"Violência e estilos de masculinidade",
por Patrícia Farias
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Dados
do livro resenhado:
Título da obra: Violência e estilos de masculinidade
Nome do autor: Fátima Regina Cecchetto
Editora: Fundação Getúlio Vargas
Número de páginas: 248 |
Fruto de uma pesquisa para
tese de doutoramento em 2002 pelo Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/UERJ), o livro
Violência e estilos de masculinidade, da antropóloga Fátima
Cecchetto, chega agora às livrarias. E não poderia vir em momento mais
adequado. Afinal, um estudo que reúne temas candentes, como violência,
juventudes e masculinidades, a partir de três contextos diversos – entre
as galeras funk, entre os jovens lutadores de jiu-jítsu e entre os
adeptos do ritmo charme – sem dúvida contribui para aprofundar as
discussões sobre os crescentes conflitos urbanos entre jovens homens
sobre o qual lemos diariamente nos noticiários.
Este novo trabalho, de cunho
etnográfico, na verdade soma-se à linha de continuidade dos estudos
anteriores da autora. Já no mestrado – também no IMS e também sob a
orientação segura e experiente de Alba Zaluar - Fátima Cecchetto,
atualmente pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, se dedicou ao estudo
da violência urbana entre jovens - naquela ocasião, apenas entre aqueles
membros das camadas populares adeptos do estilo funk. Privilegiou
naquele momento a pesquisa com galeras “de briga”, ou seja, aquelas que
navegavam, segundo as palavras da autora, “entre o lúdico e o violento”,
indo a bailes e provocando conflitos com os grupos rivais. Tendo
percebido a proeminência do “ethos guerreiro” – a disposição para atacar
e aniquilar o inimigo que já Norbert Elias apontava em seus estudos – no
perfil da masculinidade dominante “nativa”, o trabalho de Cecchetto que
agora vem a público tratou justamente de ampliar o foco da discussão,
privilegiando a investigação sobre as formas de construção do masculino
entre os jovens, desta vez incluindo também jovens de camadas
médias.
Fátima Cecchetto não
abandonou, porém, o campo do lazer como pano de fundo para esta nova
discussão. Segue o caminho, nesta direção, dos trabalhos pioneiros de
Norbert Elias e Eric Dunning, que encaram o lazer e particularmente o
esporte como modalidades onde o processo civilizador, de domesticação do
“ethos guerreiro” acima citado, se realiza, num processo de longa
duração, fazendo com que compreendamos a dimensão fortemente emocional e
excitante que lazer e esporte adquirem nas sociedades complexas.
Mas se no trabalho anterior
Cecchetto se detinha no contexto de um estilo musical juvenil
globalizado, popular no Brasil, como é o funk, agora o estudo abarca
também os contextos de um esporte de cunho competitivo – o jiu-jítsu – e
de outro estilo musical, de mesma origem norte-americana, também
praticada pelas camadas populares no Brasil, que é o charme. Mais que
estilos puramente musicais, porém, trata-se de reconhecer a existência
do que a autora costuma chamar de “circuito”, ou seja, aquela rede que
abrange formas específicas de comportamento, de consumo de moda e de
atividades que vão desde os dançarinos, os produtores dos bailes e os
agentes de gravadoras, passando pelas relações com as outras gerações,
com a polícia, com outros jovens e com organizações criminosas. Assim,
cada uma destas modalidades de lazer compreende basicamente o que Pierre
Bourdieu chamaria de “campo”, ou seja, uma correlação de forças
posicionadas de determinada maneira dentro do contexto de uma atividade
específica.
