Resenha (Edição nº 19)

"A dádiva da sobriedade: a ajuda mútua nos grupos de alcoólicos anônimos", por Simone Becker (*) 

Dados do livro resenhado:
Título da obra: A dádiva da sobriedade: a ajuda mútua nos grupos de alcoólicos anônimos
Nome do autor: Leonardo de Araújo Mota
Editora: Paulus
Número de Páginas: 199


“(...) o objeto da etnografia: uma hierarquia estratificada de estruturas significantes em termos das quais os tiques nervosos, as piscadelas, as falsas piscadelas, as imitações, os ensaios das imitações são produzidos, percebidos e interpretados, e sem as quais eles de fato não existiriam(...), não importa o que alguém fizesse ou não com sua própria pálpebra” (Geertz, 1978:17)
[1].

“A dádiva da sobriedade: a ajuda mútua nos grupos de alcoólicos anônimos” de Leonardo de Araújo Mota traz à tona o alcoolismo não apenas como um problema social mundial, que somente em nosso país afeta em média 15 milhões de brasileiros entre 12 e 65 anos (Mota, 2004: 179)[2], mas também, como uma doença incurável, cuja recuperação é realizada diariamente pela ação da Irmandade dos Alcoólicos Anônimos.

Eis de saída, a grande relevância desta dissertação defendida em 2002 na Universidade Federal do Ceará, que aponta para uma anomia referendada diretamente pelo Estado, à medida que o consumo indiscriminado do álcool não é por ele controlado, mesmo para menores de 18 anos, mas, que através da intervenção de um grupo - Alcoólicos Anônimos - pautado em formas de sociabilidade diferentes daquelas ligadas ao poder e ao interesse econômico, consegue restabelecer e, sobretudo, privilegiar seus vínculos sociais mais primários[3].

Numa obra sociológica di-vidida (Bourdieu, 1998[4])[5] em 8 capítulos – incluindo introdução e considerações finais - , Mota propôs-se a analisar 10 grupos de AA’s[6] em Fortaleza - dentre 416 unidades existentes no Ceará, utilizando para tanto, “questionários, depoimentos, entrevistas não-estruturadas, pesquisa participante em cerca de 200 reuniões e pesquisa bibliográfica”.

Todos estes diferentes e não menos complexos instrumentos metodológicos convergem para um suporte teórico ancorado, sobretudo, em Jacques Godbout e Alain Caillé, sociólogos integrantes do grupo M.A.U.S.S[7] que interpretam a dádiva maussiana à luz da importância voluntária e desinteressada do dar (ou da doação), como requisitos indispensáveis à crítica dos paradigmas até então vivenciados no Ocidente, sob as insígnias do holismo e do individualismo. Formas que por um lado, com suas contradições, deprecia(ra)m as relações sociais pautadas na importância das pessoas a elas vinculadas e, por outro, otimiza(ra)m a ruptura das mesmas relações face ao interesse calcado no lucro material ou utilitarismo.

Na introdução e nos capítulos primeiro, segundo, terceiro e sexto (“o dilema do alcoolismo”, “grupos de ajuda mútua: aspectos sociológicos e históricos”, “surgimento e difusão de alcoólicos anônimos” e “os lugares da dádiva em alcoólicos anônimos”), o autor enfatiza o histórico do surgimento dos grupos dos AA’s no mundo e em Fortaleza, os preceitos básicos de sua sustentação, algumas das principais observações realizadas nos 10 grupos em Fortaleza e, finalmente, sua distinção em relação aos movimentos sociais, às instituições religiosas e às práticas terapêuticas centradas na auto ajuda.

Nos demais capítulos, “o individualismo”, “a dádiva” e “as considerações finais”, Mota salienta o espaço dos AA’s como exemplos de sociabilidades baseadas na dádiva pura (ou verdadeira), algo não visível nas relações contratuais e mercantis tão disseminadas e perpetuadas pelo individualismo capitalista, utilitário e egoístico.

“A verdadeira dádiva só pode ser compreendida como produto de ato espontâneo, mesmo que não seja completamente desobrigado. (...)Não é a falta de obrigações que caracteriza a dádiva, e sim a ausência de cálculo[8]” (Mota, 2004:156-157). 

Dentre outros exemplos possíveis de serem comparados à dádiva gratuita, o autor ainda menciona, além da doação de sangue, de órgãos e  da  filantropia,  o compadrio. Este último, também como uma instituição regente do próprio ingresso e da própria manutenção dos membros nos AA’s. 

