de uma consciência e testemunha do sentimento essencialmente afetivo que compartilha com o grupo.

Corpo em Cena, de Rita Castro difere, de modo geral, dos outros ensaios; com preocupação dividida entre conceito e técnica, a autora/pesquisadora propõe um método de trabalho consistente e elaborado e novamente traz, mesmo que involuntariamente, a relação entre a arte e a técnica. A postura adotada é claramente revelada na percepção da fragilidade da personagem Ofélia e no distanciamento em que os mascarados, clown ou personagens commedia dell´Art são apresentados.

No ensaio fotográfico em que propõe diferentes interpretações, leituras e representações de um mesmo texto dramático, ora apresenta uma composição clássica, ora decide por encenação ousada e instigante (nas duas últimas fotografias, Ofélia parece flutuar sobre o rio), passando com naturalidade, da mais rigorosa construção do gesto ao lirismo do antigesto.

Trama Portuária, de Yara Schreiber e Geometrias Urbanas, de Sylvia Caiuby Novaes, ao contrário dos outros, parecem valorizar a expressão plástica em detrimento do conceito. As Tramas e Geometrias propõem enquadramentos originais e especial atenção nas formas e nos detalhes.

A atuação no espaço do inter-dito, do não revelado, de onde as experiências, os mitos e a ficção se fundem parece caracterizar o ponto de partida para qualquer trabalho preocupado com o uso da imagem. No conhecimento e na intimidade com a linguagem dos meios visuais, pesquisadores das ciências humanas vêem trilhando novos caminhos. O resultado é a apresentação de uma produção questionadora, com abertura para um campo de possibilidades relacionadas às escrituras e às leituras da imagem.


(*) Suzana Barretto Ribeiro é mestre em Multimeios e doutora em História Social pelo Departamento de História da Unicamp. Fotógrafa, pesquisadora da História da fotografia no Brasil e autora das publicações: Imagens e Memórias dos Italianos do Brás e Aparecidas.


 

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