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Resenha (Edição nº 24)
"Espinho:
a desconstrução da racialização negra da escravidão",
por
Elielma Ayres
Machado
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Dados do livro resenhado:
Título da obra: Espinho: a desconstrução da racialização
negra da escravidão
Autora: Miriam Virgínia Ramos Rosa
Editora: Thesaurus
Número de Páginas: 126 |
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O livro de autoria de Miriam Rosa resultou da sua dissertação de
mestrado, escrita em 2000 e apresentada ao Programa de Pós-graduação em
Antropologia Social da Universidade de Brasília. O livro, assim como a
dissertação, tem por finalidade apresentar impressões da autora sobre o
chamado povo do Espinho - Gouveia (MG). As impressões relatadas derivam
do contato travado, em três ocasiões diferentes, entre a autora e os
moradores da “comunidade de Espinho”. Miriam Rosa conheceu o local em
1996 e depois desse primeiro encontro, esteve lá duas outras vezes,
totalizando 61 dias de contato.
O livro se
subdivide em seis partes: uma breve introdução e cinco capítulos. Não há
conclusão. Logo na introdução, a autora adverte ao leitor que quando
esteve pela primeira vez em Gouveia, soube que havia um local que era
conhecido como “lugar onde só tem preto” ou “resto de quilombo”. Mas ela
afirma que a “comunidade” de Espinho não se reconhece como remanescente
de quilombo. No entanto, Miriam Rosa tem opinião diversa. Para ela a
comunidade seria mesmo remanescente de quilombo. Para resolver este
impasse, a autora adotou a seguinte medida: “o objeto [de estudo]
deslocou-se para análise das estratégias da comunidade frente ao
preconceito e das narrativas, contos que recontam sua própria história.
Assim é que este trabalho procura utilizar de forma superficial a idéia
derrideana de desconstrução que neste trabalho diz respeito à
desconstrução da racialização negra, presente no discurso, narrativas
míticas e na vida cotidiana do povo de Espinho” (p. 13 e 14).
Dessa forma, nas
páginas seguintes, a autora procede com a “desconstrução da racialização
negra”. A “desconstrução” tem como base apontar e valorizar os aspectos
que, por vezes, encontram-se dissimulados em muitas narrativas
etnográficas.
Para alcançar
tal intento, Miriam Rosa cita entre as referências bibliográficas,
autores e etnografias considerados clássicos da Antropologia, tais como:
Evans-Pritchard, Edmund Leach, Marcel Mauss, Lévi-Strauss e Clifford
Geertz, ao lado de outros como Homi Bhabha, Stanley Tambiah, James
Clifford, considerados pós-Modernos; além de Jacques Derrida, de quem
toma de empréstimo a noção de desconstrução. O processo de escrita
adotado no livro é uma demonstração da adesão da autora à perspectiva da
escrita etnográfica como um processo “polifônico”. Tanto assim que um
capítulo foi escrito na primeira pessoa do singular, dois outros de
forma impessoal, alternando formas de escrita. Dentro dessa perspectiva
a etnografia é constituída por “muitas vozes”. Assim seria revelada a
percepção da autora acerca das ações e relações simbólicas vivenciadas
por “outros” e também seria possível identificar “o ponto de vista do
nativo”. Este estilo narrativo tem sido utilizado por muitos
antropólogos nos dias atuais e, por vezes, tem possibilitado identificar
outras dimensões da relação sujeito-objeto, principalmente os aspectos
subjetivos inerentes à relação “pesquisador-pesquisado". Esta relação
está presente nos textos antropológicos, de forma indireta desde
Bronislaw Malinowski, no livro “Argonautas do Pacífico Ocidental”, com
as notas sobre os “imponderáveis da pesquisa etnográfica” e, de maneira
direta no “Diário no Sentido Estrito do Termo”.
Ou seja, este tema perpassa grande parte da produção etnográfica há
quase um século e, a considerar a produção etnográfica atual, não há
sinais de esgotamento do assunto. Ao contrário, a ênfase nos aspectos
subjetivos tem dado possibilidade de surgirem outros temas correlatos.
Nesse sentido, cito como exemplo as relações de gênero e “raça”. Quando
mulheres
e antropólogos (as) com diferentes características físicas (não-brancos)
vão a campo, outras relações e temas eclodem em decorrência do contato
com os “nativos”. Em seu livro, Miriam Rosa parece indicar estas
relações, mas há poucos relatos de como suas características
influenciaram a pesquisa. E fica no ar ainda a questão sobre qual
racialização precisa ser desconstruída: a “racialização negra” ou a
“escrava”?
Como descrita no
trabalho, “a categoria remanescente de quilombo foi criada para
“garantir” direitos (fundiários e “culturais”). Dessa forma, o “artigo
68” da Seção dos Atos das Disposições Transitórias da Constituição
Federal de 1988, não apenas reconheceu o direito que as “comunidades
remanescentes de quilombos” têm às terras que ocupam, como criou esta
categoria política e sociológica. “Remanescente” e “quilombo”, são
categorias sociais e, como tal, podem adquirir diferentes significados.
