“Nu
& Vestido: dez antropólogos revelam a cultura do corpo
carioca”, por Cláudia Pereira (*)
Dados
do livro resenhado:
Título da obra: Nu e vestido: dez antropólogos revelam a
cultura do corpo carioca
Nome do organizador: Mirian Goldenberg
Editora: Record
Número de páginas: 414 |
Amanhece no Rio de Janeiro. O sol que surge no horizonte, redondo e
quente, reluz nas curvas bem trabalhadas do verde carioca:
montanhas, pedras e morros saem aos poucos da sombra para mostrar-se
aos olhos do mundo. A cidade maravilhosa contempla-se no espelho d´água
de um mar imenso e agradece a Deus, todos os dias, por ter nascido tão
bela.
Quem
nasce numa cidade assim já vem ao mundo com um sentimento de obrigação:
o de se integrar à paisagem. Cumprindo com sua parte, já que a
outra só a Deus cabe ajuda, os cariocas acordam cedo e invadem o
espaço urbano com suas malhas e lycras coloridas. Logo,
logo, estarão andando, correndo, pedalando, “malhando”, e o
suor escorrerá pelos seus corpos, cada um no seu estilo. Outros
despertam ainda mais cedo e saem do outro lado do Corcovado em busca
do pão de cada dia. Misturados, todos os cariocas se esbarram no
corre-corre da cidade e ajudam a construir a identidade de um povo
que tem no corpo a sua marca e sobre o qual se desenham suas
fronteiras.
Os
nove artigos organizados pela antropóloga Mirian Goldenberg e
reunidos no livro “Nu & Vestido: dez antropólogos revelam a
cultura do corpo carioca” percorrem estas paisagens feitas de
corpos e significados.
Já
na Apresentação, Mirian Goldenberg sugere, para o que ela chama de
“mercado do corpo”, o seguinte slogan: “Não existem indivíduos
gordos e feios, apenas indivíduos preguiçosos”. O seu trabalho e
dos demais antropólogos se propõe a compreender a “cultura do
corpo” e a relacioná-la com a construção de identidades, com o
espaço urbano e com as relações sociais que se estabelecem entre
gêneros e camadas sociais, usando o Rio de Janeiro como um rico
campo de observação e análise. Os autores tratam o corpo carioca
como “fato social”. Construído culturalmente, ele se afasta da
natureza e ganha o espaço urbano como “roupa, máscara, veículo
de comunicação carregado de signos que posicionam os indivíduos
na sociedade”. (p.10)
Inspirada
em Claude Lévi-Strauss, autor de “O cru e o cozido”, Mirian
Goldenberg deu o título “Nu & Vestido” a esta coletânea,
buscando antecipar aquilo que os artigos desenvolvem tão bem
depois: que o corpo “natural” é, na verdade, “naturalmente
construído”. Daí o culto à “boa forma” e o “trabalho”
que é feito sobre o corpo “natural” para torná-lo eternamente
jovem e socialmente aceito.
No
primeiro artigo, “A civilização das formas: o corpo como
valor”, Mirian Goldenberg e Marcelo Silva Ramos refletem sobre o
uso do corpo como expressão de identidades, levando à sua
“apropriação” por parte do próprio indivíduo, que se submete
a cirurgias plásticas, sessões de musculação, tatuagens, piercings,
modificações (body modification) e até mesmo ferro quente
(branding). Para os autores, estas práticas respondem à
crescente necessidade que se impõe na sociedade no sentido de
garantir a cada indivíduo um significado próprio, que se revela
através de seu corpo.
Fazendo
um paralelo com Norbert Elias, os autores identificam um “processo
civilizador” no “desnudamento” do corpo carioca, que deve
estar em conformidade com as regras da “moral da boa forma”.
Assim como os “trajes de banho” estudados por Elias
determinaram, paradoxalmente, a liberdade e um maior controle social
sobre os corpos semi-desnudados, além de um auto-controle de homens
e mulheres, também o corpo nu deve ser livre de “gordura,
flacidez e moleza” para ser “decente”. “Indecente”, de
acordo com Mirian Goldenberg e Marcelo Farias, seria o corpo “fora
de forma”.
A
“cultura da malhação”, a cirurgia plástica, o consumo de cosméticos
e “de estilos de vida” são, segundo os autores, respostas dos
indivíduos às forças sociais, entre elas a mídia e a
publicidade, que transformam a “gordura” em “doença”, o
“ser gordo” em “desleixo”, o “fora de forma” em “indecência”.
