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Resenha (Edição nº 21)
"O cru e o cozido - Mitológicas 1", por Mariza Furquim
Werneck (*)
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Dados
do livro resenhado:
Título da obra: O cru e o cozido - Mitológicas 1
Nome do autor: Claude Lévi-Strauss
Editora: Cosac & Naify
Número de Páginas: 448 |
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Mitológicas
são um conjunto de quatro volumes que reúne a monumental análise
estrutural de mitos ameríndios realizada por Claude Lévi-Strauss, ao
longo de vinte anos. Durante esse período, Lévi-Strauss declara ter
vivido como um monge, levantando-se ao raiar do dia, “embriagado de
mitos”, sentindo-se verdadeiramente em um outro mundo.
Os mitos
passavam por sua cabeça, quase que à sua revelia, fazendo-o mergulhar em
uma experiência estética extraordinária. Muitas vezes, sem compreender,
convivia com determinado mito durante semanas ou meses até que, de forma
misteriosa, o detalhe até então inexplicável de outro mito se reconhecia
no primeiro, e as duas histórias se iluminavam, plenas de sentido.
A descrição
desse método de trabalho, que pode ser aproximado das práticas da arte
surrealista, e dos procedimentos inerentes à psicanálise freudiana, em
nada exclui a precisão e o rigor científicos. Como se sabe, embora
reconheça nas colagens de Max Ernst – seu companheiro de exílio em Nova
Iorque durante a Segunda Guerra – e nas idéias de Freud uma inspiração
permanente, foi na linguística de Roman Jakobson que Lévi-Strauss
reconheceu o modelo de cientificidade mais adequado para pensar o mito.
O que resultou
de tudo isso foi um dos maiores repertórios de mitos da
contemporaneidade. Foram analisados nada menos do que 813 mitos e alguns
milhares de variantes. Esse material constituía apenas uma pequena parte
da pesquisa acumulada em suas fichas que, por sua grandeza, poderia
gerar outras tantas Mitológicas.
O primeiro
volume, O cru e o cozido, saiu na França em 1964. Seguiram-se
Do mel às cinzas (1967), Origens das maneiras à mesa (1968) e
O homem nu (1973).
A primeira
edição brasileira de O cru e o cozido (1991) surgiu 27 anos
depois da edição original, num extraordinário esforço de tradução de
Beatriz Perrone-Moisés, professora do Departamento de Antropologia da
USP. Por motivos editoriais, no entanto, a tradução da série foi
interrompida, privando o público brasileiro dos volumes seguintes das
Mitológicas.
Felizmente o
projeto foi retomado, sob os mesmos cuidados de Beatriz Perrone-Moisés,
que nos brinda agora com uma edição minuciosamente revista de O cru e
o cozido, além da promessa de que, desta vez, o trabalho
prosseguirá.
Para se avaliar
a importância e o impacto causado pela análise estrutural dos mitos,
basta ouvir o helenista Marcel Detienne, para quem falar em ciência do
mito hoje em dia implica em fazer um caminho que vai dos gregos até
Lévi-Strauss, mas, também inversamente, de Lévi-Strauss até os gregos.
A realização de
uma empresa intelectual do vulto das Mitológicas significa, sem
qualquer exagero, a descrição de uma gênese do pensamento. Isto porque,
construindo sua obra sobre vasto campo epistemológico, Lévi-Strauss não
buscou apenas compreender o mito, mas pôs-se a pensar como ele.
Tentou, dessa forma, superar um dos maiores impasses enfrentados pelos
mitólogos, pensadores do logos: pensar o mito exige, em primeiro
lugar, que se saia dele.
Para atingir seu
objetivo, criou um método rigoroso, por meio do qual tentou apreender as
propriedades dos mitos — ou de fragmentos deles — não como categorias
fixas, mas como resultado de um sistema de relações. Diferentemente das
obras clássicas do gênero, os mitos são agrupados para revelar não o seu
sentido, mas suas propriedades; postos em evidência para demonstrar ora
uma lógica das qualidades sensíveis, ora uma lógica das formas.
Através de
múltiplos procedimentos metodológicos, ora mimetizando as ciências
(ancora-se na linguística, na botânica, na zoologia e na matemática,
entre outras), ora as artes (registra dívidas importantes com a música,
a literatura e as artes plásticas), Lévi-Strauss pretende fazer emergir
as leis secretas que regem a manifestação do espírito humano e romper
com a permanente dicotomia entre saber arcaico e moderno, entre
pensamento mágico e científico, entre arte e ciência.
A organização
dos capítulos também não segue a disposição tradicional. Elegendo a
música como modelo de análise, posto que ela sempre estabeleceu uma via
intermediária entre o exercício do pensamento lógico e a percepção
estética, Lévi-Strauss adota, na exposição, a forma de uma peça musical.
Os mitos tornam-se então ora uma Sinfonia breve, ora uma Fuga
dos cinco sentidos, ora um Concerto de pássaros.
Lévi-Strauss
inova também no que diz respeito à narração do mito propriamente dita, e
à construção de sua cosmogonia. Com efeito, a ciência tradicional do
mito costuma iniciar seus relatos a partir da narração de um
princípio organizador, identificado no início dos tempos,
ou seja, no próprio momento da eclosão do Universo: ultrapassado o caos
primordial, anterior a toda criação, inaugura-se o cosmos. Esse
princípio organizador pode ser assimilado a um sopro, a uma palavra,
a um demiurgo.
