Resenha (Edição nº 18)

"Sociologia da religião", por Sandra Carneiro (*) 

Dados do livro resenhado:
Título da obra:
Sociologia da religião - enfoques teóricos
Nome do autor:
Faustino Teixeira - organizador
Editora:
Vozes
Número de páginas:
270

Logo de início quero destacar a feliz seleção feita por Faustino Teixeira na organização do livro Sociologia da Religião. O livro é um convite para nos debruçarmos sobre os autores clássicos através de um "olhar específico": analisar suas contribuições e reflexões sobre o fenômeno religioso. A idéia base, embora não seja inovadora, têm vários méritos, entre eles, o de  oferecer a todos os interessados no tema, iniciados ou não, uma obra cujo resultado é bastante estimulante e possibilita a abertura de  novos horizontes de reflexão.  

Cada um dos pesquisadores convidados a integrar a coletânea tinha como projeto revisitar  um autor clássico das Ciências Sociais, sendo que a porta de entrada ao conjunto da obra e ao método utilizado deveria ser feito sob o ângulo da análise da religião.  Dentro desta perspectiva, os especialistas destacam os principais conceitos e as principais perspectivas adotadas pelos chamados clássicos, apresentando abordagens amplas e multifacetadas de uma temática que vem exigindo novas ressignificações. Cabe ainda  destacar, que após a apresentação da síntese crítica do pensamento de cada clássico, há sempre uma breve bibliografia e um pequeno texto do próprio autor,  que pode servir ao leitor interessado em aprofundar as questões tratadas.

O artigo de abertura é escrito por Ivo Lesbaupin (UFRJ e consultor do ISER/assessoria) que aborda a perspectiva do marxismo,  lembrando que é importante distinguir entre o que a tradição vulgarizada do marxismo nos transmitiu e o que efetivamente Marx e Engels pensaram sobre a religião.  Seu maior desafio é resgatar o pensamento originário  desses autores e inicia comentando os conceitos de alienação, ideologia e produção de bens materiais na obra de Marx.. Tece também comentários sobre a identificação que Engels faz entre o cristianismo primitivo com o socialismo, mostrando que esta comparação pode ser feita sob os seguintes pontos:  a origem social dos adeptos, a mensagem de libertação da servidão e da miséria, a perseguição de que foram objeto e seu sucesso histórico apesar desta perseguição.

Depois destas  apresentações,  Lesbaupin procura desenvolver a perspectiva aberta por outros teóricos marxistas como Rosa Luxemburgo e  Antônio Gramsci.   E, por último, se detém ainda nas tendências atuais do pensamento marxista, mostrando  que alguns intelectuais marxistas propõem uma nova teorização a respeito do fenômeno religioso, destacando as posições defendidas por Michele Bertrand, Michael Lowy e Lucien Goldman.

Pierre Sanchis (professor emérito da UFMG) nos convida a rever as contribuições de Durkheim, a partir da pergunta -  As questões tratadas pelo autor seriam atuais?  E,  quais seriam os traços mais relevantes da abordagem deste pioneiro com relação ao fenômeno religioso que considerava sui generis. Para Durkheim a religião não é somente um sistema de idéias, é antes de tudo um sistema de força, sua função é criar coesão. Sendo que a categoria fundante da religião seria a categoria do sagrado.

Segundo Sanchis, a afirmação de Durkheim é de que a religião é fato social, emerge do social, é signo do social – é  a que recebeu maior atenção de seus analistas. No entanto, do seu ponto de vista, normalmente ressalta-se menos o oposto dialético, fortemente afirmado por Durkheim, a de que à gênese societária da religião corresponde a gênese religiosa da sociedade.

