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Resenha (Edição nº 23)
"Sociologia da Sexualidade",
por Alessandra de Andrade Rinaldi (*)
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Dados
do livro resenhado:
Título da obra: Sociologia da Sexualidade
Autor: Michel Bozon
Editora: Fundação Getúlio Vargas
Número de Páginas: 170 |
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O livro Sociologia da
Sexualidade, cuja autoria é de Michel Bozon, traduzido e publicado
pela editora da Fundação Getúlio Vargas em 2004,
faz parte de uma série denominada Família, Geração e Cultura,
coordenada pelas pesquisadoras Clarice Ehlers Peixoto, Maria Luiza
Heilborn e Myriam Lins de Barros. A referida série tem por objetivo
apresentar intercâmbios de experiências de pesquisa e debates
socioantropológicos sobre o aumento de expectativa de vida, sobre as
mudanças nas relações de gênero e nos comportamentos sexuais e possíveis
consequências sobre a família contemporânea. A tradução e publicação
nesta série do trabalho do pesquisador francês Michel Bozon, referenda a
busca por um diálogo entre experiências de pesquisas.
Michel Bozon, antropólogo de
formação, trabalhou no início de sua carreira, segundo Olivier Monso
(2003), com uma perspectiva exclusivamente etnográfica. Em 1983, ao
entrar no L' Institut Urbain Démographiques (INED), se engajou em
uma vertente mais sociológica, realizando levantamentos quantitativos
sobre conjugalidade, família e juventude. Ao início da década de 1990 se
debruçou sobre o tema da sexualidade. Coordenou pesquisas sobre
comportamentos sexuais e mudanças sociais; discutiu sexualidade e vida
reprodutiva na era da aids; realizou na França, estudos sobre relações
entre homens e mulheres e, para além das fronteiras francesas,
estabeleceu comparações de comportamentos sexuais entre países europeus
e pesquisas sobre sexualidade no Chile e no Brasil, onde estabeleceu
parceria com Programa em Gênero e Sexualidade do Instituto de
Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. No
curso de sua trajetória intelectual, este pesquisador optou por uma
abordagem interdisciplinar. Incorporou discussões antropológicas sobre
sexualidade e gênero, perspectivas sociológicas sobre a família e
análises demográficas sobre as relações entre homens e mulheres, que
claramente se refletem em seu livro a Sociologia da Sexualidade.
Este livro tem por objetivo
demonstrar que a sexualidade humana não é produto da natureza e sim da
sociedade. Como construção social é aprendida por meio da cultura, capaz
de coordenar a atividade mental e corporal dos indivíduos. A atividade
sexual, apesar de ser uma esfera específica na vida humana, não existe
isoladamente. Ao contrário é dependente de uma teia de significados
sociais dentro das quais está inscrita. Sendo assim, não pode ser
compreendida como pulsão ou como produto de um inconsciente a-histórico.
Como resultado dessa forma de compreender a conduta sexual, Michel Bozon
afirma, de forma polêmica, não existir uma sociologia da sexualidade.
Com tal ponderação não pretende negar a possibilidade de investigar as
práticas sexuais humanas do ponto de vista sociológico, mas enfatizar
que estas não devam ser estudadas como se possuíssem um significado em
si. De acordo com a ótica deste antropólogo, tanto os atos quanto os
saberes sexuais inexistem enquanto esferas autônomas. Portanto, para
entendê-los é preciso investigar o universo sóciocultural que as
configurou. Para Bozon, "é o não-sexual que confere significado ao
sexual, nunca o inverso" (BOZON, 2004, p.14), por esse motivo, pesquisar
a sexualidade é estabelecer relações múltiplas entre fenômenos sexuais
com outros processos sociais, a fim de compreender os mecanismos da
construção social da sexualidade.
A fim de discutir de forma
não-naturalizante os comportamentos sexuais ocidentais contemporâneos, o
autor propõe uma "exploração" do terreno de três formas distintas.