Faltam no
trabalho análises importantes sobre “comunidades remanescentes de
quilombo”, especialmente as obras de Fry & Vogt e Arruti. Para estes
autores, a articulação entre linguagem e identidade étnica é um ponto
central na imbricada relação entre estas comunidades específicas e os
mecanismos adotados por elas frente a outros segmentos e grupos sociais.
A partir da
indicação de Arruti pode-se perceber como nos estudos antropológicos
sobre “comunidades remanescentes de quilombo” torna-se necessário
demonstrar como as categorias sociais são articuladas por indivíduos e
grupos sociais. Com tal procedimento é possível descrever e analisar as
formas de classificação e de autoclassificação de cor/“raça”. Revela-se
assim, a importância de se estabelecer genealogias como método de
investigação sobre os usos das categorias sociais. Ao se recuperar os
“nomes”, também se reconstrói a história dos indivíduos, dos grupos e
das instituições que eles nomeiam.
Na minha
opinião, a categoria “Espinho” presente no título do livro de Miriam
Rosa mereceria uma genealogia, posto que esta categoria é central na
experiência narrada, por nomear a comunidade em foco. O mesmo ocorre com
outras categorias “nativas”, tais como: bichos do mato, tipuca,
além das categorias de cor utilizadas pelos moradores de Espinho. Algo
similar ocorre com a “trucagem”. Ao descrever a “trucagem” como sendo o
“achado” da pesquisa de campo, tal prática adquire ainda mais
importância . Posto que a “trucagem” ou “trucar não é apenas jogar em
momentos de lazer, é também uma linguagem própria, que se utiliza de
gestualidade performática e de uma verbalização exuberante...” (p.43).
Assim, caberia demonstrar detalhadamente como tal prática é feita. A
“trucagem” parece ser algo de fundamental importância na articulação dos
indivíduos como comunidade organizada. Mas como esta categoria é apenas
mencionada, não há como saber quais os seus significados. O mesmo
ocorreu com outras informações e dados relativos à comunidade
pesquisada. Cito como exemplo o fato de que além da parte textual, há
ilustrações entre os capítulos do livro. Trata-se de imagens de pessoas
com aparência – cor da pele – “negra”, as quais suponho que representem
os moradores de Espinho. No entanto, não há como saber, uma vez que não
têm legendas. Este e outros aspectos são indicativos de como a autora
preferiu guardar para si e não desvelar o significado do “Espinho”.
O livro de
Miriam Rosa, não tem conclusão e apenas no último parágrafo aparece a
afirmação de que não pretendeu chegar a uma conclusão definitiva. Dessa
forma, como se trata de uma dissertação de mestrado, fica a expectativa
de um outro trabalho da autora mais elucidativo sobre a comunidade de
Espinho.
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Sobre o
tema ver CLIFFORD, J. A experiência etnográfica: antropologia e
literatura no século XX (org. Gonçalves, J. R.), Rio de Janeiro: Ed.
UFRJ, 1998. e CLIFFORD, J. “Travelling cultures: Spatial pratices:
fieldwork, travel, and the disciplining of anthropology” In---. Routes:
travel and translation is the late twentieth century, Harvard University
Press, 1997 (17-46; 52-91).
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Nesse sentido ver Ruth Landes (1962).
ARRUTI, José
Maurício. (2000). "Direitos Étnicos no Brasil e na Colômbia: Notas
Comparativas sobre Hibridação, Segmentação e Mobilização Política de
Índios e Negros". Horizontes Antropológicos, ano 6, nº 14,
novembro, pp. 93-123.
___(1997). "A Emergência dos Remanescentes: Notas para o Diálogo entre
Indígenas e Quilombolas". Mana — Estudos de Antropologia Social,
nº 3/2, outubro, pp. 7-38.
CLIFFORD, J. A experiência etnográfica: antropologia e literatura no
sáculo XX (org. Gonçalves, J. R.), Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1998.
___. “Travelling cultures: Spatial pratices: fieldwork, travel, and the
disciplining of anthropology” In---. Routes: travel and translation is
the late twentieth century, Harvard University Press, 1997 (17-46;
52-91)
LANDES, Ruth. (1942) Cidade das Mulheres. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira.
MALINOWSKI, B. (1976) Argonautas do Pacífico Ocidental. (Col. Os
Pensadores). São Paulo: Abril.
___. (1997) Um Diário no sentido estrito do termo. Rio de
Janeiro: Record.
VOGT, Carlos & FRY, Peter. (1996). Cafundó - A África no Brasil.
Editora da Unicamp, Campinas.
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Elielma
Ayres Machado
é doutora em
Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências
Sociais da UFRJ e professora de Antropologia Cultural da PUC-Rio e
de Sociologia da Universidade Estácio de Sá.
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