Resenha (Edição nº 14)

"'Negro não entra na igreja: espia da banda de fora' - protestantismo e escravidão no Brasil Império", por Márcia Leitão Pinheiro (*) 

Dados do livro resenhado:
Título da obra: "Negro não entra na igreja: espia da banda de fora" – protestantismo e escravidão no Brasil Império 
Nome do autor: José Carlos Barbosa
Editora: Unimep
Número de páginas: 221


Em tempos de expansão do protestantismo, um estudo oferece um panorama sobre a instalação dessa vertente cristã no Brasil e a relação com a escravidão no país. A ênfase recai no século XIX, permitindo-nos visualizar que pouco se fala sobre as relações encetadas e as idéias defendidas por partidários da Reforma no Brasil. Trata-se de um trabalho que apresenta elementos da história das religiões e do país, mas que timidamente abordamos no cotidiano.

O livro "Negro não entra na igreja: espia da banda de fora", cujo título é uma referência a Silvio Romero e sua visão acerca do lugar atribuído ao negro na sociedade brasileira e nas igrejas protestantes, está dividido em três capítulos dedicados à análise da implantação, à estratégia e à posição protestante diante da escravidão, sendo que a organização em subcapítulos permite explorar fontes diversas, demonstrando que o começo da implantação do protestantismo não foi tarefa de fácil realização. A leitura do livro indica que Barbosa explorou as contradições, as tensões e as complexidades que permearam as relações entre os pastores, a imprensa religiosa e os interesses políticos e econômicos da elite dominante. Destaca também que o protestantismo se caracterizou pela ausência de confrontos diretos - fosse com o catolicismo, com a dimensão política, ou com a esfera jurídica e seu suporte à religião oficial - com o objetivo de assegurar a permanência dos missionários no Brasil. Esses visavam a implantação e consolidação de uma nova fé, tendo por estratégia a organização de escolas, de jornais e a realização de proselitismo.

No primeiro capítulo, intitulado Jardim 'feixado' onde não pode entrar animal daninho, fragmento do livro de Luiz Gonçalves dos Santos, de 1837, padre radical que defendia a primazia da Igreja Católica; as fontes privilegiadas são os diários de viajantes, cartas, material de imprensa e reflexões de políticos e religiosos, possibilitando a Barbosa destacar as distinções do serviço religioso protestante empreendido no Brasil, como contemplou a escravidão e as dificuldades enfrentadas. O autor apresenta o trabalho missionário, sendo o primeiro período caracterizado pela vigência do serviço de capelania e voltado ao imigrante. O momento seguinte foi demarcado pela atuação entre os brasileiros católicos. Os protestantes chegados ao Brasil entendiam haver a necessidade de ação com cautela em solo nacional, pois os ultramontanos, representados por padre Perereca, os vigiavam, e combatiam sua presença e trabalho no país; a oposição entre católicos e protestantes era significativa com representantes religiosos destacando os elementos negativos dos dois grupos religiosos. Diante dessa tensão, Barbosa apresenta o desafio para os missionários de conquistar o país devido à religiosidade católica, sustentada constitucionalmente e muito presente na vida cotidiana. A saída seria, apesar das distinções internas entre as denominações, o estabelecimento de uma estratégia comum, com base na sustentação de uma unidade teológica, expressa na adoção de um livro de hinos.

Sobre os missionários, Barbosa provoca uma inquietação por levar o leitor a constatar seu desconhecimento sobre os agentes religiosos responsáveis pela fundação das igrejas protestantes. Pouco se sabe quem eram, suas orientações políticas, seus posicionamentos diante de questões políticas como, por exemplo, a escravidão. Porém no livro vemos que a maioria dos missionários era de origem norte-americana, defensores do liberalismo, da democracia, da educação incondicional, da liberdade de pensar e da separação entre Estado e Igreja. Diante isso, o trabalho missionário, em seu desenvolvimento no Brasil, apresentou contradições pois não teve como características a contestação social e a atuação nos problemas políticos nacionais. A atividade desenvolvida não esteve voltada às mudanças da ordem social nem ao questionamento da desigualdade social como um problema dessa vida e não pertinente ao fim dos tempos. Os missionários mantiveram-se distantes das questões políticas, porém indicando que os novos convertidos poderiam libertar os escravos sob seu domínio.

