"Sociologia
da religião",
por Sandra Carneiro (*)
 |
Dados do livro resenhado:
Título da obra:
Sociologia da religião - enfoques teóricos
Nome do autor:
Faustino Teixeira - organizador
Editora: Vozes
Número de páginas:
270 |
Logo de início quero
destacar a feliz seleção feita por Faustino Teixeira na organização do
livro Sociologia da Religião. O livro é um convite para nos
debruçarmos sobre os autores clássicos através de um "olhar específico":
analisar suas contribuições e reflexões sobre o fenômeno religioso. A
idéia base, embora não seja inovadora, têm vários méritos, entre eles, o
de oferecer a todos os interessados no tema, iniciados ou não, uma
obra cujo resultado é bastante estimulante e possibilita a abertura de
novos horizontes de reflexão.
Cada um dos pesquisadores
convidados a integrar a coletânea tinha como projeto revisitar um
autor clássico das Ciências Sociais, sendo que a porta de entrada ao
conjunto da obra e ao método utilizado deveria ser feito sob o ângulo da
análise da religião. Dentro desta perspectiva, os especialistas
destacam os principais conceitos e as principais perspectivas adotadas
pelos chamados clássicos, apresentando abordagens amplas e
multifacetadas de uma temática que vem exigindo novas ressignificações.
Cabe ainda destacar, que após a apresentação da síntese crítica do
pensamento de cada clássico, há sempre uma breve bibliografia e um
pequeno texto do próprio autor, que pode servir ao leitor
interessado em aprofundar as questões tratadas.
O artigo de abertura é
escrito por Ivo Lesbaupin (UFRJ e consultor do ISER/assessoria) que
aborda a perspectiva do marxismo, lembrando que é importante
distinguir entre o que a tradição vulgarizada do marxismo nos transmitiu
e o que efetivamente Marx e Engels pensaram sobre a religião. Seu
maior desafio é resgatar o pensamento originário desses autores e
inicia comentando os conceitos de alienação, ideologia e produção de
bens materiais na obra de Marx.. Tece também comentários sobre a
identificação que Engels faz entre o cristianismo primitivo com o
socialismo, mostrando que esta comparação pode ser feita sob os
seguintes pontos: a origem social dos adeptos, a mensagem de
libertação da servidão e da miséria, a perseguição de que foram objeto e
seu sucesso histórico apesar desta perseguição.
Depois destas
apresentações, Lesbaupin procura desenvolver a perspectiva aberta
por outros teóricos marxistas como Rosa Luxemburgo e Antônio
Gramsci. E, por último, se detém ainda nas tendências atuais
do pensamento marxista, mostrando que alguns intelectuais
marxistas propõem uma nova teorização a respeito do fenômeno religioso,
destacando as posições defendidas por Michele Bertrand, Michael Lowy e
Lucien Goldman.
Pierre Sanchis (professor
emérito da UFMG) nos convida a rever as contribuições de Durkheim, a
partir da pergunta - As questões tratadas pelo autor seriam
atuais? E, quais seriam os traços mais relevantes da
abordagem deste pioneiro com relação ao fenômeno religioso que
considerava sui generis.
Para Durkheim a religião não é somente um sistema de idéias, é antes de
tudo um sistema de força, sua função é criar coesão. Sendo que a
categoria fundante da religião seria a categoria do sagrado.
Segundo Sanchis, a afirmação
de Durkheim é de que a religião é fato social, emerge do social, é signo
do social – é a que recebeu maior atenção de seus analistas. No
entanto, do seu ponto de vista, normalmente ressalta-se menos o oposto
dialético, fortemente afirmado por Durkheim, a de que à gênese
societária da religião corresponde a gênese religiosa da sociedade.