Já Cecília Mariz (UERJ) apresenta a perspectiva de Max Weber.  Para ela, dentre os três autores considerados os fundadores da Sociologia – Marx, Durkheim e Weber, este último teria sido aquele que mais se dedicou em desvendar o fenômeno religioso.  E, afirma: “a maior parte dos sociólogos que estudam a religião, está em diálogo com Weber.  Ela nos alerta que a forma de se evitar equívocos de interpretação e entender melhor a obra de Weber e sua sociologia da religião, em particular, é ter claro o que ele queria dizer com dois conceitos básicos em sua obra - racionalidade e processo de racionalização.  Mas, para entender esses conceitos é preciso conhecer também seus pressupostos sobre a história e a cultura.  A religião é estudada fundamentalmente como um campo plural de tensões e possibilidades diversas.

Na sociologia da religião weberiana, as noções de conflito de interesses, de valores, tipos ideais,  carisma, magia e os embates em busca da dominação são centrais.  A autora nos lembra ainda que apesar da aproximação de Bourdieu com a teoria marxista, é este autor quem elabora o apêndice: Uma interpretação da teoria da religião de Max Weber, em seu livro A economia das trocas simbólicas.

Marcel Mauss é outro clássico abordado e quem o apresenta é Renata Menezes (ISER/assessoria).  Segundo ela, talvez uma das maiores contribuições de Mauss seria quanto ao tratamento dos fatos sociais como totais.  Ao complexificar a definição anterior estabelecida por Durkheim, a concepção de Mauss possibilitaria um avanço na percepção da dinâmica e integração dos vários domínios da vida social.

Renata Menezes destaca ainda  três importantes contribuições do considerado “pai da etnologia” na França: a) ter viabilizado as condições institucionais e intelectuais para a profissionalização do trabalho de campo; b) suas reflexões sobre a troca e o contrato nas sociedades primitivas, que adquiriu importância ao se tornar o ponto de partida nos debates sobre reciprocidade, apresentados no texto intitulado Ensaio sobre a dádiva e c) o tratamento dos fatos sociais como totais.

Destaca ainda Menezes, que Mauss assumiu a “missão” de aplicar o método sociológico aos fenômenos religiosos, por razões estratégicas. Nas palavras do próprio autor:  “foi por gosto filosófico e destinação consciente que, sob a indicação de Durkheim, me especializei no estudo dos fatos religiosos e a eles me consagrei para sempre, quase plenamente (....)

À Carlos Steil (UFGRS) cabe revisitar à  E.E. Evans Pritchard, um dos maiores autores da antropologia social inglesa, reconhecido por associar de forma brilhante teoria com descrição etnográfica. Steil destaca , sobretudo, seus trabalhos realizados entre os azandes (Bruxaria, oráculos e magia entre os azande) e os Nuer (A religião dos nuer), dois estudos fundamentais sobre religião, consagrados na história da antropologia.

Como sugere Geertz, a pergunta que Evans Pritchard dirige à religião é: Como é possível que o que suponhamos ser o fundamento da vida genuinamente humana possa não existir em outras sociedade e mesmo assim essas sociedades existem enquanto tal e se reproduzem?

Sua postura relativista consiste explicitamente em buscar a lógica e a racionalidade que práticas, sentimentos, idéias e valores possam ter no sistema social ou religioso do nativo. Ou dito de outra forma, assim como as nossas crenças e práticas fazem sentido dentro do sistema que organiza nossa cultura e tradição, a deles o fazem dentro do seu próprio sistema.

Sua perspectiva inovadora estava justamente na proposta de  deslocamento que realiza para analisar e compreender as práticas e os costumes do outro, o qual não devia estar ancorado no sistema do antropólogo, mas no do próprio nativo.  Como destaca ainda Steil “possivelmente poucos antropólogos na história da disciplina levaram tão a sério a questão da alteridade quanto Evans-Pritchard e, para ele, a etnografia era percebida como “fundamental para a apreensão dos sentidos e funções que a religião adquire em qualquer sociedade em particular".