O
artigo revela também como, a partir de uma pesquisa realizada pelos
dois antropólogos junto a 1279 homens e mulheres, as “camadas médias
urbanas” contribuem para a construção das representações sobre
a categoria “corpo”: não mais “natural”, mas “coberto de
signos distintivos”. Aquele que individualiza e, ao mesmo tempo,
coletiviza. O “corpo” é “insígnia”, “griffe” e “prêmio”.
O “corpo” é, portanto, valor.
Em
“Carioquice ou carioquidade? Ensaio etnográfico das imagens
identitárias cariocas”, Fabiano Gontijo realiza uma leitura
antropológica interessante sobre o Rio de Janeiro, defendendo um
“jeito de ser carioca” que particulariza aspectos da vida social
tidos como “nacionais”.
Utilizando
o conceito “imagens identitárias” para descrever a diversidade
da aparência corporal tipicamente carioca – diferente de
“identidades”, já que ligado a um processo de construção
cultural “situacional”, “contextual” e “relacional”, o
autor percorre a cidade analisando a ocupação do espaço
territorial, o hábito de freqüentar a praia e a corporeidade, os
modos de vida alternativos, inclusive das comunidades GLS, a prática
de esportes, a busca pela saúde física e mental, o circuito
musical, o “ciclo festivo do verão” e o carnaval no Rio de
Janeiro.
Particularmente
interessante é a forma como o autor explica a oposição cultural
entre a Zona Norte e a Zona Sul, baseando-se historicamente na ocupação
destes lugares por populações emigrantes. Segundo Gontijo, a divisão
territorial define a diversidade cultural e social que existe entre
os habitantes não só da Zona Norte e da Zona Sul, mas também do
subúrbio da Baixada Fluminense, do Centro e da “miamizada”
Barra da Tijuca, símbolo de ascensão social. Com a chegada de
emigrantes estrangeiros e brasileiros primeiro na Zona Norte,
formando uma comunidade trabalhadora e operária, criou-se um espaço
de oposição para a elite na Zona Sul, que introduziu uma forma
diferente de viver a cidade, adotando hábitos praianos. A partir daí,
surge a valorização de uma “morenidade” carioca e o “ciclo
festivo do verão”, que inclui as festas de fim de ano, as
religiosas e o carnaval.
A
partir do crescimento de uma cultura gay no Rio de Janeiro, o autor
mostra como a sua diversidade contribui para a valorização do
culto ao corpo, de uma vida noturna variada e bastante particular, e
de que forma as “imagens identitárias” se relacionam, criando
relações sociais que se estabelecem por fronteiras geográficas
dentro da cidade.
Gontijo
toma por “carioquidade” a maneira como os cariocas materializam,
experimentam e tornam prática social o seu cotidiano e as relações
sociais. Daí a “identidade carioca global”, ou
“carioquidade”, ser diferente de uma “identidade nacional
brasileira” comumente atribuída ao modo de vida carioca,
especialmente a partir de uma imagem típica ligada ao verão e ao
carnaval.
O
olhar francês de Stéphane Malysse e um certo etnocentrismo
propositadamente integrado ao seu ponto de vista dão o tom do
artigo “Em busca dos (H)alteres-ego: Olhares franceses nos
bastidores da corpolatria carioca”.
O
autor, além de oferecer uma enriquecedora análise sobre a
corpolatria no Rio de Janeiro, contribui metodologicamente para a
antropologia visual com este trabalho. Sem receio de lançar mão de
seu “contra-olhar” francês para compreender as funções das
imagens corporais na cultura carioca, Malysse dedica sete páginas
do artigo para relatar os “encontros metodológicos” que, como
antropólogo, travou com as “culturas visíveis brasileiras”
ligadas ao corpo. Propondo uma “antropologia visual do corpo”, o
autor procurou “estudar a maneira como os adeptos da corpolatria
gerenciam seus corpos e os exibem como sinal”, a partir de
entrevistas e material audiovisual coletado nos “cenários
sociais” e nas próprias casas dos colaboradores, como gosta de
chamar.