Apesar de documentalmente ter surgido e se difundido nos Estados Unidos em 10 de julho de 1935, quando o Dr. Bob bebeu seu último gole, as raízes dos AA’s remontam a Zurique, na Suiça, quando Roland H, um banqueiro suíço, alcoólatra, procurou o eminente psicólogo Jung, para desvencilhar-se de sua dependência química. Após não obter êxito no tratamento do paciente e reconhecendo as limitações da psicoterapia, Jung disse ao mesmo que sua única saída era uma espécie de conversão religiosa. Resposta esta que fomentara a continuidade dos AA’s .

Em Fortaleza, o primeiro grupo de AA’s foi fundado em 27 de junho de 1968, sendo suas reuniões iniciais realizadas no auditório do Centro de Saúde do Estado do Ceará. O interessante, mas inexplorado por Mota, reside no fato de que as primeiras reuniões brasileiras dos AA’s feitas no Rio de Janeiro em 1947, eram todas baseadas na literatura em inglês, permanecendo até os dias atuais algumas delas que são realizadas em inglês. Por quê são faladas e conduzidas em outro idioma, que não o português? Uma problematização que demandaria um estudo etnográfico comparativo, sobretudo, de alguns grupos brasileiros e norte-americanos.

Com relação aos membros participantes dos 10 grupos estudados por Mota, dados colhidos em sua pesquisa apontam para um freqüentador típico que é do sexo masculino (87%), possui entre 31 e 60 anos de idade (79%), é casado (53%) e está sóbrio há mais de cinco anos (48%)(...)[9]. Dentre estes, 68% dos informantes concluiu o ensino médio, e apenas 18% chegaram graças às suas próprias pernas ao grupo, isto é, a maioria destes chega via aconselhamento aos AA’s, por membros que a posteriori tornam-se seus “padrinhos”.

Sem possuir qualquer caráter de envolvimento em controvérsias públicas (Mota, 2004:21;42), de reivindicação na transformação da estrutural social (idem:21) “nem mesmo em relação às políticas de saúde pública dirigidas ao combate da epidemia do alcoolismo" (Ibidem:21) e, então, de formulação de um discurso moralista que vise banir o consumo do álcool na sociedade, os grupos de AA’s diferenciam-se, nesta ordem, respectivamente, dos movimentos sociais, de entidades sindicais e de entidades religiosas. Em meio às aproximações comparativas, os AA’s para Mota, se aproximam do conceito de culto, elaborado por Chinoy, pois

“em certos sentidos, assemelha-se à seita; sua organização formal é escassa, e a participação nele é voluntária. Seus participantes limitam-se a compartilhar das mesmas opiniões religiosas (...)” (apud Mota, 2004:109-110).

Em meio a esta ausência de organização hierárquica e de relações de poder entre seus membros[10] , o crescimento e a manutenção dos AA’s balizou-se e baliza-se tendo como parâmetro os doze passos e as doze tradições dos alcoólicos anônimos, cujas contribuições financeiras resumem-se basicamente à existência da “sacola da gratidão” e aos lucros advindos da venda de literaturas próprias, por meio dos direitos autorais. Assim, é um espaço que apresenta uma auto-gestão baseada no dá-se o que se tem e, por meio da qual o espaço (com todas as suas despesas) será subsidiado. Quanto às contribuições, o autor aponta dados estatísticos interessantes, ao mencionar que 58% dos entrevistados contribuem para a sacola, “ao passo que 37% são sovinas, e apenas 5% generosos” (Mota, 2004:167). Por mais que outros fatos em relação às discórdias e/ou tensões internas no grupo tenham sido apontadas, tais como certos roubos de sacolas da gratidão, Mota procura convergir sua análise à dádiva gratuita e à ausência de hierarquia e poder nas relações travadas entre os seus membros[11]. Assim, com relação à remuneração de servidores, há apenas um funcionário remunerado que atende as demandas de 480 grupos distribuídos em todo o Estado, sob a contrapartida de um salário fixado em R$220,00 (duzentos e vinte reais). Os demais servidores são voluntários e membros freqüentadores dos AA’s.

Todos os doze passos que ditam os princípios de consciência quanto à doença, da necessidade de externá-la por meio da “confissão” - categoria inexplorada aos moldes foucaultianos (Foucault, 2001)[12]- e de passá-la enquanto experiência aos demais ingressos – diferenciando tais grupos de outros pautados na auto ajuda -, aliados às doze tradições que expressam os princípios de convivência dos membros nos AA’s, são descritos por Mota em conjunto com as principais reuniões deste grupo e, das quais o próprio autor destaca os principais termos emblemáticos construídos a partir deste ethos .