Primeiro, compreendendo o processo histórico por meio do qual a esfera
da sexualidade se autonomizou, discutindo a ordem tradicional, sua
vinculação entre sexo e procriação e o seu enfraquecimento; abordando
também a emergência de uma subjetividade e de um "sujeito moderno",
produto de um processo civilizatório estruturado a partir do
recalque das emoções, do aumento da reserva e distância entre os corpos
e do aparecimento de uma esfera íntima; e por fim do surgimento de uma
"vontade de saber", um desejo científico de interpretar os corpos,
inventando o termo "sexualidade" e tornando-o objeto de investigação.
Posteriormente analisa contextos e relações sociais nas quais se
inscrevem as condutas sexuais atualmente, por meio de suas pesquisas
comparativas, aborda a relação com os ciclos de vida, com as
reformulações das relações entre homens e mulheres, com a diferenciação
de comportamentos sexuais em função do pertencimento de classes, das
migrações e dos contatos interculturais. Por fim, trata da construção
social do desejo e do prazer por meio da sociologia das representações
culturais da sexualidade.
Uma das questões que levou o
autor a fazer esse percurso foi procurar entender as mudanças na
sociedade ocidental que afetaram os padrões de normatividade
contemporânea das condutas sexuais, sobretudo depois dos anos de
1960. A questão foi discutir o significado da chamada "revolução
sexual", desconstruindo a idéia de que, após os anos de 1960 tenha
havido uma "liberação" das normas de condutas sexuais. Contrário a essa
idéia, o autor defende que as normas mudaram, mas não deixaram de
existir. Os anos de 1960 e 1970 não foram, então, um marco de
relaxamento ou de permissão de expressão de pulsões sexuais reprimidas,
mas um momento de "substituição de controles e disciplinas externos aos
indivíduos, por meio de controles e disciplinas internos, que
aprofundaram as exigências sociais" (BOZON, 2004, p.152). Dito de outra
forma, mais do que uma "revolução sexual", o que ocorreu foi um processo
de individualização de comportamentos e das normas, concomitante
às transformações da sociedade, da família, por meio da separação entre
procriação e sexualidade. Segundo Bozon (2004, p. 152):
O recuo do controle dos pais
entrega a regulação da sexualidade juvenil aos pares, que não são menos
vigilantes, ainda que de outra forma. De agora em diante, inúmeras
injunções contraditórias se apresentam aos atores: conciliar a exigência
de reciprocidade com a de realização individual; manifestar
simultaneamente espontaneidade e autocontrole; comprovar flexibilidade e
coerência em todas as situações.
Além dessa abordagem, Bozon
deteve-se também na análise sociológica dos processos de interação
sexual, sua relação com os ciclos de vida dos indivíduos, com as
distinções de classes, de gêneros e de culturas. Ao avaliar os referidos
processos, pontuou serem as condutas sexuais que dele decorrem,
dependentes das determinações culturais. Sendo assim, contatos
face-a-face, quadros, repertórios e significados atribuídos pelos
indivíduos aos atos sexuais seriam resultantes de valores instituídos
previamente às interações sexuais. Apesar de considerar que mudanças
efêmeras na sociedade podem atuar sobre os processos de interação
sexual, Bozon pondera que estas não são capazes de alterar bases
estruturantes de relações tais como as de gêneros, de classe ou de idade
e suas determinações sobre as diferentes modalidades de condutas
sexuais.
Assim o autor discute que,
apesar de terem existido, após os anos 1960, transformações sociais que
afetaram a situação da mulher na sociedade e na família, estas não foram
capazes de disseminar normas de igualdade entre os gêneros no plano da
determinação das condutas sexuais. Segundo ele, as relações entre homens
e mulheres permaneceram distintas e hierarquizadas, continuando as
experiências sexuais a serem vividas e apreciadas de formas desiguais de
acordo com os gêneros.
Não só o processo de
normatização e interação interessou a Bozon, mas também as
representações sociais da sexualidade. A seu ver, as representações
desempenham um importante papel na construção social da sexualidade. O
antropólogo chega a fazer uma afirmativa polêmica de que "se não
existissem rituais e representações da sexualidade, nem histórias que a
encenassem, não haveria a atividade sexual humana nem relações sexuais"
(BOZON, 2004, p. 113). Segundo sua perspectiva, para que os seres
humanos executem atos sexuais, não basta que aprendam os procedimentos,
faz-se necessário elaborar e atribuir sentido ao que consideram sexual.