Para
Malysse, o corpo (h)altere-ego é uma “obra-de-arte”, um
“parceiro” que reside em um espaço social que fica entre aquilo
que podemos e aquilo que devemos fazer com o nosso corpo. O estereótipo
corporal, ou “personalidade corporal modal”, seria o resultado
da incorporação física e psíquica individual de um modelo de
corpo determinado socialmente e influenciado por uma cultura carioca
e por valores modais da aparência física. Assim é que Malysse
desenvolve seu artigo falando do estereótipo ideal da aparência física
e suas consequências principalmente junto às classes médias da
sociedade brasileira, analisando, entre outros, espaços públicos,
academias de musculação, mídia, “profissionais do corpo” (personal
trainers) e moda. Em seu artigo, questões como distinção
social, relações de gênero e usos sociais do corpo são
privilegiadas. Uma das importantes conclusões do autor é a de que
“as representações da aparência nas cenas sociais mostram que a
semiótica da aparência muscular se tornou hoje, no Brasil, quase
mais significativa, tanto econômica quanto socialmente, do que as
da cor e as de gênero”. De acordo com Malysse, a “malhação”
é um “fato social total”.
O
artigo de César Sabino, “Anabolizantes: Drogas de Apolo”, trata
do uso de anabolizantes em academias de musculação e ginástica da
Zona Norte do Rio de Janeiro, junto a homens e mulheres de classe média
e média baixa. Através de sua observação participante, o autor
desvela o universo das academias, relacionando a visão de mundo dos
praticantes de exercícios físicos com o uso das “novas
drogas”, contribuindo para a compreensão de uma sociedade que
valoriza uma estética masculinizante, virilizante e
individualizante. A “andolatria”, expressão proposta por
Sabino, seria a adoração por princípios morais e éticos
presentes na “masculinidade hegemônica”.
Em
seu trabalho, o autor relata a busca intermitente da ciência por
substâncias que otimizem a forma do corpo, modificando a morfologia
individual, sempre valorizando uma imagem impositiva de
masculinidade e juventude. A “Indústria da Saúde” é
legitimada pelos “discursos especializados” presentes nos meios
de comunicação, o que leva, segundo Sabino, indivíduos comuns a
investirem no consumo de “dietas, exercícios, anabolizantes, clínicas
estéticas e academias”. Para o autor, o “hedonismo
racionalista” é produto de um “controle disciplinar sem par na
história”, levando a um tipo de “ascetismo” associado “à
diversão e ao consumo”.
Ao
contrário dos usuários de “tóxicos tradicionais”, como
maconha, cocaína, entre outros, os adeptos dos anabolizantes
resguardam-se numa imagem construída, onde o autodomínio, a
disciplina e a racionalidade associam-se com as “representações
de saúde” – um corpo forte e magro. Sabino chama, então, de
“dionisíaca” a conduta dos usuários de drogas e de “apolínea”
a dos usuários de anabolizantes, concluindo que essas “novas
drogas” vêm se “enquadrando” dentro dos “mesmos parâmetros”
presentes no consumo e tráfico de entorpecentes, embora “o
processo de utilização de tais drogas se realize em contextos e
visões de mundo diferentes daqueles comumente associados aos usuários
tradiconais de tóxicos”. Ao invés de subverter, seus usuários
buscam se integrar à “cultura dominante” e aos seus padrões
estéticos.
O
americano Alexandre Edmonds, como diz o dito popular, “mirou no
que viu e acertou o que não viu”. No Brasil para pesquisar a
cultura afro-brasileira e a construção da identidade nacional, o
antropólogo se deparou com o carnaval carioca e a tão festejada
mania da cirurgia plástica. O resultado é o estimulante artigo
“No universo da beleza: Notas de campo sobre cirurgia plástica no
Rio de Janeiro”.
Durante
um ano, Edmonds entrevistou pacientes e médicos, procurando
compreender o significado da beleza na sociedade brasileira, mais
especificamente a partir das cirurgias plásticas com fins estéticos.
Entre diversas constatações, a de que a beleza, no Brasil, não
passa pela ótica da política merece destaque. Segundo o autor,
desde o início do século XX, antes mesmo da Segunda Guerra
Mundial, a rinoplastia (cirurgia plástica no nariz) já suscitava
discussões na sociedade americana sobre o caráter racista que se
escondia por trás de uma intenção estética. O “nariz de
judeu”, assumido corajosamente nos anos 60 e 70 por Barbra
Streisand, e o “nariz negróide”, renegado por Michael Jackson,
seriam os principais pivôs desta polêmica. No Brasil, ao contrário,
tal tipo de cirurgia plástica não carrega nenhuma conotação
racista. Enquanto nos Estados Unidos, de acordo com o autor, a
beleza é “politizada”, no Brasil ela é “nacionalizada” –
daí implantes de silicone nas nádegas, por exemplo, exagerando o
que o senso comum entende por “preferência nacional”.
