"'Negro não
entra na igreja: espia da banda de fora' - protestantismo e escravidão
no Brasil Império",
por Márcia
Leitão Pinheiro
(*)
Dados
do livro resenhado:
Título da obra:
"Negro não entra na igreja: espia da banda de fora" –
protestantismo e escravidão no Brasil Império
Nome do autor: José Carlos Barbosa
Editora: Unimep
Número de páginas: 221
Em tempos de expansão do protestantismo, um estudo oferece um panorama
sobre a instalação dessa vertente cristã no Brasil e a relação com
a escravidão no país. A ênfase recai no século XIX, permitindo-nos
visualizar que pouco se fala sobre as relações encetadas e as idéias
defendidas por partidários da Reforma no Brasil. Trata-se de um
trabalho que apresenta elementos da história das religiões e do país,
mas que timidamente abordamos no cotidiano.
O livro
"Negro não entra na igreja: espia da banda de fora", cujo
título é uma referência a Silvio Romero e sua visão acerca do lugar
atribuído ao negro na sociedade brasileira e nas igrejas protestantes,
está dividido em três capítulos dedicados à análise da
implantação, à estratégia e à posição protestante diante da
escravidão, sendo que a organização em subcapítulos permite explorar
fontes diversas, demonstrando que o começo da implantação do
protestantismo não foi tarefa de fácil realização. A leitura do
livro indica que Barbosa explorou as contradições, as tensões e as
complexidades que permearam as relações entre os pastores, a imprensa
religiosa e os interesses políticos e econômicos da elite dominante.
Destaca também que o protestantismo se caracterizou pela ausência de
confrontos diretos - fosse com o catolicismo, com a dimensão política,
ou com a esfera jurídica e seu suporte à religião oficial - com o
objetivo de assegurar a permanência dos missionários no Brasil. Esses
visavam a implantação e consolidação de uma nova fé, tendo por
estratégia a organização de escolas, de jornais e a realização de
proselitismo.
No
primeiro capítulo, intitulado Jardim 'feixado' onde não pode entrar
animal daninho, fragmento do livro de Luiz Gonçalves dos Santos, de
1837, padre radical que defendia a primazia da Igreja Católica;
as fontes privilegiadas são os diários de viajantes, cartas, material
de imprensa e reflexões de políticos e religiosos, possibilitando a
Barbosa destacar as distinções do serviço religioso protestante
empreendido no Brasil, como contemplou a escravidão e as dificuldades
enfrentadas. O autor apresenta o trabalho missionário, sendo o primeiro
período caracterizado pela vigência do serviço de capelania e voltado
ao imigrante. O momento seguinte foi demarcado pela atuação
entre os brasileiros católicos. Os protestantes chegados ao Brasil
entendiam haver a necessidade de ação com cautela em solo nacional,
pois os ultramontanos, representados por padre Perereca, os vigiavam, e
combatiam sua presença e trabalho no país; a oposição entre
católicos e protestantes era significativa com representantes
religiosos destacando os elementos negativos dos dois grupos religiosos.
Diante dessa tensão, Barbosa apresenta o desafio para os missionários
de conquistar o país devido à religiosidade católica, sustentada
constitucionalmente e muito presente na vida cotidiana. A saída
seria, apesar das distinções internas entre as denominações, o
estabelecimento de uma estratégia comum, com base na sustentação de
uma unidade teológica, expressa na adoção de um livro de hinos.
Sobre os
missionários, Barbosa provoca uma inquietação por levar o leitor a
constatar seu desconhecimento sobre os agentes religiosos responsáveis
pela fundação das igrejas protestantes. Pouco se sabe quem eram, suas
orientações políticas, seus posicionamentos diante de questões
políticas como, por exemplo, a escravidão. Porém no livro
vemos que a maioria dos missionários era de origem norte-americana,
defensores do liberalismo, da democracia, da educação incondicional,
da liberdade de pensar e da separação entre Estado e Igreja. Diante
isso, o trabalho missionário, em seu desenvolvimento no Brasil,
apresentou contradições pois não teve como características a
contestação social e a atuação nos problemas políticos nacionais.