Aos mitos de
origem — que fazem parte do patrimônio simbólico de todos os povos —
sucedem-se os que narram a aquisição das técnicas, da comida, da
fabricação de artefatos, até desembocarem nos mitos escatológicos, que
narram o final dos tempos.
À instauração da
ordem seguem-se necessariamente períodos de desordem, que são inerentes
a ela. Depois desses, em eterno retorno, anuncia-se o advento de uma
nova era.
Dessa forma,
guiadas pelo mesmo princípio ordenador presente nas cosmogonias, as
narrativas míticas configuram-se como um corpus homogêneo, encadeado de
forma ordenada e coerente, cuja maior expressão pode ser encontrada na
obra de Mircea Eliade.
Tudo se passa
como se os mitos se apresentassem aos seus coletores devidamente
organizados, expressando uma totalidade indivisa. Não há evidências de
qualquer elemento desordenado ou fragmentário, nem nos mitos, nem em sua
forma de exposição.
Tentando superar
esse impasse, Lévi-Strauss vai criar um método em tudo oposto às
abordagens canônicas que o antecederam.
Sensível à forma
fragmentária do mito, juntando cacos e ruínas de sua matéria essencial,
o bricoleur Lévi-Strauss inicia sua narrativa a partir de um
ponto qualquer, um mito de referência, ao qual dá o nome de “o
desaninhador de pássaros”.
Ponto de
partida, mas também ponto de chegada, esse mito serve-lhe de fio
condutor e, por meio de ampliações progressivas de seu campo de ação,
que denomina “contaminações semânticas”, percorre o universo mítico como
um todo. Identificado nas Mitológicas como M1, foi inicialmente
localizado por Lévi-Strauss em um canto bororo conhecido por xogobeu,
pertencente ao clã paiowe.
O mito conta a
história de um incesto cometido por um jovem índio com sua mãe. Ao
descobrir a transgressão, o pai decide vingar-se e obriga o filho a
realizar três missões impossíveis no “ninho das almas”. Com a ajuda de
uma avó feiticeira, que coloca a serviço de seu protegido os poderes do
colibri, do juriti e do gafanhoto, o jovem consegue realizar com sucesso
as exigências paternas.
Frustrado em sua
vingança, o pai convida-o, então, a acompanhá-lo na captura de filhotes
de arara cujos ninhos se encontram nas encostas dos rochedos. Munido de
um bastão mágico — presente da avó — o desaninhador de pássaros consegue
livrar-se de todos os perigos, metamorfoseando-se sucessivamente em
lagartixa, em quatro tipos de pássaros e em borboleta.
Depois de muitas
aventuras, regressa são e salvo à sua aldeia, onde é recebido pelo pai
com o canto de saudação dos viajantes que retornam, como se nada tivesse
acontecido.
Disposto a não
conceder o perdão nem ao pai, nem aos companheiros que o maltrataram, o
herói leva a avó para um país longínquo e belo, e volta para realizar
sua vingança.
Em uma caçada,
fazendo-se passar por um veado, utiliza-se de falsos chifres e investe
contra o pai, perfurando-o e jogando-o em um lago, onde a vítima é
devorada por peixes canibais. Somente seus pulmões são poupados, e
afloram à tona, sob a forma de plantas aquáticas. Mata ainda todas as
esposas do pai, inclusive a própria mãe, e, por fim, envia para sua
aldeia o vento, o frio e a chuva.
A história não
termina aqui. Ao longo dos quatro volumes da Mitológicas,
Lévi-Strauss acompanha o desdobramento do tema e suas múltiplas
variações. O mito se alarga, se distende, se deforma, se concentra, se
exaure. Por ele é possível depreender, entre outras coisas, a toponímia
da aldeia bororo, a origem da chuva, do frio, do vento, e das plantas
aquáticas. E ainda a ligação, simbólica ou real, entre a imposição do
uso do estojo peniano e a regulamentação das relações entre os sexos.
A partir desse
mito referencial, mas não fundador, é que surgem todos os outros. Ao
introduzi-lo, Lévi-Strauss denomina-o “ária do desaninhador de mitos”.
Peça musical composta para uma única voz, essa ária vai,
progressivamente se ampliando e se modificando. Cumprindo a função, na
cena mítica, de um leitmotiv, ressurge, em eterno retorno, a cada
vez que sua presença é invocada, e se refaz, por mais que sua matéria
mítica tenha sofrido sucessivas transformações.
A estratégia
levistraussiana consiste em estabelecer diversos pontos de partida, mas
nenhum de chegada, pois o mito jamais toma uma forma definitiva e, de
cada um deles, sempre pode surgir um outro, indefinidamente.
Dessa forma, e
ao longo de quatro volumes, Lévi-Strauss realiza, nas Mitológicas,
um monumental esforço para tentar entender o que pode significar, para
um homem desencantado, a experiência mítica.
Percorrer, junto
com ele, essa terra mítica, ou, dizendo de outro modo, a mitosfera
implica percorrer um conjunto magnífico de significantes que jamais
atinge seu significado. Implica em aceitar o convite de uma reelaboração
permanente do imaginário, e os limites de uma interpretação que
permanecerá para sempre inconcluso.
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