No sexto artigo, Leila Amaral (UFJF) nos introduz ao pensamento do autor clássico menos conhecido do público: Maurice Leenhardt. Em um contexto pós-estruturalista cresce a importância da experiência de M. Leenhardt como um modelo metodológico ainda válido, particularmente porque seu compromisso com a pesquisa de campo levou-o a enfatizar a expressividade e a mudança cultural, mais do que os conceitos normalmente utilizados por outros antropólogos da época, como por exemplo, estrutura e sistema.  Da mesma forma privilegiou mais a experiência concreta do que a formulação de leis formais. De acordo com Amaral, seus escritos etnográficos foram resultado de uma etnografia concebida como “um processo de autocompreensão através da compreensão do “outro”.

Seu livro mais conhecido Do Kamo: La personne et lê mythe dans le monde mélanésien ainda não foi traduzido para o português, assim como seus artigos. Mas, é justamente neste livro que Leenhardt defende o papel vital do mito como forma de circunscrever e dar  expressão a certas formas essenciais de experiências que vêm se apresentando; não apenas para o nativo mas para toda a humanidade, desde seu início; como forças poderosas, continuando a lhe inspirar, sempre e em toda parte, modos de expressão estética e afetiva.

Denominando estas vivências de experiência estética de participação, o autor as qualifica como propriamente “religiosas e míticas”  e, do seu ponto de vista, elas não se exprimem nos termos da razão discursiva, seja por meio de narração ou história.  Elas são circunscritas através de dois modos de expressões, contrapartes permanentes da racionalidade, reconhecidas por Leenhardt como expressões afetivas: a) a “expressão estética, que é a forma geral de percepção mítica e b) a palavra que é um modo de expressão mítica.

A seguir, Pedro Ribeiro de Oliveira (UCB) trata de um dos mais criativos pensadores das Ciências Sociais contemporânea, Pierre Bourdieu e chama a atenção para um aspecto aparentemente contraditório. Embora a Sociologia da Religião não desempenhe um lugar central no conjunto de sua obra, o autor foi um de seus melhores teóricos.  Seu artigo sobre religião mais conhecido é Gênese e estrutura do campo religioso.           

Pedro de Oliveira destaca  a densidade do texto, com excelente base teórica e inúmeras sugestões para a pesquisa mas alerta para a dificuldade de sua compreensão.            

Entendendo a religião como linguagem – sistema simbólico de comunicação e pensamento -, Bourdieu informa que é enquanto sistema de pensamento que a religião interessa à sociologia.  Para a religião tudo que existe ou venha a existir tem sentido porque se integra numa ordem cósmica. Um de seus maiores méritos foi descartar a crítica iluminista da religião e apontar sua especificidade – unir cada evento particular à ordem cósmica.  Para Bourdieu, a religião só é socialmente eficaz quando seus esquemas de pensamento se inscrevem nas consciências individuais e nelas se incorporam como se fossem naturais, transformando-se então em hábitos.           

Oliveira menciona e discute três conceitos que considera fundamentais no pensamento de Bourdieu para compreensão do fenômeno religioso: o trabalho religioso e sua divisão, o campo religioso e a relação entre especialistas e consumidores de bens religiosos.           

Clifford Geertz é o oitavo clássico a ser discutido, cabendo a tarefa a Emerson Giumbelli(UFRJ) que logo de início nos chama a atenção para o fato de que Geertz se dedicou a uma variedade de temas e, no tocante à religião sua reflexões teóricas tem por base as experiências de campo vividas na Indonésia e no Marrocos.           

Nos anos  sessenta,  publicou dois livros sobre religião – A religião de Java, de 1960 e Observando o Islã de 1968, ambos ainda não traduzidos. O seu livro mais célebre, aquele que influenciou, influencia e influenciará ainda gerações, não somente de antropólogos, mas também de outros estudiosos e intelectuais denomina-se A Interpretação das culturas e, infelizmente só teve uma parte traduzida.

