"Jornadas
urbanas – exclusão, trabalho e subjetividade nas viagens de ônibus na
cidade do Rio de Janeiro",
por
Isabel Travancas
(*)
Dados
do livro resenhado:
Título da obra:
“Jornadas urbanas – exclusão, trabalho e subjetividade nas viagens de
ônibus na cidade do Rio de Janeiro”
Nome da autora: Janice Caiafa
Editora: Fundação Getúlio Vargas
Número de páginas: 184
A antropóloga Janice Caiafa
escreveu um livro que é literalmente uma “viagem”. Ela mergulhou no
universo do transporte urbano na cidade do Rio de Janeiro de peito
aberto e com muita contundência. Autora de O movimento punk na cidade(Zahar,
1985), resultado de sua dissertação de mestrado, Caiafa é doutora em
Antropologia pela Universidade de Cornell-EUA, professora da Escola de
Comunicação da UFRJ, além de poeta.
O objetivo do trabalho de
Caiafa foi estudar as viagens de ônibus na cidade do Rio de Janeiro,
descrevendo aspectos importantes dos percursos. A pesquisa incorporou
uma etnografia com muitas entrevistas com motoristas, trocadores,
inspetores e usuários dos ônibus e o diário de campo da pesquisadora. No
Rio de Janeiro, segundo a autora, há 47 empresas privadas, com uma frota
de mais de 7000 carros atendendo mensalmente a mais de 85 milhões de
passageiros, em inúmeras as linhas que transitam pela cidade. Para
viabilizar o trabalho, a pesquisa realizada de 1996 a 2000, se concentra
em algumas delas.
A dispersão é para a
pesquisadora a força mais marcante da cidade e o transporte coletivo
realiza esse papel. Transporte coletivo que além de possibilitar a fuga,
promove a mistura. A vida urbana se caracteriza pela complexidade e
diversidade. As opções em todas as áreas se multiplicam em relação à
zona rural. As atividades profissionais, as opções de lazer, as formas
de sociabilidade e relações afetivas, os espaços geográficos assim como
as maneiras de circular por ele se ampliaram muito. Não poder se mover
é não poder usufruir de uma das principais características da vida
urbana. E as sociedades vão fazendo escolhas em relação a essa
circulação. Caiafa enfatiza a questão da privatização do espaço público
vivido nas principais cidades brasileiras e nas quais os transporte
coletivo é um dos melhores símbolos. Comparando com a cidade de Nova
Iorque, que diferentemente do restante dos Estados Unidos não baniu as
calçadas, reduziu os ônibus, predominando as autovias para os veículos
privados; o Rio de Janeiro apresenta uma ênfase no transporte
individual. E esta opção pelo automóvel, símbolo do mundo capitalista,
não se dá por acaso. Como bem demonstrou neste livro e em outros
trabalhos, Caiafa afirma como é possível verificar esta escolha pelo
público no espaço urbano, a partir de pequenos detalhes: na criação de
áreas públicas como jardins e praças no centro das cidades ao invés de
transformá-las em grandes estacionamentos, na valorização do pedestre
através das calçadas; na definição do tempo adequado para atravessar as
ruas, com sinais que não obrigam o transeunte a correr; no fato de o
transporte coletivo ser público e não privado. Em Nova Iorque ele é um
serviço do Estado e não fonte de lucro para as empresas. Este ponto é a
espinha dorsal de “Jornadas Urbanas”.
Ao se aproximar dos
motoristas de ônibus acompanhando e entendendo suas penosas jornadas de
trabalho, fica evidente a de exploração da mão de obra. Exploração esta
que é específica do negócio do transporte de ônibus na cidade e tem um
papel fundamental no transcurso diário das viagens. A antropóloga
constatou que essa exploração é também subjetiva e afeta rodoviários e
passageiros. Entendendo aqui subjetividade como algo que se engendra
coletivamente, ainda que vivida individualmente. A autora esmiuça os
detalhes e principalmente a relação com o tempo, ou melhor sua medição,
elemento determinante do lucro dos proprietários das empresas e da
violência vivida por rodoviários e passageiros. Buscando compreender a
premissa que afirma que os motoristas dos ônibus cariocas correm como
loucos, Caiafa analisa o que está muitas vezes por trás da correria e da
loucura. O produto vendido pelas empresas de transporte é a mudança de
lugar. E só existe produto e lucro se os passageiros entram e pagam
pelos seus lugares no ônibus. Carro que circula vazio é perda de
dinheiro. Não é à toa, como bem nota a pesquisadora, que se dimensiona a
frota pelo horário de menor demanda e não pelo horário de pico. Para o
capitalista obter lucro é preciso que um número de passagens seja
vendido num tempo certo. E há muitos detalhes e percalços neste
percurso, que podem reduzir o lucro. Gasto de combustível, desgaste do
veículo, congestionamentos, acidentes, tempo de embarque e desembarque.
É a partir destes dois fatores –tempo e número de passageiros – que se
estabelece um esquema muito estrito para motoristas e cobradores, com
definição pela empresa de um tempo mínimo ou tempo limite. E os fiscais
e inspetores têm como função controlar se este horário está sendo
cumprido a risca. Muitas vezes, como fica evidente na pesquisa, seja
através da observação participante, seja através das entrevistas, o
tempo do descanso do rodoviário, entre a chegada e a partida não existe.