No segundo capítulo Estratégia missionária, a ênfase é dada ao ensino empreendido pelas denominações evangélicas interessadas em transformar a sociedade. A importância dada a ela revela que os partidários da Reforma tinham o projeto de conquistar mais que do o espírito dos brasileiros. A alfabetização asseguraria a alteração da mentalidade ao transplantar para o Brasil uma educação voltada ao individualismo, ao pragmatismo e ao liberalismo. É possível acessar um lado do empreendimento educacional protestante ao ver que os filhos de brasileiros não estavam interessados no aspecto religioso, mas na educação pragmática e, portanto, distinta daquela vigente nas escolas ministradas por sacerdotes católicos. Barbosa indica que o saber apregoado pelos missionários era visto como elemento fundamental à transformação pessoal e social, não podendo ficar restrito à elite. Ao dar à educação um caráter abrangente, os missionários entendiam que ela deveria também ser direcionada aos negros nascidos depois da promulgação da Lei do Ventre Livre, impedindo que se tornassem seres perigosos. Tratava-se de um projeto civilizatório que, para os agentes envolvidos, resguardaria a sociedade dos filhos de escravos livres vistos como possuidores de "perigos vitaes", como apontava o editor de um jornal protestante, em 1881.

Ao utilizar material de imprensa, Barbosa reconstrói o debate que evidenciava a oposição entre catolicismo e protestantismo e seus traços peculiares. Diante da reação católica à presença de protestantes no país, os missionários e pastores brasileiros desenvolveram polêmicas distintas com o catolicismo, apontando as falhas da igreja romana pelo distanciamento do conhecimento bíblico. Ao observar esse aspecto pode ocorrer de o leitor tomar a objeção protestante ao catolicismo como algo único, porém o autor demonstra as distinções no interior do protestantismo e os níveis de oposição ao catolicismo. Para Barbosa, os protestantes estrangeiros tiveram uma postura mais branda enquanto os pastores brasileiros criticaram os padres de modo mais agressivo. O autor também evidencia os interesses dos missionários estrangeiros em agir cautelosamente com a finalidade de não provocar a esfera política e o risco de deportação, recebendo apoio de suas denominações, entendedoras da necessidade de atuação em uma sociedade sem liberdade religiosa. Já os pastores brasileiros recebiam atenção significativa por parte de vigilantes católicos, pois vistos como apóstatas e defensores de uma outra fé eram tratados de maneira diferenciada. Então, a abordagem apresenta traços instigantes ao mostrar que as tensões não estavam restritas ao antagonismo entre católicos e protestantes; indo mais além, aponta para a reserva adotada pelas igrejas protestantes em relação aos pastores brasileiros que, muitas vezes, recebiam parco apoio e espaço para explanação. Isso se daria devido à crítica acirrada que exercitavam, provocando os pastores estrangeiros que sugeriam cautela às lideranças, pois consideravam as exposições de pastores brasileiros comprometedoras por provocar perseguições e colocar em risco o projeto de implantação das igrejas cristãs reformadas.

No terceiro capítulo A mensagem institucional protestante e a questão da escravidão, a partir da manipulação de material de imprensa, produzido pelas esferas religiosa e política, documentos da Igreja Metodista e os construídos por políticos ao redor da discussão sobre a libertação do negro, Barbosa apresenta a relação entre as igrejas protestantes e a escravidão. A densidade da leitura está em perceber a posição contraditória adotada pelas denominações protestantes diante da escravidão praticada nos Estados Unidos, qual o peso que teve nos projetos imigrantistas, realizados após a guerra civil norte-americana, e como isso influenciou os missionários que atuaram no Brasil, destacando a visão que passaram a ter sobre a escravidão e o negro e qual o diálogo estabelecido com os ideais abolicionistas.

