Resenha (Edição nº 21)

"Tecnologias do corpo: uma antropologia das medicinas no Brasil", por Naara Luna (*) 

Dados do livro resenhado:
Título da obra: Tecnologias do corpo: uma antropologia das medicinas no Brasil
Organizadora: Annette Leibing
Editora: Nau
Número de Páginas: 302

Essa coletânea reúne textos de pesquisadores que analisam aspectos da saúde no contexto brasileiro, sendo alguns dos pesquisadores vinculados a instituições no exterior. Concebida inicialmente por Annette Leibing e Kenneth de Camargo Jr., um dos autores aqui representados, coube à primeira ser sua organizadora. Leibing introduz o livro perguntando-se sobre a especificidade dessa produção brasileira, apontando alguns traços característicos como “a recusa de chamar a disciplina antropologia médica, a forte influência de autores europeus e um projeto de definir o nacional dentro da disciplina e dos tópicos abordados” (p. 7). Na orelha do livro, Sérgio Carrara faz uma pergunta semelhante: “uma antropologia médica da saúde brasileira ou uma reflexão antropológica sobre esses temas desenvolvida no Brasil?” O livro traz uma diversidade de objetos e temas de pesquisa, assim como de lugares onde o campo foi realizado, com várias procedências no Brasil. Embora estejam mais representadas as pesquisas em meio urbano, alguns artigos abordam o meio rural ou comunidades indígenas. No tocante à localidade, esta pode ser um ponto central na construção do objeto de investigação, como é o caso de Goiânia ou da favela da Mangueira, ou ser um dado de menor relevo. Somente um dos artigos é de caráter exclusivamente teórico, os demais integram teoria antropológica com observação etnográfica e entrevistas. O livro se divide em três blocos: o primeiro concentra os artigos que analisam questões referentes à saúde mental, o segundo aborda a relação entre saberes e conhecimento, enquanto o último agrupa textos que tomam como ponto de partida um contexto ou uma situação específicos.

A seção que debate a saúde mental abre com o artigo “Ciência, Tecnologia e Saúde Mental” de João Biehl. O autor investiga como avanços científicos e tecnológicos informam políticas de saúde e adquirem vida social. Sua pesquisa é realizada em um centro de aconselhamento e testagem anônima (CTA) para o HIV em Salvador. Seu material etnográfico revela como os sujeitos da testagem, indivíduos saudáveis e inseridos no mercado de trabalho, absorvem e reificam a administração técnica da saúde e uma identidade baseada na biologia. Administração e identidade estas que são inerentes a esse saber e a essa tecnologia. Novos mecanismos de autogoverno são construídos a partir dessas técnicas de produção de verdade, de modo que uma “tecnoneurose” é engendrada no espaço tecnocientífico-governamental do CTA. Os indivíduos testados são treinados via sessões de aconselhamento a administrar seus instintos, tendo no exame de HIV o meio de verificar essa “autobioadministração”. Os sujeitos, ao mesmo tempo em que são treinados para evitar atos considerados de risco por meio de um novo saber de si, também reinventam sua subjetividade. A experiência da AIDS imaginária no CTA permite a consolidação de um ethos biocientífico de governamentalidade.

O texto seguinte, “Entre o corpo e a mente: a noção de indivíduo na assistência de um hospital psiquiátrico universitário” é de autoria coletiva: Jane Russo, Ana Teresa A. Venâncio, Silvana Araújo T. Ferreira e Martha Henning. O artigo faz um histórico do desenvolvimento da psiquiatria, descrevendo a alternância de focos ora no aspecto físico da doença mental, ora no aspecto moral ou psicológico. Tal discussão que reproduz o dualismo de corpo e mente característico da cosmologia ocidental moderna tem sido deixada de lado com o predomínio de correntes de orientação biológica na psiquiatria. A biologização na definição dos transtornos mentais corresponde a um monismo fisicalista radical, em substituição ao dualismo. A mudança nos sistemas internacionais de classificação de doenças seria evidência dessa virada. A objetividade empírica dos sinais e sintomas na definição das doenças corresponderia então à objetividade empírica do substrato físico: “a objetividade do diagnóstico psiquiátrico é igual à objetividade do substrato fisiológico e orgânico” (p. 42). Em observação etnográfica de duas equipes de atendimento com orientações diferentes na mesma instituição universitária, uma alinhada com a psiquiatria biológica e outra com a psiquiatria de influência psicanalítica, constatou-se na primeira equipe que as questões relacionadas à esfera psico-social são excluídas do raciocínio clínico-diagnóstico bem como das terapias possíveis, restritas à medicação. Tal postura é coerente com a redução dos processos psicológicos aos processos do cérebro físico, afastando do campo das ciências da moral a psiquiatria englobada pela medicina.