Já Cecília Mariz (UERJ)
apresenta a perspectiva de Max Weber. Para ela, dentre os três
autores considerados os fundadores da Sociologia – Marx, Durkheim e
Weber, este último teria sido aquele que mais se dedicou em desvendar o
fenômeno religioso. E, afirma: “a maior parte dos sociólogos que
estudam a religião, está em diálogo com Weber. Ela nos alerta que
a forma de se evitar equívocos de interpretação e entender melhor a obra
de Weber e sua sociologia da religião, em particular, é ter claro o que
ele queria dizer com dois conceitos básicos em sua obra - racionalidade
e processo de racionalização. Mas, para entender esses conceitos é
preciso conhecer também seus pressupostos sobre a história e a cultura.
A religião é estudada fundamentalmente como um campo plural de tensões e
possibilidades diversas.
Na sociologia da religião
weberiana, as noções de conflito de interesses, de valores, tipos
ideais, carisma, magia e os embates em busca da dominação são
centrais. A autora nos lembra ainda que apesar da aproximação de
Bourdieu com a teoria marxista, é este autor quem elabora o apêndice:
Uma interpretação da teoria da religião de Max Weber, em seu livro
A economia das trocas simbólicas.
Marcel Mauss é outro
clássico abordado e quem o apresenta é Renata Menezes (ISER/assessoria).
Segundo ela, talvez uma das maiores contribuições de Mauss seria quanto
ao tratamento dos fatos sociais como totais. Ao complexificar a
definição anterior estabelecida por Durkheim, a concepção de Mauss
possibilitaria um avanço na percepção da dinâmica e integração dos
vários domínios da vida social.
Renata Menezes destaca ainda
três importantes contribuições do considerado “pai da etnologia” na
França: a) ter viabilizado as condições institucionais e intelectuais
para a profissionalização do trabalho de campo; b) suas reflexões sobre
a troca e o contrato nas sociedades primitivas, que adquiriu importância
ao se tornar o ponto de partida nos debates sobre reciprocidade,
apresentados no texto intitulado Ensaio sobre a dádiva e c) o
tratamento dos fatos sociais como totais.
Destaca ainda Menezes, que
Mauss assumiu a “missão” de aplicar o método sociológico aos fenômenos
religiosos, por razões estratégicas. Nas palavras do próprio autor:
“foi por gosto filosófico e destinação consciente que, sob a indicação
de Durkheim, me especializei no estudo dos fatos religiosos e a eles me
consagrei para sempre, quase plenamente (....)
À Carlos Steil (UFGRS) cabe
revisitar à E.E. Evans Pritchard, um dos maiores autores da
antropologia social inglesa, reconhecido por associar de forma brilhante
teoria com descrição etnográfica. Steil destaca , sobretudo, seus
trabalhos realizados entre os azandes (Bruxaria, oráculos e magia
entre os azande) e os Nuer (A religião dos nuer), dois
estudos fundamentais sobre religião, consagrados na história da
antropologia.
Como sugere Geertz, a
pergunta que Evans Pritchard dirige à religião é: Como é possível que o
que suponhamos ser o fundamento da vida genuinamente humana possa não
existir em outras sociedade e mesmo assim essas sociedades existem
enquanto tal e se reproduzem?
Sua postura relativista
consiste explicitamente em buscar a lógica e a racionalidade que
práticas, sentimentos, idéias e valores possam ter no sistema social ou
religioso do nativo. Ou dito de outra forma, assim como as nossas
crenças e práticas fazem sentido dentro do sistema que organiza nossa
cultura e tradição, a deles o fazem dentro do seu próprio sistema.
Sua perspectiva inovadora
estava justamente na proposta de deslocamento que realiza para
analisar e compreender as práticas e os costumes do outro, o qual não
devia estar ancorado no sistema do antropólogo, mas no do próprio
nativo. Como destaca ainda Steil “possivelmente poucos
antropólogos na história da disciplina levaram tão a sério a questão da
alteridade quanto Evans-Pritchard e, para ele, a etnografia era
percebida como “fundamental para a apreensão dos sentidos e funções que
a religião adquire em qualquer sociedade em particular".
No sexto artigo, Leila
Amaral (UFJF) nos introduz ao pensamento do autor clássico menos
conhecido do público: Maurice Leenhardt. Em um contexto
pós-estruturalista cresce a importância da experiência de M. Leenhardt
como um modelo metodológico ainda válido, particularmente porque seu
compromisso com a pesquisa de campo levou-o a enfatizar a expressividade
e a mudança cultural, mais do que os conceitos normalmente utilizados
por outros antropólogos da época, como por exemplo, estrutura e sistema.