O autor encaminha sua análise focalizando as denominações e suas ações no sul dos Estados Unidos, pois essa foi a região de origem de parte dos missionários que atuaram no Brasil. Barbosa focaliza o anglicanismo em vigor nos Estados Unidos, já no século XVII, diante do trabalho escravo pois, com a incorporação, o labor passou a ter sentido diferenciado. Ao se beneficiar com a escravidão, os anglicanos fracamente evangelizaram os negros, pois não cabia em seu credo religioso, explorar o trabalho de um igual; nesse sentido, a igualdade estaria definida a partir do professar uma mesma fé. Tal situação levaria o converso à liberdade, ocorrendo, caso o proselitismo fosse presente entre os negros, um problema de grande monta para os senhores. A condução dessa exposição é fundamental para demonstrar a tensão posterior entre missionários e senhores de escravos.

Para falar sobre a proteção dos interesses dos beneficiados pela escravidão, Barbosa utiliza documentos produzidos por missionários e centra sua análise na Igreja Metodista. Ele revela oposições e negociações que envolviam a atuação religiosa e os interesses econômicos, demonstrando as mudanças de posição dos missionários e as alterações ocorridas no sul dos Estados Unidos com a conversão de negros. A Igreja Metodista assumira posição anti-escravista, baseada no Concílio de Baltimore, de 1780, proibindo aos metodistas a posse de escravos, sob pena de expulsão. Também o revivalismo religioso, ocorrido no sul, possibilitou o surgimento de diversos negros pastores, podendo-se dizer que, em fins do século XVIII, havia mais de 12.000 negros metodistas. Todavia, o cenário alterou-se, registrando-se, no século XIX, um recrudescimento diante da escravidão, ocorrendo modificações no trabalho missionário metodista, deixando de ser valorizado o discurso emancipacionista; isso se deu devido à presença de senhores nas igrejas que, aos poucos, assumiram a direção delas. Diante da situação, o trabalho missionário mudou para que não deixasse de ser realizado entre os escravos, conforme a pressão dos senhores. A fim de evitar o encerramento dessa atividade, a liderança metodista propôs que a salvação espiritual do escravo, e não a sua liberdade e igualdade físicas, passasse a ser enfatizada, fazendo coro com os interesses dos senhores. Essa diretriz passou a ser corrente também nas demais igrejas.

A instalação de um novo processo produtivo, baseado no contrato, levou à abertura do Brasil a diversos grupos de imigrantes, oriundos de partes da Europa, em detrimento do índio e do negro, vistos como preguiçosos e perigosos, respectivamente. Além dos europeus, havia um empreendimento visando à imigração norte-americana que agradou aos representantes do protestantismo nacional e de conservadores norte-americanos. Barbosa sublinha a complexidade da presença protestante no país, pois parte dos missionários estrangeiros era contra a escravidão, mas não se manifestava visivelmente e, por outro lado, apoiava a imigração de sulistas norte-americanos. O autor constrói sua exposição trazendo a polêmica estabelecida com partidários da emancipação do trabalho escravo como, por exemplo, Quintino Bocayuva que destacava a libertação e criticava a presença dos sulistas favoráveis à economia baseada na proteção à grande propriedade e no uso do trabalho escravo. Portanto, apesar de a escravidão ser reprovada por missionários, eles consentiram na imigração norte-americana que, para os abolicionistas, levaria à manutenção de um sistema cada vez mais contestado pelo senso de justiça da época. Mesmo diante de manifestações contrárias, os norte-americanos dirigiram-se para o Pará e também para o Rio de Janeiro e São Paulo, sendo o grupo formado por religiosos, militares, pequenos proprietários rurais e alguns latifundiários, animados pela possibilidade de vigência de propriedade monocultora e escravocrata.

Apesar de alguns missionários serem adeptos do abolicionismo, o que marcou o trabalho protestante no Brasil foi a indiferença em relação à escravidão e à situação do negro na sociedade. Isso fica bem expresso no suporte dado à imigração de sulistas norte-americanos. O autor afirma que poucas referências ou exposições eram realizadas nos veículos de comunicação das denominações como, por exemplo, houve, por parte de um dos líderes, a manifestação acerca da situação de crianças, principalmente filhos de escravos, deixadas no "asilo dos expostos" ou "casa da roda". No mais, os posicionamentos sobre o tema defendiam a liberdade do espírito e não a do corpo, mesmo quando a sociedade brasileira estava mobilizada ao redor do fim da escravidão. Entre as igrejas atuantes no Brasil ficava aberto aos dirigentes estabelecer a atuação de seus membros e incentivar a libertação dos negros mantidos sob seus domínios.