Cristina Redko escreve o artigo “Vivendo a primeira experiência da psicose através da religião”. De modo semelhante ao artigo anterior, que enfatizava a importância da esfera cultural/moral, alertando acerca da negligência quanto à esfera psico-social na psiquiatria biológica, a abordagem de Redko mostra como significados construídos em relação a um meio sociocultural podem afetar o desenvolvimento da psicose. A noção de experiência é a chave analítica usada por Redko para relacionar tais significados e a vivência da doença. A autora conclui que os referentes religiosos podem servir para nomear e descrever a experiência psicótica. Tais idiomas são empregados como um ponto de apoio para lidar com a psicose ou para encontrar uma saída, podendo, no entanto, exacerbar os sintomas. Os idiomas religiosos também se relacionam a uma busca de sentido. Considerando a importância da religião na sociedade e cultura no Brasil, destaca-se o valor desta contribuição por incluir nos estudos de saúde a análise da dimensão religiosa na experiência de psicose, indo além do aspecto de cura espiritual.

Enquanto o segundo e o terceiro artigos do bloco sobre saúde mental discutem doenças mentais em si; seja pela experiência religiosa do doente, seja a partir da classificação médica; o último texto retoma de certa forma um aspecto do primeiro sobre a construção da subjetividade a partir da autobioadministração de tecnologia médica. O foco do artigo “Atração fatal: trabalho escravo e o uso de psicotrópicos por povos indígenas de São Paulo” de Mariana K. Leal Ferreira é a prática de automedicação de grupos indígenas do oeste de São Paulo que vivem em situação de trabalho escravo. Na descrição vívida da condição de miséria e exploração a que são submetidos esses índios - trabalhadores bóias-frias em usinas de açúcar no oeste paulista -, constata-se a falta de um atendimento de saúde integrado a essa população, associada ironicamente à relativa facilidade de obtenção de medicamentos em consultas nos postos de saúde. Isso resulta no uso acumulado e repetido de medicamentos como anti-hipertensivos, anti-inflamatórios e analgésicos para as dores nas costas decorrentes do trabalho, e uma diversidade de psicotrópicos para os “nervos”. Embora a autora aborde o uso de psicotrópicos como forma de controle social, considero o aspecto mais interessante de seu artigo a interpretação e classificação dos medicamentos pelos índios entrevistados. Assim, eles dão prioridade aos medicamentos em lugar de outros recursos para recuperar a saúde. O uso de tais drogas torna-se de “modo perverso” (sic) uma escolha desses indígenas que assim retomariam sua disposição guerreira e de força durante o trabalho. Embora a autora não tenha feito uma abordagem em termos da construção de subjetividades, seria possível marcar aí a relação com o artigo de Biehl: a construção biomédica de subjetividades seja pela testagem do HIV e autodisciplina, seja pela automedicação dos indígenas que querem voltar a ter vigor.

O segundo bloco com enfoque nas relações entre saber, conhecimento e saúde começa com o artigo “Sobre palheiros, agulhas, doutores e o conhecimento médico: a epistemologia intuitiva dos clínicos”. Neste, o autor Kenneth R. de Camargo Jr. investiga os critérios usados por professores de clínica médica para selecionar e absorver o conhecimento relevante. Constatou-se a busca de informação significativa orientada a resultados, dados estes obtidos em fontes com credibilidade acadêmica. Tal informação é ainda submetida aos critérios práticos baseados na experiência desses médicos com casos individuais, assim como à sua postura cética. Identificou-se a receptividade às informações apresentadas pelas indústrias de produtos médicos, pois, a despeito da postura cética, faltariam tempo e conhecimento específico para avaliar o material recebido.

Se o texto de Camargo analisa a construção do saber do ponto de vista dos médicos, o artigo “ ‘Nem tudo na vida tem explicação’: explorações sobre causas de doenças e seus significados” de Carlos Caroso, Núbia Rodrigues e Naomar Almeida-Filho, aborda as concepções e explicações de transtornos mentais de informantes leigos. Os autores retomam o debate na Antropologia sobre causas e explicação da doença, usando três modelos de pessoa: o ideal, o afetado pela doença e o modelo posterior à experiência do sofrimento e da cura. Inspirados no trabalho de Evans-Pritchard, os autores consideram que a interpretação das causas da doença e do sofrimento está imbricada na vida social, com parte dos discursos oriunda da experiência social dos envolvidos, assim enfatizam mais a experiência do que a realidade objetiva da doença. No tocante ao contexto sociocultural, os autores consideram três categorias de causas do sofrimento: fenômenos naturais, fenômenos sobrenaturais e vida social da pessoa, não se constatando reação linear entre o tipo de causa atribuída e a terapia procurada. A perturbação e a doença são vistas freqüentemente como sofrimento, uma experiência a ser compreendida com relação ao contexto das relações sociais do sofredor/doente.