Outras
questões também contribuíram para o trabalho de Edmonds, como a
democratização da beleza, a crescente igualdade na competição
feminina entre gerações diferentes no mercado afetivo-sexual e a
mobilidade social associada à construção de uma identidade
baseada no corpo, processos deflagrados, entre outras coisas, pela
cirurgia plástica no Brasil.
“Morenos”,
“gringos”, “brancos”, “branquelos” e “farofeiros”,
entre outros tipos ideais das praias cariocas, são objeto do
trabalho etnográfico de Patrícia Farias, relatado em “Corpo e
classificações de cor numa praia carioca”.
Realizando
seu trabalho de campo nas areias cariocas que vão do Posto 9, ponto
nobre da Zona Sul, até a menos prestigiada Praia Grande, na Zona
Oeste, a antropóloga desenha um mapa e suas fronteiras simbólicas
e sociais que se estabelecem no litoral do Rio, observando as
representações e classificações da cor da pele de quem se expõe
ao sol para “pegar um bronzeado”. A partir de depoimentos de
frequentadores menos usuais e de habitués, que para a autora
servem de modelo para uma determinada prática social e técnica
corporal emblemáticas do carioca de praia, o artigo revela-se uma
grande contribuição para o entendimento das noções de
“morenidade” no Brasil.
Recorrendo
a cientistas sociais, como Bourdieu, Freyre, DaMatta, entre outros,
Patrícia fala ainda de distinção, miscigenação e corpo.
A
Revista Raça Brasil, dirigida a um público identificado como de
classe média negra, é o foco do antropólogo Peter Fry para
discutir a interação entre mídia e as representações sociais na
construção de uma identidade racial brasileira. O artigo “Estética
e política: Relações entre ´raça´, publicidade e produção de
beleza no Brasil” aponta para a contribuição dos publicitários,
principalmente, no sentido de acabar com associações entre uma
“estética negra” e “defeitos morais”, modificando as
representações sociais “racistas” através de anúncios e
produtos como a revista “Raça Brasil”, que se valem de um
modelo de beleza negro em conformidade com uma “ideologia
liberal-assimilacionista”.
O
corpo feminino e seu uso na bruxaria moderna é o tema desenvolvido
por Andréa Osório no trabalho “O corpo da bruxa”. Analisando o
discurso de um grupo de bruxas e bruxos, além de material coletado
em bibliografia especializada e na Internet, a antropóloga revela o
caráter reformulador da prática da bruxaria, modernamente chamada
de wicca, que inverte os valores tradicionais associados ao
feminino e ao masculino como representações sociais. O corpo da
bruxa, segundo a autora, é dotado de um potencial mágico,
exclusivamente feminino, inerente à capacidade transformadora do útero,
que legitima positivamente sua dominação em relação aos homens,
dentro do grupo estudado. Para Osório, as bruxas modernas vêm
reafirmar o lugar da mulher na sociedade pós-feminista, mostrando
que há algo mais do que o papel da reprodução e da maternidade em
suas vidas sociais.
Encerrando
a coletânea, José Luiz Dutra fala de masculinidade e moda no
esclarecedor “Onde você comprou esta roupa tem para homem? A
construção de masculinidades nos mercados alternativos de moda”.
Tomando de empréstimo a pergunta jocosa anteriormente explorada por
Roberto DaMatta, Dutra levanta importantes questões relativas à
construção da masculinidade em nossa sociedade. Observando os
chamados “mercados alternativos” da moda, como o Mercado Mundo
Mix e a Babilônia Feira Hype, o autor entrevistou freqüentadores e
estilistas ligados a estes dois eventos, interpretando em seus
discursos a relação dos homens com a moda. Uma de suas conclusões
é que, mesmo dentro de critérios “alternativos” e mais ousados
presentes no discurso dos entrevistados mais “modernos”, pode-se
encontrar um aspecto regulador no sentido de controlar o que é próprio
para homens e o que é “exagerado” ou mesmo “efeminado”. O
estigma da homossexualidade a partir do vestuário também surge de
forma central no artigo de Dutra, revelando que este controle social
se exerce mais entre os heterossexuais, que “ousam” menos do que
os homossexuais e bissexuais.