Barbosa também focaliza a imprensa do século XIX que é a base sobre a qual oferece um quadro pertinente à participação dos protestantes no debate e ao posicionamento diante das leis que contemplavam da escravidão. Isso coloca elementos significativos à compreensão que tinham sobre o negro e a escravidão - sem esquecer a circulação entre os protestantes da noção de escravidão, haja vista que era compreendida como elemento fundamental para que os homens brancos exercitassem a grandeza da libertação. Além de pequenos jornais, com edições quinzenais ou mensais, Barbosa destaca os jornais "Imprensa Evangélica", da Igreja Presbiteriana, fundado em 1864, e "O Novo Mundo", editado em Nova Iorque, em fins da década de 1860, com a finalidade de ilustrar o distanciamento do debate sobre a emancipação dos negros. Por volta de 1880, a abolição da escravidão passa a ser contemplada por esses veículos através de artigos, comentários e reprodução de matérias de outros jornais. O artifício utilizado pelos editores foi o de publicar reflexões de terceiros como, por exemplo, Joaquim Nabuco e cartas de C.Benedito Ottoni enviadas ao Centro Abolicionista. Barbosa sublinha que em "Imprensa Evangélica" o destaque estava na imigração, em apontar a incompatibilidade entre a escravidão e a justiça cristã e em criticar as leis surgidas até o momento. Em "O Novo Mundo", cujo editor era favorável à imigração de americanos sulistas, ocorreu a divulgação da situação dos Estados Unidos, após a guerra civil, com vistas a demonstrar o progresso do país, principalmente no sul, com o fim da escravidão. O tema abordado foi o da emancipação, ocorrendo o diálogo com os senhores de escravos, alertando-os sobre a proximidade de um novo momento com a escravidão que findava. Nesse sentido, o negro estava ausente de seu espaço comunicacional, sendo que a escravidão era tida como um mal a prejudicar à nação, e o seu encerramento incorreria em colocar o país em direção ao progresso. O fim da escravidão instalaria uma nova etapa, cujo início seria demarcado pela abdicação do escravo e de seu trabalho à medida que a nação o compraria e com isso não haveria prejuízos para o senhor, que passaria a investir no trabalho livre e racional; figurando, assim, os grandes proprietários e senhores de escravos como o principal pilar na construção do Brasil. Com isso, o país seria a grande nação livre do mal, da irracionalidade e, por sua vez, associado à verdadeira religião de inspiração bíblica.

Por fim, Barbosa demonstra que o protestantismo guardava profunda correspondência com os interesses daqueles que detinham o domínio na sociedade e isso era visível na imprensa protestante. Sem trazer a lume a opinião dos leitores, Barbosa aponta que a imprensa protestante teria eleito os senhores de terras e de escravos como interlocutores, sendo que o negro não era contemplado como agente histórico da mudança. Para o autor, a reflexão protestante sobre o negro foi desenvolvida no sentido de indicar que o escravo deveria ser resgatado, regenerado e educado de acordo com o ensino e a moral protestantes, tornando-o humilde, afastando o perigo da revolta ou da falta de labor, pois sem conhecimento religioso não alcançaria o estatuto de homem produtivo e não teria participação na vida social. O trabalho de Barbosa é uma contribuição à reflexão das negociações realizadas pelos protestantes, visíveis na imprensa, voltadas a quebrar a primazia da Igreja Católica e a assegurar aos grupos protestantes um lugar na sociedade brasileira. Portanto, a imprensa foi peça-chave na propaganda da defesa da democracia, do individualismo, do trabalho livre, da educação irrestrita, associando-os à nova religiosidade que seria o caminho para a construção de uma nação livre e moderna.


(*) Márcia Leitão Pinheiro é doutoranda no Programa de Pós Graduação em Sociologia e Antropologia do IFCS – UFRJ.

 


 

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