Gênero e masculinidade
No entanto, embora aborde de
forma ampla cada um dos contextos de pesquisa, Fátima Ceccheto centrou o
foco nos jovens homens que performatizam as práticas, tentando perceber
como estas práticas informam e estão informadas de certas noções do que
é ser homem e de como a violência pode ou não ser um fator determinante
para estas noções. Para este propósito, se dedica a mapear o universo
teórico dos estudos de gênero, e, dentro dele, as pesquisas sobre
masculinidade. Neste sentido, parte da definição já clássica de Joan
Scott para gênero – aquela categoria analítica que aponta para relações
sociais entre indivíduos de sexo biológico diferente – para
complementá-la com os achados teóricos de Ortner e Whitehead, onde o
gênero é entendido como um sistema classificatório que implica em
relações de poder e dominação, na direção weberiana dos
termos.
Pontuada sua concepção de
gênero, Cecchetto parte então para uma discussão do estado da arte dos
estudos sobre masculinidade. Estes estudos partem do entendimento de que
a construção do que é feminino e do que é masculino têm suas
especificidades, embora se insiram numa configuração mais ampla e sejam
categorias relacionais. Com uma bibliografia rica de referências,
particularmente no que diz respeito ao ambiente acadêmico
norte-americano, onde pesquisas sobre o tema atualmente florescem em
grande número, a pesquisadora brasileira vai buscar firmar suas bases de
compreensão do fenômeno através de alguns conceitos chave. Assim, as
masculinidades serão estudadas nos três contextos de campo escolhidos a
partir da desnaturalização biológica, da dimensão variegada, e não fixa,
que adquirem nas práticas sociais, e da sua relacionalidade.
Desconstruir qualquer
resquício de herança biológica no caráter que assume a masculinidade em
determinado contexto, frisando-a como construto cultural, portanto, é um
primeiro passo – mas não o único. É preciso também entender o masculino
como algo plural, como a construção de diversos estilos de ser homem,
que variam mesmo no interior dos grupos em análise. Nesta perspectiva, é
claro, está implicado o que Kimmel chama de homossocialidade masculina,
ou seja, da relação, inclusive hierárquica, entre homens e
masculinidades num determinado contexto social. Assim, entre os
funkeiros, Fátima revela a distinção radical entre os “buchas” e os
“disposição”, isto é, entre aqueles que engrossam a galera, mas não
conseguem ganhar as disputas; e aqueles outros que demonstram sua sanha
em lutar e vencer o oponente a qualquer preço – formas, portanto, de
masculinidade características do mesmo grupo e que se relacionam entre
si a partir de uma hierarquia específica, em que os “disposição” são
tidos como líderes da galera e os “buchas”, subordinados em posição
inferior.
Do mesmo modo, Fátima
encontra entre os lutadores o chamado “casca grossa”, com o corpo
experiente moldado nas lutas dentro e fora dos tatames; e o neófito,
recém-iniciado no esporte e ainda reticente quanto ao comando dos
mestres. No “mundo do charme”, a pesquisadora irá lidar com modelo bem
distinto de masculinidade, onde a valoração e hierarquia entre estilos
de masculinidade se estabelecerão não entre jovens homens mais ou menos
fortes, ou violentos, mas entre corpos com mais ou menos “elegância” e
destreza na dança e na conquista amorosa.
Neste sentido, é importante
dentro de seu estudo sinalizar a relevância de trabalhos como o de
Miguel Vale de Almeida e suas considerações sobre masculinidades
hegemônica e subalterna, onde se supõe que em determinado contexto
haveria que se lidar com um modelo dominante de masculinidade local, e
outras, que a ela se subordinam, ou com ela dialogam sempre. Nos casos
estudados, ressalte-se o papel da violência como eixo construtor das
masculinidades hegemônicas das galeras e dos lutadores - seja ela uma
violência “domesticada” pelas regras do esporte definido por seus
praticantes como “a arte suave”, o jiu-jítsu; ou então uma violência
onde impulsividade, cálculo e força caminham juntos, como no funk. Para
lidar com este componente fundamental de duas das masculinidades
estudadas, Cecchetto recusa de antemão a idéia de uma suposta natureza
masculina atavicamente violenta, no caminho já trilhado por Norbert
Elias e Eric Dunning em seus estudos sobre o esporte e a excitação a ele
relacionada. A partir desta recusa, a autora consegue desconstruir
também a relação por vezes naturalizada em certos discursos políticos
e/ou acadêmicos, entre pobreza e violência. Afinal, tanto charmeiros
como funkeiros são em grande parte membros das camadas populares. Nem
por isso optam pelas mesmas escolhas, pois no modelo alternativo de
masculinidade do charme, a violência não parece estar à frente do
cenário, sendo, pelo contrário, julgada negativamente pelos partícipes
deste grupo. O que se procura, entre os dançarinos, é impressionar pelo
controle e maleabilidade corporal no contexto da dança e da interação
entre os gêneros.
