Resenha (Edição nº 19)

"Comida: uma história", por Rogéria Campos de Almeida Dutra (*) 

Dados do livro resenhado:
Título da obra: Comida: uma história
Nome do autor: Felipe Fernandez-Armesto
Editora: Record, 2004
Número de Páginas: 362

Professor da Universidade de Oxford, Felipe Fernandez-Armesto nos convida, com este livro, a fazer uma viagem que abarca cerca de 150 mil anos pela história dos alimentos. Neste percurso, tem como fio condutor o impacto da produção e do consumo de alimentos na “vida humana” e em seu processo evolutivo. Ao tecer a “sua história” da comida, vem contribuir para o crescente interesse do meio acadêmico, particularmente no campo europeu nos últimos 50 anos, pelo universo das práticas alimentares e sua história. Este livro, antes de substituir os precedentes, vem justamente acrescentar, dada a originalidade de sua abordagem. O autor percorre com segurança diferentes territórios acadêmicos – questões ecológicas, nutricionais, econômicas, culturais, gastronômicas – procurando trazer ao leitor uma perspectiva global da alimentação a partir da reflexão atualizada de um tema que se caracteriza pela amplitude de abordagens. Trata a questão alimentar como inseparável das relações dos seres humanos entre si e com a natureza. Conjuga uma visão global, ampla, de uma certa tonalidade universalista (“o homem”), à dimensão local, de detalhes específicos culturalmente vivenciados, que testemunham a singularidade da experiência cultural. Seu método de apresentação resulta na divisão desta obra em oito capítulos, que o autor classifica como oito grandes “revoluções”. Estas revoluções representam processos de grande duração, - muitas vezes com um início hesitante e indefinido-, e que ocorreram (e de alguma forma ainda continuam) de forma simultânea, imbricadas na complexidade da vida humana e de sua sobrevivência na Terra. Não se limitam à questão alimentar, afetando aspectos variados da “história mundial”.

O primeiro capítulo trata da “Invenção da Culinária”, onde Fernandez-Armesto investiga as origens da cozinha. Apesar da busca, a seu ver, prolongada e mal sucedida, de uma essência humana – afinal , como e por que os homens se tornaram homens, se diferenciando dos outros animais? – os seres humanos se provaram genuínos na exploração do fogo. Se a culinária foi a primeira química, a revolução do cozimento poderia ser considerada a primeira revolução científica. Foco da vida comunitária, ao fogo associa-se a complexificação da vida social, dada a especialização de funções que a atividade culinária possibilita. Contribui de forma decisiva para a sobrevivência da espécie humana, na medida em que o cozimento amplia o leque de opções comestíveis, além de favorecer a assimilação nutricional. Entre o assar, o cozer, o grelhar e o fritar há inúmeras combinações, utensílios, usos e sentidos.

“O Significado do Ato de Comer” é tema do segundo capítulo, onde o autor explora a dimensão simbólica das práticas alimentares: as interdições alimentares definindo fronteiras, as propriedades mágicas e curativas dos alimentos. Em se tratando de seu potencial simbólico, o canibalismo e o vegetarianismo se aproximam: afinal, a carne humana encontra-se no mesmo nível de muitos outros alimentos que comemos (ou deixamos de comer), “não por que precisamos deles para permanecermos vivos, mas para que nos tornemos melhores”. É também neste capítulo que Armesto traz-nos um pouco da história recente dos alimentos na sociedade ocidental em processo de modernização, como fontes mágicas de nutrição e cura: a panacéia dos baixos níveis de proteína inspirou movimentos na América do século XIX que, sendo parte da revolução burguesa puritana, representaram a conexão entre “boa conduta” e “boa alimentação”. A moralidade se une então ao comércio no culto à farinha integral: ao pão de farelo de Grahan seguiu-se as “Cruzadas de Flocos de Milho” até alcançarmos a primeira metade do século XX envolvidos na euforia pseudo-científica das vita-aminas.