Importante para esse percurso são os veículos de circulação dos bens
culturais, tais como a literatura e o cinema, capazes de contribuir, por
meio de relatos ou cenários (espécies de guias de orientação,)
para a definição e redefinição dos significados da sexualidade. Esses
guias de orientação ou scripts,
presentes não somente na literatura ou no cinema, mas também na vida dos
indivíduos, permitem a estes significar atos, sensações , palavras,
estados corporais como sendo sexuais. Os scripts fazem com que um
indivíduo identifique, interprete e estabilize os componentes sexuais da
vida. Por esse motivo têm uma função estruturante para o imaginário
social, para as relações interpessoais e para os indivíduos. Seu
principal efeito é "inscrever a sexualidade numa dramaturgia" (BOZON,
2004, p.132).
Outros dois guias de
orientação estruturantes da sexualidade são as histórias de
referência e as orientações íntimas. As primeiras, fruto de
uma experiência compartilhada entre os pares, são relatos que formam as
bases de uma normatividade sexual nova. São elas fundamentadas não sobre
princípios absolutos, mas sobre valores coerentes com os scripts
(as histórias), aos quais os indivíduos se referem. As segundas,
constituem quadros mentais, que delimitam o exercício da sexualidade.
Não designam ideais psicológicos; antes, dizem respeito às
representações e normas culturais que definem formas de uso e expressão
da sexualidade. Determinam modos de interação entre parceiros e,
sobretudo, modos de conhecimento e construção de si mesmo, por meio da
demarcação do que sejam disfunções ou valores possíveis atribuídos à
sexualidade.
Para Bozon, em uma
sociedade individualizada como a ocidental, desejos e relações
sexuais se estabelecem por meio de improvisações mentais pessoais e
interpessoais, dependentes entretanto dos cenários culturais.
Condutas sexuais são construídas a partir de interpretações de
experiências vividas por indivíduos, em função de representações sociais
e também por meio de discursos médicos e psicológicos. Saberes estes
capazes de intervir por meio da produção de novas normatividades de
condutas sexuais. Na visão deste antropólogo as atitudes em relação à
sexualidade e os cenários culturais que as fundamentam são
produto de uma história social de longa duração, capaz de criar um
inconsciente social da sexualidade que se transforma lentamente.
-
Originalmente
pulicado em 2002 pela editora francesa Nathan.
- A
sexualidade é, para Bozon uma espécie de encenação determinada por
scripts sexuais, termo que utiliza em referência aos sociólogos
americanos John Gagnon e Willian Simon. Segundo Bozon (2004, p. 130):
"Foi em Sexual Conduct: the social sources of human sexuality,
publicada em 1973, que Gagnon e Simon apresentaram a primeira versão de
sua sociologia da sexualidade, fundamentada em uma teoria de scripts
sexuais [...]. Para esses dois autores, é impensável identificar um
estado natural da sexualidade humana. Todas as nossas experiências
sexuais são construídas como scripts, ou seja, foram ao mesmo
tempo aprendidas, codificadas e inscritas na consciência, estruturada e
elaboradas como relatos".
BOZON, Michel. Sociologia da
Sexualidade. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2004.
MONSO, Olivier. Sociabilité
et distance sociale, de M. Bozon. Melissa: mettre em ligne les sciences
sociales aujourd' hui. 20 jun. 2003. Disponível em:
http://www.melissa.ens-cachan.fr/article.php3?id_article=273. Acesso
em: 20 nov 2004.
REVOLUÇÃO sexual da boca pra
fora. Jornal Extra Classe. Rio Grande do Sul, n 8, out. 2004. Caderno
Comportamento. Disponível em: http://www.sinpro-rs.org.br/extraclasse/out04/
comportamento_imp.htm.
Acesso em: 20 nov. 2004.
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