A atividade desenvolvida não esteve voltada às mudanças da ordem
social nem ao questionamento da desigualdade social como um problema
dessa vida e não pertinente ao fim dos tempos. Os missionários
mantiveram-se distantes das questões políticas, porém indicando que
os novos convertidos poderiam libertar os escravos sob seu domínio.
No
segundo capítulo Estratégia missionária, a ênfase é dada ao
ensino empreendido pelas denominações evangélicas interessadas em
transformar a sociedade. A importância dada a ela revela que os
partidários da Reforma tinham o projeto de conquistar mais que do o
espírito dos brasileiros. A alfabetização asseguraria a alteração
da mentalidade ao transplantar para o Brasil uma educação voltada ao
individualismo, ao pragmatismo e ao liberalismo. É possível acessar um
lado do empreendimento educacional protestante ao ver que os filhos de
brasileiros não estavam interessados no aspecto religioso, mas na
educação pragmática e, portanto, distinta daquela vigente nas escolas
ministradas por sacerdotes católicos. Barbosa indica que o saber
apregoado pelos missionários era visto como elemento fundamental à
transformação pessoal e social, não podendo ficar restrito à elite.
Ao dar à educação um caráter abrangente, os missionários entendiam
que ela deveria também ser direcionada aos negros nascidos depois da
promulgação da Lei do Ventre Livre, impedindo que se tornassem seres
perigosos. Tratava-se de um projeto civilizatório que, para os agentes
envolvidos, resguardaria a sociedade dos filhos de escravos livres
vistos como possuidores de "perigos vitaes", como apontava o
editor de um jornal protestante, em 1881.
Ao
utilizar material de imprensa, Barbosa reconstrói o debate que
evidenciava a oposição entre catolicismo e protestantismo e seus
traços peculiares. Diante da reação católica à presença de
protestantes no país, os missionários e pastores brasileiros
desenvolveram polêmicas distintas com o catolicismo, apontando as
falhas da igreja romana pelo distanciamento do conhecimento bíblico. Ao
observar esse aspecto pode ocorrer de o leitor tomar a objeção
protestante ao catolicismo como algo único, porém o autor demonstra as
distinções no interior do protestantismo e os níveis de oposição ao
catolicismo. Para Barbosa, os protestantes estrangeiros tiveram uma
postura mais branda enquanto os pastores brasileiros
criticaram os padres de modo mais agressivo. O autor também evidencia
os interesses dos missionários estrangeiros em agir cautelosamente com
a finalidade de não provocar a esfera política e o risco de
deportação, recebendo apoio de suas denominações, entendedoras da
necessidade de atuação em uma sociedade sem liberdade religiosa. Já
os pastores brasileiros recebiam atenção significativa por parte de
vigilantes católicos, pois vistos como apóstatas e defensores de uma
outra fé eram tratados de maneira diferenciada. Então, a abordagem
apresenta traços instigantes ao mostrar que as tensões não estavam
restritas ao antagonismo entre católicos e protestantes; indo mais
além, aponta para a reserva adotada pelas igrejas protestantes em
relação aos pastores brasileiros que, muitas vezes, recebiam parco
apoio e espaço para explanação. Isso se daria devido à
crítica acirrada que exercitavam, provocando os pastores estrangeiros
que sugeriam cautela às lideranças, pois consideravam as exposições
de pastores brasileiros comprometedoras por provocar perseguições e
colocar em risco o projeto de implantação das igrejas cristãs
reformadas.
No
terceiro capítulo A mensagem institucional protestante e a questão
da escravidão, a partir da manipulação de material de imprensa,
produzido pelas esferas religiosa e política, documentos da Igreja
Metodista e os construídos por políticos ao redor da discussão sobre
a libertação do negro, Barbosa apresenta a relação entre as igrejas
protestantes e a escravidão. A densidade da leitura está em perceber a
posição contraditória adotada pelas denominações protestantes
diante da escravidão praticada nos Estados Unidos, qual o peso que teve
nos projetos imigrantistas, realizados após a guerra civil
norte-americana, e como isso influenciou os missionários que atuaram no
Brasil, destacando a visão que passaram a ter sobre a escravidão e o
negro e qual o diálogo estabelecido com os ideais abolicionistas.