Normalmente, as reuniões dividem-se em abertas, fechadas, temáticas ou literárias, administrativas (ou de serviço), encontros (ou convenções) de AA’s e conferências de serviço.

Em breves pinceladas, as reuniões abertas destinam-se ao público interessado em geral, sejam alcoólicos, sejam familiares, sejam profissionais da área e, utilizando a “cabeceira da mesa” os membros passam a fazer seus testemunhos pessoais de como alcançaram a sobriedade com o cumprimento do Programa (pautado nos 24 princípios acima citados). As reuniões fechadas são destinadas apenas aos doentes, contando com a participação de um “coordenador”, cuja função centra-se na anotação dos nomes de pessoas que desejam desabafar. As reuniões temáticas versam sobre a leitura e conhecimento da literatura sobre o grupo e produzidas, via de regra, por seus membros. As tensões não aprofundadas pelo autor - conforme já frisei anteriormente -, emergem com maior nitidez nas reuniões administrativas ou de serviço, pois se destinam à prestação de contas, à programação de eventos, imperando uma democracia direta, “muito embora exista a possibilidade de manipulação do voto dos novatos pelos veteranos”(Mota, 2004:57). Nas convenções e encontros reúnem-se membros de diferentes regiões e/ou países e, finalmente, nas conferências de serviço participam apenas alguns membros representativos regionais. Em relação a estas organizações, interessante torna-se citar a existência dos custódios, que são representações regionais, nacionais e de serviços gerais, voltadas à manutenção e administração da estrutura dos AA’s. Exceto os custódios nacionais, os demais contam com a presença de não-alcoólicos em seu corpo. Em todos estes espaços internos dos AA’s, Mota observou alguns termos (expressões) que se repetem e, com os quais poderemos entender as suas próprias observações.

“Aceitação” vincula-se à prudência, como “um dos antídotos contra a inquietação, que por sua vez provoca a raiva e os ressentimentos, desencadeando as recaídas” (Mota, 2004:138); “apagamento” como reflexo das amnésias alcoólicas; “autopiedade” também conhecida entre alcoólicos e adictos como a síndrome do “Coitadinho de Mim” (SCM), a partir da qual a recuperação e a aquisição de força (e coragem) tornam-se cada vez mais distantes; “bêbado estrela” e “bêbado seco”, ambas são expressões que se referem, respectivamente, àqueles bêbados que sempre paga(ra)m a conta e que nas reuniões administrativas mostram-se como os mais “sovinas” e, quanto aos secos são aqueles que apesar de terem parado de beber, insistem em reproduzir comportamentos de quando não estavam em abstinência, resistindo na compreensão dos demais 11 passos dos AA’s e, finalmente, “mente fechada” como expressão que converge para o fato de se evitar controvérsias, debates e disputas neste grupo.

Evitar analisar as controversas, por mais que elas existam e venham à tona com a observação participante malinowskiana, assim como não explorar as ricas categorias nativas que surgem do campo tão marcado por dados estatísticos: “não-alcoólicos” e “alcoólicos”, “sovinas” e “generosos”, “padrinhos” e “afilhados”, “novatos” e “mentores”, “velhos resmungões” e “mentores”, grupos com maioria de “homens” e grupos apenas com “mulheres” (...), retratam, a meu ver, tanto os equívocos metodológicos quanto os equívocos interpretativos/restritivos da dádiva maussiana, cometidos pelo autor.

Quem são os membros participantes dos grupos analisados pelo autor? Mota aponta para homens de 31 a 60 anos, com ensino médio, casados e sóbrios há 5 anos. Por quê há grupos de AA’s voltados exclusivamente às mulheres, às lésbicas e aos gays, seja no Ceará, seja nos EUA? Será que podemos "comer na mão" de nossos informantes, sem levar em consideração, conforme assinala Geertz em epígrafe, os gestos, os discursos não ditos (Favret-Saada & Contreras, 1968)[13], enfim, todos os significantes que constróem as nossas interpretações sobre os quereres, os desejos e os saberes de quem nos propomos a pesquisar e, com os quais também interagimos, aos moldes do que propõe, por exemplo, Silva (2000) [14]? Ou seja, será que os grupos de AA’s voltados às mulheres em Fortaleza são formados apenas pela justificativa de inibição destas em relação à convivência em um espaço dividido com os homens ? Penso que não.