A categoria da experiência é central para o desenvolvimento de vários artigos dessa coletânea – Redko fala da experiência religiosa e, no texto imediatamente anterior, os autores enfocam categorias nativas relacionadas à interpretação da experiência de sofrimento. Considerando a articulação entre experiência e corpo que tem orientado muitos estudos na antropologia da saúde, no artigo “Corpo, experiência e cultura”, Miriam Cristina Rabelo e Paulo César Alves pretendem examinar essa articulação em termos conceituais e metodológicos, refletindo sobre as noções de natureza e cultura. O sujeito é definido como consciência encarnada, o que permite enfocar os modos de envolvimento em situações que engajam o corpo, em vez de privilegiar as atividades cognitivas. Oriundo da reflexão na fenomenologia, o debate sobre o corpo na teoria social diz respeito a um descentramento do sujeito, definido como interioridade autocontida que se relaciona com o mundo por meio de representações, para a ênfase na sociabilidade como fundamento dos processos de subjetivação. O corpo é o ponto central de um domínio em que natureza e cultura interagem dinamicamente. Criticando os estudos influenciados pela ótica biomédica e trabalhos centrados na abordagem da representação, os autores propõem o conceito de experiência da doença. Assim seria possível compreender a experiência subjetiva da aflição enraizada no mundo da cultura, como também incluir os processos sociais pelos quais as pessoas definem experiências de aflição.

No último bloco, os temas de pesquisa surgem da análise de alguns contextos e situações. Em “Desastre como processo: saberes, vulnerabilidade e sofrimento social no caso de Goiânia”, Telma Camargo da Silva analisa o desastre radiológico ocorrido em Goiânia no ano de 1987 e seus desdobramentos atuais, incluindo no campo da Antropologia da Saúde e da Doença as situações originadas de desastres fabricados em “sociedades industriais pós-modernas”. A coleta e ruptura de um aparelho de radioterapia contendo césio 137 provocou transtornos na ordem cultural, política e econômica, revelando também a vulnerabilidade de grupos sociais diante do uso de tecnologia nuclear. Silva analisa o sofrimento social originado do embate entre a experiência dos sobreviventes do desastre, o conhecimento científico produzido pelos especialistas nucleares convocados na ocasião e o uso desse conhecimento pelo poder institucional a fim de definir a categoria de “vítima”. A noção de “rádio-acidentado” foi definida na fase emergencial do desastre tendo como base a dosimetria aferida pelos especialistas ligados às instituições nucleares. Tal classificação foi adotada pelos poderes institucionais a fim de definir a quem caberia o atendimento de saúde e a concessão de indenizações. O questionamento a essa primeira definição de “sofrimento matemático”, que enfatiza a materialidade da radiação nos corpos detectada por equipamentos, é levantado pelas associações de vítimas do desastre, que incluem outras categorias de vítimas que sofreram contato indireto, como os policiais encarregados da proteção das áreas afetadas. O poder institucional situa o desastre no passado, restringindo o número de atingidos aos primeiros casos. Enfatizando que a doença ocorre na vida do indivíduo, e não apenas em seu corpo, tendo localização espacial, temporal e histórica, Silva conclui que “o sofrimento social e a noção de vítima de desastre expõem a vulnerabilidade dos grupos que não conseguem impor a sua experiência de dor perante o conhecimento biomédico” (p. 221). Em decorrência disso, tais grupos não podem assegurar o respaldo legal e jurídico para seu atendimento.

Em “Saber e itinerários de cuidados na Amazônia brasileira: o doméstico na encruzilhada do espaço terapêutico”, Francine Saillant relaciona o plano macro do sistema de atendimento público de saúde ao plano micro dos cuidados domésticos. A autora contrasta o universalismo de princípio do sistema de saúde pública às formas locais de resposta à doença, enfocando, no quadro do espaço terapêutico brasileiro, o espaço doméstico e as relações de gênero na “Amazônia dos caboclos”. Desta forma o conhecimento implícito de cuidados por parte das mulheres é um recurso com que a sociedade e o sistema de saúde podem contar em caso de doença, permitindo o acesso igualitário de fato. O habitus de cuidados é um saber naturalizado que assume a forma de dever das mulheres que cumprem obrigações às quais o sistema de saúde pública não consegue responder. Esse habitus se transpõe do doméstico para a comunidade por meio de ONGs, associações de mulheres e de diversos grupos e práticas religiosas. Isso porque os saberes referentes aos cuidados domésticos, além de expressão de identidade feminina, são essenciais por sua função pragmática, são naturalizados em sua função simbólica ao ligar metaforicamente mulher-natureza-Amazônia, e estão sujeitos à reafirmação através da reinvenção da tradição.