Da mesma forma privilegiou mais a experiência concreta do que a
formulação de leis formais. De acordo com Amaral, seus escritos
etnográficos foram resultado de uma etnografia concebida como “um
processo de autocompreensão através da compreensão do “outro”.
Seu livro mais conhecido
Do Kamo: La personne et lê mythe dans le monde mélanésien ainda não
foi traduzido para o português, assim como seus artigos. Mas, é
justamente neste livro que Leenhardt defende o papel vital do mito como
forma de circunscrever e dar expressão a certas formas essenciais
de experiências que vêm se apresentando; não apenas para o nativo mas
para toda a humanidade, desde seu início; como forças poderosas,
continuando a lhe inspirar, sempre e em toda parte, modos de expressão
estética e afetiva.
Denominando estas vivências
de experiência estética de participação, o autor as qualifica como
propriamente “religiosas e míticas” e, do seu ponto de vista, elas
não se exprimem nos termos da razão discursiva, seja por meio de
narração ou história. Elas são circunscritas através de dois modos de
expressões, contrapartes permanentes da racionalidade, reconhecidas por
Leenhardt como expressões afetivas: a) a “expressão estética, que é a
forma geral de percepção mítica e b) a palavra que é um modo de
expressão mítica.
A seguir, Pedro Ribeiro de
Oliveira (UCB) trata de um dos mais criativos pensadores das Ciências
Sociais contemporânea, Pierre Bourdieu e chama a atenção para um aspecto
aparentemente contraditório. Embora a Sociologia da Religião não
desempenhe um lugar central no conjunto de sua obra, o autor foi um de
seus melhores teóricos. Seu artigo sobre religião mais conhecido é
Gênese e estrutura do campo religioso.
Pedro de Oliveira destaca
a densidade do texto, com excelente base teórica e inúmeras sugestões
para a pesquisa mas alerta para a dificuldade de sua compreensão.
Entendendo a religião como
linguagem – sistema simbólico de comunicação e pensamento -, Bourdieu
informa que é enquanto sistema de pensamento que a religião interessa à
sociologia. Para a religião tudo que existe ou venha a existir tem
sentido porque se integra numa ordem cósmica. Um de seus maiores méritos
foi descartar a crítica iluminista da religião e apontar sua
especificidade – unir cada evento particular à ordem cósmica. Para
Bourdieu, a religião só é socialmente eficaz quando seus esquemas de
pensamento se inscrevem nas consciências individuais e nelas se
incorporam como se fossem naturais, transformando-se então em hábitos.
Oliveira menciona e discute
três conceitos que considera fundamentais no pensamento de Bourdieu para
compreensão do fenômeno religioso: o trabalho religioso e sua divisão, o
campo religioso e a relação entre especialistas e consumidores de bens
religiosos.
Clifford Geertz é o oitavo
clássico a ser discutido, cabendo a tarefa a Emerson Giumbelli(UFRJ) que
logo de início nos chama a atenção para o fato de que Geertz se dedicou
a uma variedade de temas e, no tocante à religião sua reflexões teóricas
tem por base as experiências de campo vividas na Indonésia e no
Marrocos.
Nos anos sessenta,
publicou dois livros sobre religião – A religião de Java, de 1960
e Observando o Islã de 1968, ambos ainda não traduzidos. O seu
livro mais célebre, aquele que influenciou, influencia e influenciará
ainda gerações, não somente de antropólogos, mas também de outros
estudiosos e intelectuais denomina-se A Interpretação das
culturas e, infelizmente só teve uma parte traduzida.
