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Resenha (Edição nº 20)
"Antes do Fim do Mundo – Milenarismos e Messianismos no Brasil e na
Argentina", por Emerson Giumbelli (*)
Dados
do livro resenhado:
Título da obra: Antes do fim do mundo - milenarismos e messianismos
no Brasil e na Argentina.
Nome do organizador: Leonarda Musumeci
Editora: UFRJ, 2004
Número de Páginas: 167 |
Os recentes centenários da
destruição de Canudos e da publicação de Os Sertões trouxeram ao
interesse geral o tema do messianismo. Tivemos no Brasil muitos exemplos
históricos de movimentos messiânicos e vários participam de capítulos
interessantes da formação nacional. Concomitantemente, a passagem pelo
ano 2000 despertou naturalmente a discussão sobre o tema do milenarismo,
um tema que deita raízes fortes na tradição judaico-cristã. Mas foi nas
décadas de 1960 e 70 que messianismo e milenarismo foram objeto de
vigorosa literatura, de veio predominantemente sociológico. Para se ter
uma idéia da importância que tiveram autores e realidades brasileiras
nessa literatura, basta citar o volumoso O Messianismo no Brasil e no
Mundo, publicado em 1965 pela socióloga Maria Isaura Pereira de
Queiroz. Diante disso, o livro organizado por Leonarda Musumeci,
professora do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de
Janeiro, pretende oferecer uma amostra de “uma nova geração de estudos
dos fenômenos milenaristas e messiânicos” (p. 7).
Antes do Fim do Mundo
tem como base trabalhos apresentados em um dos grupos das IX Jornadas
sobre Alternativas Religiosas na América Latina, ocorrida no Rio de
Janeiro em setembro de 1999. Refletindo o perfil da instituição
promotora do evento, a Associação de Cientistas Sociais da Religião do
Mercosul, a coletânea conta com contribuições de autores brasileiros e
argentinos. Dos sete textos que a compõem, cinco tratam de estudos sobre
situações no Brasil e dois sobre situações na Argentina. Três focalizam
episódios do século XIX e os demais tratam de grupos que perduram na
atualidade. Os autores são historiadores, antropólogos e sociólogos, mas
predomina uma abordagem que privilegia questões culturais, que prioriza
a interpretação de significados e de símbolos sobre a busca por
condicionantes sócio-econômicos.
O primeiro dos estudos
deriva de uma alentada pesquisa feita pela antropóloga Maria Amélia
Dickie acerca dos Mucker, grupo integrado por colonos luteranos
seguidores de Jacobina Maurer e que foram o centro de trágicos
acontecimentos na segunda metade do século XIX no Rio Grande do Sul. Mas
a principal preocupação de Dickie é discutir alguns marcos teóricos e
metodológicos que lhe serviram para interpretar o desenrolar do
movimento. Sugere que o messianismo Mucker seja entendido como uma
utopia concreta e procura mostrar como a trajetória dessa utopia está
pautada por certos referenciais significativos, cuja redefinição orienta
tanto o enrijecimento do grupo quanto a repressão oficial que sofreu.
O historiador e antropólogo
César Cernadas apresenta e analisa as concepções religiosas e políticas
de um personagem ligado ao movimento de independência na Argentina.
Francisco Ramos Mexía viveu entre 1814 e 1821 em uma estância localizada
em uma das frentes de expansão e lá, sob a égide de um sistema que
juntava profetismo, puritanismo evangélico e ideais americanistas,
manteve um contato próximo e amistoso com os povos aborígenes da região.
Cernadas procura entender as inspirações e as implicações do sistema
elaborado por Mexía, “uma síntese peculiar de profetismo hebreu,
iluminismo racionalista e protestantismo ascético” (p. 51).
No terceiro capítulo, a
historiadora Jacqueline Hermann expõe referenciais para uma compreensão
do movimento da Serra do Rodeador, ocorrido no sertão pernambucano e
combatido por tropas oficiais em 1820. Assim como Cernadas, Hermann tece
os liames com projetos de independência colonial, dada a existência de
mobilizações políticas à mesma época em Pernambuco. Entretanto, partindo
da constatação de que os adeptos desse grupo “acreditavam na volta de
dom Sebastião e seu exército para a fundação de um reino de fartura,
imortalidade abundância” (p. 58), centra sua discussão na difusão e na
reapropriação das crenças sebastianistas a partir do Portugal do século
XVI.
A antropóloga Maria Gabriela
Morgante apresenta parte de sua etnografia sobre habitantes da Puna
Jujeña, região noroeste da Argentina, analisando as conexões entre
identidade étnica, reprodução social e cosmologia religiosa. Entre as
crenças dessa população, consta a expectativa de retorno de um Rei Inca,
que está articulada a uma concepção específica de ciclos temporais. Ao
tematizar as relações entre tempo mítico e tempo histórico, Morgante
mostra como se combinam referências à conquista inca, marcos
pré-incaicos (o culto à Panchamama) e contatos com o cristianismo.
A socióloga e antropóloga
Gláucia Rodrigues de Mello descreve algumas características de duas
comunidades religiosas radicadas nos arredores de Brasília: o Vale do
Amanhecer e a Fraternidade Eclética Espiritualista Universal. Ambas
formadas em torno de lideranças carismáticas e suas carreiras
messiânicas, elas ilustrariam juntas a “mística particular” do Planalto
Central, porto seguro de grandes cataclismas e/ou plataforma para uma
nova humanidade.
O Vale do Amanhecer é também
o tema de outro texto, da socióloga Maria Cristina Martins.