A relação entre saúde e segurança alimentar dos indígenas brasileiros é o tema do artigo “Contato iminente, saúde desamparada: conseqüências e reflexões sobre o contato interétnico com os índios Guajá do Maranhão” de Louis C. Forline. O autor afirma que, na raiz da mudança do quadro alimentar indígena, estão a expansão da fronteira nacional e o contato interétnico, incorrendo na usurpação de terras e degradação ambiental. Com o avanço da fronteira do Estado moderno, as comunidades indígenas são subordinadas a um outro regime de relações com o meio natural e social, de modo que a caça e a coleta deixam de ser os meios principais de obtenção de alimento em uma vida nômade. O estímulo da FUNAI à agricultura itinerante com roças de arroz e mandioca, por um lado, ampliou a variedade de alimentos entre os Guajá, que eram caçadores e coletores. Mas por outro, à medida que os produtos agrícolas tornaram-se a principal fonte de calorias na dieta, com o aldeamento estimulado pela FUNAI, há queda no consumo total de calorias em contraste com os grupos que experimentaram o contato há menos tempo. O autor aponta a conseqüência irônica do contato: após uma fase inicial de relações paternalistas, em que se criam laços de dependência para com o Estado por meio da FUNAI, a instituição passa a não considerar mais os Guajá como índios isolados e estes perdem o apoio em diversas áreas como a saúde e são estimulados à vida autônoma.

Annette Leibing e Daniel Groisman abordam as narrativas de mulheres hipertensas, acima de 60 anos, moradoras da favela da Mangueira no artigo “Tão alto quanto o morro – identidades localizadas de mulheres hipertensas na favela da Mangueira”. Acompanhando um grupo de hipertensos do posto de saúde, constatou-se que o discurso das mulheres sobre hipertensão abordava também sua experiência de moradoras e seus papéis sociais, tratando-se de corporalidades situadas. A hipertensão estaria ligada à identidade localizada, considerando a realidade de marginalização, a violência desestruturante e a crescente individualização ocorrida na comunidade. Enquanto os médicos enfatizam a importância da medicação e da dieta no tratamento, o estresse é identificado pelas entrevistadas como o principal desencadeador do aumento de pressão arterial. Salienta-se que a medida da pressão arterial quantificaria o estado emocional da pessoa. Enquanto fator estressante, a violência do morro estaria expressa na pressão arterial dos idosos. Os autores afirmam que “espacializar” narrativas permite enriquecer a análise que pretende considerar o corpo contextualizado. Nesses termos, eles retomam o tema do corpo e da experiência, o mais freqüente nos artigos dessa coletânea.

Não há um tema central no livro, porém se destaca a maior freqüência de análises que incluem questões sobre o corpo - sendo este socialmente situado ou localizado; sobre a experiência; o sofrimento e a construção da subjetividade e da identidade. Talvez seja um sinal da recepção da temática do embodiment (incorporação) através de diversos autores. Considerando a variedade de abordagens apresentadas, parece que se está diante de dois tipos de corpo: o corpo objetivo, material, biológico, e o corpo sede da subjetividade e da experiência, ambos estando submetidos à doença. O corpo biológico está presente na preocupação epistemológica dos professores de clínica médica, na psiquiatria que biologiza a doença mental, na aferição por dosimetria da condição de rádio-acidentado, na ênfase sobre as condições objetivas de saúde presente nos dois artigos sobre os povos indígenas. O corpo, sede da subjetividade, que experimenta o sofrimento, através do qual a cultura é vivida e incorporada, é o meio de se avaliar a violência na favela pela correspondência com o grau de hipertensão, é o meio de criação de uma subjetividade livre do risco da AIDS, ou é a sede da identidade de rádio-acidentado, o lugar da atenção do habitus de cuidados domésticos. A preocupação em contextualizar o corpo social e historicamente, bem como a situação de doença e sofrimento, além de suas diversas representações, faz dessa coletânea, de grande diversidade, uma contribuição significativa para a Antropologia no Brasil.


(*) Naara Luna é doutora em Antropologia Social pelo Museu Nacional - UFRJ, onde é assistente de pesquisa, e professora no Seminário Teológico Batista do Sul.

 

 

 

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