Ao trabalhar de maneira sábia com uma das facetas do álcool, aquela da fraqueza, Mota ignora a outra faceta do álcool, sobretudo, na construção da masculinidade (Almeida, 1995:181-201) [15] hegemônica ocidental heteronormativa e, então, também da construção das próprias sexualidades de seus participantes/membros, qual seja: a da força e/ou poder (Héritier, 1985)[16]. Justamente este perfil descrito por Mota, de homens casados, numa faixa etária de 31 a 60 anos, brancos e residentes em classes populares, consomem bebidas alcoólicas, mais especificamente destiladas, como forma de mostrar toda a construção das relações de gênero, estabelecidas por eles, entre si, com suas mulheres e com os demais atores sociais que os circundam(cf. Becker, 2002)[17].

No tocante específico e englobante da categoria de gênero, vê-se que ela “é um elemento constitutivo de relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é um primeiro modo de dar significado às relações de poder” (Scott, 1990-14)[18]. Então, a partir do poder das confissões realizadas nas reuniões abertas, da restrição aos alcoólicos de participarem do corpo estrutural e administrativo de determinados postos (somente desfrutados por homens, via de regra, médicos e não doentes), da existência do apadrinhamento entre novatos e veteranos[19], bem como, da existência das categorias de “mentores” e “velhos resmungões”, não estaria este espaço recheado de relações capilares de poder? E mais: os AA’s não seriam um espaço destinado também à reconstrução de uma masculinidade perdida e, sempre desejosa de ser readquirida, quando de viris estes doentes passaram a fracos - ou homens que perderam o poder mantido em certas relações de gênero -, por não saberem lidar com os limites do álcool? Por que nas eleições internas os novatos são, por vezes, induzidos por veteranos em seus votos? Não seria uma di-visão que demarca aos moldes dos ritos de instituição ou consagração bourdianos  as relações de poderes entre concepções dominantes e dominadas, entre uma masculinidade hegemônica - daqueles que estão a mais tempo em abstinência - e, uma destituição desta mesma masculinidade outrora desfrutada pelos recém chegados/”novatos”? O mesmo podendo ser estendido aos não alcoólicos que detêm determinados postos administrativos e/ou de poder, em relação aos demais membros dos AA’s que são tidos como sempre doentes, ou sempre alcoólicos?

Seara complexa por ser eminentemente recheada de reintepretações e releituras, a obra de Marcel Mauss, “O ensaio sobre o dom”, preconiza antes de tudo a prevalência ou primazia da prática/ do empírico sobre a teoria. Em outras palavras, é do campo detalhadamente explorado que emergem as teorias elaboradas ou reelaboradas. A dádiva não deixa de trazer isto consigo mesma, pois o que nos levaria a ver a dádiva, assim como Godbout (1999)[20] o faz, em todos os locais, em todos os fatos e em todas as relações?

“(...) então a dádiva, que não estava em lugar nenhum, aparece em toda parte. Aquela pessoa que afirmava“ que o mundo atual é feito de egoísmo” se revela particularmente generosa, (...). Robert é tão generoso; ele dá tanto!” (1999:14).

Dependendo da metodologia empregada, sobretudo numa etnografia aos moldes clássicos antropológicos, podemos não apenas chegar às teorizações da dádiva maussiana posta na conjugação da tríade verbal do dar, receber e retribuir (como verbos indissociáveis), com os duetos binomiais do interesse e desinteresse; da obrigação e liberalidade, bem como podemos culminar em releituras deste mesmo dom preconizadas por Godbout (1999), Caillé (2000)[21], Godelier (2001)[22], Dumont (1997)[23], Bourdieu (1998) e Lévi-Strauss (1982)[24]. Sem esquecermos que todos estas não precedem, mas esclarecem que podemos diferenciar uma piscadela ou um tique nervoso de uma imitação, isto é, que podemos compreender os dados empíricos exaustivamente descritos em uma etnografia, com o amparo dos tantos instrumentais teóricos destes advindos.

Portanto, termino esta resenha pensando no quanto estes autores e sociólogos franceses do Movimento Anti Utilitarista nas Ciências Sociais (originalmente MAUSS) possibilitam-nos pensar em questões contemporâneas (doação de sangue, significação de presentes natalinos, heranças, nascimentos, mortes...), nas quais estamos como indivíduos pulsantes/pesquisadores cotidianamente imersos. Contemporaneidade apontada na conclusão do ensaio sobre o dom em 1924 por Mauss, mas tendo ciência de que para além das sociabilidades primárias, a dádiva pode também estar presente nas relações destes sujeitos modernos com o mercado e com o Estado. Enfim, questões e mais questões sobre as releituras e (re)apropriações da dádiva maussiana, que talvez, para uma melhor compreensão, demandem de início, algumas contextualização. Eis o legado de Bourdieu...