Ele muitas vezes não consegue ir ao banheiro ou beber água. Sem falar na
falta de instalações para isso nos pontos finais, o que também não
acontece por acaso. Só há uma cabine para o despachante. Não é à toa
que os motoristas usam a expressão “virar redondo” para definir uma
viagem seguida da outra, sem intervalo para nada. Em uma cidade onde o
calor é intenso no verão, pode se imaginar o que isso significa em
termos de condições de trabalho. Um cobrador chega a comentar que muitas
vezes o motorista desrespeita o tempo mínimo estabelecido e corre muito
para poder ficar parado descansando alguns minutos antes do ponto. Vale
notar que os minutos são preciosos e conferidos com precisão, como
salientou Caiafa ao afirmar que há “uma contabilidade do segundo”. Esse
aproveitamento minucioso do tempo é a marca da exploração presente neste
negócio. Há muitos riscos para as empresas, que nem por isso se tornam
menos lucrativas. É portanto apenas sobre a força de trabalho que o
capitalista pode exercer seu controle.
Controle que não está
restrito apenas ao tempo, mas às passagens pagas. Vários entrevistados
afirmam que nem todas a empresas exigem um número definido de passagens,
mas há sempre um número desejável. Entretanto, o calote incide sobre o
cobrador. Em linhas onde há muito calote, o cobrador fica espremido
entre a pressão da empresa e ameaça dos caloteiros. Isso ajuda a
entender o dilema vivido no ônibus. Aquele que não quer pagar a passagem
tem poder sobre o cobrador, ameaçando-o explicitamente ou não. O
trabalhador fica “marcado”. Está sempre na mesma linha e é fácil saber
seu horário. Assim, muitos assaltantes pegam a “carona da paz”. Carona
esta que pode livrar os rodoviários da violência, mas não os
passageiros. Portanto, como demonstrou a antropóloga, o cobrador faz
vista grossa ou finge que não vê muita coisa. Como quando ela mesma foi
vítima de um assalto dentro do ônibus estando sentada ao lado do
cobrador. Ao final da violência, inquiriu-o sobre o fato de não ter se
manifestado. Ao que ele declarou que não tinha visto. Para a
pesquisadora, atitudes como esta, tomadas não apenas por quem está
trabalhando no transporte, mas também pelos passageiros, são fruto de
uma situação que exige que se assuma uma atitude de completa indiferença
pelo outro. E esta posição de “cada um por si” é também uma forma de
violência. Isso porque o espaço do ônibus não dá garantia para ninguém.
Há estratégias para se evitar algum tipo de violência, como estar sempre
atento e não sentar separado do restante dos passageiros.
E se “o motorista é o homem
dos minutos, o cobrador é o homem dos centavos”, como enfatiza Caiafa e
cada um está submetido a um tipo de controle. O cobrador tem que pagar
ao patrão cada centavo que faltar, seja de assalto, calote ou erro. Os
depoimentos comprovam que não há negociação em relação a isso. O que o
leva muitas vezes a “descontar” no usuário, dando troco errado
propositalmente. Isso só acentua o clima de desconfiança entre ele e o
passageiro.
Ainda que o tom do seu
trabalho seja de denúncia da violência presente nesta engrenagem, Caiafa
ressalta que há linhas de ônibus onde acontece uma interação entre
rodoviários e passageiros, nas quais se chega a preparar festas de
aniversário e as relações se dão num clima de pessoalidade e
camaradagem.
Em “Jornadas Urbanas”,
Janice Caiafa estabelece um profícuo diálogo com autores como Gilles
Deleuze, Félix Guattari e Karl Marx com o intuito de penetrar neste
universo, ao mesmo tempo tão presente e tão desconhecido dos habitantes
dos grandes centros urbanos. Ainda que procure compreender o sistema
cruel sob o qual vivem motoristas e trocadores, em nenhum momento vemos
a antropóloga justificar a violência que estes provocam. Como quando, ao
comentar os diversos problemas de saúde que os motoristas enfrentam como
doenças nos ossos, nos olhos, pêlos queimados das pernas e estresse, ela
afirma: “Com a mutilação do corpo, há uma linha de produção de
subjetividade em que as faculdades psíquicas são manipuladas e
configurações subjetivas se produzem. Tudo isso emerge, por exemplo, nas
atitudes que o motorista assume durante as viagens. Não parar para os
idosos, frear bruscamente, impor aos passageiros uma viagem penosa são
atitudes complexas que não se explicam mas se apóiam na situação que ele
enfrenta com uma materialidade agressiva ou uma máquina de que ele é uma
engrenagem e que está tentando devorá-lo. É como se ele nos fizesse
conhecer o seu inferno nos fazendo ingressar no movimento da máquina.”
Janice Caiafa produziu uma
reflexão profunda sobre as viagens de ônibus na cidade do Rio de
Janeiro, trazendo para o leitor a dureza da rotina destes trabalhadores,
a tensão dos usuários, as categorias profissionais envolvidas neste
sistema de transporte e seus significados, as expressões nativas que
definem motoristas, passageiros e suas jornadas, sem deixar de
carregá-la de humanismo e de poesia.