O terceiro e quarto capítulos introduzem questões intrigantes sobre as quais a pesquisa acadêmica ainda se envolve em busca de um consenso. Depois do ato de cozinhar, outro momento decisivo neste percurso de sobrevivência e humanização define-se pelo início da produção sistemática do alimento. Como e de que forma se iniciou esta produção? O historiador rejeita a visão simplista de um modelo progressivo, evolutivo, da coleta para a agricultura, da caça ao pastoreio. Defende uma perspectiva que visa transcender a linearidade fácil, que visualiza as atividades de caça, coleta e pastoreio como freqüentemente complementares e simultâneas. É também da opinião, baseando-se em registros arqueológicos, que a primeira criação organizada de uma fonte alimentar foi de caracóis, uma prática que associava caça e pastoreio. Se o pastoreio possibilitou a diversificação alimentar a partir das possibilidades do uso dos laticínios; a agricultura provoca um grande impacto na história da alimentação, destacando-se o desenvolvimento, através do plantio seletivo, dos cereais, que hoje sustentam 90% - entre homens e animais – da população mundial. A caça, por sua vez, não é apenas resquício de um passado longínquo e primitivo, pois nunca esteve tão atual: Fernandez-Armesto define o século XX como “o século da caça”, dada a intensa atividade de pesca nos oceanos, último reservatório de vida selvagem em quantidade significativa.

O consumo conspícuo, ou a comida como sinalizador de diferenças de status, é tema do quinto capítulo, onde o autor destaca a transição de um “comer heróico” (onde vigora a abundância e o desperdício) para um ethos mais sutil de valorização da qualidade e do sabor . Comidas raras, preparações minuciosas e regras específicas de etiqueta funcionam como operadores distintivos de posição social. Os deslocamentos de certos alimentos,como o bacalhau, na escala de prestígio no processo histórico da história ocidental vem confirmar o caráter diverso e inusitado da implementação do sentido na vida social.

Os intercâmbios, seja ecológico, seja cultural, é tema abordado nos capítulos seguintes, onde Armesto tece uma gama de acontecimentos, situações muitas vezes dramáticas, envolvendo confrontos e verdadeiras guerras, que se referem à circulação de produtos e às rotas de comércio. Destaca a importância do “intercâmbio colombiano” como processo de contato e trânsito de inúmeros alimentos a partir das Grandes Navegações. Este intercâmbio provocou, a seu ver, uma revolução ecológica.

O último capítulo, “Alimentando Gigantes” trata do processo contemporâneo da globalização, do papel da revolução agroquímica que se inicia com fertilizantes artificiais para desembocar na produção de alimentos geneticamente alterados. A tecnologia e sistematização da produção de alimentos, como resultado do processo de industrialização das sociedades ocidentais, atravessam todo o percurso do alimento - manufatura, transporte e distribuição - até chegar ao fim último: o consumidor. Ocorre então uma significativa metamorfose destes alimentos, para se adequarem às condições possíveis de padronização, como o sabor, o formato e a apresentação. Este é o ambiente da comida de conveniência, da fusion cuisine, que expressam a realidade de um Ocidente superalimentado, com grande circulação comercial de alimentos, cuja distribuição reforça a desigualdade.

Para além de uma abordagem inovadora, podemos destacar como qualidade desta obra a possibilidade de se inteirar, através das referências bibliográficas, da produção intelectual mais recente sobre temas tão variados envolvendo a alimentação, que muitas vezes não chegam ao Brasil. Contudo, traz-nos certo desconforto o excesso de generalizações, onde “o homem”, este personagem abstrato e descontextualizado, torna-se o principal protagonista de uma única “história”. Talvez tal atitude metodológica se justifique ante a amplitude que o autor pretende abarcar em suas reflexões, tornando o livro, assim, um produto que ultrapasse as fronteiras do mundo acadêmico.


(*) Rogéria Campos de Almeida Dutra é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da UFRJ.

 

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