Caracterizada como um “messianismo nova era”, a doutrina cultuada no
Vale do Amanhecer destaca, dentre tantas referências ecléticas, uma
entidade em especial, o Pai Seta Branca, identificado como um cacique
inca. Maria Cristina trata da relação de uma comunidade estabilizada com
seu entorno e analisa as características de um espaço sagrado concebido
para a realização de certos rituais. Vive-se sob a expectativa de que
Pai Seta Branca retorne para marcar o encerramento de um ciclo milenar e
a regeneração da humanidade.
A antropóloga Roberta Campos
é a autora do texto que encerra o livro. Nele, trata dos Ave de Jesus,
um grupo de penitentes em Juazeiro do Norte ligado ao culto a Padre
Cícero que esperam pelo final dos tempos. Seu interesse principal são as
concepções de realidade desse grupo, tal como se expressam no
vocabulário apocalíptico de mestre José e nas relações tecidas a partir
desse vocabulário com seus seguidores e a sociedade envolvente. As falas
poéticas de mestre José estão repletas de metáforas e de outros recursos
figurativos que envolvem a fusão de imagens bíblicas com a paisagem
histórica e geográfica de Juazeiro e a permutação de imagens familiares,
políticas e religiosas.
Limitando-me a essas poucas
indicações sobre os textos, deixo ao leitor a chance de tirar proveito
da vastidão de dados e referências contidas nos estudos compilados por
Leonarda Musumeci. Apenas faço ainda notar que um dos saldos do encontro
proporcionado pelo livro parece ser o vislumbre de uma certa perspectiva
latino-americana, sugerida seja pela presença de situações brasileiras e
argentinas, seja pela importância concedida por Dickie e por Morgante às
formulações teóricas da historiadora mexicana A. Barabás – e
emblematizada nas origens incaicas de dois personagens de crenças
milenaristas. O restante de meus comentários destina-se a apurar os
sentidos que podemos depreender dessa amostra de “uma nova geração de
estudos”, ligada, segundo a organizadora do livro, a “novos caminhos
interpretativos” (p. 7).
Terminada a leitura,
constata-se que esses “novos caminhos” não são abertos pelo
estabelecimento de uma única abordagem, apesar da atração comum pelas
questões culturais. Na verdade, as abordagens são bastante variadas,
assim como sua sofisticação e profundidade. Certas autoras (como a
própria organizadora, Dickie e Campos) montam suas análises em um
movimento de contraposição à sociologia do messianismo dos anos 1960 e
70. Nesses casos, parece haver uma herança a ser superada. No geral, no
entanto, chama atenção que quase nunca se procure elaborar uma nova
definição de milenarismo e de messianismo enquanto conceitos. Em
primeiro lugar, não são todos os textos que se preocupam em rediscutir a
literatura específica ligada a esses conceitos. Além disso, mesmo entre
aqueles que demonstram tal preocupação (em especial, Dickie, Morgante e
Campos), o resultado é a construção de referências e perspectivas que
não ficam presas ou restritas aos conceitos de milenarismo e
messianismo.
Isso leva ao ponto crucial
de meus comentários. A sociologia dos anos 1960 e 1970 tendeu a elaborar
uma imagem do messianismo e do milenarismo – por mais que os tratassem
como expressão de algo mais geral (em regra, da “religiosidade rústica”)
– caracterizada por irrupções bem delimitadas no espaço e no tempo. Daí
a ênfase posta sobre a idéia de “crise” para explicar o surgimento de
tais movimentos. Em contraste, os estudos reunidos em Antes do Fim do
Mundo constroem uma visão do milenarismo e do messianismo que não se
pauta em seu caráter extraordinário, mas permite neles observar
tendências e questões mais ou menos disseminadas e que nos oferecem um
caminho de reflexão sobre a religião e sobre a sociedade.
Alguns pontos entre os
estudos podem ser mencionados para sustentar essa afirmação. É
impossível encontrar entre eles “casos típicos”. A ausência de
definições categóricas de messianismo e milenarismo dá lugar a uma
diversidade imensa de situações. Morgante trata de um caso em que
crenças messiânicas e milenaristas não se acompanham da constituição
clara de um movimento sócio-religioso. Nas situações em que ocorreram
institucionalizações, movimentos efêmeros convivem com movimentos que se
estabilizaram. Tão importante quanto acompanhar as excepcionalidades que
cercam certos episódios é entender as doutrinas e as cosmologias que se
afirmam no processo. De modo geral, as descrições sugerem realidades
constituídas pela circulação de referências muito mais do que pelo
isolamento em torno de tempos e espaços.
Regina Novaes, no texto
publicado na “orelha” do livro, instiga o leitor a buscar o que “há em
comum” entre os casos expostos ao longo do livro. Certamente essa é uma
preocupação pertinente e um exercício valioso. De minha parte, enfatizo
a possibilidade de encontrarmos em cada uma dessas situações exemplos de
experimentações de religiosidade e de sociabilidade que nos obrigam a
refletir sobre a religião e a sociedade em geral. Chamou-me a atenção
como em vários casos “revelações” têm lugar destacado na formação dos
movimentos, algo que desafia territórios consolidados no campo religioso.
Em sentido semelhante, Musumeci, citando Desroche, sugere que os
movimentos messiânicos-milenaristas envolvem processos que
“des-determinam determinismos sociais” (p. 10). Creio que o livro que
organizou tem o mérito de nos fazer pensar sobre o cotidiano a partir da
apresentação e da análise de situações que terão sempre de seu lado o
poder do assombro.
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