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Resenha (Edição nº 23)
"Franz
Boas: a formação da antropologia Americana, (1883-1911)",
por Celso Castro
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Dados do livro resenhado:
Título da obra: Franz Boas: a formação da
antropologia Americana, (1883-1911)
Organizador: George Stocking
Editora: Contraponto/UFRJ
Número de páginas: 423 |
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Em 2004 começou-se a saldar uma dívida enorme, no Brasil, para com a
obra de Franz Boas (1858-1942). Por razões difíceis de compreender, até
esse ano nenhum livro de Boas havia sido publicado no país. Não estavam
disponíveis nem mesmo artigos publicados em coletâneas, e os cursos
universitários utilizavam algumas poucas traduções amadoras de textos,
ou sequer incluíam a leitura de algum original de Boas, optando por
manuais e comentadores. Essa situação agravava-se nos cursos de
graduação, nos quais em geral é difícil utilizar textos em inglês. Em
português, tínhamos apenas uma edição portuguesa de Arte primitiva
(Lisboa, Fenda, 1996. 355p.), já esgotada e, creio, muito pouco
conhecida no Brasil.
É desnecessário
ressaltar a importância fundamental de Boas na história da Antropologia
moderna, da qual foi um dos "pais fundadores". O impacto de sua vasta
obra foi e ainda é enorme, quer diretamente, quer através de seus muitos
alunos e admiradores. Além disso, várias idéias centrais de Boas
penetraram no território de outras disciplinas e firmaram-se também no
senso comum. No caso do Brasil, é conhecida a influência que teve, entre
outros exemplos, na obra de Gilberto Freyre, que teve contato com Boas
durante seus estudos nos Estados Unidos. No prefácio de Casa-Grande &
Senzala (1933), Freyre diz que as idéias de Boas ajudaram-no a
pensar de forma diferente sobre um dos grandes problemas nacionais, na
perspectiva de sua geração - a questão da mestiçagem - e declara que ele
foi "a figura de mestre de que me ficou até hoje maior impressão."
É com um atraso,
portanto, de 71 anos após essas palavras que a obra de Franz Boas
começou a ser publicada no Brasil, através de duas coletâneas. A
primeira, Antropologia cultural, que organizei para a editora
Jorge Zahar, inclui cinco textos de Boas, além de uma introdução sobre
sua vida e obra. Em seguida, veio a coletânea feita por Stocking.
Deve-se também destacar a publicação de Nascimento da Antropologia
Cultural: a obra de Franz Boas, de Margarida Maria Moura,
originalmente apresentado como tese de livre-docência da autora na USP
(São Paulo, Hucitec, 2004. 399p.).
Muito conhecido
por sua extensa obra como historiador da Antropologia, George Stocking,
Jr. é um grande conhecedor do trabalho de Boas. Neste livro, sua
intenção principal parece ser apresentar a gênese das principais noções
boasianas em vários campos da Antropologia e em algumas de suas
intervenções públicas. O título das seções do livro dão a dimensão dessa
amplitude: "As premissas da antropologia de Boas"; "Pontos de vista
antropológicos básicos"; "Uma amostra do trabalho de campo de Boas"; "O
folclore e a crítica ao evolucionismo"; "O estudo analítico da língua";
"A crítica ao formalismo na antropologia física"; "Capacidade racial e
determinismo cultural"; "Panoramas antropológicos"; "A difusão da
antropologia" e "Antropologia e sociedade." Através de pequenas
introduções a cada seção, Stocking guia o leitor com maestria pelo
contexto de produção e pelos principais temas dos textos selecionados.
É importante, no
entanto, entender as opções feitas por Stocking em sua coletânea. O
recorte cronológico vai desde 1883, época em que surgem os primeiros
escritos de Boas em inglês, até 1911, ano em que publicou alguns de seus
principais trabalhos: o Handbook of American Indian Languages, o
relatório para o Congresso americano sobre "Changes in the Bodily Form
of Descendentants of Immigrants" e seu livro The Mind of Primitive
Man. É importante o leitor ter em mente, portanto, que a coletânea
não cobre as três últimas décadas da produção de Boas, quando seu
pensamento atingiu a maturidade e tornou-se mais amplamente conhecido.
Nesse sentido, o livro organizado por Stocking pode ser visto, como o
próprio autor afirma, como um suplemento à principal coletânea de
artigos e outros textos curtos de Boas, que ele próprio selecionou pouco
antes de sua morte e reuniu sob o título de Race, Language and Culture
(1938). Neste livro, Boas escolheu aqueles textos que considerava mais
representativos da fase madura de sua produção. É interessante observar
que, dos 62 artigos que Boas selecionou, quase dois terços foram
publicados após 1911, data-limite estipulada por Stocking para sua
coletânea.
Outro critério
usado por Stocking foi não incluir textos que já tivessem tido
reimpressões recentes. Segundo esse critério, tudo o que entrou em
Race, Language e Culture ficou fora da coletânea de Stocking, mesmo
textos fundamentais para a compreensão da gênese da obra boasiana, como
o muito famoso "As limitações do método comparativo da Antropologia", de
1896, com sua crítica contundente ao método evolucionista.
Apesar da
importância do livro, deve-se registrar ainda três outras
características da edição. Stocking selecionou 48 textos (incluindo
vária cartas de Boas) dentre um conjunto de cerca de 400 itens
publicados por Boas até 1911 e mais de 60 mil itens de seu arquivo
pessoal, sob a guarda da American Philosophical Society. Também não
entraram seus escritos em alemão dessa fase. Finalmente, a coletânea,
embora ampla em eixos temáticos, não incluiu escritos do jovem Boas
sobre Arqueologia e muito pouco sobre arte primitiva, um de seus maiores
interesses acadêmicos.
A observação
dessas várias seleções operadas por Stocking não deve, de forma alguma,
ser lida como uma crítica ao seu livro. Meu objetivo é marcar que se
trata de um trabalho de interesse maior para os já iniciados na obra de
Boas. Não por coincidência, o texto introdutório que Stocking incluiu na
coletânea não apresenta uma visão abrangente de sua trajetória de vida,
tecendo considerações muito interessantes, mas que pressupõem um
conhecimento prévio ao menos dos marcos biográficos principais e de
alguns textos fundamentais de Boas.
Para o leitor
que não possui familiaridade com a obra de Boas, principalmente
estudantes de graduação ou pessoas de outras disciplinas, sugiro
primeiro a leitura da coletânea Antropologia Cultural (Jorge
Zahar, 2004). Muito menor em tamanho, esta coletânea possui o objetivo
justamente de proporcionar uma introdução à obra de Boas, através da
seleção de alguns de seus principais textos metodológicos, publicados
entre 1920 e 1931 (à exceção do já mencionado "As limitações do método
comparativo da Antropologia", de 1896). O livro organizado por Stocking,
por sua vez, será um ótimo caminho para se aprofundar na gênese de uma
das obras centrais da Antropologia moderna, em várias de suas dimensões.
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Celso Castro
é doutor em Antropologia pelo Museu Nacional/UFRJ e pesquisador do
Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do
Brasil(CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas.
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