O autor
encaminha sua análise focalizando as denominações e suas ações no
sul dos Estados Unidos, pois essa foi a região de origem de parte dos
missionários que atuaram no Brasil. Barbosa focaliza o anglicanismo em
vigor nos Estados Unidos, já no século XVII, diante do trabalho
escravo pois, com a incorporação, o labor passou a ter sentido
diferenciado. Ao se beneficiar com a escravidão, os anglicanos
fracamente evangelizaram os negros, pois não cabia em seu credo
religioso, explorar o trabalho de um igual; nesse sentido, a igualdade
estaria definida a partir do professar uma mesma fé. Tal situação
levaria o converso à liberdade, ocorrendo, caso o proselitismo fosse
presente entre os negros, um problema de grande monta para os senhores.
A condução dessa exposição é fundamental para demonstrar a tensão
posterior entre missionários e senhores de escravos.
Para
falar sobre a proteção dos interesses dos beneficiados pela
escravidão, Barbosa utiliza documentos produzidos por missionários e
centra sua análise na Igreja Metodista. Ele revela oposições e
negociações que envolviam a atuação religiosa e os interesses
econômicos, demonstrando as mudanças de posição dos missionários e
as alterações ocorridas no sul dos Estados Unidos com a conversão de
negros. A Igreja Metodista assumira posição anti-escravista, baseada
no Concílio de Baltimore, de 1780, proibindo aos metodistas a posse de
escravos, sob pena de expulsão. Também o revivalismo religioso,
ocorrido no sul, possibilitou o surgimento de diversos negros pastores,
podendo-se dizer que, em fins do século XVIII, havia mais de 12.000
negros metodistas. Todavia, o cenário alterou-se, registrando-se, no
século XIX, um recrudescimento diante da escravidão, ocorrendo
modificações no trabalho missionário metodista, deixando de ser
valorizado o discurso emancipacionista; isso se deu devido à presença
de senhores nas igrejas que, aos poucos, assumiram a direção delas.
Diante da situação, o trabalho missionário mudou para que não
deixasse de ser realizado entre os escravos, conforme a pressão dos
senhores. A fim de evitar o encerramento dessa atividade, a liderança
metodista propôs que a salvação espiritual do escravo, e não
a sua liberdade e igualdade físicas, passasse a ser enfatizada, fazendo
coro com os interesses dos senhores. Essa diretriz passou a ser corrente
também nas demais igrejas.
A
instalação de um novo processo produtivo, baseado no contrato, levou
à abertura do Brasil a diversos grupos de imigrantes, oriundos de
partes da Europa, em detrimento do índio e do negro, vistos como
preguiçosos e perigosos, respectivamente. Além dos europeus, havia um
empreendimento visando à imigração norte-americana que agradou aos
representantes do protestantismo nacional e de conservadores
norte-americanos. Barbosa sublinha a complexidade da presença
protestante no país, pois parte dos missionários estrangeiros era
contra a escravidão, mas não se manifestava visivelmente e, por outro
lado, apoiava a imigração de sulistas norte-americanos. O autor
constrói sua exposição trazendo a polêmica estabelecida com
partidários da emancipação do trabalho escravo como, por exemplo,
Quintino Bocayuva que destacava a libertação e criticava a presença
dos sulistas favoráveis à economia baseada na proteção à grande
propriedade e no uso do trabalho escravo. Portanto, apesar de a
escravidão ser reprovada por missionários, eles consentiram na
imigração norte-americana que, para os abolicionistas, levaria à
manutenção de um sistema cada vez mais contestado pelo senso de
justiça da época. Mesmo diante de manifestações contrárias, os
norte-americanos dirigiram-se para o Pará e também para o Rio de
Janeiro e São Paulo, sendo o grupo formado por religiosos, militares,
pequenos proprietários rurais e alguns latifundiários, animados pela
possibilidade de vigência de propriedade monocultora e escravocrata.
Apesar de
alguns missionários serem adeptos do abolicionismo, o que marcou o
trabalho protestante no Brasil foi a indiferença em relação à
escravidão e à situação do negro na sociedade. Isso fica bem
expresso no suporte dado à imigração de sulistas norte-americanos. O
autor afirma que poucas referências ou exposições eram realizadas nos
veículos de comunicação das denominações como, por exemplo, houve,
por parte de um dos líderes, a manifestação acerca da situação de
crianças, principalmente filhos de escravos, deixadas no "asilo
dos expostos" ou "casa da roda". No mais, os
posicionamentos sobre o tema defendiam a liberdade do espírito e não a
do corpo, mesmo quando a sociedade brasileira estava mobilizada ao redor
do fim da escravidão. Entre as igrejas atuantes no Brasil ficava aberto
aos dirigentes estabelecer a atuação de seus membros e incentivar a
libertação dos negros mantidos sob seus domínios.
