"Antropologia Cultural",
por Simone Dubeux Carneiro da Cunha
(*)
Dados
do livro resenhado:
Título da obra:
Antropologia Cultural
Nome do autor: Franz Boas
Organizador: Celso Castro
Editora: Zahar
Número de páginas: 109
A O antropólogo Franz Boas
nasceu na pequena cidade prussiana de Minden (Vestfália) em 1858, em uma
família de comerciantes judeus. Aos vinte e cinco anos partiu para uma
expedição na qual durante um ano conviveu com os esquimós em uma ilha.
Boas obteve informações a partir dessa viagem sobre distribuição e
mobilidade entre os esquimós, suas rotas de comunicação e a história de
suas migrações. “Essa experiência pode ser vista como o primeiro momento
de um longo ritual de passagem que o levaria da geografia à
antropologia” afirma o antropólogo Celso Castro, organizador da
coletânea. Nesta obra, podemos acompanhar a trajetória de Boas, assim
como obter informações de trabalhos do e sobre o autor.
Boas trabalhou na
catalogação de coleções etnográficas. Ele viajou para os Estados Unidos
em 1886 e participou de uma expedição de dois meses e meio à província
Canadense de British Columbia onde visitou, entre outras tribos, a dos
Kwakiutl Os principais objetivos de Boas com essa expedição foram
estudar línguas e mitos nativos e reunir objetos para coleções
museológicas.
Em 1887 ele vai residir nos
Estados Unidos. Nove anos depois é contratado para trabalhar na
curadoria das coleções etnológicas do American Museun of Natural History,
em Nova York. É nesta ocasião em que começa a trabalhar como professor
em tempo parcial na Universidade de Columbia. Entre seus alunos estavam
A. L. Kroeber, Margareth Mead, Ruth Benedict e Melville Herskovits.
Dentre as suas obras
destacam-se o Handbook of North American Languages (1911), The Mind of
Primitive Man (1911), Primitive Art (1927), Anthropology and Modern Life
(1928).
A coletânea- intitulada
Antropologia Cultural- , agora publicada no Brasil, reúne cinco artigos:
As limitações do método comparativo (1896); Os métodos da etnologia
(1920); Alguns problemas de metodologia nas ciências sociais (1930);
Raça e Progresso (1931); e Os objetivos da pesquisa antropológica
(1932). Estes textos foram publicados em Race, Language and Culture,
obra organizada por Boas em 1940.
Ao realizar esta leitura,
nos damos conta de como a vasta obra de Boas, um dos autores
fundamentais da antropologia, foi esquecida pelos editores. Este é o
primeiro livro publicado no Brasil. O esforço empreendido por Celso
Castro ao organizar e traduzir esta coletânea é positivo em vários
sentidos. Ela nos mostra a contribuição metodológica de Boas à
antropologia cultural.
Em sua apresentação à obra,
Castro narra a trajetória desse homem, físico e geógrafo, que se tornou
uma “referência clássica” à antropologia. Através de seu relato
acompanhamos a vida desse autor, que foi destituído da sua condição de
membro do conselho da American Anthropological Association, quando em
1919, denunciou no jornal The Nation a atuação de antropólogos que agiam
como espiões do governo dos Estados Unidos no México. É perseguido por
ser judeu, seus livros são queimados em 1938 quando a universidade foi
invadida pelas SS nazistas.
Ao comentar a importância
dos artigos, o antropólogo Gilberto Velho diz : “trata-se de um livro
que será de grande utilidade não só pela importância dos textos na
história da antropologia mas, sobretudo, como um conjunto de reflexões
de grande atualidade para a ciência social contemporânea” (grifo nosso).
Em 1906 procurou convencer,
sem sucesso, alguns milionários a financiar a construção de um African
Institute. Em 1931 em seu artigo "Raça e Progresso", Boas mantém sua
preocupação com a questão racial e diz: “Permitam-me chamar atenção para
os aspectos científicos de um problema que há muito tem agitado nosso
país e que, pelas suas implicações sociais e econômicas, tem suscitado
fortes reações emocionais e produzido diversos tipos de lei. Refiro-me
aos problemas surgidos com a mistura de tipos raciais”. E continua: “Os
estudos etnológicos não se preocupam com a raça como um fator na forma
cultural. Desde Waitz, passando por Spencer, Tylor e Bastian, até nossos
dias, os etnólogos não têm dado séria atenção à raça, pois eles
encontram formas culturais distribuídas independentemente dela”. Ele
utiliza categorias como “consciência racial” e “antipatia racial”. O
autor trava uma discussão com Artur Keith, antropólogo escocês, que fora
presidente do Royal Anthropological Institute e da British Association
for the Advancement of Science, então reitor da universidade de Aberdeen
e o desafia a provar que a antipatia racial é “implantada pela
natureza”, mostrando que, ao contrário, as antipatias são fenômenos
sociais.
É importante lembrar a
influência que Boas exerceu sobre a obra de Gilberto Freyre, que chegou
a acompanhar dois cursos do antropólogo na Universidade de Columbia.
Para finalizar é importante
salientar que Boas produziu mais de quinhentos artigos, nos quais lidou
com um vasto campo, desde a antropologia física até a lingüística,
trabalhando com mitos e folclore. É fundamental reconhecer a importância
dessa publicação pela editora Zahar e, ao mesmo tempo, destacar que
ainda há uma grande lacuna a ser preenchida em relação a tradução de sua
obra.