Para Geertz rituais, mitos, magia e feitiçaria inseridos tanto em religiões tradicionais como em religiões históricas, compõem as expressões concretas  às quais se aplica “uma análise do sistema de significados incorporado nos símbolos que formam a religião”. Além disso,  Emerson chama a atenção para o fato de que Geertz concede um espaço para a dimensão psíquica e para a individualidade que raramente é reconhecido no estudo da religião pelas ciências sociais. A religião articula, a seu ver, duas dimensões (visão de mundo e ethos) encontráveis em todo e qualquer grupo e de acordo com as particularidades pelas quais cada uma das culturas se estabelece.  Assim, o que uma religião faz é operar uma convergência e mesmo uma fusão entre essas duas dimensões, apoiando a validade de uma sobre a autoridade da outra, e vice-versa.
                                                                          

De acordo com Giumbelli, duas teorias são elaboradas por Geertz a partir de sua definição do que seja a religião: a primeira centra-se em torno da noção de perspectiva religiosa e de símbolos culturais e a segunda  é nominalista porque parte de uma definição prévia do que seja religião dentro do campo circunscrito por um conjunto de realidades empíricas que se convencionou chamar de religiosas.

A fim de tornar mais compreensiva as implicações das teorias da religião encontradas em Geertz,  Emerson propõe que se veja sua aplicação no campo de análise que ele próprio definiu quando estudou a trajetória  histórica do islã na Indonésia e no Marrocos.

Peter Berger é o penúltimo autor do livro e é visto pelo olhar do organizador da coletânea, Faustino Teixeira (UFJF e Iser/assessoria), que informa ao leitor que  o interesse do pensador pela sociologia da religião manifestou-se desde a sua tese de doutoramento.

As importantes reflexões que Berger faz a propósito da natureza da realidade social, bem como suas incursões no campo da sociologia estão presentes em várias de suas obras.  Mas é, sem dúvida, o seu texto escrito em parceria com Thomas Luckmann, A construção social da realidade, que traduz melhor sua concepção do processo dialético fundamental da sociedade, definido por três momentos: externalização, objetivação e internalização.           

Para Berger a religião consiste na “ousada tentativa de conceber o universo inteiro como humanamente significativo". A religião exerce por isso, um importante papel de integração  das experiências anômicas, facultando um significado para as crises biográficas.  Entende ainda que há na religião uma capacidade única de “situar os fenômenos humanos em um quadro cósmico de referência”.

A obra de Daniele Hervieu-Léger, a única  mulher considerada clássica, é o tema do ensaio de Marcelo Camurça (UFJF)que encerra o livro.  Ela que tem sido uma das autoras mais lidas nos últimos anos, particularmente por aqueles que estão interessados em discutir o movimento da Nova Era., uma vez que tem se “dedicado à pesquisa e reflexão sobre o papel da religião na modernidade em meio às suas transformações.

Conforme ressalta Camurça, a religião para esta autora se define por meio da transmissão e perpetuação da memória de um acontecimento fundador original através de uma “linhagem religiosa” ou “linha de crença”: ou seja, para ela “uma religião é um dispositivo ideológico, prático e simbólico pelo qual é constituída, desenvolvida e controlada a consciência (individual e coletiva) de pertença a uma linha de crença particular”.                              

A obra de  Hervieu-Léger traz  como contribuição original para compreensão do papel e das transformações da religião na modernidade, a perspectiva da memória e de sua transmissão. Outro conceito fundamental de seus trabalhos é a noção de desregulação do religioso, ou seja, do processo de autonomização do indivíduo, que se produzirá  na modernidade não apenas a subjetividade religiosa do crente mas, fundamentalmente, a dissociação dos elementos que compõem o dispositivo da produção de identidade religiosa clássica.                    

Enfim, para a autora “o problema principal para uma sociologia da modernidade é tentar compreender conjuntamente o movimento pelo qual a modernidade continua a solapar as estruturas  de  plausibilidade de todo sistema religioso, e aquele pelo qual ela faz surgir, ao mesmo tempo, novas formas de crer”.  

Por fim, esta importante e singular obra apresenta um conjunto de questões para a reflexão que certamente irá contribuir para um público amplo refletir e renovar seus interesses por um tema que vem apaixonando muitos através de vários séculos.


(*) Sandra Carneiro é doutora em Ciências Humanas(Antropologia) pelo IFCS-UFRJ e professora do Departamento de Ciências Sociais da UERJ.


 

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