No entanto, um aspecto
central permanece em destaque na construção da masculinidade entre os
três grupos: a modelação de um corpo específico, através da música ou de
esporte. Outra questão que perpassa os grupos é uma relação entre
gêneros baseada na dominação, mais uma vez, lembrando aqui o conceito
weberiano, que tem como base a noção de legitimidade. Assim, seja ela
uma dominação pela demonstração da própria força ou pulsão para a
violência, seja ela uma dominação elegante, como no caso dos charmeiros,
o que se quer é fixar e legitimar uma posição superior na hierarquia de
gênero, garantindo ainda a conquista amorosa. Daí inclusive a
invisibilidade das “marias-tatame”, das “cachorras” e das “tchutchucas”,
ou das charmeiras, nos três contextos, já que o foco das atenções, tanto
no jiu-jítsu, como no mundo funk e no charme, segue sendo
masculino.
No esforço de dar conta de
três contextos de pesquisa tão diversos, a pesquisadora lançou mão do
caminho qualitativo, através de dois alicerces: as entrevistas em
profundidade com 31 personagens ligados a estes contextos; e uma
etnografia cuidadosa, onde enfrentou inclusive riscos pessoais, ligados
à instabilidade dos conflitos no funk e à, digamos, expressividade dos
lutadores na explicação à entrevistadora dos golpes e contragolpes
pertinentes a seu esporte.
Esta, porém, foi uma
dificuldade pouco sentida no resultado final do trabalho; o que
sobressai é, antes, a vocação para a pesquisa de campo que demonstra a
antropóloga, na melhor tradição da disciplina, que a faz optar por tão
extensa e complexa tarefa, e realizá-la de forma tão cuidadosa, que vai
desde o acompanhamento dos informantes nas vésperas do baile, na praia e
em outros ambientes, apenas para observá-los mais acuradamente, até a
matrícula numa academia para sofrer e entender no próprio corpo as
pancadas e os golpes. Neste ponto, seu trabalho chega a lembrar o de
Loïc Wacquant nas academias de boxe, com o diferencial significativo de
se tratar de uma pesquisadora mulher num contexto masculino – fato que
Fátima Cecchetto não se eximirá de apontar como aspecto importante nas
interações com seus entrevistados, e que por si só demandaria novas e
mais aprofundadas pesquisas.
Nota-se, enfim, um
bem-sucedido esforço de mapear a construção das masculinidades entre
funkeiros, charmeiros e lutadores, e também dos bailes, academias e
territórios outros onde se realizam as suas práticas. Além disso, porém,
a própria autora confessa ainda na introdução do trabalho que se
colocara também um projeto ainda mais ambicioso – fazê-los dialogar,
compará-los, ouvir o que uns tinham a dizer sobre os outros. Nesta
última direção, no entanto, a pesquisa está longe de se esgotar, pois a
própria complexidade e amplitude do empreendimento suscitam novas
questões, sugerindo novas pesquisas e maior aprofundamento dos temas
envolvidos nesta comparação. Desta forma, a par de ser uma fascinante
contribuição para os estudos de masculinidade no país, o trabalho de
Fátima Cecchetto serve também como base e estímulo para outras pesquisas
de um campo de estudos tão pertinente e fértil num contexto como o
atual, onde violência, juventude e masculinidade estabeleceram relações
perigosamente íntimas.