Barbosa
também focaliza a imprensa do século XIX que é a base sobre a qual
oferece um quadro pertinente à participação dos protestantes no
debate e ao posicionamento diante das leis que contemplavam da
escravidão. Isso coloca elementos significativos à compreensão que
tinham sobre o negro e a escravidão - sem esquecer a circulação entre
os protestantes da noção de escravidão, haja vista que era
compreendida como elemento fundamental para que os homens brancos
exercitassem a grandeza da libertação. Além de pequenos jornais, com
edições quinzenais ou mensais, Barbosa destaca os jornais
"Imprensa Evangélica", da Igreja Presbiteriana, fundado em
1864, e "O Novo Mundo", editado em Nova Iorque, em fins da
década de 1860, com a finalidade de ilustrar o distanciamento do debate
sobre a emancipação dos negros. Por volta de 1880, a abolição da
escravidão passa a ser contemplada por esses veículos através de
artigos, comentários e reprodução de matérias de outros jornais. O
artifício utilizado pelos editores foi o de publicar reflexões de
terceiros como, por exemplo, Joaquim Nabuco e cartas de C.Benedito
Ottoni enviadas ao Centro Abolicionista. Barbosa sublinha que em
"Imprensa Evangélica" o destaque estava na imigração, em
apontar a incompatibilidade entre a escravidão e a justiça cristã e
em criticar as leis surgidas até o momento. Em "O Novo
Mundo", cujo editor era favorável à imigração de americanos
sulistas, ocorreu a divulgação da situação dos Estados Unidos, após
a guerra civil, com vistas a demonstrar o progresso do país,
principalmente no sul, com o fim da escravidão. O tema abordado
foi o da emancipação, ocorrendo o diálogo com os senhores de
escravos, alertando-os sobre a proximidade de um novo momento com a
escravidão que findava. Nesse sentido, o negro estava ausente de seu
espaço comunicacional, sendo que a escravidão era tida como um mal a
prejudicar à nação, e o seu encerramento incorreria em colocar o
país em direção ao progresso. O fim da escravidão instalaria uma
nova etapa, cujo início seria demarcado pela abdicação do escravo e
de seu trabalho à medida que a nação o compraria e com isso não
haveria prejuízos para o senhor, que passaria a investir no trabalho
livre e racional; figurando, assim, os grandes proprietários e
senhores de escravos como o principal pilar na construção do Brasil.
Com isso, o país seria a grande nação livre do mal, da
irracionalidade e, por sua vez, associado à verdadeira religião de
inspiração bíblica.
Por fim,
Barbosa demonstra que o protestantismo guardava profunda
correspondência com os interesses daqueles que detinham o domínio na
sociedade e isso era visível na imprensa protestante. Sem trazer a lume
a opinião dos leitores, Barbosa aponta que a imprensa protestante teria
eleito os senhores de terras e de escravos como interlocutores, sendo
que o negro não era contemplado como agente histórico da mudança.
Para o autor, a reflexão protestante sobre o negro foi desenvolvida no
sentido de indicar que o escravo deveria ser resgatado, regenerado e
educado de acordo com o ensino e a moral protestantes, tornando-o
humilde, afastando o perigo da revolta ou da falta de labor, pois sem
conhecimento religioso não alcançaria o estatuto de homem produtivo e
não teria participação na vida social. O trabalho de Barbosa é uma
contribuição à reflexão das negociações realizadas pelos
protestantes, visíveis na imprensa, voltadas a quebrar a primazia da
Igreja Católica e a assegurar aos grupos protestantes um lugar na
sociedade brasileira. Portanto, a imprensa foi peça-chave na propaganda
da defesa da democracia, do individualismo, do trabalho livre, da
educação irrestrita, associando-os à nova religiosidade que
seria o caminho para a construção de uma nação livre e moderna.