[1] - GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. RJ: Editores Zahar, 1978.

[2] - Independentemente de classe social e de sexo.

[3] - Primários aqui referem-se à noção de sociedade primeira, centrada sobretudo na família e, então, “nesta o elemento central será a pessoa; não o indivíduo puro, desencarnado e disencumbered (livre de qualquer laço, desembaraçado) do liberalismo, mas a pessoa inserida em corpos sociais hierarquizados por todo um conjunto de débitos e créditos , direitos e deveres herdados”(Caillé, 2000:284).

[4] - Ao falar mais especificamente na perspectiva do autor em relação à ausência de hierarquias nos diferentes e diversos AA’s, explorarei a noção bourdiana de divisão empreendida em sua análise sobre os ritos de consagração e/ou instituição.

[5] - Bourdieu, Pierre, A Economia das Trocas Lingüísticas. SP:Edusp, 1998

[6] - Ao longo desta resenha crítica utilizarei a abreviatura AA’s como sigla dos Alcoólicos Anônimos.

[7] - Movimento anti-utilitarista em ciências sociais.

[8] - O cálculo ou interesse visado é uma das grandes críticas destes membros do M.AU.S.S para com relação, sobretudo, às compreensões da dádiva realizadas por Bourdieu, para quem não há relação desinteressada, em especial, face às noções de estratégia, de campo e de habitus por ele formuladas (ver Pierre Bourdieu, “Les sens de l’honneur in Esquisse d’une Théorie de la Pratique, Essais-Points: Paris, 2000 e, “les stratégies matrimoniales dans le système de reproduction, in: Annales, vol.27, n.4-5. Paris: Arman Colin, 1972”).

[9] - No Ceará há grupos apenas voltados às mulheres, pois estas sentem-se inibidas frente à participação em um grupo formado também por homens. Assim como, o autor menciona a existência, nos EUA, de grupos voltados apenas ao atendimento de gays e lésbicas (Mota, 2004:162).

[10] - Questão que adiante abordarei.

[11]- Independentemente do tempo de abstinência, da classe social, escolaridade (...) todos os seus membros alcoólatras são considerados doentes incuráveis. Este acaba sendo um dos diferenciais positivos e eficazes da recuperação empreendida por este grupo, o mesmo não acontecendo com outros tratamentos psiquiátricos em clínicas, pois há a hierarquia vinda dos médicos e outros profissionais em contraposição aos pacientes e doentes.

[12] - FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade, Volume 1. RJ: Editora Graal, 2001. 

[13] - FAVRET-SAADA, Jeanne; CONTRERAS, Josée. Corps pour corps: enquête sur la sorcellerie dans le boccage, 1968.

[14] - SILVA, Vágner Gonçalves. O antropólogo e sua magia. São Paulo: Edusp, 2000.

[15] - VALE DO ALMEIDA, Miguel. Senhores de si: uma interpretação antropológica da masculinidade. Lisboa, Fim do Século, 1995.

[16] - HÉRITIER, Françoise. Masculin/Feminin. La pensée de la différence. Editions Odile Jacob, 1985.

[17] - BECKER, Simone. Dissertação de Mestrado: Honras e Estratégias: formas de ser mulher no bairro das Flores, defendida junto ao PPGAS/UFPR, 2002.

[18] - SCOTT, Joan. Gênero: um conceito útil de análise histórica, in: Educação e Realidade, POA, n.16, 1990.

[19] - O brilhante trabalho de Marcos Lanna ( A Dívida Divina. Troca e patronagem no nordeste brasileiro. Campinas: Unicamp, 1995) sobre as relações de patronagem no município nordestina de São Bento, mostram como o compadrio antes de igualar as relações torna-as assimétricas, ou seja, acaba por estabelecer o que chamará de reciprocidades hierárquicas.

[20] - GODBOUT, Jacques. O espírito da dádiva. RJ: Editora FCC, 1999.

[21]-CAILLÉ, Alain. Antropologia do Dom. RJ: Vozes, 2000.

[22] - GODELIER, Maurice. O Enigma do Dom. RJ: Civilização Brasileira, 2001.

[23] - DUMONT, Louis. Homo Hierarchicus. O sistema de castas e suas implicações. SP: Edusp, 1997.

[24] - LÉVI-STRAUSS, Claude. Estruturas elementares do parentesco. Petrópolis: Vozes, 1982.


(*) Simone Becker é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFSC.


 

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