Para Geertz rituais, mitos,
magia e feitiçaria inseridos tanto em religiões tradicionais como em
religiões históricas, compõem as expressões concretas às quais se
aplica “uma análise do sistema de significados incorporado nos símbolos
que formam a religião”. Além disso, Emerson chama a atenção para o
fato de que Geertz concede um espaço para a dimensão psíquica e para a
individualidade que raramente é reconhecido no estudo da religião pelas
ciências sociais. A religião articula, a seu ver, duas dimensões (visão
de mundo e ethos) encontráveis em todo e qualquer grupo e de acordo com
as particularidades pelas quais cada uma das culturas se estabelece.
Assim, o que uma religião faz é operar uma convergência e mesmo uma
fusão entre essas duas dimensões, apoiando a validade de uma sobre a
autoridade da outra, e vice-versa.
De acordo com Giumbelli,
duas teorias são elaboradas por Geertz a partir de sua definição do que
seja a religião: a primeira centra-se em torno da noção de perspectiva
religiosa e de símbolos culturais e a segunda é nominalista porque
parte de uma definição prévia do que seja religião dentro do campo
circunscrito por um conjunto de realidades empíricas que se convencionou
chamar de religiosas.
A fim de tornar mais
compreensiva as implicações das teorias da religião encontradas em
Geertz, Emerson propõe que se veja sua aplicação no campo de
análise que ele próprio definiu quando estudou a trajetória
histórica do islã na Indonésia e no Marrocos.
Peter Berger é o penúltimo autor do livro e é visto pelo olhar do
organizador da coletânea, Faustino Teixeira (UFJF e Iser/assessoria),
que informa ao leitor que o interesse do pensador pela sociologia
da religião manifestou-se desde a sua tese de doutoramento.
As importantes reflexões que
Berger faz a propósito da natureza da realidade social, bem como suas
incursões no campo da sociologia estão presentes em várias de suas
obras. Mas é, sem dúvida, o seu texto escrito em parceria com
Thomas Luckmann, A construção social da realidade, que traduz
melhor sua concepção do processo dialético fundamental da sociedade,
definido por três momentos: externalização, objetivação e
internalização.
Para Berger a religião
consiste na “ousada tentativa de conceber o universo inteiro como
humanamente significativo". A religião exerce por isso, um importante
papel de integração das experiências anômicas, facultando um
significado para as crises biográficas. Entende ainda que há na
religião uma capacidade única de “situar os fenômenos humanos em um
quadro cósmico
de referência”.
A obra de Daniele
Hervieu-Léger, a única mulher considerada clássica, é o tema do
ensaio de Marcelo Camurça (UFJF)que encerra o livro. Ela que tem sido
uma das autoras mais lidas nos últimos anos, particularmente por aqueles
que estão interessados em discutir o movimento da Nova Era., uma vez que
tem se “dedicado à pesquisa e reflexão sobre o papel da religião na
modernidade em meio às suas transformações.
Conforme ressalta Camurça, a
religião para esta autora se define por meio da transmissão e
perpetuação da memória de um acontecimento fundador original através de
uma “linhagem religiosa” ou “linha de crença”: ou seja, para ela “uma
religião é um dispositivo ideológico, prático e simbólico pelo qual é
constituída, desenvolvida e controlada a consciência (individual e
coletiva) de pertença a uma linha de crença particular”.
A obra de
Hervieu-Léger traz como contribuição original para compreensão do
papel e das transformações da religião na modernidade, a perspectiva da
memória e de sua transmissão. Outro conceito fundamental de seus
trabalhos é a noção de desregulação do religioso, ou seja, do processo
de autonomização do indivíduo, que se produzirá na modernidade não
apenas a subjetividade religiosa do crente mas, fundamentalmente, a
dissociação dos elementos que compõem o dispositivo da produção de
identidade religiosa clássica.
Enfim, para a autora “o
problema principal para uma sociologia da modernidade é tentar
compreender conjuntamente o movimento pelo qual a modernidade continua a
solapar as estruturas de plausibilidade de todo sistema
religioso, e aquele pelo qual ela faz surgir, ao mesmo tempo, novas
formas de crer”.
Por fim, esta importante e
singular obra apresenta um conjunto de questões para a reflexão que
certamente irá contribuir para um público amplo refletir e renovar seus
interesses por um tema que vem apaixonando muitos através de vários
séculos.